Os Números do Amor
Capítulo 13
Quando Michael voltou, deu de cara com a mãe o observando de braços cruzados. Da vitrine, era possível ter uma clara visão do Tesla branco de Stella saindo de ré do estacionamento. Ele sabia que a mãe veria o beijo, motivo pelo qual fora tão apressado, apesar de sua vontade de fazer Stella virar os olhos.
Ela mexia com Michael de tantas formas que era impossível para ele até enxergar direito, quanto mais pensar. Havia sido pego de surpresa ali na loja. Talvez fosse por aquele motivo que tinha aceitado a proposta, quando tinha se decidido a fazer a coisa certa e recusar. Ela não o provocara ou fora irônica. Na verdade, ficara impressionada com seu trabalho e com ele — com quem Michael era de verdade. Ninguém mais queria quem ele era de verdade. Só Stella. Num momento de fraqueza, ele deixara de lado suas precauções e fora imprudente. Dissera sim só porque queria passar mais tempo com ela.
Só que as coisas estavam saindo do controle. Os limites estavam ficando difusos, de modo que parecia impossível separar sua vida profissional da pessoal. Talvez até por vontade própria. A mãe presumira que Stella era sua namorada, e ele gostara daquilo até mais do que deveria. Aceitar a proposta tinha sido um erro gigantesco. Já estava arrependido, sentindo que era uma coisa muito errada, apesar de não entender bem por quê. Mas era tarde demais. Talvez se fosse só um mês… Ele era um profissional. Conseguiria levar as coisas por um mês.
“Stel-la”, sua mãe falou, como se estivesse treinando a pronúncia.
Michael pegou as roupas dela e se dirigiu à oficina.
A mãe foi atrás. “Gostei mais dela que daquela stripper que você namorou.”
“Ela era dançarina.” Certo, ela também era stripper. Mas ele era jovem, e ela tinha um corpo incrível e sabia mexê-lo muito bem.
“Lembro que encontrei uma calcinha suja dela lá em casa.”
Michael coçou a nuca. “Eu terminei com ela.”
Era só sexo. Seu pai era um traidor nato, o que ensinou a Michael que, em vez de assumir compromissos e acabar magoando as pessoas, ele devia manter as relações impessoais. Tinha sido divertido, mas ele acabara pirando um pouco, basicamente transando com quem demonstrasse interesse. Suas lembranças daquele tempo eram um arco-íris de lingeries.
Quando tudo acontecera e ele precisara de dinheiro rápido, tinha pensado: “Por que não faturar uma grana com isso?”. Como alfaiate, Michael lidava com mulheres mais velhas e endinheiradas que faziam propostas do tipo de tempos em tempos. Só precisaria aceitar. Também seria o tapa na cara perfeito para o pai — culpado por tudo o que tinha acontecido.
“Esse carro da Stella é bem caro”, a mãe notou.
Michael deu de ombros, pôs as roupas de Stella junto com as demais peças a ser lavadas a seco e se sentou à máquina de costura.
Me. falou em vietnamita: “Ela gosta de você de verdade. Dá para notar”.
“Quem é que gosta dele?”, Ngoa.i perguntou de seu lugar de sempre diante da TV. Estava vendo O retorno dos heróis condor pela milionésima vez, a versão antiga com Andy Lau, em que o condor lutador de kung fu era um homem vestido de ave.
“Uma cliente”, sua mãe respondeu.
“Aquela da saia cinza?”
“Você viu a moça?”
“Hummm, fiquei de olho nela assim que apareceu. É boa menina. Michael devia casar com ela.”
“Eu estou bem aqui”, ele falou. “E não vou casar com ninguém.” Não era uma opção para quem trabalhava como acompanhante. E ele ainda se lembrava de quando o pai sumia durante a infância. A mãe chorava até a hora de dormir, totalmente arrasada, mas tentando segurar firme por causa dos filhos, sem perder um dia de trabalho sequer. Michael jamais magoaria uma mulher daquele jeito. Jamais.
Não que Stella fosse querer casar com ele. Nem sabia por que estava pensando naquilo. Ele havia tido só três encontros com ela. Não, encontros não. Programas. Compromissos profissionais. Estavam fazendo uma simulação de relacionamento. Nada daquilo era de verdade.
