Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 28 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 28

 

Uma batida na porta distraiu Stella do algoritmo que estava formulando. Quando virou, a porta se abriu e um enorme buquê de copos-de-leite foi levado para dentro de sua sala.

A recepcionista da portaria, Benita, uma mulher curvilínea de quarenta e poucos anos, pôs o vaso sobre a mesa e soltou o ar com força pela boca. “Nossa, estava pesado. Parece que você tem um admirador.”

Stella pegou o cartão no meio das flores. Reconheceu imediatamente a caligrafia de Michael.

Para minha Stella. Estou pensando em você. Com amor, Michael.

“Não entendi nada.” Ela ficou olhando para o bilhete na palma da mão.

Benita inclinou a cabeça para ler o cartão e sorriu. “Michael é o cara com quem você está saindo, né? Ele é bem bonitão.”

“A gente terminou.”

O sorriso de Benita se tornou mais malicioso. “Parece que ele quer reatar. Vai dar mais uma chance a ele?”

Antes que ela pudesse responder, Philip passou na frente da porta. Uma fração de segundo depois, estava de volta, olhando feio para o buquê sobre a mesa. Um hematoma bem escuro decorava o lado direito de seu rosto.

“Aquele filho da puta.” Ele entrou na sala sem pedir licença e se dirigiu às flores.

Stella se jogou na frente dele. “O que está fazendo?”

“Vou jogar essa porcaria no lixo, onde é o lugar dela.”

“Ah, não vai, não. As flores são minhas.” Era a primeira vez na vida que ganhava um buquê de um homem.

“Eu compro outras melhores”, ele disse com os dentes cerrados. “Essas daí precisam sumir.”

“Não quero ganhar flores de você.”

“Estamos saindo juntos, lembra?”

“Não estamos, não. Saímos uma vez, e não quero repetir a experiência. Não somos compatíveis.”

Benita contorceu os lábios e ficou observando Philip com as sobrancelhas erguidas, obviamente apreciando o drama.

Ele se aproximou de Stella com os ombros carregados de tensão e os punhos cerrados. “E você e ele são compatíveis?”

Stella segurou o cartão entre os dedos. Era possível uma compatibilidade unilateral?

“Fui muito feliz enquanto estávamos juntos. Ele me ouvia. Queria saber mais sobre mim, sobre meu dia, sobre o que eu estava fazendo e…”

“Para mim só interessa se ele é bom de cama ou não”, interrompeu Benita.

Stella mordeu o lábio, ficou vermelha e olhou para o chão. O “bom” não fazia justiça a Michael. “Fenomenal” parecia mais apropriado.

“Sua sortuda.” Benita se virou para Philip e o pegou pelo braço. “Vem, PJ, vamos lá para a cozinha. É melhor pôr um gelo nesse olho.”

PJ?

Philip resmungou baixinho e ainda olhou feio mais algumas vezes para as flores antes de permitir que Benita o levasse do escritório de Stella. Enquanto os dois andavam pelo corredor, ele pôs a mão na base da coluna dela, então a desceu um pouco e apalpou a mulher. Em vez de dar um tapa nele, como Stella imaginava que faria, Benita afastou os cabelos claros do rosto dele e examinou o hematoma.

Aquilo era… interessante.

Parecia que Benita não se importava que Philip fosse um verdadeiro cachorro. O que para Stella era até bom, porque talvez ele saísse do seu pé.

Stella começou a mexer no buquê. Flores nunca tinham feito sentido para ela. Cheiravam mal, depois murchavam e definhavam, e alguém tinha que limpar a sujeira. Mas aquelas tinham sido dadas por Michael.

Seu celular começou a vibrar. Quando tirou o aparelho da bolsa, ela viu que era ele. Pensou em deixar a ligação cair na caixa de mensagens, mas seu dedo apertou o botão por vontade própria.

“Alô.”

“Recebeu?”, ele perguntou.

“Sim… obrigada.”

“Como é que está o olho do Philip Dexter?”

“Roxo.”

Michael soltou um ruído de satisfação. Stella quase conseguia ver seu sorriso maligno. Por sorte conseguiu se segurar, em vez de suspirar como uma garotinha. Aquele tipo de barbaridade não deveria agradá-la.

“Daqui a alguns dias vai começar a amarelar”, ele falou.

“Você não deveria ter batido nele daquele jeito.” Mas a verdade era que tinha adorado aquilo. Fizera com que se sentisse especial, de um jeito que nunca experimentara. Stella era uma vilã sedenta por sangue.

“Tem razão. Da próxima vez, vou acertar logo no saco. Se alguém vai beijar você, que seja eu.” Depois de uma pausa constrangedora, ele acrescentou: “Quer jantar comigo hoje?”.

