Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 14 de 30

Páginas do PDF

Os Números do Amor

Capítulo 14

 

Stella concluiu sua rotina noturna numa espécie de entorpecimento enevoado. Só quando deitou a cabeça no travesseiro começou a chorar.

Estava tudo acabado. Michael pedira para Stella ser legal com a família dele, e ela fizera sua mãe chorar. Era impossível desfazer uma situação como aquela.

Seus instintos imploravam para que abrisse o jogo e contasse a verdade. Apesar de não saber a verdadeira extensão do problema, Michael já conhecia algumas de suas dificuldades: hipersensibilidade a cheiros, ruídos e toques; obsessão pelo trabalho; necessidade de estabelecer rotinas; a falta de traquejo social. O que não sabia era que havia rótulos para aquilo, diagnósticos médicos.

A compaixão era mesmo melhor que a raiva? No momento, ele a considerava grosseira e insensível, mas ainda a via como uma pessoa normal, ainda que levemente excêntrica. Com os devidos rótulos, poderia ser mais compreensivo, porém deixaria de vê-la como a econometrista desajeitada que adorava seus beijos. Aos olhos de Michael, seria apenas uma garota que sofria de autismo. Seria… menos.

Não lhe importava o que as outras pessoas pensavam.

Já da aceitação de Michael, no entanto, sentia uma necessidade desesperadora. Ela tinha uma síndrome, mas a síndrome não era aquilo que a definia. Ela era Stella. Um indivíduo único.

Não havia como remediar a situação. Não havia como continuar com ele.

Stella ainda precisava se desculpar com Me.. Nunca tinha feito ninguém chorar antes, e aquilo a fizera sentir muita raiva de si mesma. As respostas evasivas faziam sentido agora que a verdade sobre o pai viera à tona. Stella queria ter entendido a situação antes de estragar tudo chateando Me., mas só tinha como mudar o que faria dali para a frente, não o passado.

À medida que a noite se arrastava, ela foi criando e recriando um pedido de desculpas, recitando-o várias vezes em sua cabeça. Quando o sol se ergueu, Stella saiu a custo da cama e se preparou para encarar o dia.

Ela dirigiu até a mesma galeria comercial aonde fora no dia anterior e parou diante da Lavanderia e Alfaiataria Paris. Assim que o estabelecimento abrisse, pediria desculpas e iria embora.

A noite de insônia deixara sua cabeça enevoada. Seu coração doía por causa da pressão incessante provocada pela ansiedade. Seus dedos agarravam o volante com tanta força que suas juntas pareciam travadas. Ela se sentia exausta. Queria resolver logo aquilo para poder ir ao escritório e mergulhar no trabalho.

Cinco minutos antes do horário, a placa de FECHADO foi virada para ABERTO. Respirando fundo, Stella pegou uma segunda caixa de chocolates e um buquê de rosas cor de pêssego e saiu do carro. Era Janie quem estava atrás do balcão naquele dia.

Ela ergueu os olhos do livro apoiado no colo e piscou algumas vezes, surpresa por vê-la. Pela tensão nos lábios dela, não de um jeito bom. “Oi, Stella… Michael não trabalha aos sábados…”

“Não foi com ele que vim falar.” De que adiantaria? Estava tudo acabado entre os dois. Stella mostrou as rosas e os chocolates. “Trouxe para sua mãe. Ela está?”

A expressão de Janie se amenizou. “Está, sim.”

“Posso falar com ela, por favor?”

“Mamãe está trabalhando lá nos fundos. Levo você lá.”

Stella seguiu Janie, parando diante de uma máquina de costura industrial verde onde Me., com os óculos pendurados na ponta do nariz, passava um tecido sob a agulha com eficiência e rapidez.

Os músculos de Stella se enrijeceram. Seu coração retumbava com força. Estava na hora. Ela só esperava não estragar tudo. Precisava dizer a coisa certa.

Janie murmurou alguma coisa em vietnamita, e a mãe ergueu os olhos. Seu olhar passou da filha para Stella.

Stella engoliu em seco e deu um passo à frente. “Vim me desculpar por ontem à noite. Sei que fui grosseira. Eu não… tenho muito jeito com as pessoas. Queria agradecer por ter sido convidada para jantar na sua casa.” Ela estendeu as flores e os chocolates. “Trouxe para você. Espero que goste de chocolate.”

Janie apanhou as trufas antes que a mãe pudesse encostar na caixa. “Eu gosto.”

Me. aceitou as flores e soltou um suspiro. “Sobrou bastante comida de ontem à noite. Você deveria aparecer esta noite.”

Stella olhou para o chão. Michael ficaria horrorizado se a visse na casa da mãe de novo. “Preciso ir. Sinto muito por ontem à noite, de verdade. Mais uma vez, obrigada.”

