Os Números do Amor
Capítulo 12
Jab, jab, cruzado. Jab, jab, cruzado. Cruzado, cruzado, cruzado...
O suor escorria para os olhos de Michael, fazendo-os arder. Ele passou o antebraço no rosto antes de cerrar o punho e atingir de novo o saco de pancadas. Quando algum pensamento se infiltrava em sua mente, batia mais forte. Pensamentos demais, sentimentos demais.
Jab, esquiva, gancho. Jab, cruzado.
Seus braços queimavam. Era uma dor bem-vinda, que incinerava tudo dentro de sua cabeça. Não havia nada além da resistência pesada da areia dentro do saco e do grave impacto que provocava ondas de choque pelos braços e pernas.
Jab, jab, jab, cruzado, cruzado, cruzado. Mais forte. Será que conseguiria derrubar o saco de pancadas preso por correntes? Talvez. Cruzado, cruzado, cruzado, cruzado…
Batidas escandalosas na porta o interromperam no meio de um soco, e ele olhou feio naquela direção. Sua irritação logo se transformou em receio. Poderia ser o senhorio querendo falar sobre o aluguel?
Jogando uma toalha sobre o pescoço, Michael abriu a porta.
“E aí?” Quan passou por ele, colocou um pacote com seis long necks na mesinha de centro e atirou a jaqueta de motoqueiro sobre o sofá. Sem se dar ao trabalho de olhar para Michael, foi até a cozinha e abriu a geladeira. “Tem alguma coisa para comer?”
“Quem trabalha num restaurante é você”, Michael respondeu, voltando aos socos.
O saco de pancadas ainda balançava por causa da sequência de golpes que tinha desferido. Michael o endireitou antes de cravar o punho outra vez no couro gasto. Enquanto atingia o equipamento, ouviu uma série de bipes de micro-ondas.
“Vou comer as sobras que encontrei aqui”, Quan avisou.
Michael o ignorou e continuou batendo.
O micro-ondas apitou. Pouco depois, Quan apareceu com uma tigela fumegante, sentou no sofá e começou a devorar o jantar de Michael. Fazendo bastante barulho.
Quando cansou de aturar aquilo, Michael parou de bater e falou: “A maioria das pessoas come na mesa da cozinha”.
Quan deu de ombros. “Prefiro o sofá.” Ele enfiou uma garfada de macarrão na boca e chupou os fios pendurados. Em seguida lançou um olhar para o primo como quem pergunta “que foi?”.
Michael cerrou os dentes e tentou retomar o ritmo.
“Você anda puxando ferro? Seus braços estão maiores. Parece até que você tem uns pãezinhos escondidos aí, cara.”
Endireitando o saco de pancadas, Michael perguntou: “O que está fazendo aqui?”.
“Você vai se desculpar comigo ou não? Porque está sendo um primo de merda. De verdade.”
Ele fechou os olhos e soltou o ar com força. “Desculpa.”
“Vou ter que pedir para você tentar de novo.”
Ele se afastou do saco de pancadas e se jogou no sofá ao lado do primo. “Desculpa mesmo. As coisas estão complicadas para mim e…” Michael apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu o rosto com as mãos enfaixadas. “Desculpa.”
“Não entendo por que mentiu sobre ter namorada. ‘Ninguém especial’ o cacete. Está com medo de que ela não goste da família ou coisa do tipo?”, Quan perguntou com um risinho de deboche.
Michael teve que se segurar para não arrancar os cabelos. “Não quero falar sobre isso.”
“Porra, Michael.” Quan pôs a tigela na mesinha ao lado das cervejas e pegou a jaqueta. “Tô caindo fora então.” Ele foi até a porta e virou a maçaneta.
“Tive um dia de merda, tá?” Michael começou a tirar as bandagens das mãos. “Tudo bem que só ando tendo dias de merda, mas hoje foi pior. Pensei que a minha mãe tivesse morrido. Eu a encontrei jogada na poltrona, achei que não estava respirando. Fiquei desesperado.”
