Os Números do Amor
Capítulo 22
Stella havia preenchido metade da papelada necessária para abrir uma vaga de estágio em seu departamento — que contava apenas com ela — quando seu celular vibrou. Ela pegou o aparelho na gaveta e sorriu ao ver a mensagem de Michael.
O que minha Stella está fazendo?
Respondeu a mensagem na hora. Trabalho burocrático.
Quer almoçar comigo?
Ela agarrou o telefone junto ao peito e deu uma voltinha com a cadeira antes de mandar a resposta. Quero.
Stella havia pedido comida, mas ela continuava intocada sobre a mesa. Podia muito bem guardar na geladeira e consumir no dia seguinte.
A resposta dele fez seu sorriso se abrir ainda mais.
Passa na loja da minha mãe quando puder.
Stella juntou os formulários do estágio em uma pilha e se preparou para sair. Era sexta, e todos tinham saído para comer num dos muitos restaurantes do centro da cidade. Ela atravessou os corredores e entrou no elevador, esperando sair despercebida.
Philip apareceu pouco antes que a porta fechasse.
“Vai almoçar fora hoje? Posso ir junto?”, ele perguntou.
“Vou encontrar alguém.”
“O mesmo cara?”
Ela assentiu com a cabeça.
“Ele tem sorte.”
Stella olhou para o painel, desejando que os dois andares passassem bem mais depressa.
“Ouvi dizer que vão abrir uma vaga de estágio para trabalhar com você.”
“É verdade.”
“Meu primo seria um bom candidato.”
Os olhos dela saltaram dos números no painel para o rosto de Philip. “Já tenho uma pessoa em mente.”
Ele pôs as mãos no bolso e deu de ombros. “Tudo bem.”
“Quer dizer…” Ela soltou um suspiro. “Pode me mandar o currículo do seu primo.” Por mais que quisesse contratar Janie, precisava ser justa no processo de seleção. Sua integridade profissional estava em jogo. A vaga devia ser ocupada por quem fosse mais qualificado.
Michael entenderia. Sua irmã era mais nova, menor e mais fraca, mas ele não facilitava na luta. Stella precisava fazer um processo seletivo adequado, mas achava que Janie acabaria sendo contratada mesmo assim. Quem amava o que fazia — como a irmã de Michael e ela própria — em geral se saía bem. Mesmo que começasse mal, acabava virando o jogo.
Philip pareceu gostar daquilo. “Ótimo.”
O elevador chegou ao térreo, e ela saiu para o saguão. Philip a seguiu até o carro.
“Você vai ao evento beneficente amanhã, né?”, ele perguntou.
“Como é que você sabe disso?”
“Minha mãe também está no comitê organizador. Mundinho pequeno, né? Enfim, queria saber se você já tem companhia. Se eu disser que vou sozinho, minha mãe vai querer escolher alguém para me acompanhar.” Ele sorriu e curvou os ombros de um jeito que o fez parecer uma pessoa muito menos arrogante.
A situação dos dois era bem parecida. Era impossível para Stella não se identificar. “A minha faria a mesma coisa.”
“Sei que você já está saindo com alguém, mas… Antes falou que esperava que fosse sério, como se não tivesse certeza. Esse é seu namorado?”
Ela olhou para o chão do estacionamento. “É complicado.”
“Como assim?”
“Preciso ir. Não quero me atrasar.” Ela levou a mão à maçaneta da porta do carro.
Philip fez menção de colocar sua própria mão sobre a dela, mas deteve o gesto a tempo. Saberia que ela gostava de distância? Talvez ele a entendesse de verdade.
“Isso significa que vocês só estão saindo? Porque você merece mais. Espero que saiba disso. Todas aquelas coisas que eu falei sobre praticar… Era bobagem. Você me intimida, e tentei dar uma de gostosão. Uma idiotice. A única coisa que importa é encontrar a pessoa certa. E acho que você pode ser essa pessoa para mim, Stella. Faz um tempão que gosto de você.”
