Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 4 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 4

 

Michael esfregou os lábios para esconder um sorriso quando Stella sentou na beiradinha da cama e cruzou as mãos sobre o colo. Se ele a beijasse, ela iria ao chão. Era o tipo de garota que perdia as forças quando se excitava. Ele adorava aquilo. Cada esforço necessário para derrubar as barreiras dela tinha valido a pena.

Stella parecera bonita antes, mas daquele jeito ficava linda além da conta. Livres do coque, suas mechas compridas emolduravam o rosto. A excitação iluminava seus olhos cor de chocolate, e os lábios estavam inchados por causa dos beijos. Maravilhosa. Michael quase desejou poder encontrá-la de novo depois daquela noite.

Em vez de se sentar ao lado dela, ele se acomodou no meio da cama king-size, se apoiou sobre um dos cotovelos e deu um tapinha no espaço ao seu lado. Depois de uma hesitação momentânea, Stella se deitou junto a ele, despencando no colchão, com os olhos voltados fixamente para cima. Era possível ver as veias pulsando sob seu queixo. Ela estava tensa como se esperasse um eventual ataque.

Michael precisaria se esforçar mais.

“Vou beijar você de novo.” Como pressentiu que Stella precisava ser avisada, acrescentou: “De língua”.

“Tudo bem.”

Ele se inclinou e a beijou, voltando ao início com roçadas leves dos lábios e lambidas provocativas antes de dominar sua boca de novo. Stella não sabia mesmo beijar, mas era divertido senti-la aprendendo. O que não tinha de habilidade compensava com entusiasmo.

Ela o beijava com movimentos destreinados da língua, seguindo sua boca enquanto ele tentava recuar para diminuir ainda mais a iluminação do quarto. Sua experiência dizia que ela se sentiria bem mais confortável com o mínimo de luzes possível.

Michael tentou alcançar o interruptor sem deixar de beijá-la. Stella enfiou os dedos nos seus cabelos. A única coisa que o enlouquecia de verdade — além de sexo oral — era uma mulher mexendo em seus cabelos. As unhas dela arranhavam seu couro cabeludo, exercendo a pressão ideal para fazer uma onda de prazer percorrer sua espinha. Ele se esqueceu das luzes.

Sua mão percorreu o corpo dela, agarrando o peito pequeno. Apesar da camisa e do sutiã, dava para sentir a ponta do mamilo enrijecido. Michael sentiu vontade de beliscar de leve, brincar com ela, mas havia muitas camadas de tecido firme no caminho. Ele a beijou com mais força, e Stella se arqueou na direção de seu corpo. Se não estivesse usando aquela saia justa, teria aberto as pernas. Michael era capaz de apostar que estava toda molhada para ele.

Inclinando-se para trás e respirando fundo, ele avaliou seu efeito. Stella respirava fundo com os lábios entreabertos vermelhos e brilhando. A mensagem em seu olhar era de puro sexo. Estava pronta para mais.

Ele levou o dedo ao colarinho da camisa dela e abriu o primeiro botão.

Foi como acionar uma chave, tão drástica foi a mudança. Em um momento, o corpo dela estava relaxado e entregue. No seguinte, ficou tenso como um elástico esticado até o limite. O rosto dela empalideceu. Sua expressão passou de sensual a assustada. Stella baixou as mãos ao lado do corpo e cerrou os punhos.

“Stella?”

Ela engoliu em seco e começou a desabotoar a camisa. “Desculpa. Pode deixar que eu abro.” Com gestos descoordenados, soltou um botão, depois outro.

Michael pôs a mão sobre a dela para interrompê-la. “O que está fazendo?”

“Tirando a roupa.”

“Não vou transar com você desse jeito.” Aquilo era errado. Ele nunca tinha feito sexo com uma mulher que não estivesse cem por cento a fim, e não ia começar àquela altura.