Quan se virou, com a preocupação estampada no rosto. “Ela está bem? Por que não fiquei sabendo disso? Foi que nem das outras vezes em que você a encontrou no banheiro? Ela foi para o hospital?”
Terminando de remover as ataduras de uma mão, Michael passou para a outra, revivendo o medo, o alívio e a vergonha que sentiu. “Ela está bem. Só estava dormindo. Brigou comigo por causa de toda a comoção que causei.”
A expressão de Quan passou de alívio a divertimento. “Você é um filhinho da mamãe mesmo, sabia?”
“Como se você não fosse.”
“Diz isso pra minha mãe. Quem sabe ela começa a me tratar melhor?”
Michael revirou os olhos, ainda desenrolando as bandagens. “Depois, apareceu alguém procurando meu pai. Querendo entregar uma intimação a ele. Não sei se era a mesma pessoa da outra vez, a Receita Federal ou alguém novo. É sempre engraçado ver a expressão na cara desse pessoal quando digo que sou filho dele. Dá para perceber que me medem dos pés à cabeça e começam a tirar conclusões. Quando digo que não faço ideia de onde ele está, que nem sei se está vivo, preciso encarar a desconfiança ou pena. Minha mãe passou o resto do dia repetindo a ladainha, reafirmando o merda que ele é.”
“Ela só fala sobre isso com você, sabia? Nem com a minha mãe entra no assunto, e as duas são assim.” Quan cruzou os dedos para mostrar como eram próximas. “Precisa deixar sua mãe desabafar.”
“Eu sei.” Michael entendia que falar a respeito fazia bem para a mãe e, na maior parte das vezes, conseguia lidar bem com a situação. Mas estava ficando cada vez mais difícil. Porque ele também era um cuzão egoísta.
Tal pai, tal filho.
Estava tentado a aceitar a proposta de Stella, apesar de lá no fundo saber que devia recusar. Era melhor que ela passasse o tempo com figurões do mercado de tecnologia e ganhadores do prêmio Nobel — pessoas com quem de fato combinasse e que pudessem acompanhar financeiramente seu estilo de vida.
Não era o caso de Michael. Embora estivesse disposto a fazer o que fosse possível para tirar o dinheiro da equação, as contas não paravam de chegar, então ele não podia parar de trabalhar.
“Quer que eu vá embora?”, Quan perguntou da porta.
Michael pegou duas cervejas, abriu a tampa de uma usando a outra e pôs a aberta sobre a mesa. “Fica aí.”
Quan a apanhou e sentou ao lado do primo no sofá. Depois de um longo gole, trocou a cerveja pelo macarrão e recomeçou de onde havia parado, fazendo menos barulho.
Michael abriu sua cerveja na beirada da mesa, ligou a TV e bebeu enquanto trocava distraidamente de canal.
“Então, sobre a sua garota…”, Quan começou. “Há quanto tempo vocês estão juntos?”
Michael deu outro longo gole na cerveja. Ia precisar de um incentivo alcoólico para levar aquela conversa adiante. “Stella não é bem ‘minha garota’. E faz só algumas semanas.”
“Que seja, cara, você tem as manhas. Se quiser que uma garota seja sua, ela vai ser.”
Michael soltou um risinho de deboche e bebeu mais um pouco. “Não quero uma garota que goste de mim só porque sou bom de cama.”
Ele queria uma garota que gostasse dele por quem era.
“Que puta papo furado.” Quan trocou a tigela vazia pela cerveja e deu um gole. “Ela quase chorou quando aquela loira se jogou em cima de você. Está totalmente na sua.”
O coração de Michael ameaçou dar saltos mortais dentro do peito quando ele ouviu aquelas palavras do primo. Teve que se repreender mentalmente enquanto se forçava a encarar a garrafa. Quan devia estar exagerando. Era melhor não tirar conclusões precipitadas. “Legal.”