“Por que está me dizendo isso só agora? Trabalhamos juntos há anos.” Ela não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Philip sempre tinha gostado dela? Dela?
“Porque tenho um monte de questões mal resolvidas, e minha língua trava quando estou perto de você, ou então digo um monte de babaquices. Sou inseguro, então fiquei esperando que me chamasse para sair, mas estou tomando a iniciativa agora. A ideia de você saindo com alguém que não te valoriza me deixa maluco. Pra mim você é perfeita, Stella.”
Ele a considerava perfeita? Alguém a considerava perfeita. Stella sentiu um aperto no peito, e seus olhos começaram a arder. “Não sou perfeita. Tenho… questões mal resolvidas também.”
“Eu sei. Sua mãe contou pra minha. E ela me contou. Tenho um monte de problemas também, que mudam de nome sempre que troco de terapeuta. Somos feitos um para o outro. Você é perfeita para mim.”
Mas Philip não era perfeito para ela. Poderia ter sido, caso as coisas tivessem tomado um rumo diferente. Houve um tempo em que Stella gostaria de descobrir se existia um cara legal por trás daquela fachada. Ela não podia condená-lo por ser considerado arrogante, já que ela própria era vista da mesma maneira. Além disso, sempre desejara que no fundo ele fosse uma boa pessoa. Significaria que havia esperança para ela também.
“Lamento muito, Philip, mas já combinei de ir ao evento com esse cara. Não tenho como desfazer o convite. Nem quero, aliás. Estou obcecada por ele.”
Uma expressão teimosa surgiu no rosto de Philip. “Obsessões passam.”
“Não as minhas.”
“Garanto que é só uma fase. Você não está apaixonada”, ele falou, cheio de certeza.
Os lábios dela se abriram. Apaixonada? Então era aquilo que estava acontecendo?
Ela estava apaixonada por Michael?
“Como pode saber?”, Stella perguntou.
“Sei porque é por mim que você vai se apaixonar. Por mim”, ele insistiu.
“Philip, o que quer que você esteja fazendo, é melhor parar.”
“Você precisa dar uma chance pra gente.”
Ele deu um passo à frente e se inclinou em sua direção.
Ela tentou recuar, mas já estava encostada no carro, então virou o rosto. Philip não estava usando perfume demais, mas havia algo de errado com seu cheiro. Stella pôs as mãos espalmadas no peito dele para afastá-lo. A sensação também tinha algo de errado. Ele não era Michael.
Os lábios dele tocaram os dela. Pele seca contra pele seca. Uma língua molhada escorregou para a boca de Stella, e seu coração congelou. Seu corpo todo travou. Era como se revivesse as três experiências anteriores.
Tudo errado, tudo errado, tudo errado.
Ela se contorceu e limpou a boca com a manga. Uma sensação sinistra e imunda se espalhou, por dentro e por fora dela.
Philip fez uma careta, levantou o queixo e cerrou os punhos. “Você só precisa se acostumar comigo, Stella. Assim como fez com aquele babaca.”
Ela deu um empurrão no peito dele, afastando-o. “Nunca mais faça isso.”
Com o coração disparado e as mãos trêmulas, Stella entrou no carro. Quando chegou à lavanderia, já havia se acalmado, mas a sensação de sujeira persistia. Precisava escovar os dentes.
Dentro do estabelecimento, viu Michael ajoelhado ao lado de um senhor de idade, marcando com alfinetes as bainhas de uma calça. Ele próprio estava de calça jeans e camiseta preta, com a fita métrica, a almofada de alfinetes e o lápis à mão. Ela adorava vê-lo trabalhar. Devia ser igual quando estava em Nova York, criando modelos em mesas de desenho e ajustando tecidos em manequins.
Como se pressentisse sua presença, ele ergueu os olhos e sorriu ao vê-la.
Stella fez menção de retribuir, mas o gosto ruim na boca a recordou do incidente no estacionamento. E se Michael a beijasse depois de Philip ter feito aquilo? Seria nojento. “Banheiro. Preciso ir ao banheiro.”
