Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 11 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 11

 

Stella estava retraída durante a caminhada de volta até o Model S branco. Diversas vezes Michael a viu massagear as têmporas, mas quando perguntou se ela estava com dor de cabeça a resposta foi um resmungo ininteligível. Talvez ela não estivesse falando por causa do beijo, mas aquilo não parecia ser do seu feitio.

Bom, ela era do tipo que ia embora sem avisar. Ouvir Quan dizer que Stella queria pegar um táxi sozinha foi como um soco no estômago de Michael. Lembrava-o do abandono do próprio pai, que o deixara com um problema gigantesco para resolver. Já Stella ia deixá-lo com a chave do carro e o cartão de crédito dela. Quem faria uma coisa dessas?

Michael achava que não merecia aquilo. Em ambos os casos.

Tentara evitar que uma antiga cliente fizesse um escândalo na frente de Stella. Aliza era chegada em um drama. Enfim tinha se divorciado do marido milionário e queria Michael só para si. Estava disposta a pagar o que fosse preciso.

Ela se recusava a admitir que Michael preferia pisar em brasas a aceitar aquilo. Insistiu por vários minutos, citando cifras extravagantes uma após a outra, e então simplesmente o beijou.

Michael sempre associaria o gosto de chiclete de canela, cigarro e uísque a Aliza.

Já Stella tinha gosto de… sorvete de menta com gotas de chocolate.

Eles entraram no carro dela, que acionou o aquecedor de assentos, se afundou no encosto, apoiou a cabeça e ficou olhando pela janela, batucando nos joelhos distraída. Michael ligou o rádio para quebrar o silêncio, mas Stella o desligou de imediato e logo recomeçou a batucar. Era um movimento hipnótico, um pouco irritante.

Michael lhe lançou um olhar incomodado, mas ela nem percebeu.

Depois de saírem da cidade e entrarem no tráfego iluminado da 101S, ele cansou de se segurar e perguntou: “Quando você faz isso com os dedos… é uma música? Como se tocasse um piano?”.

Ela interrompeu o movimento e sentou sobre as mãos. “É o Arabesque, de Debussy. Gosto muito da combinação de quiálteras e oitavas.”

“Então você sabe tocar?” Quando fora encontrá-la na casa dela, no centro de Palo Alto, tinha sido impossível não notar o piano de cauda que dominava a sala quase vazia. Se ela tivesse talentos artísticos além de inteligência, sucesso profissional e beleza, seria oficialmente a encarnação da mulher de seus sonhos. E tão fora de seu alcance que chegava a ser risível.

O peso das merdas feitas por seu pai ainda não havia recaído sobre ele, mas Michael não tinha quase nada a oferecer a uma garota como Stella. Só seu rosto e seu corpo, mas aquilo qualquer uma com algum dinheiro podia ter. Talvez Stella tivesse se atraído por quem ele era antes, alguém que podia se dedicar a suas paixões. Aquele cara tinha potencial. Michael quase não se reconhecia mais.

“Sei”, respondeu Stella. “Comecei a tocar antes de aprender a falar.”

Ele ergueu as sobrancelhas. Além de ser a mulher dos seus sonhos, ela também era uma espécie de Mozart.

“Não é tão impressionante quanto parece”, Stella comentou com um sorriso ácido. “Demorei para começar a falar.”

“Não consigo imaginar uma coisa dessas. Você parece perfeita.”

Ela baixou a cabeça e soltou o ar com força. Michael perguntou qual era o problema, mas uma minivan lenta à sua frente chamou a sua atenção. Ele mudou de faixa e pisou fundo, numa ultrapassagem silenciosa. Adorava carros potentes.

Mas pensar em carros o fazia pensar em sua BMW M3, e em como a havia conseguido.

“Ela é a cliente louca”, ele contou. Michael sentiu o peso do olhar de Stella sobre si. “A mulher que você viu.”

“Entendi.”

Stella ergueu a mão até o nariz. Quando viu que não tinha como ajeitar os óculos, segurou o pescoço. “Você gostou de ter beijado ela?”

“Eu não a beijei, foi ela quem me beijou. E não, eu não gostei.”

“Se eu te fizer uma pergunta, você responde com sinceridade?”

Aquilo seria interessante. “Sim.”

“Você age de um jeito diferente quando está comigo?”

“Está perguntando se eu seria um babaca se cruzar com você quando não for mais minha cliente?” Se Stella não fosse mais sua cliente, provavelmente estaria com outro cara. Ele contorceu os lábios, sentindo um gosto ruim na boca. “Não.”

“Está mentindo para eu me sentir melhor?”

“Nunca menti para você. Mas cabe a você decidir se acredita ou não.”

Eles não abriram mais a boca pelo resto do trajeto. Michael freou diante da casa bonita e renovada em estilo chalé em que Stella morava e estacionou na garagem para dois carros. Quando desligou o motor, os olhos dela se abriram.