“Legal?” Quan arqueou uma sobrancelha. “Você não está mais no colégio, cara. Deveria ficar superfeliz, me agradecer por ter falado, já que não consegue sacar porra nenhuma. Precisa de conselhos na cama também? Conheço umas paradas boas.”
Michael teve que gargalhar. “Não, estou tranquilo. Valeu. Mas se você precisar de umas dicas…”
Quan começou a cutucar o rótulo da cerveja, como se tivesse alguma coisa a dizer, mas não soubesse como. Com um olhar bem sério, por fim perguntou: “Você reparou que ela é meio parecida com o Khai?”.
Michael abriu um leve sorriso. “Um pouco, acho.” Stella não tinha muito traquejo social, mas era bem mais expressiva e sensível que Khai. “Por quê?”
Quan levantou as sobrancelhas e continuou bebendo a cerveja. “Por nada.” Depois de um tempo, ele apontou a garrafa para Michael. “Então vocês dois já…? Você sabe.”
Michael deu um longo gole na cerveja. “Não.”
“Sério?” Quan fez uma careta. “Ela é virgem? Porra, é do tipo que quer se preservar para o casamento? Sai dessa logo.”
Michael encolheu os ombros. “Ela precisa que eu vá mais devagar. Não ligo. Estou até gostando.” A cada nova reação de Stella ele se sentia melhor, como se a estivesse conquistando. Talvez porque naquele aspecto as coisas sempre tivessem sido fáceis demais para ele.
“Mentiroso do caralho. Deve estar tocando punheta umas dez vezes por dia.”
“Eu não disse que não estava.”
Quan passou para a ponta do sofá num pulo. “Ah, caralho. Aqui no sofá?”
“Quer mesmo saber?”, Michael perguntou com um sorrisinho.
“Você é doente, sabia?” Quan levantou e foi sentar na mesa de centro, se esfregando como se tivesse sido contaminado.
Michael caiu na risada, depois os dois passaram um bom tempo em silêncio, se ocupando só das cervejas.
Quando não conseguiu mais se segurar, Michael perguntou: “O que você achou da Stella? Gostou dela?”. Ele se preparou psicologicamente para a resposta, percebendo que se importava de verdade com a opinião do primo.
Que idiotice era aquela? Mesmo se aceitasse a proposta, seria só o namorado de mentira dela. A simulação de relacionamento terminaria assim que Stella ganhasse confiança para se envolver de verdade com alguém melhor.
“Ah, sim, ela é bonita, e bem mais meiga que as garotas com quem você costuma se envolver. Sua mãe vai pirar nela.”
Michael pôs a cerveja sobre a mesa. Era pouco provável. As duas teriam que se conhecer primeiro, o que não ia acontecer.
“Qual é o sobrenome dela?”, Quan perguntou, sacando o celular.
“Por quê?”
“Quero ver se tem perfil no LinkedIn. Faço isso com todos os caras com que minha irmã sai. Você não fica curioso?”
Sim, ele estava curioso. “Lane. Stella Lane.”
Um zumbido persistente despertou Stella de mais um sonho quente com Michael. Durante toda a semana, não conseguira parar de pensar nele.
No trabalho, tentava se concentrar nos dados, mas as palavras e os números se transformavam em partes corporais que se harmonizavam de formas fascinantes. Ela fantasiava com as mãos, a boca, o sorriso, os olhos, as palavras, a risada — enfim, com a presença dele.
Quando dormia, era atormentada pelos sonhos, tão intensos que o desejo a acordava no meio da madrugada.
A sexta-feira anterior a levara além dos limites. Quanto àquilo não havia dúvidas.
Stella estava oficialmente obcecada por Michael.
E eles poderiam nunca mais se ver. A sexta-feira havia chegado, e ele ainda não tinha entrado em contato nem por mensagem nem por telefone. Seria uma daquelas situações em que o não era irreversível? Seu coração estava apertado e seu corpo pesava de tristeza.