Michael ficou de pé, com uma expressão incomodada no rosto. “Lá nos fundos.”
Ela correu, localizou a porta e abriu a torneira. Ensaboou as mãos e depois lavou os lábios e a língua. Em seguida encheu a boca de água, fez bochecho e cuspiu, repetindo o processo diversas vezes.
Michael abriu a porta do banheiro e viu Stella lavando a boca como se tivesse comido alguma coisa podre. Estaria doente? Suas entranhas se reviraram e sua mente automaticamente se voltou para os cenários mais catastróficos, com os quais estava bem mais acostumado do que deveria.
A porta se fechou atrás dele, que se aproximou e acariciou as costas tensas de Stella. “Ei, o que foi?”
Por favor, que esteja tudo bem.
Por um longo momento, o silêncio permaneceu, a não ser pelo barulho da água correndo. Com a testa franzida, ela observava a água escoar pelo ralo. Então o olhou através do espelho, fechou a torneira e falou: “Um colega de trabalho me beijou”.
Michael sentiu suas entranhas congelarem e uma raiva fria se espalhar pelo corpo. Com o treinamento que tinha, não era do tipo que saía arrumando briga. Mas quando entrava em uma era para valer. E entraria naquela em particular com o maior prazer. Suas juntas estalaram quando ele cerrou os punhos.
“Qual é o nome dele? E a cara? Onde ele está?” As perguntas saíram num tom duro e implacável. O filho da puta acabaria no hospital.
Ela se virou para encará-lo, arregalando os olhos. “Por quê?”
“Ninguém pode beijar você contra sua vontade, Stella.”
“Está pensando em fazer alguma coisa contra ele? Não quero que se meta em encrenca.”
“Você passou um minuto lavando a boca. Agora vou lavar a dele.” Com sangue.
Ela remexeu os dedos enquanto pensava em alguma coisa para dizer. “Já estou bem. Viu?”
“Se não estivesse, ele seria um homem morto”, Michael grunhiu.
“Quer parar com isso, por favor?”
Michael sacudiu a cabeça, incrédulo. Alguém a havia tocado, beijado, enfiado sua língua imunda na boca dela. “Como é que você consegue ficar tão calma? Por acaso queria ser beijada?”
“Não, mas…” Stella desviou os olhos. “Houve um momento que talvez sim.”
Um pensamento terrível passou pela cabeça dele. “Foi por isso que me contratou? Para treinar para esse cara?”
O rosto dela ficou todo vermelho. “Ta-talvez. Ele parecia uma boa opção. Mas não quero saber dele agora, o que é bem irônico, porque…” Stella se deteve, com uma careta.
“Porque o quê?”
“Hoje ele me disse que gosta de mim faz um tempão. E que acha que sou perfeita para ele.” Com um olhar cauteloso, ela complementou: “E que não liga se sou diferente”.
Para Michael, foi impossível segurar a vontade de abraçá-la. Ele mesmo não havia dito aquelas coisas, mas não queria dizer que não as sentia. “Isso porque você é perfeita para qualquer um. Tudo o que te torna diferente faz parte dessa perfeição.”
“Não sou perfeita, Michael. Não mesmo”, ela falou com um tom de voz dolorido.
“Você retribuiu o beijo?” Àquela altura, era a única coisa que poderia torná-la imperfeita aos olhos dele. Mas talvez nem aquilo.
Stella sacudiu a cabeça. “Não.”
“Você gostou? Quando ele te beijou?” Michael precisava saber.
“Nem um pouco”, ela murmurou.
“Por quê? O que ele fez de errado? Beijava mal?”
“Eu senti que era errado.”
“Por quê?”
“Porque não era você.” O olhar suave no rosto dela o desarmou. Ele faria qualquer coisa para ver essa expressão. Qualquer coisa.
