Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 3 de 30

Páginas do PDF

Os Números do Amor

Capítulo 3

 

 

Depois de destrancar a porta, Stella entrou na suíte de iluminação discreta, colocou a bolsa na poltrona perto da porta e deixou os sapatos de salto alto encostados na parede, quase suspirando quando seus pés descalços tocaram o carpete...

Michael lançou um olhar divertido em sua direção. Ela olhou para os dedos dos pés — tinha tirado os sapatos no piloto automático. Era um de seus rituais. Seria falta de educação fazê-lo quando estava acompanhada? Talvez fosse melhor voltar a calçá-los. Seu estômago se revirou e seu coração disparou.

Ele a poupou da decisão tirando os sapatos de couro preto e colocando-os ao lado dos dela. Depois tirou o blazer e jogou na poltrona, ao lado da bolsa, revelando a camiseta branca e lisa que usava por baixo, bem justa no peito e nos braços, e a calça jeans de cintura baixa. Para Stella, era impossível não olhar.

O corpo dele era todo músculos definidos e membros bem coordenados. Ele era o homem mais impressionante que ela já havia visto.

E os dois iam transar naquela noite.

Apavorada, Stella respirou fundo e foi para o banheiro, onde apoiou as mãos no granito frio da pia e observou seu reflexo no espelho. Seus olhos estavam um pouco arregalados, seus lábios, ressecados e seu rosto parecia pálido. Não era capaz de prosseguir com aquilo. Não devia ter escolhido um acompanhante tão bonito. Onde estava com a cabeça?

Seus lábios se curvaram num sorriso. Sua cabeça não estivera nem um pouco no lugar. Depois de analisar os perfis dos acompanhantes durante horas, observando incontáveis rostos e informações que se misturaram em sua mente, bastara uma única olhada em Michael para saber que seria ele. Tudo por causa dos olhos. Castanho-escuros, sob sobrancelhas bem desenhadas, e tão intensos… mas, ainda assim, gentis. A semelhança com o ator coreano mais bonito do mundo também ajudava. Bom, não naquele momento. Havia uma boa chance de Stella acabar vomitando a janta na pia da cozinha.

Pelo espelho, Stella o viu se aproximar e se encostar no batente da porta, num movimento tão sensual que ela sentiu o coração pular, voltando a bater com muita dificuldade. Michael entrou no banheiro e parou atrás dela, com os olhos cravados nos seus através do espelho. Agora que não estava mais de salto, Stella notou que ele era uns vinte centímetros mais alto. Ela não sabia se gostava de se sentir tão pequena.

“Posso soltar seu cabelo?”, Michael perguntou.

Ela assentiu com a cabeça. Em questão de segundos, a tensão em seu couro cabeludo se foi, e seus cabelos se libertaram. O elástico preto caiu sobre a bancada da pia, e ele deslizou os dedos por seus cabelos, separando as mechas para que escorressem pelos ombros e pelas costas. Stella sentiu seu corpo vibrar enquanto esperava que o contato íntimo fosse iniciado, provocando um colapso nervoso nela. Quando acontecesse, ele perceberia com quem estava lidando.

Uma mancha preta no braço dele chamou a sua atenção, e ela se virou para examinar mais de perto. Ergueu a mão para tocá-lo, mas interrompeu o gesto. Ela nunca encostava em ninguém sem permissão. “O que é isso?”

Os lábios dele se curvaram num sorriso lento e torto, revelando dentes brancos e perfeitos. “Uma tatuagem.”

Ela engoliu em seco de forma involuntária, e uma onda de calor a invadiu. Stella nunca tinha entendido o motivo pelo qual se fazia uma tatuagem. Até aquele momento. A tatuagem de Michael era a coisa mais sexy que ela podia imaginar.

Stella se coçava para levantar um pouco mais a manga da camisa, mas ficou hesitante por um momento, até Michael segurar sua mão e pressioná-la contra o próprio braço. Um choque elétrico percorreu o caminho da ponta dos seus dedos ao coração. Ele parecia perfeito, como se entalhado em pedra, mas sua pele era macia e quente, firme e flexível, viva.

“Pode tocar”, ele falou. “Onde quiser.”

Apesar de ser um convite tentador, Stella se manteve imóvel. Um toque era algo muito pessoal. Ela não conseguia entender como Michael era capaz de fazer aquilo com tanta naturalidade com gente que nem conhecia.

“Tem certeza de que para você tudo bem?”, Stella perguntou.

O sorriso torto dele voltou com toda a força. “Gosto de ser tocado.”

Ela continuou hesitante, então ele arregaçou a manga e mostrou o desenho na parte superior do braço, desaparecendo camiseta adentro. Devia ser bem grande, porque a forma ainda não tinha nem começado a se revelar. Quanto do corpo cobriria?

