Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 9 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 9

 

“Não faz bem comer a sobremesa primeiro, sabia?”, Stella comentou.

Ela sabia que estava sendo pedante e tediosa, mas não conseguia deixar de tagarelar quando estava nervosa. Sua ansiedade em relação à casa noturna crescera exponencialmente desde a semana anterior, e o evento principal seria dali a poucas horas....

Além disso, Michael estava segurando sua mão.

Sua palma suava tanto que ela não sabia como ele ainda conseguia tocá-la, muito menos agir como se fosse a coisa mais natural do mundo. Estranhamente, ela lidara melhor com as preliminares do que com aquilo — até acabar interrompendo tudo, era verdade —, e no momento pelo menos estava vestida. Era impossível culpar sua habitual aversão ao toque. Ela gostava de ser tocada por Michael.

Os dois caminhavam de mãos dadas por uma calçada movimentada de San Francisco, e parecia que todas as pessoas que passavam sorriam para eles. Um velhinho de boina até deu uma piscadela para ela.

Todos pensavam que eram um casal.

Stella teria dado risada da situação se não sentisse que de alguma forma era alvo de uma pegadinha maliciosa. Um grupinho de meninas de vestidos curtos passou, lançando olhares para Michael, dando risadinhas e cochichando. Encararam Stella com uma inveja palpável de que ela até gostou, apesar de saber que não merecia. De terno cinza e camisa social preta, Michael estava especialmente tentador naquela noite.

“É aqui.” Ele soltou sua mão e abriu a porta para que entrassem em uma sorveteria à moda antiga, com piso xadrez preto e branco. Lustres cor-de-rosa iluminavam os congeladores cheios de sabores e coberturas. “Qual é seu sorvete favorito?”

Stella não conseguia nem pensar com a mão dele pousada na base de suas costas. Michael sabia o que estava fazendo? Ela já tinha visto caras fazendo aquilo com a namorada. Mas Stella não era namorada dele.

“Menta com gotas de chocolate”, ela respondeu.

“Sério? É o meu também. Vou pedir outra coisa então, pra gente dividir.” Ele acariciava distraidamente a cintura dela enquanto avaliava os sabores, fazendo seu corpo todo esquentar.

“Espera, como assim?”

Um sorriso malicioso surgiu nos lábios dele. “Não quer dividir?”

A garota com jeito de universitária atrás do balcão olhou para Stella como se ela tivesse acabado de dar um pontapé num filhote de cachorro.

“Não, não é isso.” Não exatamente. Depois de tantos beijos, ela sabia que era bobagem se preocupar com a troca de germes. Ela fizera uma análise detalhada dos sabores de sorvete e escolhera o melhor. “É que já sei do que gosto.”

“Isso a gente vai ver.” Ele deu um tapinha no vidro do balcão. “Menta com chocolate para ela e chá verde para mim.”

Stella queria pagar, mas ele tirou as notas da carteira antes que ela conseguisse sacar o cartão de crédito. Quando eles se sentaram a uma mesa preta de metal perto da janela, Michael enfiou a colher no sorvete, saboreou e abriu um sorriso lento e largo enquanto tirava a colher da boca e pegava mais um pouco.

“Que coisa ridícula”, ela comentou. “Parece que você está fazendo um teste para um comercial da Häagen-Dazs. Ninguém sorri desse jeito depois de tomar sorvete.”

Ele achou graça. “É bom mesmo.” O sorriso voltou com toda força, acompanhado de uma covinha.

“Agora eu preciso experimentar.” Ela levou a colher ao pote dele.

“Ahá!” Em vez de deixar que ela pegasse uma colherada, ele levou a própria colher à boca dela. Os olhos dela se arregalaram, e pensamentos conflitantes surgiram em sua cabeça.

Ela não deveria fazer aquilo. Era intimidade demais. Estaria cruzando um limite. Pareceria coisa de casal — o que eles não eram.

Era só sorvete. Só uma colher. Michael poderia encarar como uma rejeição caso ela não aceitasse, e ela não queria de jeito nenhum magoá-lo, nem mesmo de leve.

Então abriu a boca e deixou que ele lhe desse o sorvete. Seu coração batia acelerado e seu peito parecia uma máquina de pinball enquanto o sorvete de chá verde derretia na sua língua. Michael a observava com expectativa, ignorando o efeito que exercia sobre ela.

“Tá, é gostoso.” Ela tentou parecer casual. Aquilo não significava nada. Não era um encontro romântico. Stella era só mais uma cliente. Mantenha a cabeça fria. Ela enfiou a colher em seu próprio sorvete.

“Eu falei.”

“Ainda gosto mais do meu.” Stella levou uma colherada de menta com chocolate à boca. A complexa combinação explodiu no céu de sua boca. Seus dentes trituraram os pedaços de chocolate. Perfeição pura.