Ele pôs a mão no queixo de Stella e puxou a cabeça dela para cima, tentando ser gentil, apesar do impulso violento que corria em suas veias. “Vou te beijar agora.” Ele precisava. Se não o fizesse, enlouqueceria.
“Não. Ele ainda está na minha boca. Posso sentir seu gosto. Não consigo me livrar.”
Michael soltou um grunhido furioso. “Preciso disso, Stella.”
Ela fez um leve aceno, e ele colou a boca à sua em um beijo profundo. Precisava ajudá-la a apagar todo e qualquer vestígio daquele merda. Stella amoleceu toda e se agarrou a ele. Michael a segurou nos braços, acariciando-a de forma ríspida.
“Ainda está sentindo o gosto dele?”, murmurou com os lábios colados ao dela.
“Não”, Stella respondeu, ofegante.
Michael abriu a saia dela e enfiou a mão por baixo da calcinha, quase grunhindo quando sentiu a umidade nos dedos. Para quem era aquilo? Para ele ou para o colega de trabalho?
“Michael.”
Ouvir seu nome tranquilizou alguma coisa enraizada dentro dele. A necessidade de ouvi-lo de novo o dominou. Michael baixou a saia dela até os calcanhares, abriu a braguilha da calça e pôs o pau para fora. Em seguida pegou uma camisinha no bolso e colocou.
Quando Stella começou a baixar a calcinha, ele fez que não com a cabeça. Ele passou uma perna dela ao redor do próprio quadril e a prensou contra a parede de azulejo.
Ela soltou um ruído de impaciência. “Não me provoca, Michael. Preciso de você.”
Ele puxou a calcinha de lado e a penetrou com estocadas fortes e rápidas, se enterrando dentro dela. A respiração de Stella acelerou, e ela começou a gemer seu nome, deixando-o louco de tesão. Michael passou a língua em cada cantinho da boca dela, ajustando o quadril para roçar também no clitóris.
O corpo dela firme nos seus braços, aquela boca doce, as pernas em torno da sua cintura, a respiração quente no seu pescoço — era a perfeição. Ele apreciava cada pedacinho de Stella. Seu coração trovejava, seu sangue corria a mil. O desejo se transformou em desespero para aliviar a tensão, mas ele se segurou, determinado a esperar por ela. Quando Stella desmoronou e começou a se contorcer de forma incontrolável, Michael aumentou ainda mais o ritmo.
Segurando-a pelos quadris e pelas coxas, ele colou a testa na dela para ver aqueles olhos inebriados e deu uma última estocada, deixando tudo o que havia dentro de si dentro dela e se perdendo por completo. Enquanto tentava controlar a respiração, continuava abraçando-a com força. Nunca mais queria soltá-la.
Quando enfim encontrou forças para se afastar, ele a colocou de pé e jogou a camisinha no lixo. Em seguida se limpou, desfrutando do olhar de admiração dela. Stella não olhava para mais ninguém daquele jeito. Só para ele.
Depois de passar quase um mês morando juntos, tinha certeza daquilo. Havia partes de si — muitas partes, as melhores — que ela só compartilhava com Michael, o que o ajudava a esquecer que o relacionamento dos dois não era de verdade.
Mas era preciso lembrar. Stella não queria ser beijada pelo colega de trabalho, mas, se quisesse, não havia nada que a impedisse. Não estavam numa relação monogâmica. Ele não era namorado, noivo ou marido dela. Stella era uma cliente, e ele era um… prestador de serviços. Aquilo soava muito mal, mas era verdade. Michael não tinha o direito de defendê-la ou de ser possessivo. Ela estava pagando por sua ajuda — ou pelo menos achava que estava —, e ele precisava manter uma postura distanciada e profissional.
No entanto, se apaixonara. Quando os dois por fim se separassem, aquilo acabaria com ele. Mas para ela seria melhor. Stella saberia ficar à vontade ao lado de outra pessoa, saberia o que esperar de um relacionamento, saberia como era se sentir amada. Jamais ia se contentar com menos.