Stella se virou de costas para ele, com a respiração trêmula. Droga, ela estava chorando. Michael baixou as mãos para tocá-la, então hesitou. Ajudaria ou só pioraria a situação? Porra. Precisava fazer alguma coisa. Ele não podia deixá-la chorando daquele jeito. As lágrimas o incomodavam mais que qualquer outra coisa. Michael se aninhou junto a ela. Quando Stella tentou se desvencilhar do abraço, ele apertou mais forte. Como era possível? Tinha sido só um botão.

“Desculpa. Não queria ter feito isso. O que aconteceu? Por acaso alguém… abusou de você? Foi por isso que se fechou assim?” A ideia de que ela pudesse ter sido violentada encheu sua mente de ódio. A adrenalina subiu, preparando-o para uma explosão de violência.

Stella cobriu os olhos com as palmas das mãos. “Não. Só sou assim. Você pode continuar para podermos estabelecer o parâmetro, por favor?”

“Stella, você está tremendo e chorando.” Ele limpou as lágrimas do rosto dela com carinho.

Ela esfregou os olhos e respirou fundo. “Já parei.”

“Outros homens transaram com você nesta situação?” Ele se esforçou para manter o tom de voz suave, mas suas palavras saíram duras mesmo assim. A visão de um babaca suando em cima dela toda pálida e assustada fez seus punhos se cerrarem.

“Três.”

“Mas que porra…”

Michael foi interrompido quando ela virou para ele com a expressão magoada.

“Não estou bravo com você. É com esses caras. Comigo mesmo.” Um vinco se formou entre as sobrancelhas dela, e ele alisou com a ponta do dedo. “Você precisa de alguém que pegue mais leve. Que vá mais devagar.”

“Você está pegando mais leve comigo. A esta altura os outros já tinham terminado.”

“Não quero nem falar deles”, Michael resmungou.

Stella desviou os olhos e segurou a camisa fechada. “E agora?”

Michael não tinha ideia. Teria que ser ultralento. Olhou ao redor da suíte do hotel em busca de inspiração. A TV enorme pendurada na parede diante da cama chamou sua atenção. “Vamos ver um filme abraçadinhos. Depois podemos pensar no lance do parâmetro.”

Ela fez uma careta. “Não gosto muito de abraço.”

“Está brincando?” Michael achava que todas as mulheres adoravam aquilo. Ele mesmo adorava. Pelo menos antes de começar a fazer programas. Ficar abraçadinho com uma cliente era no máximo tolerável, mas seus instintos diziam que naquele caso se fazia necessário.

“Mas talvez com você eu goste. Acho que é o seu cheiro. Meio que provoca uma guerra biológica dentro de mim.”

“Então está me dizendo que sou seu calcanhar de aquiles?” Ele até que gostou de saber daquilo. Os dois talvez nunca mais se vissem, mas ela ia se lembrar dele. Michael com certeza ia se lembrar dela.

Em vez de sorrir, como ele imaginou que Stella faria, ela ficou observando seu rosto. Encarou seus olhos por uma fração de segundo antes de levantar da cama e ir para o banheiro. Depois de um tempão lá dentro, voltou com os óculos, trazendo nas mãos a camiseta dele, bem dobradinha, e a colocando sobre o criado-mudo. Em seguida pegou o controle remoto, sentou do outro lado da cama e ligou a TV. Sua expressão ao ler o guia de programação, totalmente concentrada, exalava frieza. Com suas roupas de trabalho, ela parecia estar em uma reunião de negócios — a não ser pelos cabelos soltos. “O que você quer ver?”

O distanciamento repentino dela não deveria incomodá-lo, mas incomodou. Ele queria a Stella de antes. “Nada coreano, por favor. Minhas irmãs morrem de rir quando eu choro.”

A frieza dela se derreteu. Seus lábios se curvaram em um sorriso e tudo voltou a ser como deveria. “Sério?”

“Quem não choraria? Todo mundo morre nessas histórias. Tem um monte de mal-entendidos. A mocinha grávida é atropelada por um carro.”