O coração inocente de Stella disparou com a ideia de vê-lo de novo, mas ela o forçou a se acalmar. Não entendia por que Michael estava fazendo aquilo. “Não”, disse, desconfiada.

Houve um longo silêncio antes que ele respondesse: “Tudo bem. Gosto de desafios”.

“Não estou tentando procurar você.”

“Sei que não. Está tentando me esquecer, o que é pior.”

“Michael…”

“Estou ocupado. A gente se fala mais tarde. Sinto sua falta.” A ligação foi encerrada.

Stella começou a andar de um lado para outro, com passos cada vez mais acelerados. Michael não queria que ela o esquecesse. Era irritante. O que Stella poderia fazer? Ficar chorando por ele a vida toda?

Aquela demonstração bizarra de interesse tinha começado logo depois que vira Philip tentando beijá-la à força. Michael estava tentando afastar seu colega porque achava que ela não sabia se defender sozinha.

Stella continuava sendo uma obra de caridade.

Com a respiração ofegante, ela pegou o cartão, amassou e jogou no lixo. Era assim que se fazia com uma demonstração de pena.

Se quisesse esquecê-lo, precisava se esforçar.

Ela sentou e releu as últimas linhas de programação no monitor. Estava abalada demais para conseguir se concentrar. Seus pensamentos continuavam voltando para Michael. Seu corpo ainda desejava as carícias e as palavras obscenas dele. Mais que aquilo, ela sentia falta dele e da rotina que tinham criado juntos.

Não era possível que ele a quisesse de volta, mas seria maravilhoso se fosse verdade. Quando ela percebeu que seus pensamentos estavam ficando esperançosos demais, repreendeu-se e se obrigou a se concentrar nos números. Não funcionou. Soltando um ruído de frustração, Stella pegou o cartão do lixo, desamassou e enfiou numa gaveta.

 

Todos os dias da semana, ele ligava e a chamava para jantar. Ela sempre recusava o convite. Não precisava da ajuda dele. Sabia se cuidar sozinha.

No fim da tarde de sexta-feira, sua mesa ainda abrigava um vaso com os lindos copos-de-leite, além de outro com rosas em vários tons de vermelho, balões infláveis e um ursinho de pelúcia preto vestindo quimono de caratê. Ela era velha demais para aquilo, e ver o bichinho a enchia de vergonha. A extravagância de Michael a havia transformado em motivo de falatório na empresa. Stella precisava arrumar um jeito de acabar com aquilo.

Na hora de ir embora, ela desligou o computador, pegou a bolsa e tomou a direção da porta, apanhando o ursinho carateca no caminho. Não o queria, mas a ideia de deixá-lo sozinho a noite toda era de partir o coração.

Ela o enfiou debaixo do braço, apertando-o para escondê-lo, e saiu. Ninguém precisava ver que ela estava levando aquilo para casa.

“Já vai?” A voz veio de trás de Stella enquanto ela atravessava o estacionamento vazio, e fez seu coração ir parar na boca.

Ela se virou com a mão no peito.

Michael se afastou da parede onde estava encostado, com os polegares enfiados nos bolsos. Usava um colete acinturado sobre uma camisa aberta no colarinho e uma calça social escura. Lindo demais. Ela afastou os olhos e foi pegar o ursinho, que tinha caído.

Tirando a poeira da pelúcia, ela falou: “Isso pode ser interpretado como perseguição, você sabe”.

Ele baixou a cabeça com um sorriso tímido. “Sei.”

“Então precisa parar.”

“Não posso ser considerado nem um pouquinho romântico? Não tenho muita experiência nessa coisa de correr atrás de uma mulher, então me desculpa se acabei exagerando.”

Ela franziu os lábios. Com a aparência e o carisma que tinha, com certeza Michael não precisava de mais que um aceno para que as mulheres fossem rastejando até ele. E não queria mais ser uma tonta. “Para com isso, Michael. Nós dois sabemos que não tem nada disso.”

Os ombros dele ficaram tensos. “Como assim?”

“Não precisa se preocupar em me proteger do Philip. As atenções dele agora estão voltadas para a recepcionista.”

“Nada disso é por causa do Philip.” Ele se aproximou dela com a testa franzida e o maxilar cerrado.

Seus instintos diziam para Stella se afastar, mas sua teimosia a fez fincar os pés no chão. Ela levantou o queixo. Não tinha medo dele. “Não preciso da sua pena. Não quero mais…”

Ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou. O choque da sensação se espalhou pelo corpo de Stella, encerrando sua resistência antes mesmo que começasse. A maciez fria dos lábios dele era divina. Quando enfiou a língua quente em sua boca, o gosto salgado e o cheiro familiar a deixaram inebriada. Stella o agarrou pelos ombros e puxou o corpo dele contra o seu. Ele a pegou nos braços e alinhou os quadris dos dois — a maciez dela contra a rigidez dele. Um desejo transbordante invadiu os membros de Stella.