“Por acaso criei você para beijar as filhas dos outros daquele jeito e não casar com elas?”, a mãe perguntou.
Ele olhou para o teto, irritado. “Não.”
“Ela parece boa o bastante para você, Michael.”
Era um absurdo. Como se ele fosse um troféu raro.
Ngoa.i fez um “hummm” em concordância. “E bonita também.”
Michael sorriu. Stella era bonita mesmo, e nem sequer sabia. Além de inteligente, meiga, atenciosa, corajosa e…
Me. deu risada e apontou para ele. “Olha só sua cara. Nem venha dizer que não gosta assim dela. Está bem claro. Não vá deixar escapar essa.”
Ngoa.i fez mais um “hummm”.
O sorriso de Michael ficou congelado no rosto. As duas estavam certas. Ele gostava de Stella, mas preferiria não gostar. Ele sabia que não tinha como continuar com ela.
Stella estacionou diante do endereço que Michael havia passado por mensagem, imaginando se flores e chocolate eram a coisa certa a dar. Uma pesquisa no Google sobre etiqueta vietnamita informou que precisava levar alguma coisa, mas não havia uma recomendação clara e unânime do quê, e as sugestões iam de frutas a chás e bebidas alcoólicas. Aparentemente, comida era um consenso — o que explicava os chocolates Godiva que estavam no assento do passageiro.
Mas e se não gostassem de chocolate?
Ela queria perguntar a Michael, mas ele não precisava saber quão neurótica e estressada ficava quando conhecia gente nova. E não se tratava de quaisquer pessoas. Era a família de Michael, pessoas importantes, e Stella precisava causar uma boa impressão.
Para tanto, gastara o dia repassando tópicos de conversas em sua mente, de modo a minimizar a necessidade de improvisar — o que, em seu caso, quase sempre terminava mal. Tinhas as respostas para eventuais perguntas na ponta da língua, como sobre seu trabalho. Se fosse questionada sobre hobbies e interesses pessoais, também estava preparada. Caso quisessem saber como conheceu Michael, deixaria que ele explicasse, porque ela mesma era péssima com mentiras.
Por um longo momento, ela repassou a lista que sempre usava antes de socializar, com o estômago revirado: pensar antes de falar (toda e qualquer coisa pode ser ofensiva a alguém; na dúvida, era melhor ficar calada), ser agradável, sentar em cima das mãos para evitar batucar os dedos, ficar confortável, fazer contato visual, sorrir (sem mostrar os dentes, para não parecer assustadora), não se distrair pensando no trabalho, não se permitir falar sobre trabalho (ninguém queria ficar ouvindo aquele tipo de coisa), dizer “por favor” e “obrigada”, se desculpar de forma sincera.
Apanhando o buquê de margaridas coloridas e as trufas de chocolate amargo, ela desceu do carro e ficou olhando para o sobrado de dois andares. Quando ela se mudara para a cidade, cinco anos antes, aquele bairro era considerado periferia. Com a expansão e o sucesso cada vez maior do Vale do Silício, o valor dos terrenos disparou. Todas as residências do quarteirão agora eram imóveis na casa dos milhões de dólares — até aquela casinha cinza modesta com calçada rachada e gramado malcuidado, que, examinado mais de perto, se revelava um canteiro com plantas que cresciam até a altura dos joelhos.
Enquanto caminhava até a porta da frente, onde as mariposas e moscas zumbiam ao redor da luz da varanda, Stella passou a palma da mão sobre as pontas ásperas das plantas, apreciando o cheiro e o frescor. A avó de Michael devia cuidar da jardinagem.
Stella apertou a campainha e esperou. Ninguém apareceu. Seu estômago se revirou ainda mais.
Ela bateu na porta.
Nada.
Bateu mais forte.
Ainda nada.
Stella conferiu o endereço no celular. Era o lugar certo. O carro de Michael estava parado na frente. Antes que enlouquecesse tentando decidir o que fazer, a porta foi aberta.
Michael sorriu para ela. “Chegou na hora certa.”
Stella segurou com mais força as flores e o chocolate, quase sofrendo um colapso nervoso de tanta insegurança. “Não sei se trouxe as coisas certas.”
