Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 26 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 26

 

Mais tarde naquela semana, Michael deixou Sophie trabalhando na loja e cuidando de Ngoa.i enquanto ele levava a mãe ao médico para a consulta e a bateria de exames mensais. Era um trajeto curto, mas pareceu eterno, com Me. o encarando fixamente de braços cruzados. Ele aumentou o volume da música e se concentrou no trânsito.

Ela desligou o rádio. “Não aguento mais. Você passa o dia inteiro andando de um lado para o outro como um cachorro sem dono. Não fala nada. Está espantando a freguesia. E quando trabalha parece que está morrendo. Michael, me diga o que está acontecendo.”

Ele apertou com mais força o volante de couro. “Nada.”

“Como vai Stella? Ela podia ir em casa sábado. A toranja estava em oferta, comprei um monte.”

Ele não respondeu.

“Não sou idiota, sabe? Você terminou com a moça?”

“O que faz você pensar que não foi o contrário?” Stella teria feito aquilo, quando decidisse que já tinha praticado o bastante.

“Está na cara que ela é apaixonada por você. Jamais faria isso.”

Ele cerrou os dentes ao se sentir dominado por uma sensação desagradável. Stella gostava dele, mas só se mostrava “apaixonada” mesmo na cama.

“Conheci os pais dela.”

“Ah, é? Como eles são?”

“O pai dela não me achou bom o bastante”, Michael respondeu, contorcendo os lábios de amargura.

“Claro que não.”

Ele desviou os olhos do trânsito para encarar o perfil da mãe. “Como assim?” Ele era o único filho dela. Jamais imaginaria que falaria assim dele.

“Você é orgulhoso demais, igualzinho ao seu pai. Precisa ser mais compreensivo. Ele só quer o melhor para ela. Stella é filha única, não? Como acha que foi quando casei com seu pai?”

“O vovô e a vovó adoram você.”

“Hoje. Mas no começo não me aprovavam. Por que iam querer que ele casasse com uma vietnamita que só tinha estudado até o oitavo ano e mal sabia falar inglês direito? Eles se recusaram a ir ao casamento, só acabaram cedendo porque seu pai ameaçou cortar relações com toda a família. Tive que me esforçar para conquistar os dois. Não foi do dia para a noite. Mas valeu a pena.”

“Eu não sabia disso…” Aquilo o fazia enxergar seus avós sob uma nova luz, bem menos favorável.

“Quando você ama uma pessoa, precisa lutar por ela de todas as formas. Se fizer um esforço de verdade, o pai de Stella vai gostar de você. Aliás, se tratar bem a filha dele, vai te adorar.”

“Acho que seria muito egoísmo da minha parte lutar por ela. Existem caras muito melhores por aí. Com mais grana, mais educação, mais…” Ele se interrompeu ao notar que a mãe se virava para ele com os olhos estreitos.

“Você está parecendo seu pai. Não suporta a ideia de ter uma mulher bem-sucedida, então desiste de tudo. Ela está melhor mesmo sem você. Se amasse Stella de verdade, saberia valorizar esse amor e se comprometer com ele. Ela não precisa de mais nada de você além disso.”

“Acha que sou como papai? Acha que eu faria o que ele fez?” As palavras de Me. o atingiram como uma lufada de água gelada nos pulmões. Se sua própria mãe achava que…

“Você jamais faria isso”, ela disse com um gesto de mão. “Ele não tem coração. Você tem, e dos bons. Mas acha que precisa ser o melhor em tudo e fazer tudo sozinho. Você e seu pai têm esse mesmo problema.”

“Eu não…”

“Então por que ainda está trabalhando na loja? Por que costura para mim? Acha que a velhinha aqui não consegue?”, ela perguntou, irritada.

“Não, eu…”

“Não aguento mais ficar em casa. Sei que não sou mais tão rápida quanto antes, mas trabalho direito. Estou me sentindo melhor. Os remédios estão fazendo efeito. Vocês precisam parar com isso. E você, Michael, precisa parar de ir à loja. Não quero mais você lá, principalmente com esse mau humor. É ruim para os negócios.”

