Os Números do Amor
Capítulo 2
Qual envelope ele abriria primeiro? O do resultado dos exames ou o da conta? Michael era paranoico em relação a proteção, então talvez devesse optar pelo primeiro. Devia ser o melhor a fazer. Por sua experiência, merdas aconteciam sem motivo. Já as contas eram sempre a mesma coisa. Um pé no saco. A única diferença era a força do impacto.
Por algum motivo, ele abriu o envelope da conta, tenso e se preparando para o golpe. Quanto estaria devendo aquele mês? Seus olhos foram direto para a parte inferior da fatura, que discriminava cada compra. O ar se manteve em seus pulmões por um bom tempo antes que conseguisse soltá-lo. Não era tão ruim assim. Numa escala de “incômoda” a “massacrante”, a conta ficaria na categoria “dolorida”.
O que provavelmente significava que ele estava com clamídia.
Michael deixou a conta sobre o armário de metal atrás da mesa da cozinha e abriu o envelope com o resultado de seu mais recente exame de DSTs. Todos negativos. Ainda bem. Era sexta à noite, o que significava que ele precisava trabalhar.
Estava na hora de entrar no clima para trepar. Não que fosse uma coisa fácil depois de passar tanto tempo pensando em DSTs e boletos aterrorizantes. Por um instante, Michael se permitiu imaginar como seria se as contas parassem de chegar. Enfim estaria livre. Poderia voltar à sua antiga vida e… se afundar na vergonha. Não, ele não queria que as contas parassem de chegar. Aquilo não podia acontecer. Jamais.
Enquanto tirava a roupa no caminho para o banheiro do apartamento barato, Michael tentou reviver o entusiasmo que costumava sentir pelo trabalho. De início, a natureza da função, cercada de tabu, foi motivação suficiente, mas depois de três anos como acompanhante seu ânimo tinha acabado. A necessidade de vingança, porém, continuava lá.
Olha só o que seu único filho faz da vida, pai.
Ele ficaria transtornado se descobrisse que Michael fazia sexo por dinheiro. O que era o bastante. Não em termos sexuais, claro. Para aquilo serviam as fantasias. Michael repassou mentalmente suas favoritas. O que poderia deixá-lo tentado naquela noite? Uma professora? Uma dona de casa negligenciada? Uma amante secreta?
Ele abriu o chuveiro e esperou o vapor dominar o ar antes de entrar na água quente. Respirando fundo, conseguiu acalmar seus pensamentos. Como era mesmo o nome da cliente daquela noite? Shanna? Estelle? Não, Stella. Seria capaz de apostar vinte dólares que aquele não era o nome verdadeiro dela, mas tudo bem. A mulher tinha pagado adiantado. Ele tentaria fazer alguma coisa legal para compensar. Aluno com tesão pela professora, então.
Ele era um calouro de faculdade. Tinha abandonado todas as disciplinas menos uma, porque a sra. Stella gostava de deixar o apagador cair perto da carteira dele. Imaginando a saia dela subindo quando se abaixava para pegá-lo, Michael segurou o pau e o acariciou com movimentos firmes. Quando a aula terminava, debruçava a professora de costas sobre a mesa, levantava a saia até a cintura e descobria que ela estava sem calcinha. Começava a penetrá-la com estocadas fortes e aceleradas. Se alguém entrasse e os visse…
Com um grunhido, ele afastou a mão antes que fosse longe demais. Estava mais do que pronto para se encontrar com a sra. Stella fora da sala de aula.
Enquanto ele terminava o banho, se secava e saía do banheiro para vestir calça jeans, camiseta e blazer preto, sua mente se manteve voltada para a fantasia que criara. Com uma rápida olhada no espelho ainda embaçado e uma passada de dedos pelos cabelos molhados, teve certeza de que estava apresentável.
Camisinhas, chave, carteira. Por força do hábito, ele releu a seção de pedidos especiais do encontro daquela noite no celular.
Por favor não use perfume.
Sem problemas. Ele nem gostava mesmo. Michael enfiou o celular no bolso e saiu.
Pouco tempo depois, parou o carro no estacionamento do Clement Hotel. Enquanto caminhava pelo saguão impecável e moderníssimo, ajeitou as lapelas do blazer e começou o habitual jogo de tentar adivinhar a aparência da nova cliente.
