Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 5 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 5

 

Os olhos de Stella se abriram, e ela olhou ao redor do quarto do hotel. Depois de tatear um pouco a superfície do criado-mudo, encontrou os óculos. O relógio digital marcava nove e vinte e quatro. Seu coração disparou.

Ela dormira até mais tarde. Aquilo nunca acontecia.

Quando se sentou na cama, as cobertas caíram sobre sua cintura e o ar frio tocou sua pele exposta. Estava só de lingerie. Sirenes de alerta dispararam em sua mente, avisando que sua rotina noturna tinha sido ignorada. Ela não havia passado fio dental, escovado os dentes, tomado banho ou colocado o pijama. Ficara com o corpo sujo sobre os lençóis outrora limpos. Ainda bem que não precisaria dormir naquela cama mais uma noite.

Michael saiu do banheiro de banho tomado, com uma toalha enrolada na cintura. Sua tatuagem parecia especialmente sexy à luz do dia. Ele sorriu, com a escova de dente ainda na boca. “Bom dia.”

Stella levou a mão à boca. Seu hálito devia estar um horror.

Ele atravessou o quarto com passos tranquilos e remexeu na mochila que só podia ter ido buscar no carro, porque não estava lá na noite anterior. Enquanto Michael pegava roupas limpas, Stella observou os movimentos fluidos e sincronizados dos músculos das suas costas, admirando as elevações idênticas dos dois lados da base da coluna. Queria tocar aqueles contornos. Depois tirar a toalha e…

“Acaba na minha coxa direita”, ele falou, olhando por cima do ombro.

Acaba? O que acaba?

Piscando várias vezes para aclarar os pensamentos, ela percebeu que a tatuagem contornava os quadris, desaparecia sob a toalha e se estendia até a parte posterior do joelho. O dragão se desenrolava pelo tronco e pelas pernas dele. Stella se imaginou fazendo a mesma coisa ao longo da duração do acordo — algo que ainda precisava ser discutido.

Ela abriu a boca para falar, mas sua boca estava tão seca que ficou desconcertada. Só quando levantou lembrou que estava quase pelada, então pegou a primeira peça de roupa que viu — a camiseta dele da noite anterior — e correu para o banheiro enquanto a vestia.

Uma vez lá dentro, passou fio dental duas vezes. Ao ver que nada de nojento se desprendeu, soltou um suspiro de alívio e começou a escovação com gestos mais tranquilos.

Michael entrou no banheiro, e ela deu um passo para o lado para permitir que cuspisse na pia, envergonhadíssima por estar com a boca cheia de espuma. Por que aquilo não parecia tão sensual nela quanto nele? Depois de enxaguar a boca e secá-la, Michael se inclinou em sua direção e beijou sua bochecha. Cheirava a sabonete de hotel, pasta de dente sabor hortelã e… Michael. Aquele cheiro fugidio continuava atrelado a ele. Devia emanar de seus poros. Sorte dele. Ou dela.

Stella manteve os olhos voltados para as bolhas de espuma na pia enquanto escovava os dentes até ele sair do banheiro. Então fez uma pausa e ouviu o farfalhar de tecido. Michael estava se vestindo. O que significava que tinha tirado a toalha. Sem pensar duas vezes, ela correu até a porta para espiar.

Ela murchou de decepção quando viu que a calça jeans já cobria a cueca. Ele vestiu uma camiseta preta justa e sentou para calçar as meias escuras. Em breve iria embora.

Stella correu para terminar de escovar os dentes e o pegou amarrando o último cadarço.

“Precisamos conversar”, ela avisou.

A expressão no rosto dele quando se ajeitou na poltrona fez o estômago dela se revirar. Michael ia pular fora. A noite anterior fora um fiasco, com seu ataque de pânico e seu suor nervoso, e ele não queria mais saber daquela história. Stella comprimiu os lábios, que ameaçavam tremer. Tinha sido ruim, mas com algumas partes boas. Ou não?

Ela achava que havia uma chance.

