Os Números do Amor

Helen Hoang · Capítulo 21 de 30

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Os Números do Amor

Capítulo 21

 

 

Uma semana depois, Stella ainda não sabia em que pé estava seu projeto de seduzir Michael. Ele parecia feliz — e ela sabia que estava —, mas o primeiro mês chegava ao fim, e ela não tinha certeza de que o acordo seria renovado.

Naquela noite, jantaria de novo na casa da mãe dele. Ela vasculhou seu cérebro em busca de maneiras inteligentes de pedir conselhos à família dele. Se havia alguém que o conhecia, eram aquelas mulheres. Mas como não levantar suspeitas de que havia alguma coisa errada em seu relacionamento? Todos achavam que o namoro era real.

Stella entrou sem tocar a campainha, conforme as instruções de Michael, e tirou os sapatos de salto, deixando-os junto à parede. Pareciam minúsculos ao lado dos sapatos de couro dele, mas ela gostou de vê-los juntos. Aquilo a agradava num nível quase irracional.

Colocou uma caixa com peras na mesinha, perto do buda de bronze, então grunhidos e respirações ofegantes chamaram a sua atenção para a sala de visitas. Stella foi até lá e ficou olhando para o emaranhado de troncos e membros no carpete ao lado do piano. Parecia ser Michael com uma garota. Stella normalmente ficaria com ciúmes, mas eles não pareciam nada felizes.

“Desiste logo”, Michael grunhiu.

“Não, minha chave de braço estava encaixada. Você só conseguiu sair porque toma bomba.”

“Eu não tomo bomba, e você só conseguiu me pegar porque eu não queria esmagar seus peitos.”

“Da próxima vez vou mirar no seu saco.”

Olhando mais de perto, Stella viu que lutavam. Como sucuris em um embate mortal, ambos se recusavam a soltar.

“Que tal declarar um empate?”, Stella sugeriu.

“Oi, Stella.” O rosto da irmã de Michael estava coberto por uma cortina de cabelos escuros, então ela não fazia ideia de qual delas era. Havia muitas. “Sua namorada está aqui, Michael. Desiste.”

“O jantar fica pronto em dez minutos.” A vermelhidão no rosto dele era preocupante, mas totalmente culpa dele, pelo que Stella podia ver. “Falo com você em um segundinho.”

“Só se você desistir. Quem é que manda aqui?”, a irmã perguntou enquanto apertava a gravata em torno do pescoço dele.

“Não uma pirralha como você.”

Os dois rolaram no carpete, chutando e esperneando.

“Vou cumprimentar sua mãe e sua avó”, Stella falou. Ela preferia ter a companhia de Michael ao falar com as duas, mas parecia que aquilo ainda ia demorar um bom tempo.

Nenhum dos dois respondeu. Provavelmente não tinham oxigênio para desperdiçar falando.

Ela adentrou a casa, que era bem maior do que aparentava do lado de fora. A mãe e a avó de Michael estavam sentadas na sala de estar, descascando e picando toranjas enquanto conversavam no ritmo musical do idioma vietnamita. Dois homens vestidos de macaco e porco voavam na tela da TV sem som.

“Oi… Wai?” Ela fez uma mesura desajeitada com a cabeça. Não conseguia fazer o movimento necessário com a língua para pronunciar a palavra vietnamita para avó, ngoa.i.

A mulher sorriu e acenou para que ela se sentasse no sofá de couro gasto. Como sempre, tinha um lenço na cabeça, amarrado sob o queixo. Era adorável.

Stella acenou para a mãe dele. “Oi, Me..” Ela se sentou no local indicado, sentindo o estômago vazio e os músculos tensos. Apesar de já terem se encontrado algumas vezes, ela ainda ficava nervosíssima diante da mãe de Michael. Cada palavra precisava ser bem medida antes de sair de sua boca, cada gesto precisava ser pensado. Ela não queria estragar tudo de novo. Me. era a mulher mais importante da vida de Michael. A ideia de pedir conselhos sobre ele desapareceu de imediato diante da ansiedade.

Me. estendeu uma tigela com fatias perfeitas de toranja descascada. Stella nunca tinha visto a fruta servida daquela maneira, mas pegou um pedaço com uma mistura de curiosidade e medo de ofender. Quando mordeu, a doçura explodiu em sua língua, sem o toque amargo habitual da casca.

Ela cobriu a boca, surpresa. “Está muito boa.”

“Pega mais.” Me. sorriu e pôs a tigela no colo de Stella. Naquele dia a mãe de Michael estava usando uma camisa rosa e calça com estampa floral. Os óculos estavam apoiados no alto da cabeça num ângulo descuidado. “Pode pôr sal, se quiser. Fica gostoso.”

“Não, obrigada.” Stella comeu mais dois pedaços antes de se obrigar a parar. Parecia uma coisa bem trabalhosa descascar e picar toranjas. Num esforço para manter as mãos ocupadas, apanhou uma metade da fruta e tentou copiar a técnica de Me., sem deixar de notar o silêncio absoluto no cômodo.

A mulher observou tudo e fez um breve aceno. “Michael vai fazer bún riêu hoje. É muito gostoso. Ele já preparou para você?”

Stella fez que não com a cabeça, sem tirar os olhos da fruta. “Não, nunca.” Me. sabia que Michael andava dormindo na casa dela? Aprovaria aquilo?