Ele pegou o chocolate e as flores com uma expressão estranha no rosto. “Não precisava ter trazido nada.”
Ela sentiu o pânico vir à tona. “Ah, eu posso levar de volta. Me dá aqui que eu ponho no…”
Michael deixou as coisas numa mesinha lateral e passou o polegar em seu rosto. “Minha mãe vai adorar. Obrigado.”
Stella soltou o ar com força. “E agora, o que acontece?”
Os cantos da boca dele se ergueram. “Acho que o cumprimento habitual é um abraço.”
“Ah.” Ela estendeu as mãos de uma forma meio atabalhoada e se aproximou, com a certeza de que estava fazendo tudo errado.
Pelo menos até os braços de Michael a envolverem e ele puxá-la para perto. Aquele cheiro, aquele calor, aquela solidez ao seu redor. Parecia cem por cento certo.
Michael se inclinou para trás com uma expressão suave nos olhos. “Pronta?”
Stella assentiu, e ele a conduziu pelo hall de entrada com piso de mármore e por uma sala de jantar formal até uma cozinha integrada à sala de estar, onde o enorme aparelho de TV chamou a sua atenção. Na tela, um homem e uma mulher em trajes tradicionais de ópera vietnamita se revezavam cantando uma série de notas bem similares. Depois de uma interação mais passional bem impressionante, a avó de Michael aplaudiu. Sentada perto dela à mesa da cozinha, Me. parou de descascar mangas para fazer um comentário elogioso.
Quando notou a presença de Stella, ela acenou com o descascador na mão. “Olá. Vamos comer daqui a pouco.”
A garota forçou um sorriso e um aceno. Preparada para uma noite de provação social estressante, se aproximou das duas e falou: “Precisam de ajuda?”.
Me. abriu um sorriso largo e pôs de lado o descascador e o prato com a casca das mangas diante da cadeira vazia à sua esquerda. Stella desabotoou os punhos da camisa. Michael abriu um sorriso e foi para o fogão.
Enquanto lavava as mãos na pia da cozinha, Stella o viu aquecer um wok e despejar óleo e alguns ingredientes da forma descuidada de alguém que sabia de fato cozinhar. Quando ela se sentou ao lado de Me., o ar já estava carregado dos aromas de carne grelhada, alho, capim-limão e molho de peixe. Michael enrolou as mangas até os cotovelos, de modo que era impossível não admirar os antebraços bem torneados enquanto mexia a comida.
Stella precisou se esforçar para voltar sua atenção para as frutas. Ela havia acabado de começar a descascar uma enorme que Me. lhe entregara quando o som do piano em outro cômodo chamou sua atenção. As notas iniciais de “Für Elise” entravam em choque com os tons cantados em vibrato na TV, e Stella piscou algumas vezes, sentindo os sons atraírem sua mente em múltiplas direções, o que dificultava seu raciocínio.
“É Janie tocando”, Me. informou. “Ela é boa, não?”
Stella assentiu, distraída. “É, sim. Mas o piano está desafinado. Principalmente o lá mais grave.” Toda vez que a nota soava, ela se contorcia por dentro. “É melhor mandar afinar. Pode estragar o instrumento.”
Me. ergueu as sobrancelhas, demonstrando interesse. “Você sabe afinar?”
“Não.” Stella deu risada. A ideia de tentar afinar seu Steinway sozinha era absurda. Provavelmente destruiria o instrumento com sua falta de jeito. “Um pianista nunca deve tentar afinar seu próprio piano.”
“Era o pai do Michael quem afinava o nosso”, Me. falou, franzindo a testa enquanto arrancava o caroço da manga descascada. “Ele fazia um bom trabalho. Dizia que era um desperdício de dinheiro chamar alguém, já que sabia fazer o serviço.”
“Onde ele está? Não pode resolver isso?”
Me. levantou da mesa com um sorriso tenso. “Quero que você experimente uma coisa. Vou esquentar e já volto.”
Enquanto ela remexia na geladeira, a avó apontou para a tigela com as mangas já picadas. Stella pegou um pedacinho e comeu, saboreando o azedinho adocicado da fruta. A avó fez “hummm” e voltou a descascar as mangas.