“Chegamos.”

Stella passou as mãos nos cabelos amassados. “Estou quase cansada demais para sair do carro.”

“Posso carregar você.”

Ela tentou abrir um sorriso sonolento, claramente pensando que ele estava brincando.

“É sério.” A ideia de carregá-la para a cama parecia muito atraente naquele momento. Ele gostava de abraçá-la e, por mais estranho que pudesse parecer, queria preencher os quadradinhos. Em três anos, era a primeira vez que demorava tanto para trepar num encontro, e vê-la naquele vestido fazia sua calça ficar apertada.

“Não seja bobo.” Stella abriu a porta e ficou de pé com movimentos que pareceram desajeitados até mesmo para ela. Quando Michael trancou o carro e se juntou a ela na porta da casa, porém, o olhar dela era bem firme. “Não vou ter energia para uma aula hoje.”

“Não precisa ser uma aula.” Ele passou os dedos no braço dela, e viu quando sua pele inteira se arrepiou. As pálpebras pesadas tornavam seus olhos mais sensuais. Stella era linda. “Posso só fazer você se sentir melhor.” Ele acariciou a mão dela, que abriu os dedos, em um convite ao toque. “Você já pagou pela noite toda mesmo.”

Ela fechou a mão e se virou para a porta. “Queria conversar sobre isso com você. Entra, por favor.”

* * *

Depois de guardar os sapatos, Stella passou por seu amado Steinway na sala de jantar, desfrutando da sensação do piso de madeira sob os pés doloridos. Michael a seguia em silêncio, e ela desconfiava de que ele reparava em como o interior da casa era espartano.

Não havia nenhum enfeite sobre a mesa de jantar. Nenhum objeto decorativo à vista. Não havia muita coisa além da mesa. Ela não sabia de que tipo de madeira era feita, mas era boa. Stella passou os dedos sobre a superfície acetinada enquanto caminhava para a cabeceira, onde costumava se sentar. As cadeiras ao redor eram as únicas na casa inteira.

“Você mudou faz pouco tempo?”, Michael perguntou.

Ela puxou uma cadeira para ele e esfregou o cotovelo, sem jeito. “Não exatamente.”

Em vez de se sentar, Michael foi até a cozinha. Com as mãos nos bolsos, observou o fogão, a geladeira e o freezer de aço inox, e tudo o mais que havia no espaço quase vazio. Fria, cinzenta e cavernosa, a cozinha era o lugar de que Stella menos gostava na casa. Ou pelo menos costumava ser.

Com Michael lá, assumia outro aspecto. Tornava-se um ambiente íntimo e convidativo, com lâmpadas de LED em luminárias baixas que mais pareciam estrelas. Não parecia mais um cômodo tão solitário.

“Como assim, ‘não exatamente’? Um mês? Dois?” Ele abriu um sorrisinho provocador ao perguntar: “Um ano?”.

“Cinco anos.”

Michael ficou boquiaberto, e examinou a casa com novos olhos. “Então você gosta dessa coisa minimalista?”

Ela deu de ombros. “Passo a maior parte do tempo no escritório, então não faz muita diferença. Tenho uma cama, uma TV legal e uma conexão de internet excelente.”

Ele sacudiu a cabeça e deu uma risadinha. “Só o essencial.”

“Isso é esquisito?” Como demorar para aprender a falar ou se sentir superestimulada em uma casa noturna?

“Não, acho que até gostei”, ele disse com um sorriso. “Mas alguns objetos decorativos e um ou dois sofás não fariam mal. De repente uma mesinha de centro. Ninguém precisa de muita coisa além disso.”

Um nó se formou na garganta dela. Naquele exato momento, com Michael em sua cozinha, em sua casa, Stella sentia que não precisava de mais nada no mundo. Mas seu tempo juntos estava prestes a acabar.

Ela não estava pronta para aquilo.

“Você pode sentar pra gente conversar?”, ela pediu.

Todo sério, ele assentiu e contornou a enorme ilha central da cozinha para ir se sentar na cadeira indicada. Assim próximo, ele exercia uma atração magnética sobre ela, que tratou de se sentar antes que o acabasse tocando e se distraindo. Precisava manter o foco. Se falasse com bastante eloquência, talvez Michael concordasse com seu novo plano.

Stella apoiou as mãos inseguras no tampo da mesa. Em questão de segundos, começou a batucar.

Uma mão quente deslizou sobre a sua e a apertou. “Não precisa ficar nervosa quando está comigo. Sabe disso, certo?”

Ele não tirou a mão, o que a levou a analisar como se sentia. Era um toque casual e não solicitado, do tipo que em geral a fazia se fechar em si mesma. Mas naquele momento só sentia o calor do corpo de Michael, a aspereza de sua pele e o peso de sua mão. Era difícil de entender, mas seu corpo o aceitava. Somente ele.

