Os Números do Amor
Capítulo 25
Quando Stella foi pegar os óculos na manhã seguinte, seus dedos esbarraram num pedaço de papel. Com a testa franzida, apanhou-o e aproximou dos olhos embaçados e inchados. Um cheque. Dela. De cinquenta mil dólares.
Ela sentou na cama e passou os dedos trêmulos por ele. O que aquilo significava? Por que Michael não ficara com o cheque?
As palavras da noite anterior voltaram à sua mente.
Aceitei sua proposta porque queria te ajudar.
Não porque queria ficar com ela, nem mesmo pelo dinheiro. Por pena.
Porque ela era autista.
Um sentimento terrível a envenenou, e Stella cobriu a boca para abafar os sons que sua garganta emitia. Ela pensou que estivesse conquistando o afeto dele. Pensou que era especial. Pensou que Michael poderia retribuir seu amor. Mas todo o seu tempo juntos não passara de um ato de caridade. Agora que a boa ação estava feita, ele podia seguir em frente.
A dor que sentia a atingiu de novo com força total, destruindo-a por dentro. Stella não era uma boa ação. Era uma pessoa. Se soubesse como Michael se sentia, jamais teria feito a proposta. Não era um caso de caridade. Seu dinheiro tinha tanto valor quanto o de qualquer outra pessoa. Por que ele o recusara?
Esfregando o rosto irritada, ela disse a si mesma que era forte o bastante para aguentar aquilo. Não ia desmoronar por causa de um homem que não a queria.
Stella fez a cama com gestos bruscos e foi para o banheiro pisando duro. Passou o fio dental mentolado com tanta força que suas gengivas até sangraram. Chegou a pegar a escova, mas algum impulso a fez ir para o chuveiro antes. De forma deliberada, inverteu a rotina habitual do banho, esfregando o corpo de baixo para cima. Não era um robô nem uma autista disfuncional. Era o que era. E aquilo bastava. Podia fazer o que quisesse. Podia se transformar no que quisesse. Podia provar que todos estavam errados.
Quando saiu do chuveiro, estava ofegante. Faria mesmo aquilo, e faria direito. Quando terminasse, seria uma pessoa renovada e incrível. Merecia tudo aquilo.
Stella se secou esfregando a toalha com força. Passou direto pela escova de dente e foi até o closet pegar o vestido preto que Michael adorava. Ia usá-lo sem cardigã. Quem quisesse que olhasse.
Então voltou para a pia e enfim começou a escovar os dentes, vendo no espelho seus olhos faiscando de determinação. Seus cabelos estavam bagunçados, mas não pretendia arrumá-los. Não estava no clima. Outras mulheres permitiam que seu estado de humor afetasse suas atitudes, alterasse sua rotina. Por que não ela?
Depois de engolir a seco uma fatia de torrada, olhou para a casa vazia. Seu corpo clamava por ação, por mudanças, por violência. Não podia ser só mais um dia de trabalho. As pessoas não trabalhavam aos domingos. Quando as lojas abriam, saíam para fazer compras. Encontravam outras pessoas e faziam coisas juntas.
O conceito de “junto” não existia mais para Stella.
Ela sentou diante do Steinway preto e reluzente e levantou a tampa. Automaticamente, começou a tocar os primeiros acordes de “Clair de Lune”, mas era uma música lenta e romântica demais, que a fazia se lembrar de Michael. Deixou de lado a partitura depois do primeiro crescendo. Em vez de permitir que a música voltasse ao ritmo suave, elevou o tom, impregnando-o de uma angústia melódica. Sua garganta se fechou, seu coração se derramava a cada nota.
Aquilo não bastava. Ela transmitiu ao piano sua raiva. Despejou nas teclas acordes em rápida sucessão, como as ondas do mar se chocando contra um penhasco em meio a uma tempestade. Onda após onda de pura raiva. Mas ainda não bastava.
Então fez algo que nunca fizera. Sempre fora uma pessoa gentil. Que falava baixo. Que não ofendia ninguém de propósito. Que adorava música, ordem e padrões.
Ela bateu com força no teclado, produzindo uma avalanche de notas desordenadas. Um aglomerado de caos. Alto, alto, cada vez mais alto. Várias vezes seguidas até suas mãos doerem, seus dentes rangerem, seu corpo inteiro estremecer com a overdose de sons. Àquela altura, começou a bater mais forte, enfrentando o ruído e a si mesma.
Um estalo reverberou em seus dedos e braços. Só então ela afastou as mãos trêmulas das teclas e levantou o pé do pedal, eliminando o ressoar residual das cordas. O retumbar de seu coração em disparada invadiu seus ouvidos.
O piano precisaria ser afinado.
Ela se preocuparia com aquilo depois. O comércio abriria em breve, e ela queria comprar um perfume.
A loja fechava aos domingos, mas alguma coisa fez Michael ir até lá mesmo assim. Ele destrancou a porta da frente e entrou. Depois de passar pela sala de provas vazia, chegou à oficina nos fundos. Uma vez lá, observou a arara motorizada em que ficavam penduradas as roupas da lavanderia, as paredes com linhas de todas as cores e as máquinas de costura verdes.
Aquele era o ganha-pão de sua mãe, que sentia um orgulho imenso de ser dona de um negócio bem estabelecido. De toda a família, ela era a mais bem-sucedida. Ou seria, caso não tivesse sido roubada pelo marido.
Para Michael, aquele lugar era uma prisão. Ele não queria passar seu tempo fazendo ajustes e consertos tediosos. Queria criar alguma coisa a partir do zero.