“Me deixa experimentar.”

Ela estendeu o pote para ele, mas Michael não usou sua colher para provar. Passou os dedos em seu queixo e empurrou sua cabeça para trás para beijá-la. A língua dele entrou em sua boca, e seu gosto salgado se misturou com o do sorvete. Ela não sabia se ficava perplexa, chocada, excitada ou as três coisas.

Com uma longa lambida no lábio inferior, Michael se afastou e sorriu, abrindo seus olhos escuros, intensos e misteriosos.

“Não acredito que você fez isso.” Sem saber o que fazer, ela tentou pegar mais sorvete. A colher de plástico caiu sobre a mesa.

Stella a apanhou, mas a mão de Michael pousou sobre a sua. Então ele a beijou de novo — um beijo doce, de lábios fechados, mas que ainda assim pareceu escandaloso. E delicioso demais para resistir. A sorveteria desapareceu, assim como as outras pessoas. Naquele momento, havia apenas os dois, o gosto do sorvete e dos lábios deles, que pouco a pouco iam esquentando.

 

Quando Michael enfiou a língua entre os lábios afastados de Stella, a doçura sedosa e gelada do sorvete de menta com chocolate na boca dela o deixou maluco. Ele se esqueceu de que a estava seduzindo. Se esqueceu até do motivo. Só conseguia se concentrar no gosto e em sua respiração quente. Queria devorá-la.

Ela percebia que gemia baixinho quando retribuía seus beijos? Ou que seus dedos frios se infiltravam sob o punho da camisa dele e acariciavam sua pele?

Michael queria passar as mãos naquelas coxas descobertas e enfiá-las por baixo da bainha curta do vestido para poder tocá-la de novo. Mas, da última vez que o fizera, ela ficara morrendo de medo.

Porque não queria repetir com ele a experiência que tivera com os três babacas anteriores.

As clientes nunca se preocupavam tanto com ele. Por que ela sim? Seria melhor parar com aquilo. Estava virando sua cabeça de ponta-cabeça.

“Calma aí”, uma voz risonha interrompeu. “Vocês estão num local público.”

Stella se afastou, levando os dedos trêmulos aos lábios vermelhos. Ela o pegara de surpresa naquele dia trocando os óculos por lentes de contato e deixando os cabelos soltos em ondas compridas. Até estava maquiada, mas o beijo já arrancara todo o gloss. Tudo bem. Daquele jeito, ela parecia linda demais para ser real.

Quando o grupo de engraçadinhos na mesa ao lado começou a aplaudir e gargalhar, Michael pensou que ela fosse ficar toda sem graça. Não foi o que aconteceu. Stella baixou a cabeça daquele seu jeito tímido e riu junto. O sorriso suave e o brilho no olhar dela, porém, eram só para ele, e o faziam se sentir como se tivesse vencido um exército inteiro sozinho. Era só Michael que ela via, só para ele que sorria, e ninguém mais.

Seu plano de seduzi-la para aliviar sua ansiedade estava funcionando. Sem dúvida, quando a levasse para casa naquela noite, Stella estaria pronta para preencher os principais quadradinhos dos planos de aula. Era o que ele deveria ter feito desde o início. Todo mundo sabia que, para levar uma mulher para a cama, o lugar certo onde começar não era o quarto. Era ali que entravam a sedução, o romance, o carinho e a dança. E o sorvete.

O problema era que aquelas coisas estavam funcionando no sentido inverso também. Quanto mais tempo passava com Stella, mais a atração de Michael por ela crescia — e não só em termos físicos. Se não conseguisse preencher todos os quadradinhos nas duas aulas que restavam, precisaria prolongar o acordo, o que não era uma boa ideia. Ele correria o risco de cair na besteira de se apaixonar por ela.

Jamais passaria por sua cabeça que as circunstâncias em que estavam poderiam ser revertidas em um cenário de conto de fadas. Além de estarem em mundos diferentes em termos de formação acadêmica e cultura, Stella era rica. Se ficasse sabendo do pai dele e das merdas que fazia para ganhar dinheiro, jamais confiaria em Michael. Ditados como “tal pai, tal filho” existiam por um motivo. Ele se rebelava contra aquilo e detestava o pai pelo que tinha feito, mas carregava dentro de si os mesmos defeitos. Era uma bomba-relógio ambulante, não queria que Stella estivesse por perto quando seu tempo acabasse e ele explodisse, destruindo tudo e todos ao seu redor.

O sexo era sua saída daquela situação. Preencher os quadradinhos, finalizar as aulas e seguir em frente. Só que, agora que a conhecia melhor, queria ser mais que o professor que ia ensiná-la a ser boa de cama. Queria proporcionar as melhores noites da vida dela.

E aquela noite seria digna de fogos de artifício.