“Me., não posso te deixar sozinha. E você não vai querer trabalhar com ninguém de fora da família.” Era uma verdade incontornável à qual ele se agarrava, uma grade a mais na jaula em que havia se enfiado. Porque amava sua mãe.

“Acha que é a única pessoa na família que sabe costurar? Quantos primos você tem mesmo? Que tal o Quan? Ele apareceu na loja no sábado para usar a máquina para arrumar o zíper de uma jaqueta. Sabia o que estava fazendo, e não gosta de trabalhar com a mãe. Ela grita demais.”

Michael se encolheu no assento. Seu cérebro não conseguia registrar direito o que Me. estava dizendo. “Você deixaria Quan trabalhar no balcão? Com todas aquelas tatuagens?”

Ela apontou para o braço de Michael, no ponto em que a tinta preta aparecia por baixo da manga. “Você também tem tatuagem. Não pense que não percebi. Não entendo o que vocês jovens fazem com o próprio corpo.”

Ele soltou a mão esquerda do volante para esconder os braços. “As garotas gostam.”

“Stella gosta disso?”

“Claro.” Ela beijara a tatuagem tantas vezes que o dragão até deveria estar com saudade. Aquilo o fez pensar que Philip Mortimer devia ser lisinho como um bebê por baixo das roupas. Um sorriso de satisfação surgiu nos seus lábios. “Ela não é tão inocente como você pensa”, ele acrescentou, tentando amenizar a decepção da mãe.

Me. lançou um olhar como quem diz “está de brincadeira comigo?”. Em seguida voltou a se concentrar nos prédios que passavam pela janela. “Como se alguma garota pudesse continuar inocente depois de se envolver com você. Além disso, toda mãe quer para o filho uma garota que saiba o que faz na cama. Gostaria de segurar muitos bebês no colo.”

Michael engasgou antes de cair na risada.

“Não vai perder a entrada.” Ela apontou para o prédio da Fundação Médica de Palo Alto.

Ele a deixou na porta e foi estacionar no subsolo. Sua mente estava perdida em um turbilhão de pensamentos quando saiu do elevador e foi procurá-la na sala de espera da ala de oncologia.

Me. dizia que ele tinha um bom coração e que jamais faria o mesmo que o pai. Além disso, queria que ele lutasse por Stella. Achava que o amor era o suficiente.

Mas não se não fosse correspondido.

A recepcionista de que mais gostava no hospital, Janelle, acenou para ele. “Ela já está sendo atendida. Preciso que assine alguns papéis.”

Ele foi até o balcão com uma sensação de medo. Pelo que havia aprendido, papéis nunca eram uma coisa boa. Cobranças eram enviadas em papéis.

“Pode assinar aqui e aqui”, Janelle indicou.

Ele franziu a testa para a papelada. Não parecia ser nada referente a procedimentos médicos. “Para que tudo isso?”

“A fundação criou um programa para fornecer assistência a famílias sem cobertura de plano de saúde que não se qualificam para receber auxílio do governo federal ou estadual. Sua mãe foi uma das poucas aprovadas. Vai receber auxílio completo daqui em diante. Deve ser um tremendo alívio…”

Michael apanhou os papéis e começou a ler as letrinhas miúdas o mais depressa que conseguia. Quanto mais lia, mais atordoado ficava. Sua pele até se arrepiou. “Isso é sério? Cobertura total?”

“É, sim. Basta assinar os papéis.” Os olhos de Janelle brilhavam de alegria e compaixão. Ele não sabia como reagir. Era bom demais para ser verdade.

Nada de despesas médicas. Nada de dívidas. Nada de cobranças. Aquilo era possível? Michael não tinha aquele tipo de sorte. Com ele só aconteciam coisas ruins. Sua vida se resumia a esperar para ver como aguentaria as porradas e continuaria de pé. Aquilo só podia ser algum tipo de pegadinha.

“Como ela foi selecionada?” Ele mal conseguia ouvir a própria voz em meio à cacofonia exaltada de seu próprio coração.

Janelle sacudiu a cabeça e abriu um sorriso. “Não sei como funciona o processo de seleção, mas estamos fazendo uma porção de famílias felizes hoje. Pode acreditar.” Ela apertou a mão dele antes de lhe entregar uma caneta com uma margarida na ponta.

