Os Números do Amor
Capítulo 6
Destruir. Derrotar. Despistar...
Michael examinou a silhueta vestida de negro de seu parceiro de treino em busca de fraquezas que pudesse explorar. Aquele instante, no calor do enfrentamento, era o único em que liberava os instintos mais básicos e egoístas que passava os dias combatendo. E era bom pra caralho.
Por mais que se esforçasse para negar, no fundo, era igual a seu pai. Tinha herdado sua maldade.
Ele avançou e partiu para um golpe na cabeça. Quando a espada de seu parceiro de treino subiu para bloquear o golpe, Michael buscou um impulso extra para arquear a arma para baixo. A ponta da espada acertou a lateral do corpo do oponente.
Contato claro. Fim do confronto.
Eles se cumprimentaram com uma reverência e largaram as espadas no chão azul acolchoado antes de se ajoelhar. Michael detestava aquela parte do treino, não porque significa que tinha chegado ao fim, mas porque era hora de tirar a armadura e voltar à vida normal.
Naquilo residia a beleza do equipamento. Era capaz de transformar uma pessoa em alguém completamente diferente. De camiseta ele era uma coisa. Com uma armadura preta e o rosto escondido atrás de uma grade de metal ameaçadora, outra. Em seu conjunto, os apetrechos pesavam uns quinze quilos, mas ele sempre se sentia mais leve quando os usava.
Ao remover as camadas de proteção, o ar frio tocou sua pele e a realidade retornou com tudo. Pensamentos pesados se empilhavam como tijolos, transportando-o ao seu estado habitual, de alguém que carrega um fardo. Responsabilidades e obrigações. Contas. Famílias. Um emprego diurno. Outro noturno.
Depois que a aula foi oficialmente encerrada, Michael guardou seu equipamento na prateleira da parede dos fundos. O vestiário era dos mais apertados, com um monte de caras aglomerados, então ele foi se trocar no corredor. Não mostraria nada que metade das mulheres da Califórnia já não tivesse visto.
Duas estudantes deram risadinhas e entraram correndo no vestiário feminino. Ele revirou os olhos enquanto vestia a calça jeans por cima da cueca. Michael Larsen: prestando serviços a metade das mulheres da Califórnia e agora a mais duas garotas.
“Isso deve nos render meia dúzia de alunas novas na semana que vem”, disse Quan, seu primo e parceiro de treino.
“Vou deixar para você a tarefa de ensinar os movimentos de ataque para elas”, Michael falou enquanto pegava uma camiseta amarrotada do avesso na mochila e a desvirava.
“Elas vão se decepcionar.”
“Sei…” Ele vestiu a camiseta, tentando em vão ignorar o reflexo contrastante dos dois no espelho da parede.
Um monte de garotas preferia Quan. Com sua cabeça raspada e tatuagens cobrindo os braços e o pescoço, parecia um traficante asiático barra-pesada. Olhando para ele, ninguém adivinharia que trabalhava no restaurante da família para pagar a faculdade de administração. Michael, por outro lado, era a imagem do bom moço.
O que não era nenhum problema — afinal, pagava suas contas —, mas com o tempo a reação das pessoas tinha se tornado maçante. Bom, a não ser pela reação de certa economista. A atração que Stella sentia por ele era óbvia, mas ela não o olhava como um pedaço de carne com uma etiqueta de preço. Stella o encarava como se não existisse mais ninguém. Era impossível esquecer a maneira como o beijara depois que ele conquistara sua confiança, a maneira como se derretera toda e…
Quando Michael se deu conta do rumo que seus pensamentos tomavam, forçou-se a cair na real. Ela era uma cliente, e tinha lá seus problemas. Não era certo pensar em trabalho naqueles termos.
“Se aparecerem alunas novas, pode deixar que me encarrego de ensinar tudinho. Não ligo”, ofereceu Khai, irmão mais novo de Quan. Ele ainda estava de uniforme, praticando ataques em projeção diante do espelho num ritmo acelerado e constante, como uma máquina.
Quan revirou os olhos. “Ele nunca liga. Nem quando se jogam em cima dele. Você precisava ver a última. Chamou o cara para jantar e ele respondeu: ‘Não, obrigado, já comi’. ‘Uma sobremesa então?’ ‘Não como açúcar depois da aula.’ ‘Um café?’ ‘Me tira o sono, preciso trabalhar amanhã cedo.’”
Michael não conseguiu segurar o riso. Khai lembrava um pouco Stella.
Quan jogou suas armas com força numa caixa e falou: “Bom treino. Está tendo um dia ruim?”.
Michael deu de ombros. “Nada fora do comum.” Ele deveria se sentir grato. E se sentia. Tudo ficaria bem se deixasse de querer de volta tudo o que havia ficado para trás. Não se arrependia de ter perdido sua antiga vida; faria aquilo de novo, caso fosse necessário, mas o desejo não ia embora. Na verdade, estava piorando. Porque ele era um maldito egoísta. Como o pai.