“Olha só você, se derretendo toda para mim”, Michael murmurou junto à sua boca. “Que saudade.”

Ele a beijou de novo, em uma degustação lenta e profunda que fez Stella se contorcer até os dedos dos pés e soltar um suspiro. Ele soltou os cabelos dela, que estremeceu ao sentir aqueles dedos entre as mechas soltas.

“Linda”, ele murmurou, passando a mão em seus cabelos. “Posso não saber correr atrás de mulher, mas sei bem como beijar você.”

Aquilo a tirou imediatamente do estupor produzido pelo beijo. Stella se desvencilhou dos braços dele e limpou a boca na manga. “Não me beija. Não encosta em mim. Não quero que faça nada comigo por pena.”

“Por que insiste nessa história de pena? Nunca falei que sentia pena de você”, ele disse, com a testa franzida.

“Então por que não aceitou meu dinheiro?” Sem esperar resposta, ela pegou o ursinho de pelúcia do chão pela segunda vez. Queria abraçá-lo com força, mas em vez disso o estendeu para Michael. “O que você fez esta semana foi simpático, mas já chega. Estou pedindo para você parar. Por favor.”

“Isso significa que não sente mais nada por mim?”

Os olhos dele ficaram marejados, e ela virou as costas às pressas. “Tenho que ir.”

“Porque eu ainda tenho sentimentos por você.”

Ela ficou paralisada, e Michael puxou sua mão para que se virasse de novo. Ele levantou seu queixo, e as lágrimas que ela vinha segurando ameaçaram cair. Michael tinha falado aquilo mesmo? Com o coração disparado e retumbando nos ouvidos como estava, era possível que Stella tivesse ouvido mal.

Ele respirou fundo uma vez, depois outra. “Não aceitei seu dinheiro porque estou apaixonado por você. Fiquei dizendo para mim mesmo que você precisava de mim, que te ajudando provaria que não sou como meu pai, mas eram só desculpas para continuarmos juntos. Você não precisa de mim para nada, e eu não tenho que provar para ninguém que não sou como meu pai. Terminei tudo porque achei que meu amor não era correspondido. Mas, quando você disse que estava tentando me esquecer, me enchi de esperança.”

Ela sentiu sua pele esquentar — as mãos, o pescoço, o rosto, as pontas das orelhas. Michael não tinha pena dela. Ele a amava. Era aquilo mesmo que ela havia ouvido? Podia ser verdade?

Ele engoliu em seco. “Diz alguma coisa, por favor. Quando alguém declara seu amor, não espera silêncio como resposta. É tarde demais? Você me esqueceu?”

“Está usando a cueca que eu comprei?”

Ele caiu na risada. “Às vezes sua mente é um mistério total para mim.”

“Está?” Ela enfiou o ursinho debaixo do braço e meteu os dedos pela cintura da calça dele, sob o cinto de couro.

Com um sorriso nos lábios, Michael soltou o cinto e baixou o zíper da calça. “Se eu for preso por ato obsceno em público, é bom que me ponham na mesma cela que você.”

Ela afastou a bainha da camisa. Mesmo sob a luz fraca do estacionamento, dava para ver o tom vermelho da cueca boxer. Stella ergueu os olhos para ele, e uma sensação efervescente tomou conta de seu corpo, inflando seu coração e se espalhando por suas extremidades. Ele a amava mesmo. E sua teoria fora confirmada. O β de Michael passara de um a zero. Por ela. “Está.”

“Não gosto de sair sem cueca. É incômodo.”

Tentando segurar um risinho patético, ela ajeitou a calça e o cinto dele. “As mulheres compram cuecas para os homens que amam. É a economia que diz isso. E os dados comprovam.”

“Você está dizendo que me ama, Stella?”

Ela agarrou o ursinho carateca e confirmou com a cabeça, de repente ficando toda tímida.

“E não vai me dizer isso com todas as letras?”, ele questionou.

“Nunca falei isso para ninguém além dos meus pais.”

“Acha que saio por aí declarando meu amor para todo mundo?” Ele a puxou para junto de si e colou a testa dos dois. “Vou arrancar essas palavras de você. Ainda hoje.”

“Isso é uma ameaça?”

“É.”

“Você vai…” A excitação nos olhos dele fez com que ela se interrompesse.

“Vamos para casa.”

“Certo.”

Ele a levou até um Civic compacto e abriu a porta do passageiro. “Troquei de carro”, Michael falou, encolhendo os ombros, meio sem jeito.