O zumbido infernal continuava, distraindo-a. Ela tateou no criado-mudo até encontrar o celular. Estreitou os olhos para ler o nome na tela e viu que era a faxineira.
Stella deu uma tossida antes de atender, como que para tirar o sonho erótico da garganta. “Alô?”
“Srta. Lane, não vou conseguir ir hoje. Minha filha ficou doente e tenho que ficar com ela.”
“Ah, tudo bem. Obrigada por avisar. Espero que ela melhore logo.”
“Posso compensar na semana que vem?”
“Claro, sem problemas.” Stella olhou para o relógio, e seu coração quase saiu pela boca. Eram quase oito horas. Àquele horário ela costumava já estar a postos em sua mesa.
Estava quase desligando quando ouviu a faxineira dizer: “Talvez você deva levar as roupas na lavanderia, já que não vou hoje”.
“É verdade. Obrigada por me lembrar.”
“Imagina. Tchau.”
Stella chegou a pensar em desistir da ida à lavanderia. Além de não saber onde havia uma, não gostava da ideia de incluir uma tarefa extra na rotina matinal. Era… irritante, e mais um motivo de ansiedade. Um lugar novo. Com pessoas novas. Depois do desastre da casa noturna, sua tolerância a novidades batera um recorde negativo.
No fim, foi o pensamento de que não teria o número certo de saias e camisas penduradas no armário que a levou a procurar na internet lavanderias próximas à sua casa. Ela escolheu o estabelecimento com a melhor avaliação, apesar de ficar meio fora de mão.
Sem tempo a perder, porque o chefe provavelmente chamaria a polícia se não a encontrasse no escritório assim que chegasse, Stella foi por El Camino Real, saindo de Palo Alto e entrando em Mountain View. Depois de mais ou menos quinze minutos, estava no estacionamento de uma pequena galeria comercial com uma fachada de madeira bem conservada e carvalhos alinhados junto à calçada. Letreiros à moda antiga assinalavam a presença de um café, uma academia de artes marciais, uma lanchonete e o local que procurava: a Lavanderia e Alfaiataria Paris.
Ela pôs a bolsa e a sacola com as roupas no ombro e atravessou o estacionamento asfaltado. Uma senhorinha corcunda e miúda, com bochechas de esquilo e lábios retraídos, estava parada diante da porta. Uma echarpe estampada cobria sua cabeça, amarrada sob o queixo. Devia ser o adulto mais fofo que Stella já tinha visto na vida.
Ela segurava uma tesoura de poda nas mãos enrugadas, que brandia em vão na direção do carvalho em frente à lavanderia.
Stella deteve o passo, surpresa e encantada com o que via. A velhinha sacudiu a tesoura com movimentos perigosos, quase abrindo um corte na própria perna. Então estendeu o cabo da ferramenta, apontou para Stella e depois para a árvore.
Stella olhou para trás, mas, como imaginava, a senhorinha estava mesmo se referindo a ela. “Acho melhor eu não…”
A velhinha apontou para um galho baixo na árvore. “Corta.”
Stella percorreu o estacionamento com os olhos, mas não havia ninguém por perto. Então subiu na calçada e pegou a tesoura gigante e pesadíssima da mão da mulher. Aquilo era um acidente anunciado. “É melhor chamar uma empresa de jardinagem. Sem dúvida vão ter alguém para…”
A velhinha sacudiu a cabeça. Mais uma vez, apontou para Stella e para a árvore. “Corta.”
“Está falando disso?” Ela apontou com a ponta da tesoura para o galho baixo.
“Hummm.” A mulher fez que sim com a cabeça com todo o vigor. Seus olhos escuros reluziam no rosto enrugado.
Stella não tinha escolha. Tinha medo de que, se não fizesse aquilo, a velhinha tentaria de novo e talvez se ferisse seriamente no processo. Não sabia nem como ela conseguia segurar aquela tesoura sem deslocar todas as vértebras da coluna.