“Como está sua mãe?”
Ele passou a mão pelos cabelos. “Bem, acho. Disse que está gostando dos remédios novos.”
“Que bom, cara.” Quan apertou seu ombro. “Você deveria comemorar. Vamos na sexta. Tem um lugar novo em San Francisco chamado 212 Fahrenheit.”
Parecia uma boa ideia, e uma onda de empolgação o percorreu. Fazia um tempão que não saía sem uma cliente.
A lembrança o fez soltar o ar com força. “Não posso. Tenho um compromisso.”
“O quê?” Os olhos de Quan acusavam sua curiosidade. “Ou melhor, com quem? Você nunca está livre nas sextas. Por acaso tem uma namorada secreta que está com medo de apresentar?”
Ele riu por dentro da ideia de levar uma cliente para conhecer sua família. Jamais aconteceria. “Não. E você?”
Quan deu risada. “Você conhece minha mãe. Espantaria qualquer garota.”
Com um sorriso, Michael apanhou a mochila e se encaminhou para a porta da frente da academia, passando por Khai, que continuava praticando seus movimentos, sem diminuir o ritmo. “Veja pelo lado bom. Se alguma garota conhecer sua mãe e não fugir, você vai saber que encontrou alguém para a vida inteira.”
Quan, que vinha atrás dele, respondeu: “Não, isso só vai significar que tenho duas mulheres osso duro de roer na minha vida, em vez de uma”.
Eles se despediram de Khai com um aceno. Como de costume, ele estava concentrado demais para responder.
No estacionamento, Quan montou em sua Ducati preta, vestiu a jaqueta de motoqueiro e segurou o capacete antes de dar uma boa encarada em Michael. “Não ligo se seu lance for homem, tá? Tipo, eu não teria problema nenhum com isso. Só para você saber. Não precisa esconder nada de mim.”
Michael tossiu e ajeitou a alça da mochila no ombro. Uma onda de calor desconfortável subia por seu pescoço e se instalava nas orelhas. “Valeu.”
Era o que acontecia com quem guardava segredos. As pessoas tiravam suas próprias conclusões. Não tinha nenhuma dúvida de que sua família aceitaria aquilo mais facilmente do que a verdade. Ninguém sabia sobre seu trabalho de acompanhante, nem sobre as contas que precisavam ser pagas. E Michael pretendia manter as coisas daquele jeito.
Ele respirou fundo. O ar cheirava a fumaça de escapamento e asfalto. Michael se sentia ao mesmo tempo tocado pela demonstração de tolerância de Quan e simplesmente cansado. “Obrigada, mas não é o caso. Só ando… saindo com… um monte de gente. Mas ninguém que eu possa levar para casa.” De jeito nenhum. “Ninguém especial.”
Ele quis retirar o que disse no mesmo instante. Não achava certo incluir Stella naquela categoria.
“Então me faz o favor de falar isso pra sua mãe e suas irmãs. Elas vivem fofocando a respeito com a minha mãe e a minha irmã, que me enchem de perguntas. Sendo bem sincero, é meio vergonhoso dizer que não sei onde é que você está.” Quan chutou uma pedrinha no chão com uma expressão pensativa. Michael imaginou que estava relembrando os tempos em que sabiam tudo um do outro. As mães deles eram muito unidas — moravam a duas quadras de distância e tiveram filhos no mesmo ano. Como resultado, Michael e Quan eram como irmãos. Ou costumavam ser.
Michael esfregou a nuca. “Sei que tenho sido um primo de merda. Desculpa por isso.”
“Você teve que encarar uma porrada de coisas.” Quan abriu um sorriso compreensivo. “Primeiro com o babaca do seu pai e todos os processos, depois a saúde da sua mãe. Mas agora está tudo melhorando, não? A gente precisa voltar a se aproximar. As noites de sexta são boas para mim porque não preciso trabalhar nem ir pra aula no sábado. Essa sua ‘ninguém especial’ pode fazer companhia à minha. Se estiver a fim, é só falar.” Quan ligou a moto, colocou o capacete e saiu.
Depois que seu primo virou a esquina, Michael abriu a porta do carro e jogou a mochila no assento do passageiro. As coisas estavam, sim, melhorando, mas ele não poderia sair com Quan tão cedo, pelo menos não enquanto transava com uma mulher diferente a cada sexta. Bom, não seria o caso nas próximas três semanas. Elas seriam dedicadas às aulas de sexo de Stella. Ele jamais pensou em fazer o papel oposto na fantasia do aluno e da professora, mas era obrigado a admitir que aquilo o excitava mais do que esperava.
Sabia que estava brincando com fogo, mas mal podia esperar pela chegada da sexta-feira.