Os Números do Amor
Capítulo 16
Enquanto abraçava uma Stella entregue aos seus braços, toda derretida e satisfeita, Michael sentiu seu coração palpitar como se estivesse inebriado.
Aquilo não tinha sido uma simulação de foda num relacionamento simulado, ou sexo pro bono para provar que ele era uma pessoa melhor que seu pai.
Ele já tinha transado com centenas de mulheres, mas nunca sentira uma sintonia como aquela. Nunca se sentira tão desesperado para agradar, ou tão extasiado quando ela gritara seu nome e gozara para ele de novo e de novo.
Não sabia o que tinha sido aquilo, mas com certeza não era só sexo.
Ela o abraçou com mais força, deu alguns beijos desajeitados no seu ombro e no seu pescoço e sorriu para ele, fazendo movimentos circulares em seu peito. Aparentemente não era sempre um mau sinal quando os dedos dela se agitavam, mas aquilo fazia cócegas.
Michael pôs a mão espalmada dela sobre seu coração para impedir que começasse a batucar e tentou assumir um estado de espírito mais profissional. “Olha só você. Vou querer uma avaliação cinco estrelas.”
“Seis estrelas.” O sorriso dela se abriu ainda mais. Aqueles olhos cor de chocolate brilharam e se esqueceram de fugir logo em seguida, permitindo que ele a encarasse de verdade pela primeira vez naquela manhã. Aquilo o fez sentir que ele próprio tinha um valor inestimável, deixando-o sem fôlego.
“Assim você faz mal pro meu ego, que já é grande o bastante”, ele se obrigou a dizer em tom de brincadeira.
“Você não é nada egocêntrico. É confiante, mas bem modesto. É uma das muitas coisas que amo em você.”
Ama?
Ele sentiu uma pontada no peito.
Ela jamais poderia amá-lo. Sentia aquilo com cada fibra de seu ser. O amor exigia confiança, e só uma idiota confiaria nele. Michael era como seu pai.
Mas poderia provar que nem tanto, caso fizesse aquilo direito. Era só o que queria. Ele olhou para o relógio e ficou surpreso ao constatar que não eram nem dez horas. Os acontecimentos daquela manhã pareciam capazes de mudar uma vida, mas os dois estavam acordados fazia só duas horas.
“Estou morrendo de fome e precisando de um café”, ele falou. “E preciso pegar meu carro. Tenho roupas limpas lá.”
Acima de tudo, Michael precisava de espaço. Os dois estavam se aproximando demais, e ele tinha que estabelecer algum distanciamento. Levantou da cama e vestiu a calça, sabendo muito bem que Stella o estava admirando. Apesar de se sentir meio ridículo, desacelerou os movimentos de propósito, e flexionou o abdome ao fechar o zíper e abotoar a calça jeans. Na verdade, se vestir exigia muito menos da musculatura do corpo do que ele gostaria.
“Pode ir se arrumando.”
Ela franziu a testa. “Por quê?”
“A gente vai sair para fazer compras. É o que os casais fazem de domingo.”
Stella contorceu a boca ao observar seu reflexo no espelho. Michael estava apresentando uma nova categoria de vestuário para ela.
Roupas de ginástica.
Principalmente, calças de ginástica.
Ela se sentia no paraíso. Não pinicavam nem um pouco e eram sempre justas. Stella adorava se sentir envolvida pela roupa. E ainda faziam o contorno de suas pernas e sua bunda ficar incrível. Ela parecia uma dançarina. Ou uma iogue. Ou um híbrido de ambas.
“Saia para eu poder ver”, Michael falou do lado de fora do provador.
Mordendo o lábio para esconder um sorriso, ela abriu a porta e saiu.
O sorriso torto dele surgiu com toda a força, mostrando sua covinha por inteiro. “Sabia.”
“Gostou?” Ela passou a mão sobre a barriga e deu uma voltinha bem lenta.
Michael levantou da cadeira e se aproximou, percorrendo suas curvas com olhos desejosos. Ele passou a mão por seu pescoço e seus ombros e por toda a blusa justa de mangas longas para entrelaçar seus dedos. “Adorei.”
“Estou me sentindo bem sexy.”
Michael a enlaçou pela cintura e a puxou para mais perto. “Muito sexy.” Michael roçou os lábios nos dela e depois na orelha e no pescoço, fazendo-a se contorcer toda e segurar uma risadinha que não era nada sexy.
Com o canto do olho, ela viu a vendedora observando a cena. A garota formou com os lábios a palavra “sortuda” sem emitir som. Stella sorriu, apesar de não saber ao certo como se sentia. Nada daquilo era real. Ela estava pagando a ele. Não que se incomodasse com a despesa. Michael valia cada centavo.
“Então vai levar?”
“Uma de cada cor.”
“Vou ter que ser chato aqui. A laranja fluorescente com estampa amarela não. Faz meus olhos doerem”, ele falou com uma careta.
“Certo, a laranja fluorescente com amarelo não. Ah, tem uns vestidos ali.” Seus olhos contemplaram as possibilidades.