“Tenho um compromisso às dez que não posso perder.” Ele ficou de pé, passou a alça da mochila no ombro e caminhou até ela com passos descontraídos. Quando a encarou, foi com olhos muito gentis.

Ou era pena? Stella detestava pena.

“Preciso que você me diga se vamos continuar com as aulas ou não.”

Ele sacudiu negativamente a cabeça com um sorriso triste. “Infelizmente, não. Desculpa.”

Stella sentiu seu coração sucumbir, mas não se arrependia da noite anterior. Ele conseguira fazê-la beijar — beijar de verdade, não só suportar outra língua abominável em sua boca. “Vou te dar cinco estrelas.”

“Não mereço. Não entreguei o prometido. A agência não faz reembolso, mas vou devolver minha parte. Me passa o número da sua conta…”

“Não, nada de reembolso”, ela respondeu com firmeza. “Obrigada, mas com certeza você teve mais trabalho comigo do que com a maioria das clientes.”

“Na verdade, não.”

Ela entrelaçou os dedos e olhou para o chão. Não queria pedir aquilo, mas precisava. “Sei que você precisa ir, mas antes poderia… me recomendar… um colega que acha que poderia me ajudar?”

“Ainda quer ir em frente com essa maluquice das aulas?”

“Não é maluquice. E, sim, pretendo ir em frente.” Ela se esforçou para encarar as feições esculpidas dele, respirando fundo. “Se pensar um pouco, talvez se lembre de alguém que seja… paciente como você, e n-não ligue para o suor ou…”

Ele esboçou um passo em sua direção, mexendo a boca sem emitir som antes de dizer: “Garotas como você não precisam de acompanhantes, porque têm namorado. Você precisa esquecer essa ideia”.

Uma raiva pulsante fervilhou em seu corpo, deixando-a imobilizada. Ele não sabia nada a respeito de garotas como ela. “Isso não é verdade. Garotas como eu intimidam e afugentam namorados. Garotas como eu nunca são chamadas para sair. Garotas como eu precisam encontrar sua própria solução, inventar seu próprio destino. Precisei lutar para conseguir tudo na vida, e vou lutar por isso também. Vou ser boa de cama, e finalmente atrair a pessoa certa para mim.”

“Stella, não é assim que as coisas funcionam. Você não precisa dessas aulas.”

“Discordo. Por favor, pense a respeito. Confio no seu julgamento.” Ela foi até a bolsa, pegou um cartão de visitas e anotou o número do celular no verso. “Eu agradeceria muito. Por favor”, disse, colocando-o na mão dele.

Michael enfiou o cartão no bolso de trás da calça com um movimento rápido. “O que vai fazer se eu não indicar ninguém?”

Ela encolheu os ombros. “Meu processo de seleção se mostrou muito bom da primeira vez. Posso analisar as listas de acompanhantes de novo.”

“Você sabe quantos malucos existem por aí? Não é seguro.” Ele ergueu a mão como se quisesse tocá-la, mas cerrou o punho e recolheu o braço.

“Está me dizendo que a garantia da agência não vale nada?”

Ele soltou um grunhido de frustração e passou os dedos nos cabelos molhados, deixando-os de pé. “Tem um processo de seleção com avaliação psicológica e verificação de antecedentes, mas as pessoas sabem como se aproveitar das brechas no sistema. Não quero que aconteça nada de ruim com você.”

Stella levantou o queixo. “Não seja bobo. Tenho um taser.”

“Tem o quê?”

Ela sacou a arma de eletrochoque cor-de-rosa da bolsa e entregou a ele.

“Minha nossa, e você sabe usar essa coisa?” Michael arregalou tanto os olhos que ela teria dado risada se a situação fosse outra.

“Você dá um passo para trás, aponta e aperta o botão. É bem simples.”

“E teria usado em mim?”

“Não usei.”

Ele girou a arma e ficou observando fascinado, mas ela a tomou de sua mão. “Nunca aponte para si mesmo.” Depois de jogar o taser de volta na bolsa, Stella cruzou os braços. “Como você pode ver, está tudo sob controle, mas agradeço a preocupação.”