Michael releu as letras miúdas, deparando com frases com “reconhecimento de condição financeira insuficiente” e “cobertura de saúde total”. Não havia nenhum impeditivo, nenhuma solicitação de pagamento prévio, nenhuma restrição, nenhuma cláusula ambígua. Era tudo preto no branco. Seu instinto dizia aquilo. A ponta da caneta pousou sobre a parte grifada de amarelo no documento.

“Quem financia esse programa?”, ele quis saber.

“A iniciativa privada. Tem um monte de organizações filantrópicas nesta região. Assina isso logo. Você está me deixando nervosa.”

Seu coração desacelerou e suas mãos recuperaram a firmeza. Ele assinou nas linhas indicadas em páginas após páginas do contrato.

Janelle juntou a papelada, pegou um copo d’água do outro lado do balcão e entregou a ele. “Bebe. Você está pálido. Agora vai lá dar a notícia pra sua mãe. Ela está na sala de sempre.”

Ele bebeu de um gole só e se dirigiu às pressas para a penúltima sala. Sua mãe estava deitada na maca, ligada por uma porção de fios a uma máquina de eletrocardiograma. Uma enfermeira imprimiu os resultados e fez anotações na prancheta antes de retirar os sensores.

“Como estão as coisas?”, Michael perguntou enquanto se acomodava na cadeira.

“A médica vai poder dizer isso assim que chegar.” A enfermeira sorriu, recolheu os papéis e o maquinário e saiu.

“Tenho certeza de que está tudo bem.” Me. ajeitou o suéter lilás que, pela primeira vez, combinava com a calça, que era branca. “Estou me sentindo ótima.”

Seriam boas notícias demais para um único dia, mas o rosto dela estava corado e as manchas sob seus olhos não pareciam muito pronunciadas.

“Você ganhou peso?”, ele quis saber.

“Um quilo e meio.”

Aquilo aliviou um pouco da tensão do corpo de Michael. “Que bom.”

“Para de se preocupar. Confia em mim.”

Depois de uma batida na porta, a médica entrou, uma mulher curvilínea com cabelos loiros até os ombros e uma postura que logo deixava as pessoas à vontade.

“Você está progredindo muito bem”, ela falou com um sorriso para Me.. “Os resultados mostram estabilidade, então vamos começar a fazer exames mais espaçados, a não ser os de sangue, que continuam mensais. A dosagem dos remédios também permanece a mesma. É claro que, se alguma coisa mudar, vamos precisar ver você o quanto antes, mas não acho que seja provável.”

“Diz pro meu filho que posso trabalhar mais. Ele e as irmãs ficam me prendendo em casa.”

A médica encarou Michael com um sorriso compreensivo. “Se ela quiser trabalhar, pode deixar. É mais saudável permanecer em atividade, tanto para o corpo como para a mente.”

Michael cruzou os braços. “Em vez de trabalhar mais, talvez ela pudesse começar a namorar.”

“Ah, não, não, não, não. Não quero mais saber de homens.” Me. fez gestos enfáticos e sacudiu a cabeça com vigor. “Para mim, já chega.”

A médica levantou as sobrancelhas, pensativa. “Seu filho tem razão. Acho que poderia ser divertido.”

Me. olhou feio para Michael, que não conseguiu segurar o riso.

Eles saíram do consultório logo em seguida. Quando passaram pela recepção. Janelle abriu um sorriso simpático, que Me. respondeu com um aceno distraído.

“O que foi?”, Janelle quis saber.

Me. franziu a testa. “Ele quer que eu arrume um namorado. Eu. Com quase sessenta anos.”

Janelle balançou a cabeça com uma expressão de quem sabe das coisas. “Nunca é tarde demais para encontrar o amor.”

“Eu só quero saber de trabalhar. Dinheiro é melhor que homem. Quero uma bolsa Hermès.”

“Bom, talvez agora consiga comprar”, Janelle falou com um sorriso.

Michael conduziu sua mãe para fora, antes que começassem a falar sobre o motivo pelo qual talvez ela pudesse gastar com um acessório de grife. Quando entraram no carro e saíram do estacionamento para o sol, ele desejou que pudesse falar para ela sobre o programa, mas então teria que admitir todas as mentiras que contara sobre o excelente plano de saúde que tinha feito para ela, totalmente inventado, e confessar que vinha pagando todas as despesas médicas do próprio bolso.

