Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 7 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 7

 

Quando a sexta-feira chegou, Stella estava em polvorosa. Não conseguia parar de batucar os dedos na mesa do restaurante enquanto esperava Michael. Havia providenciado o encontro pelo aplicativo da agência, com a mesma praticidade com que compraria uma passagem de avião, mas sem o programa de fidelidade. Ela recebera o e-mail de confirmação, sua única garantia de que o encontro ainda estava de pé. Era impossível não temer que Michael tivesse mudado de ideia.

Stella gostaria de ter o número do celular dele, mas Michael não devia passá-lo às clientes. Era pessoal demais. Principalmente considerando que uma delas tinha ficado obcecada por ele.

Aquela era uma das maiores fraquezas de Stella, e uma das características definidoras de sua condição. Não sabia se interessar um pouco pelo que quer que fosse. Ou era indiferente ou… obcecada. E suas manias não eram passageiras. Elas a consumiam, se tornavam parte dela. Stella as nutria, as incorporava à sua vida. Como fazia com o trabalho.

Ela precisava tomar cuidado na aproximação com Michael. Tudo nele a agradava. Não só o visual, mas a paciência e a gentileza também. Ele era bonzinho.

Era uma mania esperando para começar.

Sua esperança era conseguir manter a cabeça fria pelas semanas que viriam. Talvez fosse melhor mesmo que tivessem apenas três sessões. Quando terminassem, Stella poderia se concentrar em alguém que pudesse ser seu de fato. Como Philip James.

Ela notou Michael assim que entrou no restaurante do hotel. Estava usando um terno preto de caimento impecável sobre uma camisa social branca sem gravata. O colarinho aberto chamava a atenção para o pomo de adão e a base do pescoço. Ele esquadrinhou o salão com o olhar e o pousou sobre ela.

Stella olhava o cardápio sem ver nada. Ele não parecia ter pressa de ir em sua direção. Mantenha a cabeça fria.

“Oi.” Michael se sentou diante dela e apoiou as mãos entrelaçadas sobre a mesa.

Stella respirou bem fundo, e sentiu seu cheiro. Suas entranhas se reviraram. Com uma sensação de derrota, ela levantou os olhos na direção dele, contou até três e virou a cabeça para o outro lado.

“Oi.”

“Já está nervosa?”

Ela deu uma risadinha. “Estou nervosa desde sábado.”

“Por falar nisso… Quem era no telefone quando eu estava indo embora?”

Ela comprimiu os lábios para esconder um sorriso. “Minha mãe. O nome dela é Ann. E pensa que estamos juntos, aliás.”

Ele levou a mão à boca sorridente. “Entendi. E isso é um problema?”

“Na verdade, acho que é até bom. Agora que ela pensa que tenho namorado, deve parar de tentar me arrumar encontros às cegas.”

“Ah, mãe e encontros às cegas… Sei bem como isso funciona.”

“Isso quer dizer que você não tem namorada?” Assim que a pergunta saiu de sua boca, ela fez uma careta. “Desculpa. Esquece que eu falei isso.”

Ela não tinha o direito de interrogá-lo sobre questões pessoais, mas uma curiosidade terrível fervilhava dentro de si. Queria saber tudo sobre ele. Se Michael tivesse namorada, fosse quem fosse, ela ia odiá-la.

“Não, eu não tenho namorada”, ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Graças a Deus.

“Com que tipo de garota sua mãe tenta juntar você?”

Ele revirou os olhos. “Médicas, o que mais? E enfermeiras. Acho que minha mãe já tentou me juntar com metade do segundo andar da Fundação Médica de Palo Alto.”

Stella ficou impressionada. “Quanta determinação.”

“Isso porque você não conhece a minha mãe.”

Ela abriu um sorriso forçado e se concentrou no cardápio. Aquilo significava que ele queria que ela conhecesse? Não, ela estava sendo maluca. Mães costumavam agir como feras encurraladas em relação aos filhos, em especial alguém como Michael.

E Stella não era médica.

Fim de papo. Ela não estava namorando Michael. A opinião da mãe dele não importava. Stella jamais ia conhecê-la. Era preciso voltar ao assunto em questão.

“Vamos conversar sobre minhas aulas”, disse, seca.

“Boa ideia.” Michael se recostou na cadeira, parecendo à vontade.