Stella soltou um leve suspiro, sentindo um relaxamento. Ela gostava da companhia da avó. A barreira idiomática impossibilitava uma conversa, o que lhe parecia ótimo. “Für Elise” terminou, e a tensão em sua cabeça se aliviou quando as fontes de ruído foram reduzidas de duas para uma.
Uma garota mais nova, de calça jeans, camiseta e rabo de cavalo meio solto apareceu na cozinha, pegou um broto de feijão do escorredor na ilha da cozinha e enfiou na boca. Quando notou a presença de Stella, acenou. “Você é a Stella, né? Sou a Janie.” Quando pegou mais um broto de feijão do escorredor, Me. deu um tapa na mão dela, o que a fez recolher o braço com um gritinho. A mãe enfiou um pote no micro-ondas e empurrou a filha para a mesa com uma sequência de frases aceleradas em vietnamita.
Janie se sentou diante de Stella com um sorriso torto simpático — assim como o de Michael. “Gosta de ópera vietnamita?”
Stella ergueu os ombros sem dizer que sim nem que não.
Janie deu risada e comeu um pedaço de manga. “Está boa, hein?”
Antes que Stella pudesse pensar numa resposta, Me. colocou um recipiente de plástico sobre a mesa e abriu a tampa. Um vapor subiu de um bolinho verde-claro esponjoso. “Come bánh bò. É muito bom.”
Stella soltou o descascador e a fruta e estendeu a mão para o recipiente, então notou que era de plástico barato. “Melhor não colocar esse tipo de pote no micro-ondas. A comida deve estar com BPA agora.”
Me. pegou o recipiente e cheirou. “Não, está bom. Nada de BPA.”
“Potes de vidro e refratários são mais caros, mas também mais seguros”, continuou Stella. Como ninguém nunca tinha dito aquilo para Me. antes? Eles queriam que ela ficasse doente?
“Uso o tempo todo, não tem problema.” Piscando rapidamente, ela levou a tampa do pote para junto do peito.
“Não é uma coisa que se percebe de cara. O problema é a exposição continuada. Você deveria investir num…”
Janie pegou o pote de plástico da mão da mãe e enfiou um pedaço de bolinho verde envenenado na boca. “É minha comida favorita. Adoro.” Ela lançou um olhar para Stella e pegou mais um.
Michael foi até a mesa e tirou o pote da irmã antes que ela comesse mais. “É verdade, esses potes fazem mal mesmo. Nunca pensei muito a respeito, mas é melhor não usar.”
Ele o jogou no lixo, e a mãe começou a protestar em vietnamita. Seria possível que ficaria chateada porque Stella não queria ser envenenada?
Janie se afastou da mesa e saiu da cozinha no mesmo instante em que outras duas garotas entraram. Deviam ter ambas vinte e poucos anos, cabelos castanhos, pele levemente bronzeada, pernas compridas e silhuetas magras e esguias. Stella perguntaria se eram gêmeas caso já não tivesse aprendido na prática que esse tipo de pergunta irritava as pessoas.
“Por que não pediu antes de pegar e manchar de vinho, sua gorda? Enquanto se agarrava com meu namorado?”, uma delas gritou.
Stella se encolheu toda. Seu coração, já afetado pela ansiedade, se comprimiu. Brigas eram a coisa que mais detestava no mundo. Sempre se sentia pessoalmente atingida, por mais que fosse uma simples testemunha.
“Você disse que tinha terminado com ele. Além disso, ficou larga. Se alguém aqui é gorda é você”, a segunda garota gritou de volta.
A avó pegou o controle remoto e estreitou os olhos para examinar os botões. Linhas verdes verticais escalaram a tela e o volume subiu, de modo que a música passou de um fator de distração a um incômodo.
“Ah, é? Então vou pegar de volta todas as calças jeans que dei pra você”, a primeira garota gritou ainda mais alto que o volume da TV.
“Pode pegar. Você não passa de uma egoísta mesmo.”
A avó resmungou e aumentou ainda mais o volume.
Stella largou o descascador com as mãos trêmulas e tentou desacelerar a respiração. Aquilo estava sendo estressante demais.
Outras duas garotas entraram na cozinha. Uma, que parecia estar próxima da idade de Stella, era mais baixa e tinha a pele mais escura que as demais. A outra ainda parecia estar em idade escolar. Deviam ser todas irmãs de Michael. Uma, duas, três, quatro, cinco.