A única pessoa que entenderia seria Stella, mas ela não fazia mais parte da vida dele. Portanto, Michael precisaria guardar a notícia para si.

 

Stella apoiou a testa na palma da mão e metodicamente repassou os atributos que associava à sua síndrome: sensibilidade excessiva a sons, cheiros e texturas; necessidade de estabelecer rotinas; falta de traquejo social; tendência a desenvolver obsessões.

Ao longo da semana anterior, vinha atacando todos, com exceção dos dois últimos, que não sabia como abordar. Conseguia ouvir músicas horrorosas enquanto trabalhava, usar perfume, usar roupas com costuras comuns e deixar a rotina de lado, mas não achava possível começar a conversar com desconhecidos com naturalidade e não era capaz de ignorar sua obsessão pela pessoa que amava.

Sua mente girava em círculos sem parar, buscando uma solução para o problema. Embora Stella não fosse boa em interações sociais, tinha melhorado bastante ao longo dos anos. Caso se concentrasse e tomasse cuidado com o que dizia, era capaz de interagir sem deixar as pessoas sem graça — na maior parte do tempo. Mas restava a questão da obsessão.

Como não desenvolver uma por algo que considerava maravilhoso? Como apreciar com moderação? Sendo bem realista consigo mesma, precisava admitir que não era uma possibilidade no seu caso. Stella não conseguia gostar só até certo ponto. Já tinha tentado com Michael e fracassado. Aquilo significava que teria que se abster por completo das coisas que a agradavam?

Talvez até conseguisse abrir mão do piano, dos filmes de artes marciais e dos dramas asiáticos. Mas e quanto à sua grande paixão?

A econometria?

Desistir de seu ramo profissional seria o maior sinal possível de comprometimento. Seu trabalho era o principal pilar de sua vida. Se pedisse demissão, tudo mudaria. Ela de fato ia se tornar outra pessoa.

Stella pôs os óculos sobre a mesa e cobriu os olhos com a mão espalmada, desistindo de analisar os dados nos monitores. Sua mente estava desestabilizada demais para conseguir se concentrar. Se não pudesse mais executar seu trabalho, talvez fosse mesmo melhor se demitir.

Ela poderia se dedicar a alguma coisa que produzisse benefícios mais concretos para a sociedade. Como a área médica. Com esforço, poderia se tornar médica. Não era muito ligada a coisas como fisiologia e química, mas faria diferença? A maioria dos médicos provavelmente se concentrava mais nas consequências de sua atuação do que na realidade do dia a dia. Na verdade, seria até melhor se o trabalho a entediasse. Assim não desenvolveria uma obsessão pelo que fazia.

Estava decidido. Ela precisava largar o emprego.

Com os dedos rígidos e uma determinação febril, Stella começou a escrever uma carta de demissão para entregar ao chefe.

Caro Albert,

Eu agradeço pelos últimos cinco anos. Fazer parte de sua

equipe foi uma experiência de valor inestimável para mim.

Apreciei muito a oportunidade de não apenas analisar

estatísticas fascinantes do mercado de varejo, mas também de

promover mudanças concretas com a aplicação dos princípios

econométricos. No entanto, é hora de sair da empresa, porque

Porque o quê? Albert não entenderia nenhuma das razões que passavam por sua cabeça naquele momento. Ele era economista. Só pensava naquilo.

Mesmo se ela contasse que era autista, Albert não daria a mínima. Aquilo não tinha nenhum impacto negativo em sua eficácia como econometrista. Na verdade, sua tendência obsessiva de manter o foco por longos períodos, seu apego a rotinas e padrões e seu modo de pensar implacavelmente lógico que a tornava incapaz de jogar conversa fora faziam dela uma econometrista ainda melhor.

Era uma pena que essas mesmas coisas tornassem impossível amá-la.

Stella ouviu uma batida discreta na porta e deu uma olhada no relógio antes de se virar e ver Janie entrando. Bem no horário marcado. Ela minimizou às pressas a janela do computador com a carta de demissão e ficou de pé para receber a candidata a estagiária.