O sorriso dela se alargou, apesar de ainda parecer quase tímido. “Essa é minha minissérie preferida. Que tal algo com mais ação e menos drama?” A página com a descrição de O grande mestre, um dos melhores filmes de artes marciais de todos os tempos, apareceu na tela.

“Não precisa ver isso só por minha causa.”

Ela revirou os olhos e apertou o botão para começar o filme.

“Espera”, Michael falou, tomando o controle de sua mão para pausar a exibição. “Tem mais uma coisinha.”

“Que coisinha?”

“Você precisa tirar a roupa.”

* * *

Stella fechou a camisa desabotoada, sentindo como se as paredes tivessem se fechando sobre ela.

“Por quê?”, ela perguntou.

“Por que não?”

Porque ela preferia ficar vestida. Precisava da restrição provocada pelo tecido para se sentir segura. Porque não gostava de seu corpo. Porque sempre que tirava a roupa para um homem, ele a usava e jogava fora.

Ela umedeceu os lábios e disse a mais elementar das verdades: “Não estou acostumada a esse tipo de coisa”.

Além disso, estava exausta. Era tanta coisa nova acontecendo ao mesmo tempo que se sentia quase em estado de choque. Uma vontade desesperadora de ir para casa a consumia, mas seria covardia. Ela tinha uma missão. Quando decidia alguma coisa, era obstinada como sua mãe.

A reação dele se limitou a um soerguer de sobrancelha, então ela perguntou: “Acha mesmo que isso vai ajudar?”.

“Acho.” Michael espalhou os travesseiros, afastou as cobertas com os pés e se acomodou. Estava tão lindo encostado daquele jeito que por um momento Stella se sentiu em uma capa de revista. As sombras e a iluminação acentuavam as feições do rosto dele, as extremidades daquele corpo masculino, a tatuagem de dragão. Era difícil acreditar que ela havia bagunçado aqueles cabelos, e ainda mais difícil assimilar que o lugar reservado ao lado dele era seu.

Jogando os ombros para trás, ela ficou de pé e levou os dedos frios aos botões da camisa. Enquanto abria os que faltavam, seu coração disparou. O silêncio a ensurdeceu como as turbinas de um avião prestes a decolar. Uma fina camada de suor recobriu sua pele. Ela tirou a camisa e estremeceu.

Dava para sentir o peso dos olhos de Michael sobre sua pele recém-exposta, o que fez suas mãos se atrapalharem ao abrir o zíper da saia. Seus dedos estavam tão rígidos que foram necessárias três tentativas. A saia caiu sobre seus tornozelos, deixando-a com um conjunto simples de calcinha e sutiã cor de pele.

Com os olhos voltados para o teto, ela falou: “Talvez eu precise comprar lingeries melhores. As minhas são assim”.

Ele limpou a garganta antes de perguntar: “Todas da mesma cor?”.

“É a cor mais funcional.”

Stella fez uma careta quando percebeu como soava tediosa e arriscou uma olhada na direção dele, mas Michael não parecia incomodado com sua escolha de lingerie. Talvez algumas de suas clientes preferissem calcinhas de vovó. Mas para elas havia uma hora e um lugar bem definidos. Não era o que Stella estava usando naquele momento.

“Pode ficar assim se quiser. Estou aqui para você, Stella. Não se esqueça de que a última palavra é sua.”

O peso em seu estômago aliviou um pouco. Ela ajeitou os óculos e assentiu com a cabeça. Depois de colocar suas roupas no criado-mudo, junto com a camiseta dobrada dele — que ela havia ficado um bom tempo cheirando escondida no banheiro —, Stella subiu na cama e sentou ao lado de Michael.

Ele a puxou mais para junto de si. “Apoia a cabeça no meu ombro.”