A conclusão renovou sua determinação, e ela tomou coragem para o que viria. “Quero fazer uma nova proposta.”

Ele inclinou a cabeça de forma cautelosa. “Está dizendo que quer estender as aulas para além da sexta que vem?”

“Não quero mais aulas. A noite que tivemos juntos — tanto as partes boas como as… não tão boas — me fez perceber algumas coisas. Sou ruim de cama, mas ainda pior em relacionamentos. Acho que prefiro gastar meu tempo tentando me aperfeiçoar nisso. Nunca tinha dividido um sorvete com alguém, nem andado de mãos dadas na rua. Nunca tive um jantar que não fosse marcado por longos silêncios constrangedores, ou sem que eu acabasse ofendendo a outra pessoa sem querer e a afastando de mim.”

Ele passou o polegar sobre as articulações de suas mãos enquanto pensava em suas palavras com uma expressão inabalável no rosto. “Não vi nenhum problema de relacionamento, a não ser quando quis ir embora. E, se eu tivesse aceitado o beijo daquela mulher, teria merecido. Você se saiu bem hoje.”

“Mas só porque estava com você.”

Ele pareceu pensativo por um momento. “Vai ver é porque você se sente no controle quando está comigo. Como está me pagando, a pressão é menor, e pode relaxar.”

“Não é isso, de jeito nenhum. Só consigo relaxar por causa da maneira como me trata. Porque é você”, ela falou, convicta.

Michael franziu as sobrancelhas e ficou imóvel por vários segundos. “Stella, você não deveria me dizer essas coisas.”

“Por que não? É verdade.”

As reações dele se alternavam mais depressa do que ela era capaz de decifrar. Michael sacudiu a cabeça e engoliu em seco. Um sorrisinho curvou as beiradas de seus lábios antes que recolhesse a mão para coçar o queixo. Ele limpou a garganta em seguida, mas sua voz ainda saiu meio rouca. “Me conta sobre essa nova proposta.”

Ela ficou olhando para o dorso das mãos, sentindo o calor do toque dele. “Quero que me ensine a manter um relacionamento. Não a parte sexual, mas a da companhia. Como hoje à noite. Conversar, compartilhar, andar de mãos dadas. Novidades são sempre assustadoras para mim, mas com você consigo lidar com isso e até gostar. Quero contratar você como meu namorado em tempo integral.”

Ele abriu a boca, mas só foi falar depois de um bom tempo. “Como assim, ‘não a parte sexual’?”

“Quero tirar o sexo do acordo. Não quero ser como aquela mulher na casa noturna, forçando intimidade. Minha esperança é de que, se aprender a ser uma boa companhia, ninguém vai se incomodar em me ajudar a evoluir na cama.”

“Quem aqui disse alguma coisa sobre intimidade forçada?”, ele questionou, estreitando os olhos. “Tudo o que fiz com você até agora foi por livre e espontânea vontade.”

Ela se esforçou para não fazer uma careta e entrelaçou os dedos para não recomeçar a batucar na mesa. “Da próxima vez que um homem me beijar, tem que ser porque ele quer.” Sem nenhum incentivo monetário. Depois de ver Michael com sua antiga cliente, tudo o que os dois tinham feito até então adquirira um gosto amargo na boca dela. A ideia de Stella ao contratar um acompanhante para aprender sobre sexo tinha sido simplista demais. “Sei que você a princípio não se interessa em repetir clientes e que a minha nova proposta envolve ainda mais tempo juntos. Por causa disso, estou disposta a pagar cinquenta mil dólares adiantados pelo primeiro mês. Podemos estender por uns três a seis meses pelo mesmo valor. Que tal? É o bastante para simular uma prática de relacionamento? Tudo pode ser negociado, claro. Não sei qual é o padrão do mercado para esse tipo de acordo.”

“Cinquenta mil…” Ele sacudiu a cabeça como se não tivesse escutado direito. “Stella, não posso…”

“Antes de dizer não, pense a respeito”, ela pediu, sentindo o coração disparar. “Por favor.”

Ele se afastou da mesa e ficou de pé. “Preciso de um tempo.”

“Claro.” Ela levantou e prendeu a respiração. Estava apreensiva, sem saber o que fazer. “Quanto tempo quiser.”

Ele segurou seu braço e deu um passo em sua direção, chegando a se inclinar um pouco para a frente antes de se deter. Com os olhos colados em sua boca, percorreu o contorno de seus lábios com a ponta dos dedos, provocando calafrios por todo o seu corpo. “Conversamos na sexta que vem. Pode ser?”

“Tudo bem.”

Ele mordeu o lábio inferior como se estivesse pensando em beijá-la, e Stella sentiu sua boca formigar em resposta. “Boa noite, então.”

“Boa noite, Michael.”

Paralisada e ofegante, ela o observou ir embora.