Stella tentou imitar o jeito tranquilo dele enquanto colocava três folhas de papel sobre a mesa. “Como nosso tempo é curto, tomei a liberdade de criar planos de aula. Não é uma programação rígida. Na verdade, se quiser sugerir alguma mudança, agradeço. Não faço ideia se o que escrevi faz sentido, mas gostaria de manter a coisa bem estruturada. Não lido bem com surpresas.”

A expressão de Michael era impossível de decifrar. “Planos de aula.”

“Exatamente.” Ela afastou o saleiro, o pimenteiro e a vela. Depois de posicionar os papéis no centro da mesa, alisou as dobras com a ponta dos dedos e apontou para a primeira tabela, intitulada AULA 1. “Coloquei quadradinhos em cada item, para ir marcando à medida que avançarmos.”

Ele abriu a boca para falar, então respirou fundo e bateu com um dedo nos lábios. “Só um minuto.”

AULA 1

o Teoria e demonstração da masturbação o Prática de masturbação

o Avaliação de desempenho

o Teoria e demonstração sobre posição-padrão o Prática da posição-padrão

o Avaliação de desempenho

Michael leu e releu o asséptico plano de aula. Sua surpresa se transformou em divertimento, que por sua vez se dissipou num sentimento de frustração que provocou tensão nas suas costas e no seu pescoço. Ele dobrou os dedos e fez força para segurar a vontade de amassar aquela papelada. Irritado, era assim que ele estava. Só não fazia ideia do motivo.

Com palavras como “teoria” e “demonstração” envolvidas, ele deveria estar curtindo a ideia. Era como interpretar o papel do professor na fantasia da sala de aula, com a diferença de não haver nenhuma fantasia envolvida.

“Quem vai preencher os quadradinhos? Eu ou você?”

“Posso fazer isso se você não quiser”, ela ofereceu com um sorriso solícito.

Uma imagem de Stella interrompendo o sexo para pôr os óculos e fazer anotações passou pela cabeça de Michael. Como se ele fosse um robô num experimento científico sobre sexo.

“Percebi que não tem nenhum beijo na programação”, ele comentou.

“Pensei que já tivéssemos resolvido essa parte.”

Ele franziu a testa. “Como assim?”

“Você falou que eu já tinha aprendido, então é melhor não perder tempo com isso. Beijar você me impede de pensar direito, e quero fazer as coisas como se deve. Além disso, parece ser algo que namorados fazem, o que não é nosso caso. Quero que as coisas entre nós se mantenham num nível claro e profissional.” Ela deu um golinho na água gelada e ajeitou os óculos, deixando umedecidos os lábios rosados — lábios que ele não iria poder beijar.

Os beijos dela não seriam mais para ele. Seu papel era deixar que ela o masturbasse e transar com ela, mas aqueles lábios macios estavam reservados para outra pessoa. A ideia provocou um impulso quase violento, que Michael precisou lutar para suprimir.

“Você levou Uma linda mulher a sério demais. Os beijos não significam muita coisa, e é melhor nem pensar muito mesmo quando se está na cama. Confia em mim”, ele falou.

Ela comprimiu os lábios em teimosia. “É importantíssimo que eu consiga pensar. Gostaria de não te beijar mais, se não se incomodar.”

A irritação de Michael só cresceu. Ele teve que fazer força para relaxar as mãos, antes que um vaso sanguíneo acabasse estourando. Como ele tinha se enfiado naquilo? Ah, sim, temera que outros acompanhantes tirassem vantagem dela. Quanta burrice. Como se sua vida não fosse complicada demais sem que se preocupasse com as clientes. Era exatamente aquele o motivo pelo qual não saía duas vezes com a mesma mulher.

Ele teria desistido de bom grado — era uma ideia tentadora —, mas havia dado sua palavra. Manter-se fiel a ela era sua maneira de se manter em equilíbrio com o universo. Seu pai havia quebrado promessas suficientes para os dois.

“Certo”, Michael se forçou a dizer. “Nada de beijos.”

“O resto está bom?”, ela quis saber.

Ele se obrigou a examinar os papéis, que eram bem parecidos, mas passando de masturbação a sexo oral e diferentes posições na cama.