A mais baixa apontou na direção das que pareciam gêmeas. “Podem parar de brigar agora mesmo.”
Elas bufaram e cruzaram os braços de forma quase idêntica.
“Você saiu de casa e deixou a mamãe nas nossas mãos. Não tem o direito de falar mais nada”, a primeira irmã retrucou.
A mais baixa avançou como um tanque de guerra. “Agora que ela está estável, posso viver minha vida também. Tente pensar nos outros, pra variar.”
“Como a gente é que é egoísta?”, a segunda irmã perguntou. “Enquanto você curte as festinhas do trabalho, ficamos aqui segurando os cabelos dela enquanto vomita por causa da químio.”
“Ela não está mais fazendo químio… Está?” A irmã mais baixa olhou para Michael em busca de uma confirmação.
A mãe pegou o controle remoto da mão da avó e elevou o volume ao máximo antes de ir fazer alguma coisa na pia. Stella pôs as mãos suadas sobre a superfície de vidro da mesa. Uma hora aquilo terminaria. Ela precisava resistir.
“A resposta não foi muito boa, então trocaram para uma medicação experimental”, Michael explicou.
“Por que ninguém me contou?”
“Porque você está sempre ocupada com suas próprias coisas! A mamãe não quer deixar você ainda mais estressada do que já é”, uma das gêmeas falou.
“Descobrir assim está sendo ainda mais estressante.”
“Azar o seu, Angie”, a outra gêmea retrucou.
Um bipe bem alto ressoou em meio às alfinetadas, e a mãe tirou um escorredor branco do micro-ondas. Usando pegadores, pôs o macarrão de arroz numa tigela grande com a carne e os legumes que Michael fritara.
Me. colocou a tigela diante de Stella com um sorriso educado. “O bún do Michael. Você vai gostar.”
Stella assentiu com um gesto apreensivo. “Obriga…” Uma desconfiança surgiu em sua mente, e ela espichou o olho para o escorredor, afastando a tigela com a mão. “O escorredor é de plástico. Ninguém deveria comer esse macarrão.”
Me. ficou paralisada. Uma onda vermelha percorreu o rosto dela enquanto olhava primeiro para Stella, depois para a tigela. “Deixe que eu faço outro.”
Antes que a mãe pudesse tocar a tigela, Michael a apanhou. “Pode deixar comigo. Senta, Me..” Trazia no rosto uma expressão tensa enquanto retirava a comida, e Stella pressentiu ter dito a coisa errada, sem saber como poderia ter agido de outra forma.
Me. sentou à mesa e olhou para as filhas, que continuavam discutindo numa rodinha perto da geladeira. Com um suspiro, pegou o descascador e recomeçou de onde tinha parado.
Stella manteve os olhos baixos, voltados para sua própria manga. Ficava mais nervosa e apreensiva a cada segundo. Estava dolorosamente ciente do silêncio que pairava no ar, e seus instintos gritavam para que o interrompesse ainda que o ambiente não estivesse exatamente silencioso. Me. não dizia nada, mas as filhas discutiam e a TV continuava no último volume. Quando o piano voltou a ser tocado, Stella ficou à beira de um ataque de nervos. O lá desafinado soou uma, duas, três, quatro vezes. Não poderia haver coisa mais irritante.
“Você precisa mesmo mandar afinar esse piano”, ela falou. “Onde está seu marido?”
Me. continuou a descascar a manga sem responder, então Stella supôs que não tivesse ouvido e voltou a perguntar:
“Onde está seu marido?”
“Ele não está mais com a gente”, a mãe respondeu em um tom categórico.
“Isso significa… que ele morreu?” Stella deveria oferecer suas condolências? Ela ficou sem saber o que falar.
Me. suspirou, sem tirar os olhos da fruta. “Não sei.”
A resposta deixou Stella confusa. Ela franziu a testa e insistiu: “Vocês são divorciados?”.
“Não tenho como me divorciar se não sei onde ele está.”
Stella olhou para Me. com uma expressão de perplexidade total. “Como assim, não sabe onde ele está? Seu marido sofreu algum tipo de acidente ou…”
Uma mão pesada segurou seu ombro e apertou firme. Era Michael. “O macarrão está quase pronto. Você come amendoim?”
