Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 24 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 24

 

 

“Vocês dois se conhecem? Que maravilha.” Ann até bateu palmas.

Stella sentiu que a qualquer momento poderia vomitar. A mãe de Philip era a mulher da casa noturna. Fora ela quem dera o carro a Michael. O que ele dirigia todos os dias. O que não queria que Stella substituísse.

Michael se recostou na cadeira com um sorriso tranquilo, parecendo casual e perfeitamente à vontade — além de lindo de morrer com aquele terno preto. “Faz um tempão.”

Aliza soltou uma risada rouca e passou a mão no braço dele. “É mesmo.”

Ele não demonstrou nenhuma reação ao toque, e Stella sentiu um nó na garganta. Michael gostava de mulheres mais velhas — havia dito aquilo com todas as letras. Com seios grandes, silhueta miúda, voz suave e muito sedutora, aquela mulher era a encarnação do sexo. Stella teve que lembrar a si mesma de que Michael cortara relações com Aliza. Não fora a ela que proporcionara três orgasmos gloriosos naquele mesmo dia com sua boca linda antes de fazer amor até que não aguentasse mais.

“Com quem você veio?” Os olhos de Aliza percorreram a mesa e se detiveram em Ann antes de se voltar para Michael.

“Comigo.” Stella se inclinou para mais perto e pôs a mão sobre a dele. Esperava que Michael virasse a palma para cima e entrelaçasse os dedos com os dela, como sempre fazia. Mas ele permaneceu imóvel. O estômago dela se revirou. O que aquilo significava?

Aliza pegou o uísque e observou Stella por cima da borda do copo. “Que casal bonito. Sua filha é linda, Ann. Dá para entender por que Phil gosta tanto dela. Pena que não está solteira.”

Ann sorriu, mas Stella percebeu pelas marcas em volta dos olhos que estava preocupada. “Obrigada, Aliza. Eles parecem bem felizes. Não é motivo de pena.”

Stella apertou a mão de Michael com mais força enquanto a mulher o observava de perfil. Até então, eles estavam felizes. Qual era o problema? Michael permanecia impassível, sempre de olho em Aliza. Stella o tocava, mas o sentia incrivelmente distante.

“Então é sério?” Aliza olhou para os pais de Stella antes de dar uma risadinha e lançar um olhar divertido para Michael. “Agora conhece pais e tudo, Michael? Teria conhecido os meus pelo preço certo?”

“Do que está falando?” Philip estreitou os olhos, encarando sua mãe e depois Michael.

Aliza deu um bom gole no uísque e abriu um sorriso sugestivo. “A gente… costumava sair.”

“Só pode ser brincadeira.” Philip olhou para Michael com o desgosto estampado nos olhos. “Você dormiu com minha mãe?”

“Não exatamente”, Michael respondeu com um sorriso tenso.

Aliza deu uma risadinha. “Realmente, não havia muito sono envolvido, se me lembro bem.”

“Pelo amor de Deus. Preciso de uma bebida.” O pai de Stella levantou da mesa.

“Pode aproveitar e me trazer outro uísque com gelo?”, Aliza pediu, sacudindo o copo.

“Você já bebeu o suficiente.” Edward se afastou na direção do bar, que ficava no fundo do salão.

A risada de Aliza reverberou pela mesa antes que ela esvaziasse o copo e o baixasse. “Isso nunca.”

Stella estava sentada bem perto de Michael, e viu quando as unhas vermelhas de Aliza roçaram na coxa dele. Michael não se moveu. Só encarou a mulher enquanto a mão dela ia subindo, chegando cada vez mais perto da braguilha da calça. Por que não fazia nada para impedir? Por acaso queria aquilo?

Ele ficou de pé abruptamente e falou: “Preciso tomar um ar. Com licença”.

Antes que Aliza pudesse segui-lo, Stella pulou da cadeira e saiu atrás dele. O ar do lado de fora tinha cheiro de noite, grama cortada e cloro. O frio provocou arrepios em seus ombros e braços descobertos.

“Michael”, ela gritou.

Ele parou, iluminado pelo brilho azul da piscina. “É melhor você voltar lá, Stella.”