Janie sorriu. Apesar dos lábios trêmulos de nervosismo, aquilo fez Stella se lembrar de Michael, o que lhe provocou um aperto no peito.

Com certa demora, ela apertou a mão de Janie. “Que bom ver você. Por favor, sente.”

Janie alisou com as mãos o terninho preto e obedeceu. Ela bateu com o pé no chão algumas vezes antes de cruzar as pernas. “É bom ver você também.”

No silêncio constrangedor que se seguiu, Stella coçou o pescoço distraidamente. As costuras da camisa faziam parecer que havia uma fileira de formigas percorrendo sua pele.

“Como você vai?”, ela perguntou, tentando esquecer a coceira.

“Eu? Hã, vou bem.” Janie estava com os cabelos compridos soltos, e prendeu uma mecha castanha atrás da orelha. Ela baixou os olhos para o portfólio com capa de couro na mesa de Stella. “Já Michael nem tanto.”

O peito de Stella se comprimiu, e ela começou a sentir que agulhas espetavam seu rosto. “Não? Por quê? O que aconteceu? Sua mãe está bem?”

“Ela está ótima, não precisa se preocupar”, Janie falou, gesticulando para tranquilizá-la. “Bom, só está chateada por causa do Michael. Quer que ele pare de trabalhar na loja, mas não tem jeito. Ele anda insuportavelmente ranzinza, trabalhando sem parar. Parece possuído. Estamos todas preocupadas. E irritadas.”

“Eu não… não entendo por que ele está tão infeliz.” Não poderia ser pelo mesmo motivo que ela. Uma esperança misturada com o incômodo das costuras a deixou com vontade de arrancar a camisa e gritar.

“É por sua causa. Michael sente sua falta.”

Ela sacudiu a cabeça. Impossível. Ouvir seu maior desejo ser vocalizado por outra pessoa a encheu de uma amargura quase raivosa. “Que tal começarmos a entrevista?” Stella pegou os documentos de um estudo de caso que tinha elaborado e entregou para Janie.

Em vez de olhar para os papéis, Janie os colocou em cima do portfólio. “Por que vocês terminaram?”

Porque nunca tinham começado, para começo de conversa. Porque para ele tudo o que acontecera entre os dois se resumia a um ato de caridade.

Stella começou a remexer na gaveta do arquivo ao notar que seus olhos se enchiam de lágrimas. Depois de vários segundos angustiantes piscando furiosamente, o risco de choro passou. Ela engoliu em seco, limpou a garganta e falou: “Isso não é relevante para a entrevista. Você tem cinco minutos para ler o estudo de caso, então vamos falar a respeito”.

“Acho que vocês dois precisam conversar.”

“Tivemos uma longa conversa.” Uma que Stella não queria reviver. Caso ouvisse mais uma vez que ser quem era não bastava, acabaria perdendo a cabeça.

“A separação claramente não está sendo boa para nenhum dos dois”, insistiu Jane. “Vocês deviam conversar de novo.”

Stella esfregou as têmporas, sentiu uma dose concentrada do perfume que havia passado no pulso e sentiu seu almoço subir pela garganta. Ela afastou a mão do rosto e começou a respirar pela boca. “Não posso.”

“Por favor, Stella. Sei que ele deve ter estragado tudo, mas dá mais uma chance. Ele é louco por você.”

“Não foi o Michael que estragou tudo. Fui eu.” Ela tinha estragado tudo sendo quem era.

“Não consigo acreditar. Michael é péssimo em relacionamentos. Tem várias questões mal resolvidas.”

Stella fez uma pausa. Quem tinha questões mal resolvidas com as quais lidar era ela. Ou não? “Que tipo de questões?”

“Está falando sério? Ele não contou?” Janie olhou para o teto e resmungou consigo mesma antes de continuar. “Meu pai pegou pesado com ele por ter se recusado a fazer engenharia, apesar de ter sido aceito. Disse que Michael não ia ser nada na vida, que ia ficar pobre e ser obrigado a dar um jeito de ganhar dinheiro com o rosto bonito dele, porque não serviria para nada mais. Depois ainda cortou relações com meu irmão e fez com que ele pagasse pelo diploma de moda do próprio bolso. Michael é supertalentoso e parece confiante. Mas você foi a primeira garota que pareceu fazer bem para ele.”