Com movimentos desajeitados sobre os saltos altos — já tendo a bolsa e a sacola no ombro, além da tesoura pesada —, Stella se posicionou sobre a grama na base da árvore para poder se aproximar do galho.
“Não, não, não, não, não.”
Ela ficou paralisada com uma perna no ar e o coração pulando no peito como um acrobata de circo.
A velhinha apontou para o gramado que, visto mais de perto, parecia… um canteiro de hortaliças.
Com todo o cuidado, Stella posicionou o pé na terra entre as plantas.
“Hummm”, a velhinha murmurou antes de apontar de novo para o galho. “Corta.”
Com uma força milagrosa e sobre-humana gerada pela adrenalina, Stella ergueu a tesoura sobre a cabeça, posicionou-a em torno do galho estreito e o cortou com um estalo. O galho despencou sobre a calçada como um passarinho caído do ninho. A velhinha levou a mão ao joelho, pronta para se agachar e recolhê-lo, mas Stella se afastou às pressas da árvore e fez isso por ela.
A mulher sorriu ao pegar o galho na mão, então deu um tapinha no ombro de Stella. Em seguida viu a sacola de roupas dela, deu uma espiada lá dentro e pôs a mão na alça, puxando-a para a lavanderia. Abriu a porta de vidro com uma força surpreendente. Depois que entraram, ela pegou a tesoura da mão de Stella, escondeu atrás das costas como se aquilo fosse impedir alguém de vê-la e desapareceu por uma porta atrás do balcão vazio.
Stella olhou ao redor, notando a presença de dois manequins sem cabeça na vitrine, vestindo um smoking preto bem cortado e um vestido de noiva de renda com caimento perfeito. As paredes eram de um tom de azul tranquilizador, e havia cortinas brancas esvoaçantes e bastante luz natural.
Uma prova de roupa acontecia numa sala adjacente. Uma matrona de aspecto respeitável vestia um macacão branco sem mangas sobre uma plataforma elevada entre três espelhos.
Stella ficou imóvel, totalmente perplexa.
Ajoelhado aos pés da mulher estava Michael.
Ele usava uma calça jeans larga e uma camiseta branca justa nos bíceps. Parecia lindo, totalmente à vontade. Havia uma fita métrica em seu pescoço, caindo sobre o peito, e uma almofada repleta de alfinetes afiados em seu pulso. Ele tinha até um lápis azul atrás da orelha direita.
“Que tipo de sapato você pretende usar com essa roupa?”, ele perguntou à mulher.
“Estes mesmos, na verdade.” A mulher puxou a barra da calça para revelar sapatos de salto alto convencionais.
“É melhor usar um aberto nos dedos, Margie. E uns três centímetros mais alto.”
A mulher comprimiu os lábios, olhou para o pé e inclinou a cabeça para um lado e depois para o outro. Depois de um momento, assentiu. “É verdade. Tenho o sapato perfeito em casa.”
“Vou subir um pouco a bainha então. Como está na cintura?”
“Confortável até demais.”
“Imaginei que você fosse comer quando usasse a roupa.”
“Você pensa em tudo, não é mesmo?” Ela se virou para ver no espelho a cintura ajustada com alfinetes de perfil.
Michael revirou os olhos, mas sorriu. “Não se esqueça do batom.”
“Como poderia esquecer? Bem vermelho. Vai ficar pronto até sexta que vem?”
“Vai.”
“Ótimo.”
Ela se retirou para um provador ainda com o macacão, e Michael apanhou uma peça de estampa florida no encosto de uma cadeira. Ele ajustou os alfinetes e tirou o lápis da orelha para marcar o tecido, com os olhos focados e as mãos se movendo com competência.
Na cabeça de Stella, as peças dispersas finalmente se encaixaram. Aquele era Michael em seu estado natural. Aquilo era o que ele fazia quando não estava trabalhando como acompanhante. Ele era um alfaiate.