Quando Stella obedeceu, ele pôs o filme. Os créditos de abertura apareceram, com uma trilha sonora dramática. Ela não conseguia se concentrar, apesar de ser um filme de Donnie Yen, que em sua opinião era melhor que Jackie Chan, Chow Yun Fat e Jet Li juntos. Estava quase hiperventilando, seus músculos tão tensos que se sentia prestes a ter câimbras por todo o corpo.

Michael passou a mão em seu braço coberto de suor e a encarou com preocupação. “Está com calor? Quer que eu ligue o ar-condicionado?”

Ela sentiu um aperto no peito. “Desculpa. Posso ir tomar um banho.”

Stella se inclinou para a frente para levantar, mas ele a impediu, abraçando-a com força e acomodando-a no colo. Os dois estavam em contato quase total — o rosto dela no peito dele, os braços dele em volta dos ombros dela, a lateral do corpo dela contra a frente do dele —, e o suor era uma presença incômoda e indisfarçável. Ele devia estar enojado. Stella fechou os olhos com força, fazendo de tudo para tolerar o abraço. Não sabia quanto mais era capaz de suportar.

“Relaxa”, Michael murmurou. “Não me incomodo com suor, e é gostoso abraçar você. Vê o filme. A primeira briga está para começar.”

Ele pegou a mão dela, entrelaçou os dedos nos seus e segurou firme.

Enquanto Michael fingia assistir ao filme — por algum motivo, Stella sentia que monopolizava a atenção dele —, ela olhava para as mãos dos dois, notando o contraste entre a pele morena e bronzeada dele e a sua. Como o restante do corpo de Michael, suas mãos eram obras de arte, com dedos compridos e veias fortes no dorso. Ela franziu a testa quando sentiu calos na palma da mão dele.

Stella abriu a outra mão dele. Um calo enorme cobria a base da palma e outros três, menores, marcavam o espaço entre os dedos médio, anelar e mindinho. Ela traçou os pontos de pele endurecida com a unha.

“O que é isso aqui?” Stella não conseguia entender como a função de acompanhante provocaria calos desse tipo.

“Calos de segurar espada.”

“Está brincando?”

Ele abriu um sorriso torto. “Kendô. Mas lutas de espada de verdade não são nada parecidas com as dos filmes. Nem adianta se empolgar.”

“V-você é bom nisso?”

“Não sou ruim. É só um passatempo.”

Ela não imaginava que alguém com um rosto tão bonito fosse bom de briga, mas era obrigada a admitir que a ideia era animadora. “Sabe abrir espacate?”

“É meu talento secreto.”

“Pensei que ser espadachim fosse seu talento secreto.”

“Tenho vários”, Michael falou, passando a ponta do dedo no nariz dela, depois beliscando sua bochecha de leve.

“E quais são?

Michael se limitou a sorrir e voltar os olhos para a TV. “Olha. Está chegando a parte em que ele mete porrada em todo mundo.”

A pergunta continuou na ponta de sua língua, mas ela sabia que seria falta de educação insistir. Michael havia se esquivado do questionamento de forma proposital. Stella se deu conta de que não sabia quase nada sobre ele. Pouco antes, Michael dissera que só trabalhava nas noites de sexta. O que deixava um bom tempo para dedicar à sua outra vida. O que ele fazia além de ser acompanhante? Sem contar o kendô? Poderia passar o tempo todo malhando e treinando, sete dias por semana?

Talvez sim. Um corpo daquele exigia muito esforço. Michael podia ser um daqueles caras que acordava cedinho, engolia cinco ovos crus e corria quilômetros. Definitivamente o esforço estava compensando — a não ser que acabasse tendo salmonela.

Imagens dele praticando golpes surgiram em sua mente, e Stella até esqueceu de que estava quase nua. Sua respiração se acalmou e seu corpo relaxou. A pressão dos braços dele continuou firme, mas confortável, e os acontecimentos extraordinários do dia voltaram à sua mente. O cheiro dele, o ritmo constante das batidas de seu coração e o volume baixinho de O grande mestre embalaram seu sono.