Ela caminhou para junto dele. A distância entre os dois a deixava em pânico. Como faria com que a proximidade voltasse? Stella segurou a mão dele, colocou em torno de sua cintura e chegou mais perto. “Não quero ficar sem você.”

A expressão nos olhos dele se suavizou, e Michael a abraçou. Stella suspirou e apoiou o queixo no peito dele, respirando fundo para sentir bem o cheiro. Se ele ainda podia abraçá-la daquele jeito, não havia problema.

“Estava tudo indo bem para você antes que meu passado fosse colocado na mesa.” Ele acariciou as costas dela.

“Eu preferiria estar em casa com você.” Stella se aproximou um pouco mais e beijou o pescoço dele. “Por que deixou que ela passasse a mão em você daquele jeito? Me deixou maluca.” Michael era dela.

“Ah, deixou?” Ele passou os lábios pelo queixo dela, dando beijos de leve na pele sensível.

“Sim.”

“Sempre procuro evitar problemas com antigas clientes. Elas podem perder o controle na hora, mas depois caem na real. Vou fazer de tudo para ser igualmente cortês com você no futuro.”

No futuro. Depois que eles se separassem. “Não quero isso.”

Ele era parte da vida dela, e uma das melhores. Não podia ir embora.

“Bom, isso facilita as coisas para mim”, ele disse.

“Não, não é disso que estou falando.”

“O que você quer, Stella?”

“Eu quero…” Ela umedeceu os lábios e respirou fundo. Poderia dizer que era ele o que mais queria? Que estava apaixonada? Ela passou as mãos no peito e nos ombros dele e o observou com toda a atenção. Gostaria de ser melhor com as palavras. Bem que seu corpo poderia falar por ela. Sabia se comunicar perfeitamente com o dele. Mesmo naquele momento, Stella notava sua reação à proximidade de Michael. Ela tentava se manter mais perto, sentia os dois se encaixarem perfeitamente.

O pomo de adão de Michael subiu e desceu, então ele se afastou. “Vamos voltar pra sua casa. A não ser que você queira experimentar no carro.”

“Do que está falando?”

“De sexo, Stella.” As palavras estalaram no ar, duras e ásperas.

Seus pulmões se comprimiram tanto que ela mal conseguia respirar. “Eu não estava pensando nisso.”

“Então a gente precisa acabar com essa farsa. Porque não tenho mais nada a oferecer a você.”

“Claro que tem. Você me escuta, fala comigo e…”

“Nunca vou conseguir conversar com você como aquele babaca lá de dentro. Nem quero. Sou burro demais para entender alguma coisa de matemática e economia.”

“Não é verdade. Você é inteligente.”

“Sou um zero à esquerda. Não cheguei a lugar nenhum. Trepo com as pessoas por dinheiro, e quando a grana não basta…” Ele a encarou com um olhar firme e sério. “Penso em roubar. Faço planos na minha cabeça, quem seria a vítima, que mentiras precisaria contar, como encobriria meus rastros. Porque sou igualzinho ao meu pai.”

Ela sacudiu a cabeça. Do que estava falando? Ele jamais roubaria. Stella não tinha dúvidas quanto a isso.

“Você queria saber por que odeio meu pai. Vou dizer por quê.” Michael fez uma pausa por um segundo carregado de tensão antes de continuar. “Ele é tão bom em enganar os outros que ficou famoso por isso. Saiu no noticiário um tempo atrás. Nunca ouviu falar dele? Frederick Larsen?”.

“Eu não…” Enquanto falava, as lembranças foram ressurgindo. Ela respirou fundo. “O estelionatário. Que seduzia mulheres…”

“Que roubava mulheres. Dizia para todo mundo que era dono de uma empresa de softwares. Sempre saía em ‘viagens de negócios’. Minha mãe sabia que estava sendo traída, mas ele sempre voltava. Até que desapareceu três anos atrás, e outra mulher apareceu na nossa porta procurando por ele. No fim, a gente descobriu que cada dólar que meu pai ganhava era roubado de uma mulher. Com a minha mãe o roubo foi ainda pior. Antes de ir embora pela última vez, ele limpou todas as contas bancárias e fez uns empréstimos enormes no nome dela. Me. penhorou tudo o que tinha e um pouco mais para pagar, mas não foi o bastante. Estava correndo o risco de perder a casa e a loja. Minha irmã ia ter que sair da faculdade, porque era impossível de pagar.”