Ela se virou para ir embora, mas deu de cara com a avó miudinha de Michael sentada no sofá. A senhora fez um aceno de cabeça para ela, e Stella se embananou toda em uma mistura de mesura e cumprimento ao sair.

 

Michael entrou na academia e jogou a mochila no piso azul acolchoado, perto das outras.

Os praticantes no meio do recinto deram cinco passos para trás, passaram a espada para a mão esquerda e se curvaram.

“Olha só quem resolveu aparecer”, comentou o que estava mais à direita. A máscara escondia o rosto de seu primo, mas Michael sabia que era Quan pela voz e pelo nome bordado em branco no equipamento de treino preto. Além disso, Quan era uns cinco centímetros mais baixo que o irmão mais novo.

Khai fez um aceno com a mão enluvada e voltou a praticar os movimentos de ataque diante do espelho. Dez ataques rápidos na cabeça, dez no punho, dez nas costelas. E de novo. Mais dez ataques na cabeça… Quando Khai treinava, era pra valer. Não havia meio-termo. Seu foco e sua determinação eram impressionantes. E fazia Michael se lembrar de Stella. Ele soltou um suspiro pesado.

“Nunca vejo você aqui de sábado. O que está pegando?”, Quan perguntou.

“Queria treinar um pouco”, Michael falou, coçando a orelha. Em geral ele passava os sábados correndo e levantando pesos — coisas que podia fazer sozinho, porque não queria olhar para a cara de ninguém depois do que acontecia nas noites de sexta. Naquele dia, porém, não aguentaria ficar sozinho. Sabia que passaria o tempo todo pensando em Stella. Depois de uma noite e parte de um dia refletindo, ainda não sabia como terminar tudo sem magoá-la. Mas precisava fazer aquilo. E depressa. Era melhor ligar para ela assim que acabasse o treino para marcar um encontro. Tinha que fazer aquilo cara a cara.

“Veste o equipamento, então”, Quan falou. “A aula começa em uma hora. O professor está de folga, então quem perder vai ter que dar a aula das crianças.”

Era o incentivo ideal. Criancinhas brandindo espadas de bambu era uma visão horripilante. Seria de pensar que os menores seriam menos perigosos, mas eram os piores. Corriam descontrolados pela academia, como furacões, acertavam golpes por baixo da armadura por acidente. Não tinham a menor noção. Eram como Stella em eventos sociais.

E Khai.

Enquanto punha o equipamento, os olhos de Michael acompanhavam os movimentos do primo, que praticava seus ataques de forma metódica, dez de cada vez. Sempre o mesmo número de repetições, sempre na mesma ordem. Se Stella aprendesse kendô, na certa faria a mesma coisa. Depois da noite anterior, Michael percebera que havia muito mais semelhanças entre ela e Khai do que a princípio imaginara. O primo nunca percebia quando tocava em questões delicadas. Era terrivelmente sincero, criativo de um jeito todo próprio e…

Michael se voltou para Quan, tomado por uma desconfiança súbita. “Você me perguntou se eu achava Stella parecida com Khai.”

Quan desamarrou os cordões atrás da cabeça para tirar a máscara. Os olhos escuros dele encararam Michael fixamente. “Perguntei.”

“Ela te contou alguma coisa que eu deveria saber?” Michael se lembrou da outra noite, em que sentiu que estava interrompendo alguma coisa quando encontrou os dois sozinhos do lado de fora da casa noturna.

“Depois que parou de hiperventilar por causa da superestimulação? Sim, ela contou”, disse Quan.

“Ela estava hiperventilando?”, Michael se ouviu perguntar. Seu estômago se revirou e um calafrio percorreu seu corpo. Que tipo de babaca era para não ter percebido e ajudado? Quan tinha precisado assumir seu papel.

“Tinha gente demais, Michael. Muito barulho, luzes piscando. Você não deveria ter ido lá com Stella.”

Foi quando todas as peças se encaixaram. “Ela é autista.”

“Ficou decepcionado?”, Quan perguntou, inclinando a cabeça.

“Não.” A resposta saiu bem áspera. Ele limpou a garganta antes de continuar. “Mas seria melhor se ela tivesse me contado.” Por que não tinha feito aquilo? Por que permitiu que ele levasse adiante o plano de ir à casa noturna? Stella devia saber o efeito que teria sobre ela.

E a noite anterior… Porra, devia ter sido um pesadelo. A TV no último volume, o piano, as irmãs gritando, toda a novidade…

“Stella só quer que você goste dela.”

As palavras atingiram Michael como um soco no estômago. Ele gostava dela, e o que descobrira não mudava nada. Stella ainda era a mesma pessoa. Só que agora ele a entendia melhor.