Ela sentou e pôs o cinto, sentindo o cheiro do interior limpo e simples. Nada ali a fazia lembrar de Aliza. “Gosto mais deste.”

“E deveria mesmo.” Ele sorriu e se acomodou atrás do volante. “Eu e Quan vamos criar uma linha de roupas, e eu precisava de capital inicial. Como não trabalho mais como acompanhante, não tinha por que continuar com aquele carro.”

Michael enfim estava dando aquele passo, se arriscando e tentando estabelecer seu nome no mercado. Naquele momento, ele parecia tão perfeito que ela sentiu vontade de se jogar por cima do console e beijá-lo até deixá-lo sem fôlego.

“Ótimo. Estou muito feliz por você.” Mas a ideia de Michael vender o carro porque precisava de dinheiro a incomodava, principalmente depois de ter devolvido seu cheque. “Você ainda precisa pagar as despesas médicas da sua mãe? Ou o programa de assistência da fundação cobriu tudo?”

Ele inclinou a cabeça, franzindo a testa para ela. “Como é que você sabe disso?” Depois de um instante de hesitação, os olhos dele se arregalaram. “Foi você?”

Stella desviou os olhos.

“Foi você mesmo”, ele falou, com um tom de quem fazia uma descoberta. “Como sabia que a minha mãe não tinha plano de saúde?”

“Descobri naquela noite no seu apartamento. Vi as contas e fiz a relação entre os custos do tratamento e seu cachê como acompanhante. Acho que… foi quando me apaixonei por você de vez.”

Um sorriso travesso surgiu no rosto dele. “Vou arrancar essas palavras de você do jeito mais delicioso possível.” Em seguida os lábios dele se contraíram numa linha reta e pensativa. “Deve ter custado uma fortuna. Você fundou um programa inteiro de cobertura médica. Quanto dinheiro você tem, afinal?”

Ela mordeu o lábio inferior, continuando a abraçar o ursinho. “Não tanto quanto antes. Bom, ainda sou mais ou menos rica. Depende de como se define a palavra. Mas provavelmente você não vai gostar. Quer mesmo saber?”

“Fala de uma vez, Stella.”

“Eu tinha uma conta de investimentos. Com quinze milhões de dólares”, ela falou, encolhendo os ombros. “Doei tudo para a Fundação Médica de Palo Alto.”

“Você abriu mão de todos os seus investimentos? Por mim?”

“É o tipo de coisa que pessoas com todo esse dinheiro deveriam fazer, não acha? Doar para quem precisa? Consigo me sustentar muito bem com o meu salário. É só dinheiro, Michael, e eu não me conformava com a ideia de você ser forçado a trabalhar como acompanhante. Se fosse por vontade própria, era uma coisa. Mas assim…” Ela sacudiu a cabeça. “Decidi dar uma chance a você. Além disso, estamos ajudando um monte de outras famílias também. Foi a coisa certa a fazer.”

“Estamos?” Ele se inclinou e a beijou no rosto e no canto da boca. “Quem fez tudo aquilo foi você. O dinheiro não era meu.” Michael beijou várias vezes seus lábios. “Obrigado por me dar a chance de te escolher. Obrigado por ser quem você é. Eu te amo.”

Ela não conseguiu segurar o sorriso daquela vez. Achava que jamais se cansaria de ouvir aquilo. “Agora posso dizer que meu namorado é designer. Quer dizer, se você for meu namorado. Você é?”

Em vez de responder, ele ligou o carro e saiu do estacionamento. Com os olhos voltados para o trânsito e em um tom de voz casual, Michael falou: “É bom que eu seja seu namorado, já que vou pedir você em casamento daqui a três meses”.

Stella ficou boquiaberta, e o choque a atingiu em ondas que se alternavam entre calores e calafrios. “Por que está me dizendo isso?”

Um sorrisinho apareceu nos lábios dele, que lançou um rápido olhar na direção dela antes de voltar a se concentrar no trânsito. “Porque você não gosta de surpresas, e eu achei que fosse precisar de um tempo para se acostumar com a ideia.”

Ele tinha razão, mas, antes que Stella se perdesse em pensamentos, soltou uma das mãos do volante e pegou a dela, entrelaçando seus dedos, como sempre fazia.

Sem dizer nada, ela resolveu curtir o momento, a incerteza, a esperança de tirar o fôlego, a ansiedade e o contentamento fervoroso. A visão de seus dedos entrelaçados lhe agradava. Eram bem diferentes, mas ainda assim eram cinco de cada, com a mesma quantidade de articulações, o mesmo projeto básico.

Ela apertou mais forte, e ele retribuiu o gesto. Palma com palma, duas metades solitárias encontrando conforto juntas.