Os músculos bem definidos que ela viu a distraíram da tarefa de investigar mais. Stella nunca havia tocado alguém tão firme antes. Queria passar a mão nele inteiro. E seu cheiro… Como ela demorara tanto para reparar?

“Está usando perfume?”, Stella perguntou, respirando fundo.

Ele ficou tenso. “Por quê?”

Ela se aproximou o máximo possível sem afundar o rosto no pescoço dele, à procura daquele aroma inebriante. “Seu cheiro é muito, muito bom. O que é?”

Todas as partes do corpo dele pareciam exalar aquilo, mas de uma forma bem sutil. Stella queria descobrir uma concentração um pouco maior em algum ponto.

“Michael?”

Um olhar de divertimento surgiu no rosto dele. “Sou só eu, Stella.”

“Você tem esse cheiro bom?”

“Parece que sim. Você foi a primeira a comentar.”

“Quero esse cheiro todinho em mim.” Quando as palavras escaparam de sua boca, Stella temeu ter dito algo errado. Era uma afirmação pessoal demais, um tanto esquisita. Revelaria o quanto era estranha?

Ele se abaixou para levar a boca bem pertinho de seu ouvido e perguntar: “Tem certeza de que você é ruim de cama?”.

“O que está querendo dizer com isso?”

“Que até agora está se saindo muito bem.”

Seus dedos se flexionaram sobre o braço dele, e Stella teve que se conter para não se agarrar a Michael como uma stripper se agarra a um poste. Ela não gostava de tirar a roupa nem — ao contrário dele — de ser tocada, mas sentiu um desejo tão intenso de contato físico com Michael que até doeu. “Ainda não fizemos nada.”

“Você é muito boa na parte falada.”

“Já transei antes. Não existe parte falada.”

Uma faísca se acendeu nos olhos dele. “Ah, se existe…”

Por favor, que não exista uma parte falada. Se Stella tivesse que fazer algo do tipo, não havia esperança.

“Por enquanto…”

Michael afastou o cabelo dela e beijou de leve sua orelha. Aconteceu tão depressa que ele já havia se afastado quando seu corpo ficou todo tenso. Michael não deu sinal de que repetiria a carícia, então os músculos de Stella puderam relaxar. O lugar onde ele beijara queimava de vergonha.

Sem tocar sua pele, ele passou os dedos por seus cabelos. Com gestos lentos e comedidos, passeava pelos fios no alto da cabeça, no pescoço e nas costas. Os movimentos a acalmaram um pouco.

“Acho que você deveria me beijar”, ele falou com uma voz rouca.

O coração de Stella se comprimiu, e sua pele se arrepiou de pânico. Ela beijava muito mal. Suas tentativas desajeitadas com certeza deixariam os dois envergonhados. “Na boca?”

Ele ergueu o canto dos lábios. “Onde quiser. A boca costuma ser um bom lugar para começar.”

“Talvez seja melhor eu escovar os dentes antes…”

Ele pressionou o polegar contra seus lábios, silenciando-a, mas com um olhar gentil. Aquele toque também acabou antes que seu cérebro se desse conta. “Vamos tentar de outro jeito. Quer ver minha tatuagem?”

A mente dele sofreu uma reviravolta, passando do medo à empolgação. “Quero.”

Com um leve sorriso que era uma mistura de divertimento e orgulho de si mesmo, Michael tirou a camiseta e jogou na bancada da pia.

Stella ficou boquiaberta com a visão. Uma cabeça de dragão, com a boca aberta no meio de um rugido, cobria a metade esquerda de seu peito largo e bem definido. No ombro e no braço ficava uma das garras da criatura. Escamas detalhadas desciam em diagonal pelo abdome e desapareciam dentro da calça.

“É de corpo inteiro”, ela comentou.

“Pois é. Aqui…” Ele pegou sua mão e a colocou sobre o coração. “Pode sentir.”

“Você não liga?” Michael fez que não com a cabeça. Ela mordeu o lábio e, com toda a cautela, apoiou a mão esquerda espalmada no peito dele.

Foi um toque tímido a princípio, mas, como ele não se incomodou, ela ficou mais ousada. Começou a passar a mão naquele peito firme, desfrutando da sensação de acariciar os músculos definidos e a maciez da pele lisa. Era impossível diferenciar, só pelo tato, onde havia tatuagem e onde não havia. Fascinante.

Seus dedos foram descendo pelo abdome dele, e ela começou a contar baixinho. “Cinco. Seis. Sete. Oito.” Stella encontrou a cintura da calça jeans e respirou fundo, fazendo os músculos dele se flexionarem.

“Você não podia ter um tanquinho convencional? Precisava ter tanto músculo assim?”

Ele revirou os olhos e sorriu. “Isso é uma reclamação?”

“Não tenho do que reclamar. Nem imaginava que gostava de tatuagens.”