Em seu subconsciente, era como se soubesse desde o início. Tendo sido criado com Khai, Michael sabia como interagir com pessoas como ela. Não precisava nem pensar. Devia ser o motivo pelo qual ela conseguia relaxar na sua companhia, e não com outras pessoas…

Uma estranha onda de eletricidade o percorreu, enrijecendo seus músculos e fazendo seus pelos se arrepiarem. Talvez não fosse necessário encerrar o acordo.

Talvez aceitar a proposta não significasse se aproveitar dela. Como Stella era autista, podia se beneficiar de uma simulação de relacionamento antes de se envolver em um. Talvez ele fosse o cara certo para aquilo. Talvez pudesse de fato ajudá-la.

E não precisaria cobrar cinquenta mil dólares. Pensando melhor, não precisava cobrar nada. Ele tinha seus cartões de crédito. Poderia recuperar o prejuízo no mês seguinte. Ajudando Stella sem nenhuma motivação financeira, finalmente conseguiria provar a si mesmo que não era como seu pai.

Ele arrancou o equipamento e jogou tudo no chão sem o menor cuidado. “Pode guardar para mim? Preciso ir.”

* * *

O telefone de Stella apitou, arrancando-a do mundo dos dados. Seu escritório se materializou, com sua mesa, os monitores com o prompt de comando e todas as linhas de programação que criara, as janelas e a escuridão do lado de fora.

O alerta em seu telefone informava que era hora do jantar.

Ela abriu uma gaveta e pegou uma barrinha de cereal. Sua mãe ficaria furiosa se a visse jantando aquilo, mas Stella pouco se importava. Só queria trabalhar.

Mastigando distraidamente a mistura de chocolate com textura de papelão, fez pequenos ajustes em seu algoritmo. Estava bom. Talvez fosse um de seus melhores trabalhos.

O celular vibrou e a tela acendeu, revelando uma mensagem de Michael.

É sua sala que está com a luz acesa no terceiro andar às seis da tarde de um sábado?

Stella largou a barrinha e foi olhar a janela. Uma silhueta familiar estava encostada num poste do estacionamento. Ela se escondeu de imediato, morrendo de vergonha.

O telefone vibrou mais uma vez com a chegada de outra mensagem. Desce aqui. Precisamos conversar.

Ela afundou na cadeira. Tinha chegado a hora. Michael tinha ido até lá para terminar tudo entre os dois. Seus polegares tremiam enquanto Stella se recompunha o suficiente para mandar uma reposta rápida. Pode me dizer por mensagem.

Quero conversar com você pessoalmente.

Stella jogou o telefone sobre a mesa e cruzou os braços. Estava cansada e envergonhada. Não queria estar cara a cara com ele quando o acordo fosse desfeito. Ou Michael teria outra coisa para falar? Sobre mais bobagens que ela havia cometido?

Havia sido um erro ir se desculpar com a mãe dele? Uma coisa constrangedora e invasiva? Por que ela não conseguia fazer nada direito?

Stella passou as mãos pelos cabelos e tentou controlar a respiração. Precisaria se desculpar por ter se desculpado?

O celular vibrou de novo, e ela o virou com a ponta do dedo trêmulo para poder ler.

Vou ficar aqui até você resolver descer.

Ela esfregou as têmporas. Sua cabeça latejava, e o suor fazia as roupas colarem no corpo. Precisava ir para casa tomar um banho.

Era melhor encerrar aquilo logo.

Ela jogou a barrinha no lixo depois de uma única mordida, salvou o trabalho e desligou o computador. Jogou a bolsa sobre o ombro, apagou a luz e saiu da sala.

Os corredores vazios e os cubículos às escuras em geral eram uma visão reconfortante. Naquela noite, remetiam a solidão e tristeza. Enquanto caminhava para o elevador, perguntou a si mesma quanto tempo demoraria para aquela sensação ir embora. Uma semana? Um mês? Stella desejava que tudo voltasse ao normal, a como era antes de conhecer Michael. Aqueles altos e baixos emocionais eram exaustivos.

O barulho de seus saltos batendo no piso de mármore ecoou pela recepção. Ela se obrigou a sair pela porta.

Michael se afastou do poste de luz e enfiou as mãos nos bolsos, parecendo lindo como sempre sob o brilho fraco das luzes externas. “Oi, Stella.”

“Oi, Michael.” Seu peito se comprimiu e começou a doer. Ela começou a batucar nas coxas, então notou que ele estava olhando e cerrou os punhos.

“Minha mãe falou que você passou lá na loja.”

Era aquilo mesmo. Ela havia cometido um erro. Seu coração disparou. Parecia que ela poderia desmaiar a qualquer momento. Stella se esforçou para se manter de pé. “Desculpa se fiz algo errado. Me senti muito mal por ter deixado sua mãe chateada. Nunca tenho a intenção de ofender ninguém, mas faço isso o tempo todo. Estou tentando resolver, mas é complicado, e eu… eu… eu…”

Ele deu um passo à frente. Os dois estavam a um braço de distância. “Do que está falando?”