A ideia de rever todos os anúncios de acompanhantes a fez ranger os dentes de raiva. Não tinha interesse em nenhum daqueles outros homens. Quando se decidia por algo, não havia volta. Só queria Michael, mas havia estragado tudo. Como conseguir melhorar se seu problema continuava a afastar as pessoas que poderiam ajudá-la?

Sua amargura devia ter ficado evidente, porque a expressão no rosto dele se amenizou. “Stella, só saio uma vez com cada cliente. Esse é o problema.”

“Por quê?”, ela questionou, com um suspiro de frustração.

“Porque uma cliente acabou se apegando e as coisas saíram do controle. Essa política evita uma série de aborrecimentos para todo mundo.”

“Então você sabia logo de cara que não ia aceitar?” A raiva ameaçava transbordar e inundar suas entranhas. Ela o considerara uma potencial solução para seu problema, mas desde o início ele sabia que seria só uma noite e nada mais.

Michael só assentiu.

“Por que ficou ontem à noite, então? Deixei bem claro o que queria desde o início. Todos aqueles b-beijos e carícias, tirar a roupa, foi tudo à toa.” O nó em sua garganta ficou tão apertado perto do fim da frase que mal conseguiu terminar.

Ela levou as mãos quentes à testa, tentando lidar com aquele sentimento de traição. A tristeza e a vergonha eram tão inesperadas que tinha dificuldade em respirar. Por que fazer aquilo tudo com ela? Fora só um joguinho? Ele considerava aquilo divertido?

Stella nunca conseguia entender as pessoas.

“Sinceramente, não acreditei na sua proposta”, ele respondeu. “No máximo, achei que estivesse com um problema de autoconfiança que seria resolvido depois de uma noite juntos. Além disso, você pagou adiantado. Queria dar alguma coisa em troca.”

“Você queria me proporcionar um pouco de diversão.”

“Bom… sim. É pra isso que as pessoas me contratam.”

“Mas não foi pra isso que eu contratei você.” Ela esfregou o nariz e ajeitou os óculos, sentindo-se vazia e exaurida. “Enfim, não importa. É melhor você ir, ou vai perder a hora.”

Ela notou que seus pés a levaram até a porta e que sua mão segurou a maçaneta para abri-la, como se estivesse fora do próprio corpo.

Ele respirou fundo e pareceu que ia dizer alguma coisa, mas acabou fechando a boca antes disso. Passou por ela e parou do outro lado da porta para observá-la. “Não queria ir embora com as coisas assim. Fica bem, tá?”

Ela desviou o olhar e assentiu com a cabeça.

“Tchau, Stella.”

Ele saiu, e ela fechou a porta com um clique.

Era melhor tomar um banho. Ela havia dormido toda suada. Quando foi tirar a roupa, lembrou que estava usando a camiseta dele. Baixou o rosto e inalou seu cheiro. Então se deu conta de que aquele aroma estava em toda parte, inclusive em seus braços e cabelos.

O que faria?

Estava morrendo de vontade de tomar um banho, mas, se o fizesse, aquele cheiro precioso ia se perder. E ela nunca mais poderia senti-lo. Seria seu fim.

Stella sentou no chão e aproximou os joelhos do peito para aliviar a solidão. Queria tanto ser abraçada que um mal-estar invadiu seus músculos e seus ossos. Como sempre, seus próprios braços não ofereceram muito consolo. Ela aguardaria mais cinco minutos e começaria a se arrumar para o trabalho. Ainda era sábado de manhã, mas seu fim de semana já tinha ido longe demais. Se não arrumasse uma forma de ocupar a mente, entraria numa espiral de escuridão e desespero — processo que já havia começado.

Três rápidas batidas na porta foram ouvidas em seguida, e ela se levantou num gesto mecânico. Provavelmente era a arrumadeira, querendo confirmar se o quarto estava desocupado.

Ela abriu a porta e deu de cara com o olhar intenso de Michael. Seu peito ofegava como se ele tivesse corrido do estacionamento até seu quarto.