Apesar de tudo, achou aquilo divertido, e comentou: “Estou surpreso por você usar expressões como ‘de quatro’ e ‘cavalgada’”.

Ela ficou toda vermelha e ajeitou os óculos. “Sou inexperiente, não tonta.”

“Falta uma coisa importante nos seus planos.” Ele estendeu a mão, e Stella colocou a caneta em sua palma com um gesto cauteloso.

Ela inclinou a cabeça para o lado enquanto o via escrever PRELIMINARES no alto de todas as páginas em letras garrafais. Para complementar, desenhou um quadradinho na frente, apertando a ponta da caneta com força.

“Mas por quê? Que eu saiba, os homens não precisam disso.”

“Mas você, sim”, ele disse apenas.

Ela franziu o nariz e sacudiu a cabeça negativamente. “Não precisa se preocupar comigo.”

Michael estreitou os olhos. “Não é uma preocupação. A maioria dos homens gosta de preliminares. Eu gosto. Deixar uma mulher excitada é bem gostoso.” Além disso, ele não transaria com ela sem estar pronta. De jeito nenhum.

Engolindo em seco, ela olhou para o cardápio. “Está me dizendo que não tenho chance nenhuma de melhorar.”

“Quê? Não.” A mente dele se esforçou em vão para entender por que ela diria uma coisa daquelas.

“Você viu como eu reagi. E foi só um botão.”

“E depois você passou a noite inteira comigo. Estava quase pelada, e até se aconchegou em mim.”

“Prontos para pedir?”, interrompeu a garçonete. A julgar pelo brilho de divertimento em seus olhos, tinha ouvido a última parte da conversa.

Stella analisou as opções para o jantar, enfiando as unhas no tecido da encadernação do cardápio.

“Vamos querer o prato do dia”, Michael anunciou.

“Ótima escolha. Vou deixar vocês à vontade.” A garçonete deu uma piscadinha, recolheu os cardápios e se afastou.

“Qual é o prato do dia?”, Stella quis saber.

“Não faço ideia. Vamos torcer para não ser nada com gosto de lã.”

Ela fez uma careta incomodada e se inclinou para a frente de forma hesitante, encarando-o nos olhos por uma fração de segundo. “O que você quis dizer com ‘se aconchegou’?”

Michael sorriu. “Que no fundo você gosta de dormir abraçando alguém.”

“Ah.”

Ela ficou tão horrorizada que Michael não teve como conter o riso. “Confesso que gostei.” Aquilo era verdade, mas não era nem um pouco sua cara. Era obrigado a ficar abraçadinho com as clientes porque elas gostavam. Mas, em geral, ficava contando os segundos para a hora do banho. Ficar com Stella tinha sido diferente. Eles não haviam transado, então não precisavam tomar banho, e a maneira como ela se entregara ao sono ao lado dele o fizera sentir coisas sobre as quais não queria nem pensar. Principalmente depois que Stella deixou claro que ela considerava aquilo detestável. Sua irritação cresceu ainda mais.

“Mas e quanto às aulas? Como vamos progredir com limitações tão grandes? Como vamos contornar meus problemas?”

“Não vamos ‘contornar’ seus problemas. Vamos superar.”

Ela cruzou os braços e começou a tamborilar os dedos no cotovelo em um ritmo estranho. “Como?”

“Vamos… destravar você.” Isso o fez parecer um babaca arrogante, mas ele não tinha uma avaliação cinco estrelas só por sorte. Quando perdeu a virgindade, já com dezoito anos, descobriu que era dono de um talento natural para a coisa. E o profissionalismo havia elevado suas habilidades a um novo patamar.

“Não acho que isso seja possível.” Ela contorceu a boca como se estivesse diante de um vendedor de carros usados.

“Você pensou que fosse gostar dos beijos?” E Stella tinha gostado uma vez que pegara o jeito da coisa. Havia esperança para ela. Garotas que não gostavam de sexo não ficavam de pernas bambas. Ele só precisava entendê-la melhor.

Stella bateu o dedo em um dos quadradinhos das preliminares. “O que acontece se você tentar de tudo e eu não gostar? Nosso tempo é escasso.”

“Não acho que vai ser o caso.” Mas, se fosse, eles lidariam com aquilo no tempo certo.

Depois de um longo silêncio, ela falou: “Vamos tentar do seu jeito, então”.