Stella olhou para o chão. Estava esgotada. Quando aquilo terminaria para ela poder ir para casa dormir? “Você está bravo porque fui falar com sua mãe. Porque foi invasivo.”

“Na verdade, não.”

Ela ergueu os olhos e viu que ele a encarava com uma expressão triste. “Então… não estou entendendo nada.”

“Não acha normal que seu namorado falso venha te buscar no trabalho? Já está ficando tarde.”

Ela respirou fundo, surpresa. “Mesmo depois de tudo o que falei na casa da sua mãe… você quer continuar com isso?”

“Quero. Minha família é complicada, e eu deveria ter avisado. Desculpa por não ter pensado nisso.”

Michael enlaçou sua cintura e a puxou para mais perto. Stella estava atordoada demais para conseguir falar. Ele estava se desculpando com ela?

“Está tudo bem? Parece até que você vai desmaiar.”

Ela ficou tensa com a proximidade, sem saber como reagir. “Tudo. Não precisa se preocupar.”

“Quando foi a última vez que você comeu?”

“Não lem… ah, estava comendo pouco antes de receber a sua mensagem.”

“Comendo o quê?”

Stella não podia contar. Michael provavelmente reagiria como sua mãe e daria uma bronca nela. Era a última coisa de que precisava no momento.

Ele passou os dedos pelo queixo dela antes de segurar seu rosto e puxar sua cabeça para trás, dando um beijo suave em seus lábios. “Chocolate. Você jantou doce?”

“Não. Uma barra de cereal. Tem vitaminas e tal.”

“Você vem comigo. Nada de discutir. Precisa se alimentar direito.” Eles foram até o carro dela, que estava parado ali perto. Stella estava cansada demais para dirigir ou protestar.

As portas se destravaram quando ela encontrou a chave na bolsa. Stella se acomodou no assento do passageiro e teve dificuldade em afivelar o cinto. Michael se encarregou disso com movimentos seguros. Em seguida se posicionou atrás do volante e os dois saíram do estacionamento.

O movimento provocou uma sonolência em Stella, que só percebeu que os dois estavam indo para a periferia da cidade quando já estavam na via expressa. “Aonde vamos?”

“Para a casa da minha mãe.”

Um pico de adrenalina afastou a sonolência, e ela se ajeitou no assento, acordadíssima. “Como é? Por quê?”

“Tem um monte de comida lá. Minha mãe cozinhou para um batalhão ontem à noite.”

Stella ajeitou os óculos, com o coração ameaçando pular para fora do peito. “Quero ir para casa. É sério.”

“Tem comida na sua casa?”

“Tem iogurte. Vou me alimentar direito. Prometo.”

Ele sacudiu a cabeça e soltou o ar com força. “Vamos comer rapidinho, depois você vai para casa.”

Antes que ela pudesse pensar numa resposta, Michael parou diante do sobrado cinza. Quando ele abriu a porta do carro, ela ouviu a mesma música ao longe, carregada pelo vento. Stella se agarrou ao cinto de segurança como a uma boia salva-vidas.

“Não vou aguentar a TV naquela altura hoje”, confessou em um sussurro dolorido. Depois da noite anterior, sua tolerância tinha ido para o espaço. Ela ia se descontrolar de novo e deixar todo mundo sem reação. Michael mudaria de ideia em relação ao acordo — Stella ainda não conseguia acreditar que ele não havia cancelado tudo. Ou então começaria a pisar em ovos com ela, o que era ainda pior.

“Espera um pouco.” Ele tirou o celular do bolso e digitou alguma coisa na tela.

Em questão de instantes, a música parou.

“Você pediu para desligarem? Sua mãe e sua avó não vão ficar incomodadas por não verem seus programas favoritos?” Seu corpo inteiro queimava de vergonha. Ela detestava quando as pessoas tinham que mudar a rotina por sua causa.

Michael lançou um olhar divertido na sua direção. “É só a televisão.”

“Não gosto que as pessoas tenham que se comportar diferente por minha causa.”

“A gente não liga.” Ele contornou o carro, abriu a porta e estendeu a mão. “Vamos entrar?”

 

Quando a mão pequena de Stella pousou sobre a sua, a tensão no estômago de Michael se dissipou, mas uma terrível mistura de culpa e tristeza continuava a devorá-lo por dentro.

Ela parecia péssima. O coque estava torto e mechas soltas caíam sobre seu rosto. Os olhos normalmente fulgurantes e expressivos pareciam apagados e inchados. O coração de Michael disparou quando ele concluiu que ela devia ter chorado um bocado para ficar daquele jeito. E por culpa dele.

Aquela não era sua Stella.

Bom, a mão suada era a mesma de sempre. Ele a apertou de leve e a conduziu até a varanda.