Michael sacudiu o tecido e o pendurou no braço antes de ir buscar mais uma peça marcada com alfinetes.
Quando notou a presença dela de canto de olho, falou: “Atendo você num segun…”. Os olhos dos dois se encontraram, e ele ficou boquiaberto.
Michael congelou.
Stella congelou.
“Como foi que você…?” Ele olhou pela vitrine como se pudesse encontrar a resposta do lado de fora do estabelecimento.
Seu coração disparou. Aquilo não parecia nada bom, e sim um caso de obsessão absoluta. Mas não era justo. Stella só concluíra que estava obcecada por ele naquela manhã. Não tivera nem tempo de rastreá-lo e persegui-lo. Sua chance mínima de um acordo em tempo integral tinha sido jogada pela janela.
Ela deu um passo para trás. “Eu já vou indo.”
Michael transpôs o recinto em passos acelerados e a pegou pela mão antes que saísse. “Stella…”
O braço dela foi percorrido por uma onda de eletricidade em reação ao toque. Stella sentiu vontade de chorar. “Trouxe minhas roupas para lavar. Nem sabia que você trabalhava aqui. N-não estou perseguindo você. Sei que não é o que parece.”
A expressão dele se atenuou. “Na verdade, parece que você trouxe roupas para lavar.” Ele pegou a sacola do ombro dela. “Já te atendo.”
Michael colocou suas coisas sobre o balcão e começou a contar as camisas com a eficiência de um profissional. Suas bochechas, no entanto, tinham um rubor incomum.
“Isso é constrangedor para você?”, Stella perguntou, detestando deixá-lo sem jeito.
“Um pouco. Acredite ou não, é a primeira vez que uma cliente vem aqui. Sete camisas. Devem ser sete saias também, então.” Ele as contou e deu uma boa olhada em Stella. “Você trabalha todos os dias da semana?”
Ela assentiu com um movimento exagerado. “Prefiro o escritório nos fins de semana.”
Ele inclinou um pouco o canto da boca. “Entendo.” Não havia nenhum julgamento em seu tom de voz, nenhuma crítica, nada que insinuasse que se tratava de algo prejudicial à saúde ou à vida social dela. Michael não achava que havia algo de errado com Stella. Ela teve vontade de pular o balcão e se jogar nos braços dele.
Só então Michael percebeu que havia algo mais na sacola. Quando a virou, o vestido azul caiu.
Os olhos dele se ergueram e se acenderam ao encontrar os dela.
Stella se agarrou ao balcão quando as lembranças do sorvete compartilhado vieram à sua mente. Lábios gelados e sedosos, menta com chocolate, o gosto da boca dele. Beijos sem pressa num lugar lotado.
“Alguma instrução especial?”, ele perguntou, meio rouco.
Piscando várias vezes para afastar as lembranças, Stella forçou sua mente a se concentrar no presente. “Não precisa engomar. Não gosto de sentir o tecido duro na…”
“Sua pele”, ele completou, passando o polegar sobre o dorso da mão dela.
Stella confirmou com a cabeça e tentou pensar em algo para dizer. Seu olhar acabou pousando no vestido azul. “Comprei essa roupa porque gostei da cor e do tecido.” A peça sedosa e bem estruturada tinha sido um belo complemento para o terno de Michael… “O terno”, ela murmurou. “Foi você que fez?”
Ele baixou os olhos e abriu um sorriso de menino envergonhado. “Foi.”
Ela ficou boquiaberta. Se ele consegue fazer isso, por que trabalha como acompanhante?
“Meu avô era alfaiate. Pelo jeito, está no meu sangue. Gosto de fazer roupas.”
“Você faria uma para mim?”
“Você teria que ficar um tempão de pé. Não é nada legal. Tem certeza de que ia querer?” O tom de voz dele era cheio de convicção, mas não a expressão em seus olhos. Stella demorou um tempinho para perceber que aquilo o fazia se sentir vulnerável.