A idade declarada era trinta anos. Ele suspirou e corrigiu mentalmente para cinquenta. Qualquer número abaixo de quarenta era falso — a não ser que fosse um lance de grupo, coisa que ele não topava. Despedidas de solteira pagavam bem, mas a ideia de interferir num relacionamento que estava apenas começando o deixava deprimido. Talvez fosse ridículo, mas ele preferia viver num mundo em que noivas só transavam com os homens com quem iam casar e vice-versa. Além disso, grupos de mulheres com tesão eram assustadores. Era impossível se defender delas, e suas unhas eram bem afiadas.
“Stella” devia ser uma perua cinquentona que gostava de doces, spa, cachorrinhos e de ser idolatrada na cama — algo que para Michael não era problema nenhum. Ou talvez fosse uma coroa enxuta que gostava de ioga, suco de clorofila e maratonas sexuais, porque trabalhavam melhor seu abdome que qualquer aula de ginástica localizada de academia. Ou podia ser uma asiática durona e mandona que o escolheu porque ele se parecia um bocado com o astro de dramas coreanos Daniel Henney, graças à sua ascendência vietnamita e sueca. Era a opção de que menos gostava, porque aquele tipo de mulher inevitavelmente o fazia lembrar de sua mãe, e ir para a cama com elas exigia uma boa dose de terapia com o saco de pancadas.
Ao entrar no restaurante do hotel, ele procurou entre as mesas mal iluminadas por uma mulher de cabelos e olhos castanhos usando óculos. Como não havia recebido nenhuma notícia ruim pelo correio, estava preparado para o pior ali mesmo. Seu olhar percorreu as mesas ocupadas por homens de negócios até encontrar uma asiática de meia-idade sentada sozinha dando instruções detalhadas à garçonete a respeito de como preparar sua salada. Enquanto ela passava as unhas bem-feitas pelos cabelos clareados artificialmente, Michael já caminhava na direção dela, com um buraco no estômago. Seria uma noite bem longa.
Não, aquele era o ápice de um semestre letivo inteiro de tensão sexual. Ambos queriam aquilo. Ele também.
Antes que chegasse à mesa, um homem mais velho, alto e magro se sentou com a mulher e colocou a mão sobre a dela. Surpreso, mas aliviado, Michael recuou e esquadrinhou o saguão com os olhos outra vez. Não havia ninguém sozinho… só uma garota num canto mais afastado.
Seus cabelos escuros estavam presos num coque, e ela usava óculos sobre o nariz bem desenhado, como uma bibliotecária gostosa. Na verdade, pelo que ele podia ver, parecia até que ela estava vestida de bibliotecária safada. Usava sapatos de ponta fina, saia justa cinza e uma camisa acinturada abotoada até o colarinho. Não era impossível que tivesse trinta anos, mas Michael arriscaria vinte e cinco. Havia algo de jovial e franco nela, apesar do rosto franzido enquanto examinava o cardápio.
Ele olhou ao redor, procurando uma câmera escondida ou um grupo de amigos morrendo de rir atrás de um vaso de plantas. Não encontrou nada.
Ele apoiou as mãos na cadeira diante dela. “Com licença, você é a Stella?”
Os olhos dela se voltaram para ele, e Michael ficou sem reação. Por trás dos óculos de bibliotecária safada havia um par de lindos olhos castanhos e suaves. E os lábios dela eram cheios o bastante para ser tentadores, mas sem estragar a impressão geral de delicadeza.
“Devo ter me confundido”, ele disse, com um sorriso que parecia mais um pedido de desculpas do que uma demonstração de vergonha total. De jeito nenhum aquela garota contrataria um acompanhante.
Ela piscou algumas vezes antes de ficar de pé num pulo, sacudindo a mesa. “Não, sou eu. Você é o Michael. Reconheci pela foto.” A garota estendeu a mão. “Stella Lane. Prazer.”
Ele encarou sua expressão franca e manteve a mão imóvel por uma fração de segundo. Não era assim que costumava ser cumprimentado pelas clientes. Em geral elas só faziam um gesto para que se sentasse, com um sorrisinho malicioso nos lábios e um brilho nos olhos, que afirmava que se consideravam melhores que ele, mas estavam dispostas a ver o que tinha a oferecer. Stella o cumprimentara como se fosse… um igual.
Recuperando-se rapidamente da surpresa, cumprimentou-a segurando sua mão estreita e com dedos finos. “Michael Phan. O prazer é meu.”
Stella fez um gesto desajeitado na direção da cadeira. “Por favor, senta.”
Michael se sentou e a observou se acomodar perigosamente na beirada do assento, com as costas muito aprumadas. Ele examinou seu rosto, mas, quando ergueu uma sobrancelha, Stella se voltou para o cardápio. Em seguida ajeitou os óculos franzindo o nariz.