Depois de absorver a informação e armazená-la para refletir mais tarde, Stella abriu um sorriso forçado. “É muita gentileza sua dizer isso. Obrigada.”

“Ai, meu Deus, você também vai agir assim? Vocês foram claramente feitos um para o outro. Enfim, já vi que minha vinda aqui foi um fracasso total. Já vou indo.” Janie fez menção de levantar.

“Você não vai fazer a entrevista?”

Janie prendeu o cabelo atrás da orelha de novo. “Não seria nepotismo, já que a gente se conhece?”

Stella sorriu. “Você teria que falar com seis pessoas, e a decisão precisa ser unânime. Acho que isso elimina qualquer preocupação a esse respeito. Além disso, mesmo que não seja contratada, acho que pode aprender alguma coisa com o processo seletivo. Temos gente de altíssimo nível trabalhando nesta empresa. Que tal dar uma lida no estudo de caso?”

“Certo.” Janie se debruçou sobre os papéis e começou a ler com uma expressão compenetrada que fez Stella se lembrar de Michael.

Janie acertava na mosca pergunta após pergunta, revelando um modo de pensar singular e criativo que seria de grande valia no futuro. Claramente já havia se recuperado dos tropeços no primeiro ano de faculdade.

“Uma última pergunta”, Stella disse. “Por que você busca uma carreira no ramo da economia em vez de outro campo de conhecimento?”

Os olhos de Janie brilharam, e ela se inclinou para a frente. “Isso é fácil. A matemática é a coisa mais bonita que existe no universo, e a economia é o que move o mundo das realizações humanas. Ela é o caminho para ter uma compreensão mais sofisticada das pessoas.”

“E por que quer entender melhor as pessoas? Você já tem uma família enorme, e imagino que tenha um monte de amigos.”

“Tenho mesmo muitos amigos e parentes.” Janie deu de ombros. “Mas eles são um subconjunto minúsculo da sociedade, muito diferentes de mercados ou países inteiros. E, sinceramente, não tem nada de muito interessante neles. Não me causam fascínio. Não estimulam minha visão de mundo. Eu morreria por eles, mas prefiro viver por outra coisa. Pela economia. É minha vocação, assim como a sua.”

Com os olhos marejados e emocionada sem nem entender direito o motivo, Stella ficou de pé e apertou a mão de Janie. “Acho que o pessoal daqui vai gostar bastante de você.”

Janie sorriu. Stella a acompanhou até a sala onde seria a entrevista seguinte e lhe desejou sorte. Quando voltou ao escritório, olhou para a frase inacabada em sua carta de demissão: No entanto, é hora de sair de empresa, porque…

Porque ela estava pensando em abrir mão de sua vocação?

Por causa de Michael. Por causa de um cara.

Stella passou os dedos pelos cabelos, soltando algumas mechas. Não fazia sentido se sacrificar por um homem que não a amava tal como ela era. Ninguém ganharia nada com aquilo, muito menos ela. Não era justo ou honesto. Não era nem um pouco sua cara.

Sua transformação terminava ali. Não havia nada de errado com ela. Seu modo de ver o mundo e interagir com ele podia ser diferente, mas fazia parte de quem Stella era. Podia mudar seu comportamento, seu modo de falar, sua aparência, mas não tinha como alterar sua essência. Ela sempre seria autista. Asperger era uma síndrome, mas não parecia uma. Era simplesmente seu jeito de ser.

Stella precisava aceitar o fato de que ela e Michael simplesmente não combinavam. Abrir mão de uma parte sua para forçar uma relação era uma grande bobagem. Pedir demissão era uma tremenda bobagem, e ela não faria aquilo. Cerrando os dentes, fechou a carta de demissão sem salvar.

Em seguida recolheu suas coisas e se preparou para ir embora mais cedo. Precisava tirar aquela camisa e o perfume da pele. Seu comportamento na última semana a deixou enojada.

Sim, Stella se sentia sozinha. Sim, seu coração estava partido. Mas pelo menos ia ser ela mesma.