Seria possível que Michael duvidasse que alguém pudesse se interessar por ele não só por causa do corpo que tinha?
“Tenho roupas feitas sob medida, lembra? Sei como é. E acho que vale a pena. Você tem talento. Quero usar seus modelos.”
“É verdade. Tinha esquecido.” O sorriso de menino apareceu de novo, quase tímido. Ela sentiu vontade de abraçá-lo e não soltar nunca mais.
“Fiquei esperando notícias suas”, ela murmurou.
O sorriso desapareceu do rosto de Michael, e sua expressão ficou séria. “Eu precisava pensar.”
“Vai aceitar minha proposta?” Por favor, diz que sim.
“Ainda está de pé?”
“Claro.” Ela não conseguia pensar em uma única razão para mudar de ideia.
“Nada de sexo?”
Ela respirou fundo e assentiu. “Isso mesmo.”
Ele se inclinou para a frente e perguntou baixinho: “Porque você quer ter certeza de que o próximo homem que te beijar e tocar vai fazer isso só porque está a fim?”.
“I-isso.” Ela se inclinou na direção dele à espera da resposta, quase com medo de soltar o ar dos pulmões.
“Eu aceito.”
Stella sorriu, atordoada e aliviada. “Obriga…”
Ele levantou o queixo dela e a beijou. Uma sensação de eletricidade pura pulsou dentro de Stella. Se não estivesse se apoiando no balcão, teria caído. Quando ela murmurou, ele intensificou o beijo, dominando sua boca com a língua como ela queria que…
A porta atrás do balcão se abriu.
Eles se separaram às pressas, como dois adolescentes pegos em flagrante. Michael limpou a garganta e tratou de se ocupar das roupas no balcão. Stella comprimiu os lábios, sentindo o gosto dele em sua pele e limpando a umidade com o dorso da mão.
Pela expressão no olhar da mulher que entrara, havia visto tudo… e estava curiosa. Tinha óculos redondos no alto da cabeça, num ângulo que desafiava a gravidade, e os cabelos pretos presos num rabo de cavalo, com várias mechas soltas. Vestia um suéter estampado e calça xadrez verde. Como Michael, tinha uma fita métrica pendurada no pescoço.
Ela estendeu um traje desconstruído para Michael e apontou para uma parte da costura. Os dois começaram a conversar num idioma acelerado e tonal que parecia ser vietnamita.
Quando Michael se inclinou sobre a peça com uma expressão pensativa no rosto, a mulher abriu um sorriso distraído para Stella e deu um tapinha no braço dele. “Ensinei tudo para ele quando era pequeno, agora é ele quem me ensina.”
Stella forçou um sorriso. A mãe de Michael havia pegado os dois se beijando? Tentou encontrar semelhanças entre os dois, mas nada se destacou a princípio. O impressionante rosto de Michael equilibrava feições orientais com ângulos ocidentais. Seus ombros largos e sua estrutura forte e vigorosa estavam muito distantes daquela mulher miúda.
Stella ajeitou os óculos no rosto e passou as mãos na saia, desejando estar usando um jaleco e um estetoscópio.
Do outro lado da porta aberta, cabides com roupas em diferentes estágios de confecção e máquinas de costura profissionais preenchiam o amplo espaço de trabalho. Uma arara circular mecanizada que transportava roupas protegidas por plástico ocupava o lado esquerdo do recinto, e incontáveis carretéis cobriam as paredes. A velhinha de antes estava sentada em um sofá gasto no canto direito, vendo televisão sem som. A tesoura de poda não estava em lugar nenhum à vista.
“Com que você trabalha? É médica?”, a mulher perguntou com uma esperança mal disfarçada.
“Não, sou econometrista.” Stella contraiu os dedos e olhou para os próprios sapatos, esperando uma reação decepcionada.
“É o mesmo que economista?”