“Três sessões. É o máximo que posso fazer”, ele avisou.

Ela demorou um instante para entender do que se tratava, então seu coração disparou, deixando seus dedos dormentes. Ele ia ajudá-la. Três aulas seriam suficientes para dominar o sexo? Havia tanto a aprender, tantas coisas em que ela era ruim… Mas que outra chance teria? Talvez se os dois planejassem tudo com bastante cuidado…

Com o corpo congelado pelo choque, ela só conseguiu dizer: “Tá”.

Michael a observou, com o maxilar cerrado. “Se a gente fizer isso, você precisa me prometer que não vai pirar quando tudo terminar.”

“Claro”, ela falou em meio à pulsação que ressoava em seus ouvidos.

“É sério. Nada de me seguir, ligar, dar presentes. Não quero saber disso.” Ele apertou com força a alça da mochila enquanto esperava a resposta, com uma expressão bem séria.

“Tá.”

Ele tirou a mochila do ombro e a deixou cair no chão antes de se aproximar dela e só parar depois de deixá-la prensada contra a porta aberta. Em seguida pôs a mão espalmada sobre a superfície de madeira perto de seu rosto e se inclinou em sua direção, baixando o olhar para seus lábios. “Vou beijar você agora.”

“Tá.” Michael devia ter deixado o cérebro dela em pane, porque aquela parecia ser a única palavra que ela ainda era capaz de dizer.

Os lábios dele tocaram os dela, e o prazer invadiu seu coração, se espalhando pelos braços e descendo pelas pernas. Inclinando a cabeça, ele intensificou o beijo. Uma vez. Duas vezes. De novo. E mais uma. Até que Stella suspirasse e se jogasse sobre ele, enfiando os dedos entre seus cabelos. Michael dominou sua boca de uma forma que lhe era ao mesmo tempo nova e familiar. Stella retribuiu com tudo o que tinha, tentando comunicar o que não conseguia articular verbalmente.

“Nossa”, ele sussurrou com os lábios junto aos seus, os olhos atordoados e semicerrados. “Você aprendeu rápido.”

Antes que ela pudesse responder, ele tomou sua boca de novo. Ela esqueceu o horário, o trabalho e até o ataque de ansiedade. O corpo volumoso dele se esfregou no seu, e Stella se arqueou em sua direção, apreciando a proximidade.

Seu celular tocou. Pela música, era a mãe.

Michael se afastou de forma abrupta, vermelho e ofegante. Ele sugou o lábio inferior e olhou bem no fundo dos olhos dela, como se estivesse prestes a beijá-la de novo.

“Preciso atender.” Stella entrou no quarto, sentou na beirada da cama e apertou o botão para aceitar a chamada com o dedo trêmulo. “Alô?”

“Stella, seu pai… ah, espera um pouco.” A voz grave dele soou do outro lado da linha, e ela afastou o aparelho da orelha o máximo possível enquanto os dois falavam sobre golfe e os planos para o almoço.

Michael se aproximou com passos fluidos e leves. “Preciso ir, mas nos vemos sexta que vem.”

“Sexta que vem”, ela confirmou com um aceno.

Em vez de ir embora imediatamente, como Stella esperava que fizesse, Michael se inclinou para a frente e deu um beijo de leve em sua boca. “Tchau.”

Ela observou atordoada sua partida. Eles iam se ver de novo. Dali a uma semana.

“Quem era esse?” Apesar de estar com o celular a uma boa distância da orelha, Stella notou o tom de surpresa na voz de sua mãe.

“Era o… Michael.” Um nervosismo ofegante a invadiu. Poderia ser interessante se sua mãe descobrisse que estivera com um homem.

Um breve silêncio se estabeleceu, seguido de: “Stella, querida, você passou a noite com alguém?”.

“Não é o que você está pensando. Não fizemos nada. Foram só uns beijos.” Os melhores da vida dela.

“Ora, e por que não?”

Stella moveu a boca, mas as palavras não saíram.

“Você é uma mulher adulta, pode fazer boas escolhas. Agora me conta mais sobre esse Michael.”