Ele se dirigiu à escrivaninha no fundo da oficina e abriu a gaveta destinada a seus desenhos. Sentiu a textura fria e familiar do caderno nos dedos, a maciez do papel, depois sentou a uma mesa e abriu numa página em branco, com o lápis na mão.
Em geral, começava desenhando o que determinava o modelo da roupa: o colarinho e os ombros, às vezes a cintura, quando era o ponto central da peça. O rosto do manequim costumava ser só um contorno, um perfil, uma curvatura de um queixo. As pernas e mãos eram traços rápidos, dando apenas uma ideia vaga. Naquele dia, ele começou pelo rosto. Era a única coisa que passava por sua mente.
Olhos com cílios grandes. Sobrancelhas arqueadas. O nariz. Lábios tentadores. Quando terminou, Stella o encarava do papel. Havia capturado a essência dela com perfeição. As mãos dele conheciam cada contorno do rosto dela.
A semelhança foi suficiente para lhe provocar um nó na garganta. Michael pegou o celular no bolso para ver se havia alguma mensagem ou chamada perdida.
Nada. Assim como nas outras noventa e nove vezes em que o havia feito.
Ela disse que ia persegui-lo, que ficaria ligando, e Michael era desequilibrado o bastante para querer aquilo. Se a obsessão fosse a única coisa que poderia ter dela, por ele, tudo bem. Quanto mais drama, melhor. Talvez não restasse alternativa a não ser ficarem juntos.
A tela de seu celular se apagou, e a dura realidade veio à tona. A obsessão dela não era forte o bastante para passar por cima do passado criminoso de sua família, além de todos os seus outros defeitos. Só haviam tido uma relação de aprimoramento sexual.
O telefone vibrou com um alerta do aplicativo da agência de acompanhantes. Por um momento, pensou que pudesse ser Stella, e uma alegria radiante o invadiu. Apesar de saber tudo a seu respeito, ela ainda o queria. Ele abriu o aplicativo o mais rápido que pôde, então viu que era uma cliente nova. Seu estômago se revirou.
Tinha havido um tempo em que ele gostava de variedade nos programas como acompanhante. Agora seu corpo se contorcia de repulsa com a simples ideia de tocar outra pessoa, quanto mais beijá-la e fazer sexo com ela. Ele se sentia… preso a determinado par, como um cisne. Só que um cuja fêmea em questão não o havia escolhido de volta.
Por que escolheria?
Era só ver o número de pessoas com quem tinha transado nos últimos tempos. O que havia produzido de relevante? O que tinha feito da vida? Só lavara roupas. Era um nada. Servia para um test drive, mas não era bom o suficiente para ser levado para casa. Podia se orgulhar de ter elevado a autoconfiança de Stella e provado que era melhor que o próprio pai, mas continuava sendo um imbecil egoísta, e só conseguia pensar em ter mais dela para si.
Num futuro próximo, Stella estaria levando outro homem à loucura — aquele Philip — do mesmo jeitinho que fazia com Michael. As mãos dela tocariam outro corpo, sua boca ia…
Michael levou as mãos aos olhos e respirou fundo para tentar se livrar da náusea. Se Stella ia transar com outras pessoas, ele faria o mesmo. E o quanto antes. Fez menção de ficar de pé, mas se interrompeu. Era domingo de manhã. Não era hora para aquilo.
E ele estava fisicamente incapacitado.
O toque de outra mulher naquele momento faria com que vomitasse. Ou pior, chorasse como um bebê.
Já estava difícil demais manter a cabeça no lugar. Seus olhos e sua garganta ardiam, seu corpo todo doía. Nada de mulheres. A não ser que fosse uma de olhos castanhos gentis, com um sorriso tímido, um amor desmedido por economia e capaz de produzir os ruídos mais deliciosos quando ele a beijasse…
Não. Era preciso dar um basta. Ele agarrou os cabelos e tentou arrancar da mente os pensamentos direcionados a Stella.
Aguenta firme.
Mas Michael estava cansado de aguentar firme. Era o que vinha fazendo havia três anos. Estava aprisionado ali, naquela vida, com aquelas dívidas sem fim. E agora tinha sido aprisionado pelo amor.
Aquele era seu problema. Ele amava demais. Se conseguisse destroçar seu coração e deixar de ter sentimentos, estaria livre. Um frenesi o dominou quando olhou para o papel.
Murmurando para si mesmo um pedido mental de desculpas, ele arrancou a página com a imagem de Stella e a rasgou no meio, depois picou em pedacinhos, que foram ao chão como folhas caídas de uma árvore morta. Em seguida, voltou ao início do caderno. As manhãs ensolaradas com Stella tinham inspirado o vestido branco e amarelo da primeira página. O favorito dele. Michael arrancou a folha e a destruiu. E fez o mesmo com a seguinte. E a seguinte. Todas elas. Depois voltou à escrivaninha nos fundos, pegou todos os seus desenhos e os jogou no lixo. Então abriu a gaveta maior, onde guardava os projetos em que trabalhava em segredo. Cerrando os dentes, rasgou os tecidos, costura por costura, peça por peça, sonho por sonho.
Quando enfim tinha destruído tudo o que poderia ser destruído, observou os restos no chão e o cesto de lixo transbordante.
Tinha funcionado. Àquela altura, não sentia mais nada.
Michael caminhou até a máquina de costura que costumava usar, sentou e observou a pilha de roupas por terminar logo ao lado. Algumas barras de calças para fazer, vestidos para ajustar e um paletó com o forro rasgado. Roupas que outras pessoas haviam criado. Visões que não eram suas.
Era melhor terminar logo com aquilo. Pelo menos lhe daria um respiro durante a semana.
Ele começou a costurar.