Quando abriu a porta para entrar, ela ficou tensa e deteve o passo. “Não tenho nada. Vi no Google que as visitas precisam trazer alguma coisa. Vou comprar…”

“Não tem problema, Stella.” Ele a envolveu pela cintura e a empurrou para dentro.

Ela fechou os olhos e respirou fundo. Michael podia ver que estava absorvendo o silêncio, e o corpo dela ficou mais relaxado sob seu braço.

“Você pode dizer se estiver se sentindo incomodada com alguma coisa, sabia? Como com a TV ontem à noite… ou a casa noturna na outra semana.”

Os olhos dela se abriram, mas Stella os desviou rapidamente. A tensão voltou. “Quan disse alguma coisa a você?”

Michael hesitou. Por algum motivo sentia que era importantíssimo para ela que ele não soubesse, então fez o que aprendera com o pai, apesar de tanto detestar: mentiu. “Ele disse que você não gostou do barulho e da aglomeração. Por que não me falou? Teria sido melhor.”

“Eu disse que não gosto que as pessoas tenham que agir diferente por minha causa.”

“A gente poderia ter feito outra coisa naquela noite”, ele falou, preocupado. A última coisa que queria era deixá-la chateada ou desconfortável.

“Por que tem laranjas ali?”, Stella perguntou, apontando para um prato ao lado da urna e do buda de bronze na mesinha no hall de entrada.

“Não mude de assunto.”

Ela suspirou. “Tenho vergonha. Morro de vergonha.”

Tanto autoflagelo… só porque ela tinha vergonha de admitir que era diferente? Michael sentiu suas entranhas se derreterem e apertou a mão dela com força.

“Pode me falar sobre as laranjas agora?”

Ele sorriu diante da insistência. “É uma oferenda para os mortos. Ao que parece, eles ficam com fome depois de desencarnar.” Ele encolheu os ombros, sem jeito. Ela devia achar aquilo uma bobagem. Até Michael achava, mas era tradição.

Um sorrisinho surgiu nos lábios dela. “Eles ganham outros tipos de comida também? Não tem graça comer frutas o tempo todo. Nem um docinho?”

Michael deu risada. “Você já comeu doces demais por hoje.”

“O que vocês fazem com as frutas depois? Não é como se os mortos as levassem embora…”

“A gente come. Não sei quanto tempo fica aí, mas imagino que coisa de um dia ou dois.”

“Humm.” Stella examinou o buda, inclinando a cabeça para olhar a parte de trás. A julgar pela expressão no rosto dela, aquilo a fascinava. Michael lembrou que ela gostava de filmes de artes marciais e dramas coreanos. Não parecia encarar aquilo com condescendência, tédio ou pura obrigação. Não era como seu pai.

“Está se sentindo em meio a um drama asiático?”, ele perguntou.

“É ainda melhor. Porque é a vida real.” Ela apontou para a caixa de incensos escondida atrás da imagem. “Posso acender um? Você me ensina? Sempre quis fazer isso.”

Michael esfregou a nuca. “Na verdade, não sei. Quer dizer, não me lembro da ordem, das mesuras, essas coisas. Quando eu era pequeno, me recusava a fazer isso, e Ngoa.i parou de pedir.”

“Demora muito?”, ela perguntou, franzindo a testa.

Michael abriu um sorriso tímido. “Não, acho que não. Mas vamos cumprimentar minha mãe e minha avó e comer alguma coisa. Pode ser?”

“Pode.”

Ela o seguiu até a sala de jantar e depois à cozinha, onde Sophie e Evie misturavam macarrão de arroz, fatias de carne e hortelã e alface picadinhas em uma tigela enorme. Pareciam ter feito as pazes. Aquilo era comum: passavam de amigas um dia a inimigas no outro. Ngoa.i e Me. estavam picando mangas sentadas à mesa mais informal onde costumavam comer — a da sala de jantar era mais decorativa. A avó estava usando seu cardigã preto favorito, e sua mãe vestia uma blusa de lã com motivos natalinos, apesar de não ser época de festas.

“Olá”, Michael cumprimentou.

A mãe acenou com a cabeça e se virou para Stella. “Bem-vinda de volta. O jantar fica pronto daqui a pouco. Sente aí.”

Stella sorriu, mas apertou a mão de Michael com ainda mais força. “Claro, obrigada. Parece estar tudo muito bom.”

“Estas são Sophie e Evie. Elas não são gêmeas”, Michael apresentou, levando Stella até a ilha central da cozinha, que estava repleta de comida em potes de vidro novinhos. “Sophie” — a com a mecha vermelha no cabelo, que eu ainda nem tinha visto — “é decoradora, e a Evie, fisioterapeuta.”