“Está com fome? Eu estou.” Os dedos dela seguravam o cardápio com tanta força que as juntas estavam até brancas. “O salmão daqui é bom. A carne também. Meu pai prefere o cordeiro…” O olhar de Stella se voltou para ele às pressas. Mesmo com a iluminação fraca, Michael viu que estava vermelha. Ela pigarreou. “Mas talvez seja melhor deixar o cordeiro para lá.”
Ele não conseguiu resistir a perguntar: “Por quê?”.
“Acho que tem gosto de lã… e se você… quando nós…” Ela olhou para o teto e respirou fundo. “Eu só ia conseguir pensar em carneiros e ovelhas.”
“Entendido”, Michael disse com um sorriso.
Quando ela olhou para sua boca como se não se lembrasse do que ia dizer, o sorriso dele se alargou. As mulheres o escolhiam porque gostavam de sua aparência. Mas pouquíssimas reagiam assim à sua presença. Era lisonjeiro, além de divertido.
“Tem alguma coisa que você prefere que eu não coma ou beba?”, ela perguntou.
“Não, sou bem tranquilo.” Ele manteve o tom de voz leve, tentando ignorar o aperto no peito. Devia ser azia. Uma pergunta atenciosa não era capaz de deixá-lo assim.
Depois que a garçonete anotou os pedidos e se afastou, Stella bebeu um gole de água e começou a desenhar formas geométricas nas gotículas condensadas do lado de fora do copo com seus dedos delicados. Então percebeu que Michael estava olhando, recolheu a mão e se sentou sobre ela, corando como se tivesse sido surpreendida fazendo algo que não devia.
Havia alguma coisa nela que despertava seu afeto. Se já não tivesse pagado, Michael não acreditaria que ela de fato queria transar. E por que ia querer? Devia ter namorado… ou marido. Contrariando seus próprios princípios — ele se sentia melhor quando não sabia —, Michael olhou para a mão esquerda dela, pousada sobre a mesa. Nada de aliança. Nem uma marca que fosse.
“Tenho uma proposta para você”, ela disse de forma repentina, encarando-o com um olhar surpreendentemente direto. “Exigiria comprometimento… pelos próximos meses, imagino. Eu gostaria… preferiria… ter acesso exclusivo a você durante esse tempo. Se tiver disponibilidade.”
“O que tem em mente?”
“Me diga primeiro se tem disponibilidade, por favor.”
“Eu só trabalho nas noites de sexta.” Aquilo não era negociável. Ser acompanhante uma vez por semana já bastava. Se fizesse aquilo mais vezes, acabaria pirando, o que obviamente não poderia acontecer. Muita gente dependia dele.
Além disso, Michael não marcava mais programas com uma mesma cliente. Elas poderiam se apegar, o que seria insuportável. Mesmo assim, estava disposto a ouvir a proposta.
“Você teria os próximos meses livres, então?”, ela insistiu.
“Depende do que estiver propondo.”
Stella empurrou os óculos sobre o nariz e jogou os ombros para trás. “Sou péssima em… nisso que você faz. Mas quero melhorar. Acho que seria bom ter alguém para me ensinar. E gostaria que fosse você.”
A compreensão foi atingindo Michael em ondas surreais. Ela se considerava péssima. Na cama. Queria ter aulas para melhorar. E que ele fosse seu professor.
Como poderia ensinar alguém a transar?
“Acho melhor fazer uma experiência primeiro antes de combinar qualquer coisa mais definitiva”, Michael argumentou. Era impossível que ela fosse tão ruim de cama, e o programa estava pago. No mínimo, teriam aquela noite.
Ela franziu a testa e assentiu. “Você tem toda a razão. Precisamos estabelecer um parâmetro.”
O sorriso voltou aos lábios dele. “Você é cientista, Stella?”
“Não, não. Economista. Mais precisamente econometrista.”
Na opinião de Michael, aquilo a colocava claramente na categoria dos crânios. Ele sentiu um estranho arrepio. Garotas inteligentes sempre tinham sido seu fraco. Não era à toa que sua fantasia favorita envolvia uma professora. “Nem sei o que é isso.”
“Uso estatísticas e cálculo algébrico para modelar sistemas econômicos. Sabe quando você compra uma coisa na internet e recebe um e-mail com outras sugestões? Eu ajudo os sites com as recomendações. É um ramo bem fluido e fascinante.” Enquanto falava, ela se inclinou na direção dele, com os olhos acesos de empolgação. Seus lábios se curvaram como se estivesse revelando um segredo. Sobre matemática. “O material disponível hoje é completamente diferente do que aprendi na faculdade.”