Apelando para os anos de experiência como acompanhante profissional, ele conseguiu abrir um sorriso e dizer: “Preciso comprar uma nova para você”.
Uma expressão confusa surgiu no rosto dela. Ele apontou com o queixo para a costura lateral rasgada da calcinha, na qual Stella vinha mexendo distraidamente durante todo aquele tempo.
Ela sorriu e pôs a mão na cintura. “Tudo bem. Posso fazer isso.”
“Eu não ligo. Mas, na maioria dos casais, quem compra as roupas íntimas é a mulher, né?”
Ela inclinou a cabeça para o lado. “Por que você acha que isso acontece?”
Ele encolheu os ombros. “Mulheres costumam cuidar das pessoas que amam.”
Quando ele disse aquilo, Stella respirou fundo, surpresa. Um olhar de descoberta iluminou seu rosto antes que ela se voltasse para o vazio, se concentrando nos próprios pensamentos.
“Cadê você?” Michael acenou até que ela voltasse a ele. Era típico de Stella, e ele sorriu, apesar do vazio que sentia no peito. Adorava como ela era brilhante. E tudo o que fazia por ele. Cada coisinha. “Está pensando no trabalho, né? Eu aqui falando da calcinha rasgada com o sexo selvagem no banheiro e você concentrada em econometria.”
Ela franziu o nariz para ajeitar os óculos. “D-desculpa. Às vezes não dá para evitar. Tento não ficar divagando, mas…”
“Só estou provocando você. Adoro esse seu cérebro”, ele confessou. Como não conseguia se segurar mesmo estando triste, beijou a boca dela, uma vez, duas vezes, e uma terceira. “Vamos lá, a Ngoa.i logo mais vai precisar usar o banheiro. E eu tenho uma coisa pra te mostrar.”
Stella soltou um suspiro surpreso quando Michael tirou um cabide de um gancho na parede, revelando um vestido branco e curto, de tecido macio. “É para mim?”
“Tive que chutar as medidas, então deve ter uma tonelada de ajustes para fazer. Pode experimentar para mim?”
Ela ficou olhando para a peça, admirada. Seu vestido Michael Larsen.
Stella se fechou no provador sem espelho e tirou a roupa às pressas. Era um tomara que caia, o que a impedia de usar sutiã, mas com forro de seda. Não havia uma única costura exposta para pinicar sua pele. Estava ansiosíssima para ver como ficaria no corpo.
Segurando o vestido na altura do peito, ela saiu e virou. “Pode fechar o zíper para mim, por favor?”
Ele roçou os lábios de leve em sua nuca enquanto fechava o zíper das costas, com um barulhinho familiar e uma proximidade que a fez estremecer inteira. O caimento era perfeito. Até melhor que o das roupas de ginástica que ela tinha passado a adorar. Quando Stella se virou, Michael a avaliou com olhar crítico e os braços sensuais cruzados.
“Posso ver?”, ela murmurou.
Um sorriso genuíno se formou nos lábios dele, que apontou com o queixo para a plataforma com espelhos em que fazia as provas de roupas dos clientes.
Quando subiu, ela sentiu seu coração parar, ser reiniciado e voltar a bater. A peça acompanhava as curvas de seu corpo do peito aos joelhos. O tecido caía de tal forma que dava a impressão de que tinha a cintura fina de uma miss. E seus mamilos ficavam bem escondidos.
Era perfeito. Simples. Discreto, mas ousado. A cara dela.
Stella passou as mãos nos quadris, virou e mais uma vez se admirou ao ver o vestido de costas. Sua bunda nunca tinha parecido tão empinada e voluptuosa. Ela apoiou a mão na curvatura da nádega e ouviu Michael pigarrear.
Ele subiu na plataforma e passou os dedos nas laterais do corpo dela. “Gostei do caimento. Minhas mãos conhecem bem seu corpo.”
“Adorei. Obrigada, Michael.”
“É um presente. Por todos os aniversários que passaram antes que a gente se conhecesse. Quando é seu aniversário, aliás?”