Ele virou de costas e começou a desatar o nó na gravata com gestos bruscos. “O trabalho dos meus sonhos, que tinha me levado para o outro lado do país, pagava tão pouco que precisei me demitir. Eu não tinha qualificação para encontrar outro, como você tem. Então peguei o que meu pai me deu, um corpo na exata proporção do dele, um sorriso igual ao dele, e pus à venda. Trepei com metade da Califórnia, dia e noite durante meses, e usei o dinheiro para resolver toda aquela cagada. Então minha mãe ficou doente e…”

A gravata foi ao chão, e ele desabotoou os primeiros botões da camisa, como se o estivesse sufocando. Em seguida cobriu os olhos com a mão espalmada, com a respiração ofegante.

Stella deu um passo hesitante na direção de Michael. Ela pôs a mão no rosto dele e descobriu lágrimas quentes. O nó em sua garganta era grande demais para permitir que falasse, então ela enlaçou seu pescoço e o abraçou com toda a força. Michael enterrou o rosto em seus cabelos e retribuiu o abraço.

“Não é culpa sua se seu pai fez essas coisas. Você não tem nada a ver com ele”, Stella murmurou. Como Michael poderia acreditar naquilo?

“Se eu estivesse aqui, poderia ter percebido tudo e feito alguma coisa para impedir.”

“Shhh.” Ela passou os dedos pelos cabelos dele. “Mesmo que você estivesse, teria descoberto tarde demais. Ele enganou dezenas de pessoas. Era especialista nisso.”

Michael a apertou com mais força por uma fração de segundo e beijou seu rosto. Quando voltou a falar, foi com um tom de voz mais áspero e íntimo, totalmente sincero. “O mais louco é que, mesmo depois de tudo isso, mesmo com toda a vergonha, com todo o ódio que sinto, ainda tenho saudade dele. É meu pai. Meu pai é um estelionatário mentiroso, e eu o amo mesmo assim.”

Stella não sabia o que dizer, então continuou a abraçá-lo. O que poderia falar a alguém com uma mágoa daquele tamanho? O máximo que dava para fazer era colar seu coração ao dele e sofrer junto.

Depois de um momento que pareceu uma eternidade, Michael se afastou. Limpando as lágrimas nos olhos, ele falou: “Aceitei sua proposta porque queria te ajudar, mas seus problemas claramente já foram superados. Você já está pronta para um relacionamento de verdade. Se algum desgraçado te rejeitar por ser autista, não te merece. Ouviu bem? Você não tem nada do que se envergonhar”.

O rosto dela ficou pálido, e seu coração parou de bater por um instante. “Você sabia?”

Ele abriu um leve sorriso. “Percebi depois daquela primeira noite na casa da minha mãe.”

Michael sabia o tempo todo? Aquilo era bom ou ruim? Ela não conseguia decidir. “Você quer ir embora?”, Stella se pegou perguntando.

“Chegou a hora de seguir em frente, Stella. Não estamos proporcionando um ao outro tudo o que precisamos.”

Stella entendeu aquilo como um recado de que ela não era suficiente para ele. Por causa de quem e do que era, suas limitações e suas excentricidades, seu estigma.

Uma desesperança sombria a arrasou. Tinha sido muita ingenuidade esperar que conseguiria seduzi-lo. Seu queixo tremeu, e ela mordeu o lábio para impedir. “Entendi.”

Ele passou a mão no rosto dela, prendendo uma mecha de cabelos atrás de sua orelha. “Você precisa de mais do que sexo, e eu não tenho como oferecer isso.”

Stella olhou para o chão. Talvez para ele tivesse sido só sexo, mas, para ela, por mais patético que pudesse ser, parecia amor.

Michael passou as mãos quentes nos braços frios dela e apertou suas mãos. “Obrigado pelos últimos meses. Foram muito especiais para mim.”

Mas não o suficiente.

“Obrigada, Michael. Por me ajudar com meus problemas de ansiedade.”

“Promete que você não vai mais contratar acompanhantes depois disso.”

“Prometo.” Só havia um acompanhante que ela queria.