“Então você curtiu?”

Ela considerou aquilo bem óbvio, e não respondeu. Era difícil manter a concentração. A visão de um corpo atlético e perfeito com uma tatuagem imensa, a sensação da pele quente e o cheiro delicioso que pairava no ar sobrecarregavam seus sentidos.

“Posso tirar seus óculos? Consegue enxergar sem eles?”

Ela engoliu em seco e assentiu. “Não vou conseguir ver nada de longe, mas tudo bem, porque…”

Ele retirou seus óculos, provocando um leve ruído ao colocá-lo na bancada da pia atrás dela. A suíte do hotel e tudo mais ao redor se tornaram um borrão. Só Michael se destacava em seu campo de visão. A sensação da firmeza do corpo dele sob suas palmas a ancorava.

“Vai ser mais fácil me beijar se enlaçar meu pescoço”, ele sugeriu.

Seus dedos tremeram ao começar a subir pela extensão deliciosa da barriga e do peito firme dele. “Pronto”, ela avisou, depois de fazer o que Michael disse.

“Mais perto.”

Stella se aproximou só um pouquinho.

“Mais.”

Ela se moveu alguns poucos centímetros, mas se deteve antes que seus corpos se encostassem.

“Stella, mais perto.”

Ela enfim compreendeu e se aninhou contra ele. Estavam em contato quase total. Apenas a fina camada de roupas os separava. Os nervos dela ficaram à flor da pele. O pânico ameaçou tomar conta, mas ele não a apressou. Continuou imóvel, observando-a com olhos pacientes e generosos. Contrariando as expectativas, Stella relaxou.

“Ainda está firme aqui comigo?”, Michael perguntou.

Ficando na ponta dos pés, ela alinhou o corpo dos dois até se encaixar… perfeitamente. Seu coração disparou num ritmo maluco contra o peito, mas ela ainda estava no controle de si mesma — porque, sabiamente, ele havia lhe concedido aquilo. “Estou bem.”

Quando Michael a envolveu cuidadosamente nos braços, o calor de seu corpo atravessou a camisa dela e aqueceu sua pele. A pressão do abraço suave reverberou dentro de Stella, acalmando-a e aliviando nós de tensão que nem sabia que existiam. Talvez estivesse um pouco melhor que apenas bem.

Stella pagaria de bom grado o preço dele só para poder abraçá-lo daquele jeito. Era uma coisa divina. Stella enterrou o rosto no pescoço dele e sentiu seu cheiro. Suas mãos deslizaram pela pele descoberta enquanto tentava se aninhar ainda mais. Se Michael a abraçasse mais forte…

Alguma coisa dura cutucou sua barriga, e ela inclinou a cabeça para trás.

“Ignora”, ele pediu.

“A gente nem se beijou nem nada. Como é que você…”

Os olhos semicerrados dele procuraram os dela enquanto Michael baixava a mão de seus ombros até a parte inferior das suas costas. O calor da palma penetrava em suas roupas, e todos os pelos de seu corpo se arrepiaram. “É uma coisa mútua, Stella. Você me sente. Eu te sinto.”

Aquele conceito era novo para ela. A intimidade quase sempre era uma via de mão única para Stella. Os homens gostavam daquilo — ou pelo menos pareciam gostar. Ela não.

Mas daquilo Stella estava gostando. Ela se sentia corajosa e destemida.

Seus olhos se voltaram para os lábios dele outra vez, e seu sangue pareceu correr acelerado em virtude da ansiedade. “Você vai me ensinar a beijar bem?”

“Desconfio que você já saiba.”

“Não sei, não.”

Mesmo com a boca dele a poucos centímetros de distância, Stella não conseguiu tomar a iniciativa do beijo — apesar de querer. Nunca havia beijado um homem por iniciativa própria. Eles simplesmente… avançavam.

“Posso dizer onde quero que me beije?”, ela murmurou.

Um sorriso lento surgiu no rosto dele. “Pode.”

“A-aqui.”

O hálito dele se aproximou do ponto indicado por ela, provocando arrepios em seu pescoço. Ele beijou sua têmpora esquerda. “E agora?” As palavras foram ditas com tanta suavidade contra sua pele que pareceram uma carícia.

“No rosto.”

A ponta do nariz dele roçou sua pele quando Michael desceu mais um pouco. Ele a beijou na bochecha. “E agora?”, perguntou, sem afastar a boca.

Michael estava bem perto. Ela mal conseguia respirar. “No canto da b-boca.”

“Tem certeza? Seria quase um beijo de verdade.”

Uma impaciência repentina a invadiu, e ela levou os dedos aos cabelos dele, segurou-o e comprimiu os lábios fechados contra os seus. Ondas de sensações se espalharam pelo seu peito. Depois de hesitar um pouco, ela repetiu o gesto, e ele tomou a iniciativa, mostrando como intensificar os beijos.