Quando eles pararam para almoçar numa pequena padaria em estilo francês no Stanford Mall, estavam com três sacolas enormes de roupas. Michael garantiu que vendiam ali os melhores sanduíches da Califórnia, tirando os asiáticos, o que Stella achou interessante, porque nem sabia o que eram sanduíches asiáticos.
Esperava que os sanduíches da padaria francesa fossem bem altos e recheados de embutidos, mas quando chegaram constatou que eram simples baguetes com peito de peru, queijo suíço e manteiga. Pelo menos ela havia pedido um croissant de amêndoas também. À primeira mordida, sentados a uma mesa do lado de fora, ela descobriu que a baguete era deliciosa.
“O segredo é o pão de qualidade e a manteiga. Se o principal for bom, o resto é acessório”, Michael disse com uma piscadinha. Ela ficou com a sensação de que ele não estava falando só de comida.
Como o movimento não era muito grande e o sol brilhava forte nas ruas, Stella considerou que poderia fazer aquilo de novo. Sua programação normal de domingo tinha sido arruinada, mas ela estava aberta à criação de uma nova para os fins de semana. Era uma pessoa adaptável quando se tratava de Michael.
Ele estava com uma calça cáqui informal e uma camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos, e parecia um modelo de revista — como sempre. Stella se deu conta de que os dois tinham passado a manhã toda comprando coisas para ela. Era muito egoísmo da sua parte.
“Quer ver roupas masculinas?” Ela olhou as lojas ao redor, tentando encontrar alguma que ele pudesse achar interessante.
Michael sacudiu a cabeça com um sorriso divertido. “Não, obrigado.”
“Tem certeza? Não quer que eu compre alguma coisa para você?” Ele abriu uma expressão desconfortável, e o coração dela disparou. Stella tentou amenizar o clima acrescentando: “Já que não me deixou comprar uma Lamborghini”.
Ele a encarou com interesse. “Você me compraria mesmo uma Lamborghini se eu quisesse?”
Stella baixou os olhos para os farelos no papel do sanduíche e confirmou com a cabeça. “Tenho como pagar, se é isso que está perguntando. Não sei qual é a importância de falar em dinheiro, mas ganho bastante e não tenho muito com que gastar. Adoraria comprar um carro para você. Ainda mais se…” Ela se deteve antes que acabasse dizendo alguma coisa que o irritasse.
“Se o quê?”
“Prefiro não dizer. Com certeza não seria apropriado.”
Ele inclinou a cabeça para o lado, com uma expressão mais cautelosa. “Eu gostaria de saber.”
“Eu ia dizer…” Ela respirou fundo, sem jeito. “Ainda mais se foi outra mulher que comprou o que você tem hoje.”
Michael começou a dobrar o papel do sanduíche em um quadrado. “Você está me perguntando se meu carro foi um presente.”
Ela estava certa de que tinha sido, o que a deixava enfurecida. “Estou.”
“Na verdade, foi.”
“Daquela loira da casa noturna.”
Ele enrugou a testa. “Como você sabe?”
“Ela não te deixa em paz.” A lembrança da mulher dando um beijo em Michael voltou à sua mente, e Stella sentiu sua irritação crescer. Ele tinha transado com ela — provavelmente várias vezes. Stella apoiou os dedos na superfície de vidro da mesa, respirando cada vez mais depressa.
Ele pôs a mão sobre a dela, e o coração de Stella acelerou. “Eu não gosto de ganhar esse tipo de presente. Por favor, não faz isso.”
“Tá bom.” Mas para Stella era impossível não pensar que ele havia aceitado o presente daquela mulher porque gostava dela. Não era o que todo mundo fazia? Guardava as coisas que as pessoas que importavam lhe davam?
Stella queria que ele tivesse alguma coisa sua. O fato de Michael não querer a deixava quase desesperada.
“Vai ser difícil se você começar a ter ciúme das minhas antigas clientes, Stella”, ele falou, com os olhos fixos e um tom de voz sombrio, como se o fato de ser um acompanhante fosse uma triste realidade que precisava ser aceita.
Várias e várias perguntas ficaram presas na garganta dela. Se ele não gostava daquilo, por que fazia? Tinha um talento enorme para roupas. Por que não trabalhava mais como alfaiate, em vez de se limitar aos serviços da lavanderia e pequenos ajustes? Em que empregava o dinheiro que ganhava como acompanhante? Teria algum vício secreto? Estaria em apuros?
Por que não podia ser todo dela?
Mas naquele momento ele era. Não queria nada com aquela loira. Não fora com ela que passara a manhã.
Enquanto terminavam o almoço, a última pergunta persistia no fundo de sua mente.
Por que não poderia ser dela de verdade?
Só havia uma resposta plausível: Michael não queria.
Mas aquelas coisas não eram definitivas. No início de tudo, Stella tinha em mente aprender habilidades que a ajudassem a seduzir um homem — provavelmente Philip James. Mas por que se contentar com ele se podia ter Michael? Ela poderia usar o que estava aprendendo com… ele mesmo? Era possível seduzir um acompanhante profissional?