Stella piscou algumas vezes, aturdida com a interrupção. “Como.” Michael assentiu e voltou para a ilha no centro da cozinha. Stella voltou a se concentrar na mãe dele. “Faz quanto tempo que seu marido sumiu? Vocês deram queixa na polícia para…”
“Stella.” A voz de Michael reverberou no ar, num tom pesado de reprimenda.
As irmãs pararam de discutir, e todos os olhares se voltaram para Stella. Seu coração batia mais alto que a TV e o piano. O que ela havia feito de errado?
“Nunca conversamos sobre meu pai”, ele explicou.
Aquilo não fazia o menor sentido. “Mas ele sumiu porque estava chateado ou…”
“Quem não tem coração não fica chateado”, Me. interrompeu. “Ele abandonou a gente para ficar com outra mulher. Quero o divórcio, mas não sei para onde mandar a papelada. Ele trocou o número do celular.” Me. arrastou a cadeira e ficou de pé. “Estou cansada. Tratem de comer, tá? Se a namorada do Michael não gostar do que temos aqui, podem sair para comprar alguma coisa.”
A mãe se retirou, e a música do piano foi interrompida de forma abrupta. A avó desligou a ópera e saiu do cômodo em silêncio, deixando atrás de si os estalos da energia estática gerada pela TV. O silêncio súbito era um alívio, mas parecia um mau presságio. O sangue de Stella corria nas veias, sua cabeça pulsava e sua respiração estava ofegante, como se ela estivesse correndo.
Janie entrou correndo na cozinha. “O que aconteceu? Por que mamãe está chorando?”
Ninguém respondeu, mas sete pares de olhos acusadores se voltaram para Stella. Aquilo era pior que a barulheira. Muito, muito pior.
Ela fizera a mãe de Michael chorar.
O rosto de Stella queimava de vergonha e culpa. Ela ficou de pé num pulo. “Desculpa. Preciso ir.”
De cabeça baixa, pegou a bolsa e saiu às pressas.
Michael ficou olhando para a porta por onde Stella saíra correndo com a sensação de quem via um acidente de trânsito em câmera lenta. Uma mistura de sensações nada agradáveis percorria suas veias. Raiva, terror, vergonha, descrença, choque. Que porra tinha acontecido ali? O que ele deveria fazer? Seus instintos gritavam para ir atrás dela.
“É melhor você ir ver como a mamãe está”, Janie falou.
Era verdade. Sua namorada de mentira havia levado sua mãe às lágrimas. Que beleza de filho ele era. Sentindo os pés pesados e o peito apertado, ele subiu a escada, atravessou o corredor acarpetado e parou diante da porta do quarto dela, que estava entreaberta. Espiou lá dentro e viu a mãe sentada na cama. Não era preciso enxergar seu rosto para saber que estava chorando. A postura curvada e a cabeça baixa deixavam aquilo bem claro.
A visão deixou Michael arrasado. Não podia permitir que magoassem sua mãe. Fosse seu pai ou qualquer namorada. Nem mesmo Stella. “Me.?”
Ela não reparou em sua presença até que ele entrou no quarto e se acomodou ao seu lado na cama.
“Sinto muito pelas coisas que Stella falou.” Michael tentou manter um tom de voz baixo, mas suas palavras saíram altas, de uma maneira pouco natural. “Sobre o piano, a comida, o papai…”
Não sabia como Stella tinha conseguido, mas em poucos minutos pusera o dedo em todas as feridas da família — sua situação financeira, a simplicidade da mãe, as sacanagens do pai. Mas sem querer. Aquilo estava bem claro.
Puta merda, como ela era desajeitada. Michael não fazia ideia da gravidade disso até aquela noite. Quando estavam a sós, as coisas eram diferentes.
A mãe segurou sua mão. “Acha que seu pai está bem?”
“Tenho certeza.” Ele contorceu os lábios, imaginando o pai tomando sol num iate no Caribe com a nova esposa.
“Pode me fazer um favor e mandar um e-mail a ele?”
“Não.” Michael jamais falaria com o pai de novo.
Me. respirou fundo e cobriu o rosto. “Stella estava certa. Ele pode estar chateado. E é tão maldoso que ninguém vai querer ajudar, nem a nova mulher. Ela só vai ficar com ele enquanto o dinheiro durar.”