A estranha sensação que percorria a espinha de Michael se intensificou. De alguma forma, ela conseguia ficar mais bonita ao longo da conversa. Tinha olhos castanhos com cílios grossos, lábios bem desenhados, queixo delicado, pescoço fino. Imagens vívidas dele desabotoando a camisa dela surgiram na mente de Michael.
Mas ele não queria apressar as coisas, o que lhe era incomum. Não queria partir logo para o sexo, cair fora do hotel e voltar para casa. Aquela garota era diferente. Tinha um brilho nos olhos. Ele queria fazer tudo com calma para ver se conseguia extrair daquilo outro tipo de satisfação. Ele sentiu o pau duro contra a braguilha da calça jeans, transportando-o de volta para o momento.
Sua pele estava quente e sensível, sua pulsação retumbava de ansiedade. Fazia uma eternidade que não se sentia tão excitado. E não estava fantasiando com outra pessoa. Precisou lembrar a si mesmo que estava ali a trabalho. Seus desejos e suas necessidades pessoais não tinham espaço ali. Era um programa como qualquer outro. Quando acabasse, passaria para o seguinte.
Michael respirou fundo e falou a primeira coisa que passou por sua cabeça. “Você participava de olimpíadas de matemática na época do colégio?”
Ela riu, olhando para o copo d’água. “Não.”
“De ciências? Ou talvez competições de xadrez.”
“Não e não.” Ela abriu um sorriso triste, que o fez se perguntar como deviam ter sido os tempos de escola dela. Ela o encarou de volta. “Me deixa adivinhar: você era o quarterback do time de futebol americano.”
“Não. Meu pai achava que esportes eram perda de tempo.”
Ela franziu de leve a testa. “Acho difícil acreditar nisso. Você é bem… atlético.”
“Ele me incentivava a fazer coisas práticas. Tipo autodefesa.” Michael detestava concordar com o pai, mas, considerando o trabalho da família, as técnicas tinham sido bem úteis quando era criança e enchiam seu saco.
O interesse iluminou o rosto dela. “O que você pratica? MMA? Kung fu? Jeet kune do?”
“Fiz um pouco de tudo. Por que estou com a impressão de que você entende do assunto?”
Ela baixou os olhos para o copo d’água outra vez. “Gosto de filmes de artes marciais.”
Ele soltou um ruído de desconfiança. “Não vem me dizer que gosta de dramas coreanos…”
Ela inclinou a cabeça e abriu um sorrisinho. “Gosto.”
“Eu não me pareço com o Daniel Henney.”
“Não, você é mais bonito.”
Ele apoiou as mãos na mesa e sentiu o rosto esquentar. Porra, tinha ficado vermelho. Que tipo de acompanhante fica vermelho com um elogio? Suas irmãs tinham vários pôsteres de Henney colados nas paredes do quarto, e estabeleceram uma escala de beleza masculina que ia de um a Henney. Elas concordavam que Michael merecia um oito. Ele não dava a mínima para aquilo, mas por outro lado significava que aquela garota tinha acabado de lhe conceder um onze.
O jantar chegou, salvando-o da obrigação de responder. Stella tinha pedido salmão, e ele a imitou. Não ia se arriscar com o cordeiro. Michael riu sozinho. Gosto de lã.
O peixe estava bom, então ele comeu tudo. Todos os pratos ali deviam ser bons. O Clement era um dos hotéis mais exclusivos de Palo Alto, com quartos que chegavam a custar mais de mil dólares por noite. Parecia que econometristas ganhavam uma boa grana.
Enquanto observava Stella comendo, Michael concluiu que tudo nela era minimalista. Não usava maquiagem ou esmalte nas unhas curtas e usava roupas simples, mas com um caimento perfeito. Deviam ser feitas sob medida.
Quando Stella largou o garfo e limpou a boca, o salmão ainda estava pela metade. Se os dois se conhecessem melhor, ele atacaria o que ela deixara. Sua avó sempre o fazia comer até o último grão de arroz.
“Não quer mais?”
“Estou nervosa”, ela admitiu.
“Não precisa.” Ele era um ótimo acompanhante, e ia cuidar bem dela. Ao contrário do que acontecia na maioria dos programas, estava inclusive ansioso para aquilo.
“Eu sei. Mas não consigo evitar. Vamos acabar logo com isso?”
Ele franziu a testa. Nunca tinha ouvido alguém falar de uma noite na sua companhia daquele jeito. Deixá-la mais animada talvez fosse divertido.
“Tudo bem.” Michael largou o guardanapo sobre o prato vazio e ficou de pé. “Vamos para o quarto.”