“Boa menina.” Ele deu um beijo em seus cabelos. “Agora vou indo.”

“Posso te levar.” Ela ainda não queria se despedir dele.

“Prefiro chamar um táxi. Quero tirar minhas coisas da sua casa, e é melhor fazer isso quando você não estiver lá. Se cuida, tá?”

“Tá.”

Ele entregou a chave do carro junto com as outras coisas dela que levava no bolso. “Tchau, Stella.”

“Tchau, Michael.”

Imóvel e sem sentir o próprio corpo, ela observou a saída dele. Em seguida, deu meia-volta e entrou. Queria ir para casa, mas tinha que deixar que Michael tirasse suas coisas de lá em paz. Todas as outras estratégias de fuga foram descartadas. A ideia de passar por ele no estacionamento ou na rua fez seus olhos se encherem de lágrimas.

Era melhor voltar ao jantar. O último lugar onde gostaria de estar naquele momento.

Depois de passar no banheiro e retocar a maquiagem como podia, ela voltou a sentar à mesa.

“Onde está o Michael, querida?”, sua mãe perguntou baixinho.

“Foi embora. Acabamos de terminar.”

Philip abriu um sorrisinho.

Aliza lançou um olhar de pena para Stella e pôs a mão em seu ombro. “Homens como ele precisam ser livres, querida.”

Stella afastou a mão dela sem dizer nada.

Edward estreitou os olhos, incomodado. Stella sabia que ele não gostava de sua grosseria. “Às vezes essas coisas acontecem para nosso próprio bem.”

Pelo menos uma vez na vida, Ann não tinha o que dizer. Apenas observou a filha com olhos preocupados.

“Você pode arrumar coisa muito melhor”, Philip acrescentou. O olhar direto que lançou indicava que estava falando de si próprio.

Stella cravou os dedos no joelho com tanta força que suas juntas ficaram brancas. Seus sentimentos borbulhavam, gritando por libertação, mas ela os sufocou.

“Concordo”, Edward falou. “Não vi nada de bom naquele sujeito.”

Um incômodo agudo se instalou em suas entranhas, e ela perdeu o controle. “Então não olhou direito. Não é que ele não esteja fazendo nada. Michael não é preguiçoso. Mas às vezes existem coisas mais importantes do que perseguir paixões e ambições. Ele deixou a carreira de lado para cuidar da mãe, que está morrendo. É o tipo de pessoa que abriria mão de tudo pelas pessoas que ama, tudo mesmo. Só tem coisas boas nele.”

Mas Michael não a queria.

A expressão de seu pai ficou mais séria. “Então por que ele não disse isso?”

“Por que entraria num assunto tão pessoal quando estava sendo menosprezado?”

“Eu não estava…”

“Já chega, Edward”, Ann esbravejou. “O que você estava pensando ficou muito claro. Você quer alguém determinado e focado na carreira ao lado de Stella, alguém que possa cuidar dela. Não parece perceber que ela tem determinação de sobra sozinha e não precisa de ajuda financeira de ninguém. Vamos sair daqui, querida. Esse barulho todo está me incomodando.”

Ann estendeu a mão e Stella a pegou, deixando-se conduzir para fora do salão. Um buquê enorme de lírios e galhos de salgueiro dominava a mesa baixa.

Stella traçou com o dedo o contorno de uma das flores antes de sentar e fechar os olhos. Estava bem mais silencioso ali fora, e uma parte da tensão se aliviou. Mas a dor em seu coração persistia, se espalhando pelo corpo e se intensificando, massacrando-a com uma sensação de desesperança e derrota. O peso suave da mão da mãe em sua perna a fez abrir os olhos.

Ela a abraçou, puxando-a para perto do colar de pérolas e do perfume Chanel No 5. Stella ainda não gostava daquele cheiro forte, mas naquele momento a familiaridade a confortou. Ela relaxou e deixou sua mãe a abraçar como quando era criança. Só percebeu que estava chorando quando começou a ser consolada e balançada de leve, de um lado para o outro.

“Lamento muito, querida. Sempre quis que você encontrasse um artista, uma pessoa sensível que colocasse você em primeiro lugar. Mais tarde podemos pensar num plano estratégico para achar a pessoa perfeita. Você deveria mesmo testar o Tinder.”