Aquilo era beijar. E era o máximo.

Quando a língua dele escorregou por entre seus lábios, Stella ficou imóvel, em choque. Aquilo não era mais o máximo. Tinha uma língua dentro da sua boca. Ela teve que se afastar. “Isso é mesmo necessário?”

Michael soltou o ar com força, franzindo a testa, confuso. “Você não gosta de beijo de língua?”

“Parece que sou um tubarão tendo os dentes higienizados por um peixe-piloto.” Parecia algo estranho e pessoal demais.

Ele desviou os olhos. Embora mordesse o lábio, dava para ver um sorriso de canto de boca.

“Está rindo de mim?” O rosto dela ficou quente e vermelho de vergonha. Stella baixou a cabeça e tentou dar um passo atrás, mas a bancada do banheiro impediu.

A pressão dos dedos dele em seu queixo a obrigou a encará-lo de novo, o que levava a crer que Michael queria fazer contato visual. Havia regras, que ela teve que aprender. Três segundos contados lentamente na cabeça. Se durasse mais, a outra pessoa ficava sem graça. Stella até tinha desenvolvido uma boa técnica. Naquele momento, porém, não conseguia segui-la. Não queria ver o que ele achava dela. Então fechou os olhos.

“Estava rindo da sua analogia. Você é engraçada.”

“Ah.” Ela arriscou olhar no rosto dele e encontrou uma expressão sincera. As pessoas lhe diziam aquilo de tempos em tempos, mas ela nunca entendera. Não era engraçada de propósito. Só acontecia por acidente.

“Em vez de pensar em presas de tubarões, pense que estou acariciando sua boca. Se concentra na sensação. Quer que eu mostre como é?”

Stella fez que sim com a cabeça. Aquele era o motivo de estar lá, no fim das contas.

Michael se inclinou na direção de sua boca de novo, e ela cerrou os punhos junto ao peito dele para se preparar para o contato. Em vez de enfiar a língua entre seus lábios, ele a beijou como havia feito antes, de boca fechada, por mais tempo. Aquilo ela podia fazer. Uma parte de seu estresse se dissipou, e seus dedos relaxaram.

Um calor úmido percorreu seu lábio inferior. A língua dele. Ela sabia que era, mas os beijos de boca fechada a fizeram esquecer. Mais uma carícia, e a sensação voltou. Mais beijos. Entre um toque e outro dos lábios, ele a acariciava com a língua, fazendo sua pele se arrepiar.

Não demorou para que Michael seduzisse sua boca, acariciando o lábio inferior, o lábio superior e o ponto onde se uniam. Talvez ela pudesse afastar os lábios. Talvez quisesse que fosse em frente. Mas ele não fez isso. Os beijos de boca fechada de que ela tanto gostara no começo não eram mais suficientes. Stella tentou capturar a língua dele, atraí-la para dentro de sua boca, mas Michael se esquivou. Apenas roçava seus lábios com carícias enlouquecedoras, avançava por pouquíssimos segundos e se retirava. Ela comprimia os ombros dele, frustrada.

A cada vez, ele oferecia um breve gostinho de sal e calor, então se recolhia. Sem que fosse uma escolha consciente, Stella colou suas bocas e levou sua língua à dele. O gosto de Michael invadiu seus sentidos. Seu estômago congelou e o sangue acelerou em suas veias. Suas pernas ficaram bambas, mas os braços dele a mantiveram firme, impedindo que caísse.

Ele sugou e lambeu seu lábio inferior antes de tomar sua boca inteira de novo. O quarto começou a girar, e Stella percebeu que tinha se esquecido de respirar.

Parando para recuperar o fôlego, ela comentou: “Ai, meu Deus, que gosto bom você tem”.

Por um instante, Michael ficou olhando para sua boca como se ela tivesse tomado algo que ele quisesse de volta. Ele piscou algumas vezes e a expressão se desfez, então uma risadinha grave escapou dos lábios avermelhados que Stella tanto queria tocar com a ponta dos dedos. “Você sempre diz exatamente o que está pensando?”

“Ou então não falo nada.” Por mais que ela tentasse, era inevitável. Seu cérebro simplesmente não tinha sido programado para interações sociais complexas.

“Gosto de saber o que você está pensando. Principalmente quando te beijo.” De forma inesperada, ele se afastou e a pegou pela mão. “Vem. Não quero que machuque as costas na pia.”

Foi só então que ela sentiu a rigidez do granito contra seu corpo. Enquanto ele a conduzia para fora do banheiro, Stella olhou para seu reflexo turvo. Não reconheceu a garota de bochechas vermelhas e descabelada que viu. Não conseguia acreditar que tinha beijado um homem e gostado. Seria capaz de lidar com o que viria a seguir também?