Os olhos de Stella se ergueram rapidamente, surpresos. “Parecido, só que envolve mais matemática.”
“Sua namorada já conheceu Janie?”, a mãe perguntou a Michael.
Ele ergueu os olhos da peça com uma expressão preocupada. “Não, ela não conheceu Janie, e não é a minha…” Então se deteve, olhando para a mãe e depois para Stella.
O dilema estava bem claro. Como deveriam se apresentar em público?
“Ela não é o quê?”, a mãe perguntou, confusa.
Ele pigarreou e se concentrou na peça de roupa que estava em suas mãos. “Ela não conheceu Janie.”
Uma onda de calor inesperada se espalhou pelo corpo de Stella. Ele não corrigiu a mãe. Aquilo significava que iam agir como namorados em público?
Um desejo desesperado tomou conta de Stella, numa intensidade que a surpreendeu.
“Quem é Janie?”, ela encontrou forças para perguntar. Já tinha ouvido aquele nome antes.
“A irmã dele.” A mãe pareceu pensativa por um tempo. Em seguida seus olhos brilharam e ela falou: “Você deveria ir jantar lá em casa hoje à noite. Pode conversar com Janie sobre economia. Ela está estudando em Stanford, e anda tentando arrumar em emprego. Minhas outras filhas também vão querer conhecer você. Ninguém sabia que Michael estava namorando”.
As palavras da mãe soterraram qualquer outra emoção que Stella pudesse sentir. De novo, ela dissera que era namorada de Michael. Casa. Jantar. Irmãs. As palavras dançavam em sua cabeça, se recusando a fazer sentido.
“É só aparecer. Mesmo se tiverem planejado alguma coisa, vão precisar comer antes. Michael pode fazer bún. É muito gostoso… Me esqueci de perguntar: qual é seu nome?”
Atordoada, ela respondeu: “Stella. Stella Lane”.
“Pode me chamar de Me..”
“Me.?”, repetiu Stella.
Ela sorriu em sinal de aprovação. “Não coma nada antes de ir. Sempre tem um monte de comida em casa.” Ela juntou as mãos como se estivesse tudo combinado, preencheu o recibo da lavagem das roupas de Stella e o entregou. “Ficam prontas na terça de manhã.”
Em estado de pânico, Stella enfiou o recibo na bolsa, murmurou um agradecimento e saiu em direção ao carro, passando pela horta da avó dele — ou pelo menos era o que achava que a velhinha era. Quando se acomodou no assento do motorista, as palavras de Me. ecoaram em sua cabeça.
Casa. Jantar. Irmãs.
A porta da lavanderia se abriu, e ele correu até ela. Stella baixou o vidro, e Michael apoiou as mãos na lateral do carro. “Não precisa ir se não quiser.” Ele franziu a testa, hesitante. “Mas talvez…”
“Talvez o quê?”, ela se pegou dizendo.
“Talvez seja útil pra você.”
“Vamos usar sua família para treinar?” O fato de Michael confiar nela o bastante para deixar que se envolvesse com as pessoas mais importantes da vida dele a deixou comovida de uma forma até difícil de entender. Aquele desejo de antes voltou.
“Você vai tratar todo mundo bem?”, ele perguntou com uma expressão bem séria.
“Sim, claro.” Ela sempre se esforçava para aquilo.
“E vai manter a questão do nosso acordo entre nós? Ninguém lá sabe sobre… o que eu faço.”
Stella assentiu. Ele nem precisava ter dito aquilo.
“Então por mim tudo bem. Se você quiser.”
“Eu quero.” Mas não porque precisava praticar.
“Então vamos em frente.” Os olhos dele se voltaram para seus lábios. “Chega mais perto.”
Stella se inclinou na direção dele, mas olhando para a frente da loja. “Ela pode estar olhan…”
Michael a beijou de leve na boca. Só um beijo. E logo se afastou. “A gente se vê hoje à noite.”