Mesmo naquele momento, sua mãe se mantinha focada. Jamais desistia.

Stella soltou um suspiro longo e trêmulo. “Essa pessoa era o Michael.”

“Não seja teimosa. Existem bilhões de pessoas no mundo, e o amor não pode ser uma coisa forçada. Se não perder o foco, você vai encontrar alguém melhor que ele.”

Stella não disse nada. Para ela, Michael era como sorvete de menta com gotas de chocolate. Até podia experimentar outros sabores, mas ele sempre seria seu favorito.

Aquele era o jeito dela. Stella se sentia mais solitária do que nunca quando estava cercada de gente. Em geral, aquilo não a incomodava. Não precisava de companhia. Ficava contente se tinha espaço e tempo para se dedicar àquilo que a interessava. Mas Michael a interessava, e ela não se sentia solitária com ele. Nem um pouco. Saber que o sentimento era unilateral doía.

“Mãe, que tal deixar essa conversa de homens e netos de lado por um tempo? Quero deixar você feliz, mas agora estou exausta demais para isso.”

Ann a apertou mais forte. “Claro, esquece essa conversa de netos. Só quero que você seja feliz.”

Stella suspirou e fechou os olhos. Não queria saber de ser feliz. Naquele momento, só queria não sentir nada.

 

O silêncio na casa de Stella era absoluto. Era curioso que Michael nunca tivesse notado aquilo antes. Em geral estava ocupado conversando com ela, ouvindo suas observações idiossincráticas, preparando algo para comer naquela cozinha enorme, beijando-a, fazendo amor com ela…

Sentiria falta daquela casa. E sentiria saudade de Stella. Muita. Já estava sentindo. Desmoronava com sua ausência. Mas pôr um fim ao acordo era a coisa certa a fazer. Ela não precisava mais de sua ajuda e merecia alguém melhor. Alguém mais inteligente, que não fosse filho de um criminoso. Alguém que impressionasse os pais dela e não encontrasse antigas clientes em um evento social.

Então ele se deu conta de que precisaria voltar a trabalhar como acompanhante às sextas-feiras. O que não o animava nem um pouco. Duvidava que fosse conseguir ter uma ereção com outra pessoa. Só queria sentir o cheiro, o gosto e a pele de Stella. Seu corpo estava sintonizado com o dela. Ninguém mais serviria. As fantasias que usava para atiçar seu interesse pareciam tediosas e sem atrativos. Ele desenvolvera um novo fetiche, que envolvia uma garota tímida que passava o dia pensando em economia aplicada.

Michael sentou na cama e escondeu o rosto entre as mãos. Era a última vez que estaria ali. Outro cara estaria dormindo naquela cama em breve. Sentimentos desagradáveis vieram à tona. Só ele deveria poder beijar, tocar e amar Stella. Sua vontade era arrancar as cobertas e deixar a cama em pedaços. Se não pudesse mais usá-la, ninguém poderia. Stella que comprasse uma nova.

Cerrando os punhos, ele se obrigou a ir até o closet antes que acabasse destruindo o quarto. Enfiou as camisetas e as calças jeans na mochila antes de passar para a gaveta de cuecas e meias. Queria pegar tudo logo para ir embora. No fundo, encontrou um embrulho. Era uma cueca boxer do tamanho e da marca que costumava usar, mas vermelha, enquanto as suas em geral eram azul-marinho.

Stella tinha comprado uma cueca para ele.

Era o primeiro presente que ela lhe dava. Por acaso achava que as dele estavam gastas? Talvez. Ele a jogou na mochila e fechou o zíper. Não era nada muito caro, e Stella não teria o que fazer com ela. Tinha comprado para ele, então devia aceitar.

Antes de sair do quarto, ele pegou a carteira no bolso, tirou um papel dobrado e colocou sobre o criado-mudo. Ali estava a prova de que não era como seu pai.

Mas talvez não fosse aquele o motivo pelo qual fazia aquilo com tanta facilidade. Talvez o motivo fosse estar apaixonado.

Ele atravessou a casa vazia, apagou as luzes e saiu. Depois de trancar a porta da frente, pôs sua chave sob o capacho da entrada, se despediu silenciosamente e foi embora.