O interior do corpo dela borbulhava como uma taça de champanhe. Um presente. De Michael. Que ele havia feito com as próprias mãos. Cada costura, cada linha, cada pedaço de tecido — tudo escolhido para ela. “Vinte e um de junho. E o seu?”
“Um dia antes! Mas sou dois anos mais novo que você.”
“Te incomoda eu ser mais velha?” Ela sabia que os homens costumavam preferir mulheres mais novas.
Ele sorriu. “De jeito nenhum. Sempre tive uma queda por mulheres mais velhas. A imagem da sra. Rockaway se agachando de saia para pegar o apagador está gravada na minha mente.”
“Sra. Rockaway?” Uma sensação desagradável tomou conta de Stella.
“Minha professora de química no segundo ano. Espero que esteja com ciúme, para saber como me senti quando ouvi que o Dexter beijou você”, ele disse, passando as pontas dos dedos em seus braços.
“Dexter?”
“Ou Stewart. Também é um bom nome para o tipo de cara que estou imaginando.”
“Esquece isso.”
“Mortimer.”
Ela deu risada. “Não.”
“Niles.”
“Michael.”
“O nome dele é Michael também?”
“Não. Você é o único Michael. E por que quer saber o nome dele?”
Michael ficou em silêncio por um momento antes de bufar e responder: “Melhor nem saber. Já que você não quer que eu dê uma surra no filho da puta”. Ela ficou tensa com a linguagem violenta, então Michael abriu um sorriso suave.
Stella prendeu a respiração, sem saber o que dizer. Não estava preocupada com Philip, e sim com Michael. Se ele fosse atrás de seu colega, as consequências poderiam ser terríveis. Processo judicial, cadeia, denúncia no RH. Um beijo nojento não valia toda aquela dor de cabeça.
“Que bom que gostou do vestido”, Michael falou com uma expressão mais branda. “Quero ver você com ele amanhã.”
Depois de almoçar sopa de peixe com abacaxi e salsão com uma tigela de arroz para acompanhar, Stella voltou correndo para o escritório. Queria dar mais uma olhada nos dados.
Philip fez um aceno quando ela passou, mas Stella não tinha tempo a perder com ele. Entrou na sala, jogou a bolsa na gaveta, sentou e começou a clicar até encontrar a função que havia formulado para o comportamento dos consumidores homens em relação a cuecas de alta qualidade. Era uma equação elegante, com cinco variáveis-chave que incluíam fatores como idade e renda.
Ela conseguiu reduzir a aquisição de cuecas por homens a uma única variável binária, β, que associou a marcadores como gastos mais elevados com jantares e presentes luxuosos. Parecia contraintuitivo que, em um período de grandes gastos, os homens parassem de comprar cuecas. Mesmo as da mais alta qualidade não eram tão caras.
As palavras de Michael voltaram à sua mente enquanto analisavam tudo. Mulheres costumam cuidar das pessoas que amam. De alguma forma, Stella havia usado os dados de consumo, a matemática e a estatística para quantificar o amor em uma única variável.
β era amor.
β era zero ou um. Sim ou não.
E estava ligada de forma impressionante à época em que os homens deixavam de comprar suas próprias cuecas. Não era uma regra absoluta, claro. Ninguém gostava de ser totalmente previsível. Mas havia uma tendência perceptível. Apostando com base naqueles dados, a probabilidade de ganhar era maior que a de perder.
Quando uma mulher comprava cuecas para um homem, era porque o amava.
Stella era perfeitamente capaz de comprar roupas íntimas.
Ela saiu do trabalho mais cedo naquele dia para ir a uma loja. Quando voltou, embrulhou a compra com um laço vermelho e escondeu no fundo da gaveta de seu armário em que Michael estava guardando suas cuecas. Se ele parasse de comprá-las, significaria que estava apaixonado por ela.
Se a amasse, os rótulos não fariam diferença. Ela poderia contar tudo.