“Oi, Stella”, elas disseram ao mesmo tempo. Me. devia ter contado sobre o pedido de desculpas, porque as duas pareciam dispostas a dar uma chance a Stella.

Ela fez um breve aceno. “Oi.”

“Angie está?”, Michael perguntou.

“Não. Tinha coisa do trabalho para resolver”, Evie falou.

“Num sábado”, Sophie acrescentou com um risinho sarcástico.

“Porque as pessoas trabalham…”

“Aos sábados…”

“Como se fosse normal.”

As irmãs se viraram uma para a outra e trocaram olhares.

Michael sussurrou no ouvido de Stella: “Elas completam as frases uma da outra desde que eram pequenas. Acho que são alienígenas”.

Os lábios de Stella estremeceram em um leve sorriso. Era extremamente tímida, de modo que a família de Michael devia ser um pesadelo para ela. E ainda nem estava toda reunida ali. Ele segurou a mão dela com mais força e se lembrou de não a beijar. Por algum motivo, quando ela se voltava para ele em busca de segurança, um desejo possessivo troglodita de que Michael nem tinha conhecimento o dominava.

Ele pigarreou e perguntou: “Onde estão Janie e Maddie?”.

“Lá em cima estudando. Elas vão descer quando estiverem com fome. As duas têm prova.”

“Elas são as mais novas”, Michael explicou para Stella. “Maddie é a caçula. Está no segundo ano da San Jose State.”

“Vou acabar esquecendo todos esses nomes.” Ela parecia preocupadíssima, e Michael se derreteu mais um pouco. Por que estava tão interessada? Aquelas pessoas não eram especiais para ela. Era só a família dele.

“Tudo bem. Quem me dera esquecer também…”

“Muito engraçadinho, Michael”, Evie falou, revirando os olhos. “Você só precisa se lembrar de mim. Sou físio, então se sofrer de síndrome do túnel do carpo ou coisa do tipo já sabe quem procurar. Postura é tudo.”

“Por que você não se formou em medicina, hein?”, sua mãe perguntou enquanto descascava a décima manga. “Sempre quis um médico na família…”

“A Stella é doutora”, Michael disse com um sorriso.

Ela revirou e arregalou os olhos. “Não nesse sentido…”

“Ela é ph.D. pela Universidade de Chicago, que é a melhor do país na área dela, e talvez do mundo. E se formou magna cum laude.”

Me. ficou toda interessada, como ele sabia que aconteceria. “Que maravilha.”

Stella ficou vermelha, o que era bom, porque seu rosto estava precisando de um pouco de cor. “Como foi que você…”

“Procurando no Google.”

Os olhos dela encontraram os dele, e um sorriso surpreso se insinuou no canto dos lábios de Stella. “Estava me stalkeando?”

Ele deu de ombros. Foi a vez dele de ficar todo sem graça.

“O jantar está pronto, pombinhos. Vamos comer”, disse Sophie. Ela pôs a tigela cheia de fios de macarrão cortados com a tesoura e fatias finíssimas de carne diante de Ngoa.i antes de beijar a testa dela, como faria com um bebê.

Quando se acomodaram à mesa, Michael notou que Stella imitava cuidadosamente todo o ritual preparatório de Sophie, acrescentando molho de pimenta, rabanete e cenoura em conserva, broto de feijão e molho de peixe à tigela com macarrão, verduras e carne.

“Já comeu isso antes?”, ele perguntou.

Ela fez que não com a cabeça, distraída, enquanto misturava tudo. Seus olhos se arregalaram ao provar. Stella sorriu e cobriu a boca. “Você cozinha muito bem.”

“Michael é muito bom com as mãos”, a mãe dele falou com um aceno orgulhoso.

Sophie revirou os olhos, abriu um sorrisinho malicioso e perguntou para Stella: “Você concorda? Ele é bom com as mãos?”.

Me. olhou feio para Sophie, mas Stella se limitou a sorrir e assentir. “Na minha opinião, sim.”

Sophie arqueou as sobrancelhas e lançou um olhar para Michael como quem diz “ela está falando sério?”.

À medida que o jantar progredia, Michael passou a ver Stella à luz de sua recente descoberta. Não havia como notar quando eram só os dois, mas ela tinha dificuldade em manter contato visual. Quase nunca falava, a não ser quando perguntavam alguma coisa, e dava respostas curtas e diretas. Como ouvinte, porém, seu nível de concentração devia ser muito útil quando lidava com questões econômicas complexas. Ela franzia a testa a cada frase, como se fosse a coisa mais importante do mundo.

Aquelas pessoas interessavam a Stella porque eram parte da vida dele.

“De onde você é?”, Me. perguntou a Stella depois de passarem do bún para as mangas.

“Atherton. Meus pais ainda moram lá.”

As sobrancelhas de Me. foram lá no alto diante da menção à região mais endinheirada da Califórnia. “Você gosta de bebês?”