Michael cerrou os punhos, sentindo uma raiva bem conhecida se acumular nos músculos. “O dinheiro dele deve durar um bom tempo.”
“Do jeito que ele gasta… Pensa que é um figurão. Nada é bom o suficiente para ele, lembra?”
Aquilo de novo, não.
Michael cerrou os dentes enquanto sua mãe recontava a história que já tinha ouvido mil vezes. Tentava não dar ouvidos, se limitando a fazer os ruídos necessários entre uma pausa e outra.
Adjetivos como “aproveitador”, “maldoso” e “mentiroso” se destacavam, e era inevitável pensar que se aplicavam também a ele próprio. Era só ver as farsas que Michael sustentava. E a maneira que arrumara de pagar as contas. E o dinheiro que estava arrancando de Stella para fazer o que qualquer outro faria sem…
Uma sensação gelada de horror o percorreu. Aquele era o motivo pelo qual se sentira tão mal ao aceitar a proposta de Stella. Era errado. Michael estava se aproveitando dela. Que tipo de homem arrancaria dinheiro de uma moça ingênua para ensinar coisas que poderia aprender com qualquer outro, e de graça?
Ele finalmente havia dado os últimos passos para se tornar seu pai. Não podia ser. Aquele não era ele. Michael era uma pessoa melhor. O acordo com Stella tinha que ser encerrado de imediato.
Onde estaria ela? Seria possível que estivesse esperando por ele lá fora?
Michael ficou de pé num pulo antes que sua mãe chegasse à metade da história. “Preciso ir. Desculpa… Por hoje e por tudo.”
“Não precisa se desculpar. Se você ama essa moça, também vamos aprender a amar.”
Só de ouvir aquela palavra ele começou a suar. “Não é nada disso.” O que só piorava as coisas.
A mãe fez um gesto de protesto com a mão. “Pode voltar com ela outro dia. Não vou mais colocar plástico no micro-ondas quando ela vier.”
“Talvez seja melhor não fazer isso nunca mais.”
“Está bem, está bem.” Me. disse aquilo de uma forma que deixou claro que continuaria a fazer as coisas como bem entendesse, independentemente de seus conselhos. Michael prometeu a si mesmo que jogaria os potes de plástico no lixo e substituiria por alguns de material mais seguro. Logo depois que falasse com Stella.
“Boa noite.”
“Dirija com cuidado.”
Ele saiu da casa em tempo recorde, detendo o passo assim que se viu do lado de fora.
Ela não estava lá.
Agarrado a um dos pilares de madeira da varanda, respirou fundo até seu coração desacelerar e seus pensamentos clarearem. O ar fresco, o zumbido dos insetos e o ruído distante do motor de um carro ajudaram.
Talvez fosse melhor que Stella tivesse ido. Ele precisava de tempo para elaborar um bom discurso de despedida. Nada muito longo, mas simpático. O problema era ele, não ela, e…
Não importava o que dissesse, ela ia chorar. A ideia fez o estômago dele se retorcer. Stella acharia que a culpa era dela. Por ser desajeitada na cama e fora dela. Por causa do mal-entendido daquela noite.
Ele entrou no carro. Ligou o motor e ficou sentado com as mãos no volante. Não sabia para onde ir, se para sua própria casa ou a dela. Os dois precisavam conversar, mas Michael não estava pronto para mais lágrimas.
A caixa de camisinhas novas em folha no assento do passageiro chamou sua atenção. Ele tinha comprado inúmeros pacotes do tipo nos últimos três anos. Não ficara ansioso para abrir nenhum tanto quanto aquele — porque Stella era diferente. Mas teria que voltar a usar as camisinhas com uma mulher diferente a cada sexta-feira, oferecendo um simples serviço em troca de dinheiro. Aquilo não era tirar proveito de ninguém. Era bem diferente do que seu pai fazia. Michael poderia seguir com sua atividade e continuar sendo quem era. Pena que nenhuma daquelas mulheres seria Stella.
Ele empurrou a caixa para o assoalho de modo que ninguém a visse e tomou o rumo de seu próprio apartamento. No dia seguinte faria a coisa certa.