Michael quase derrubou sua fruta. “Me.”, ele advertiu, com um tom de voz áspero e horrorizado.

Ela encolheu os ombros, sem entender.

“Não precisa responder”, ele disse então para Stella.

Ela o encarou como se não estivesse na frente de um monte de gente. Os músculos de seu rosto relaxaram, mas a intensidade no olhar, não. Sua mente brilhante se concentrou em Michael. Ele era obrigado a admitir que adorava aquilo.

Stella levantou um ombro. “Não sei. Nunca convivi com um. Mas meus pais querem netos. Principalmente minha mãe.”

“Deve ser por isso que ela vive marcando encontros às cegas para você”, Michael comentou.

Stella assentiu. “Acho que sim.”

“Essas mães intrometidas…”

Ao ouvir o comentário, os lábios de Stella se curvaram num sorriso e seus olhos brilharam. Ele até se esqueceu do que estavam falando. Se não a beijasse em breve, acabaria enlouquecendo.

“Quando você chegar à minha idade”, Me. falou, cruzando os braços, “vai querer ter um monte de bebês à sua volta. É natural.”

Sophie ficou de pé num pulo. “Você me ajuda com a louça, Stella?”

“Claro”, ela respondeu. “Quer que eu lave de algum jeito específico?”

“Desde que fique limpa…”

Evie retirou as coisas da mesa enquanto Sophie e Stella juntavam tudo na pia. Me. e Ngoa.i encaravam Michael com expressão séria. Ele se preparou para o pior.

“Ela me conquistou hoje lá na loja. É importante admitir quando se comete um deslize. Você não deveria abrir mão dessa”, Me. falou em vietnamita.

Ele sacudiu a cabeça negativamente e contorceu os lábios. “Não é assim tão fácil.”

“Por quê?”

“Somos diferentes demais. Ela é inteligentíssima e ganha rios de dinheiro.”

“Você é inteligente também”, disse sua mãe.

Ele revirou os olhos.

“Você pode não ser o que seu pai queria, mas isso não significa que não seja inteligente. E não ganha muito porque me ajuda na loja. Já disse que não preciso mais. Você perdeu muitas oportunidades por minha causa. Não era isso que eu queria, Michael, e não quero que perca essa garota. Ela é ótima. Não vai achar outra igual.”

“Não é assim tão simples.”

“É, sim. Ela gosta de você. Você gosta dela.”

Caso tivesse menos autocontrole, ele teria mencionado o relacionamento dos pais, mas seria golpe baixo. Seu pai dizia que amava sua mãe, mas sempre a traía. Michael nunca entendera por que Me. o aceitava de volta.

“Me promete que vai tentar. Gosto dela”, a mãe falou.

Michael sentiu vontade de soltar uma gargalhada. De todas as garotas que poderia ter levado para casa, sua mãe gostava da única que não podia ser sua. Uma cliente. Rica, educadíssima e linda, que estava pagando para ele ensiná-la a conseguir manter um relacionamento.

“Você só está dizendo isso porque ela está lavando a louça.”

Ele sabia qual era o segredo para conquistar o coração da sua mãe, e não era cozinhando. Era limpando. Por algum motivo, nenhuma das mulheres da casa cozinhava. Ele tivera que aprender por uma questão de sobrevivência.

“Ela não tem medo de trabalho”, Me. comentou. “Isso é importante.”

“Hummmmm”, Ngoa.i concordou.

Por um instante, os três observaram enquanto Stella lavava as tigelas e passava para Sophie secar. Ela enrolara as mangas da camisa e trabalhava com toda a atenção, escutando e sorrindo quando a irmã de Michael puxava algum assunto.

“Leve a moça para casa”, Ngoa.i falou. “Ela parece cansada.”

Me. assentiu. “Parece mesmo.”

Ele se afastou da mesa e abraçou Stella pela cintura. Como não era capaz de resistir, passou os lábios no pescoço dela para deixá-la arrepiada. A esponja ensaboada interrompeu seu movimento, e a expressão dela ao olhá-lo por cima do ombro foi de confusão. Michael passou uma das mãos pelo antebraço delicado de Stella e tomou a esponja da mão dela. Terminou de esfregar a frigideira e o resto da louça com ela à sua frente, roubando um ou outro beijo na orelha, no pescoço, no queixo…

Sophie lançou um olhar como quem diz “arranjem um quarto” quando ele entregou o último escorredor — um dos vários que Me. prometera nunca mais levar ao micro-ondas. Ele conseguia ver que ela devia estar louca para fazer um comentário ácido e sarcástico, mas que se segurava para não constranger a convidada.

As pálpebras de Stella estavam pesadas, e suas unhas se cravavam na superfície de cerâmica da bancada enquanto evitava responder aos seus toques.

“Pronta para ir para casa?”, ele murmurou.

Ela assentiu.

Os dois se despediram e foram para o carro de Stella. Ele pressionou o botão de partida do Tesla.

Antes que ela afivelasse o cinto, ele perguntou: “O que você tem em mente em termos de moradia e frequência de visitas?”.

“O que a maior parte das pessoas faz quando está comprometida?”

“Moram juntas e se veem todos os dias. É isso que você quer?” Era estranho ouvi-lo fazer aquela pergunta em voz alta. Era algo que passara toda a vida adulta evitando, mas com Stella talvez estivesse pronto para aquele passo. Desde que ela quisesse.

Ela esfregou o rosto. “Então é isso que eu quero. Tenho um quarto de hóspedes em que você pode ficar. Se não estiver à vontade com a ideia, eu entendo. Nem todos os casais moram juntos.”

“E se eu quiser dormir na sua cama?”, ele perguntou num tom grave.

Apesar de querer muito ajudá-la e provar que não era como seu pai, não saberia como agir se o sexo estivesse fora de questão. Seu desejo por ela era forte demais. Além disso, o maior dos problemas de Stella provinha da falta de confiança. A cama era um ótimo lugar onde resolver aquilo.

“Você não é obrigado a fazer nada disso”, ela respondeu.

“Eu sei. Mas você não respondeu minha pergunta.”

Olhando pela janela do banco do passageiro, ela respondeu: “Minha cama está à disposição, mas você sabe que me falta habilidade. Nada mudou desde a última vez que ficamos juntos”.

Ele abriu um sorriso. Ela parecia estar preocupada em agradá-lo. Suas clientes em geral não ligavam para aquilo.

“Vamos selar o trato.”

“Tudo bem.” Ela tirou a mão de cima da coxa e a estendeu para ele.

“Estamos simulando um relacionamento. Acho que isso exige um beijo.”

Ela o encarou, com os lábios entreabertos de surpresa. Não era necessário fazer mais nada. Debruçando-se sobre o console central, ele a beijou. Queria ser sedutor, inflamando o beijo aos poucos, mas o suspiro que Stella soltou o fez perder a cabeça. Michael tomou a boca dela com movimentos ávidos de língua. Ela enfiou os dedos nos cabelos dele, desceu-os pelo peito e pelo abdome antes de entrar na calça jeans. Finalmente eles poderiam recomeçar a marcar os quadradinhos…

Golpes de mão fechada reverberaram contra a janela do motorista. Uma voz abafada dizia frases incoerentes.

Ele voltou para o assento do motorista e baixou a janela.

Sophie cruzou os braços e bateu o pé descalço no cimento da entrada da garagem antes de se curvar para a frente, estreitar os olhos e pronunciar “tarado” sem emitir nenhum som. “Mamãe pediu para avisar que os faróis estão voltados para o quarto da Ngoa.i. Ela não consegue dormir assim.”

“Desculpa, esqueci. Já estamos indo.”

Olhando para dentro do carro, ela falou: “Boa noite, Stella. Até a próxima”.

Stella ajeitou os cabelos caídos sobre o rosto e limpou a garganta com uma leve tossida. “Boa noite, Sophie.”

A irmã de Michael lançou um último olhar de reprovação e voltou para dentro de casa. Segundos depois, o telefone dele vibrou, e a tela se acendeu com uma série de mensagens dela.

Pega leve, Michael.

A gente gostou da garota, e assim ela vai se assustar.

Sinceramente, na frente de casa? Quantos anos você tem, treze?

Ele segurou o riso e entregou o celular para que Stella lesse as mensagens.

Ela mordeu a ponta da unha e sorriu. “Não estou assustada.”

Michael passou a mão pelos cabelos, respirou fundo e ajustou o pau dolorosamente duro na calça. “Vamos levar você para casa.”

Ele dirigiu com um desprezo total e gratuito pelas leis de trânsito das ruas do bairro residencial, imaginando a si mesmo despindo aquelas roupas de bibliotecária dela e prensando-a contra o chão ou contra a parede — ambos funcionavam.

Ele faria tudo direitinho com Stella, de uma forma espetacular. Olhando para ela, tentou decidir o que fazer primeiro, o que só aumentou a expectativa. Ia carregá-la no colo para dentro de casa e para a cama.

Poucos minutos depois de saírem, ela pegara no sono. Sua cabeça estava caída para o lado, e os óculos se equilibravam precariamente na ponta do nariz. Ela mal esboçou um movimento quando a porta da garagem se abriu e os pneus guincharam contra o piso emborrachado.

Ele tentou sacudi-la para acordá-la, mas Stella não reagiu. Sua respiração continuou estável e profunda, e o corpo em relaxamento total. Com um suspiro, ele a tirou do carro e tomou o caminho do quarto dela — que naquela noite seria deles.