“Quando a comida vai ficar pronta, mãe?” Janie deteve o passo ao entrar, então sorriu para Stella. “Oi.”

Ela retribuiu o sorriso. “Oi. Michael falou que sai em dez minutos.”

Janie desabou numa poltrona bastante usada, jogando as pernas por cima do braço do móvel. “Estou morta de fome. Só comi umas bolachinhas no almoço. Estou estudando desde as dez da manhã.”

Stella estendeu a tigela com toranjas descascadas, enquanto Me. olhava feio para a filha. “Você está ficando muito pálida.” Virando-se para Stella, perguntou: “Não acha?”.

Janie pegou a tigela e começou a devorar um pedaço após o outro. Stella ficou perplexa. A garota não sabia o quanto demorava para descascar e picar a fruta daquele jeito?

“Talvez só um pouquinho”, Stella sugeriu.

Me. falou alguma coisa em vietnamita com Ngoa.i, que lançou um olhar de desaprovação para Janie. Stella não entendeu, mas não parecia boa coisa.

“Obrigada por me jogar para as feras, Chi. Hai.” Um sorriso torto quase idêntico ao de Michael surgiu no rosto dela quando Janie deu uma piscadinha. O peito de Stella se derreteu.

“O que significa Chi . Hai?”

Me. abriu um sorriso enquanto descascava as frutas.

Janie enfiou o último pedaço de toranja na boca. “Quer dizer ‘irmã dois’. Michael é meu Anh Hai, ‘irmão dois’. Estou lá embaixo, no número seis. Sou a quinta, mas a contagem não começa no um. Acho que esse número é reservado para os pais, ou coisa do tipo. Enfim, é coisa do sul do Vietnã.”

Um sorriso abobalhado apareceu no rosto de Stella, e seu coração começou a dar cambalhotas no peito. Ela adorou a ideia de ter o número de Michael. Aquilo os tornava um casal. Como os sapatos colocados perto da porta e as mãos trabalhando juntas no piano.

Janie deu risada e disse alguma coisa em vietnamita para a mãe e a avó. Elas olharam para Stella, deram uma risadinha e concordaram.

“Michael anda bem felizinho”, Janie comentou. “É meio ridículo até. Só pode ser por sua causa.”

Ela ficou sem fôlego. “Verdade?”

“Ele fica insuportável quando está feliz.”

Stella mordeu o lábio para esconder um sorriso. Os sentimentos que borbulhavam em seu peito ameaçavam explodir, em um jorro de glitter e arco-íris. “Ele não conseguiria ser insuportável.”

Janie soltou um risinho de deboche. “Aposto que não obriga você a cheirar as meias sujas dele.”

Stella segurou o riso.

“O que está acontecendo aqui?”, Michael perguntou, parado na porta.

Os cabelos dele estavam totalmente bagunçados, e o rosto continuava vermelho da luta com a irmã. Vestia uma camisa branca por cima de uma camiseta lisa e calça jeans desbotada. Estava lindo.

“Contei pra ela das meias, babaca”, Janie falou com um sorriso maligno.

Me. lançou um olhar sério para a filha, que se encolheu toda na poltrona.

“Anh Hai, eu quis dizer”, ela murmurou.

“Isso mesmo. Vê se me trata com respeito.” Ele sorriu como alguém presunçoso e… insuportável. Stella adorou. “Vamos lá, o jantar está pronto.”

Na cozinha, Me. começou a servir o macarrão de arroz em tigelas enormes e jogar o caldo em cima. Janie pegou a primeira tigela e colocou na mesa diante de Ngoa.i, cortando tudo em pedacinhos bem pequenos com uma tesoura antes de espremer um limão em cima.

Michael puxou Stella de lado. “Oi.” Passando os olhos por ela, ele acariciou suas costas e a puxou mais para perto. “Gostei desse vestido em você. As costuras estão incomodando?”

“Não. O problema é a frente.”

“Por quê? Quer que eu arrume?” Ele desabotoou o cardigã preto dela e examinou a estrutura do vestido justo, franzindo a testa. “Não estou vendo nenhum problema.”

“Você tem como embutir um… um…” Ela olhou para a família dele, que montava as tigelas, e baixou o tom de voz. “Pode costurar um sutiã por dentro?”

Um sorriso malicioso surgiu no rosto dele, que abriu um pouco mais o cardigã para ver os mamilos pontudos sob o tecido. “Até posso, mas não vou fazer isso.”

Ele a puxou para a sala de jantar e a encostou na parede. Quando agarrou seus seios e brincou com os mamilos, Stella respirou fundo, e seu corpo amoleceu inteiro.

“Assim é mais legal, sabe?” Michael se abaixou e beijou sua testa, seu rosto e por fim sua boca — um toque levíssimo que a deixou querendo mais. “Você sabe que levo moda muito a sério.”

Ela enfiou a mão por dentro da camisa dele para sentir a musculatura rígida do abdome. “É indecente.”

Ele a beijou de novo, de forma lenta e profunda, e se afastou com os olhos semicerrados. “Você pode ficar com o casaquinho, mas nada de sutiã.” Michael acariciou seus mamilos da maneira exata para deixá-la toda mole. “Pelo jeito está ficando de pernas bambas. Que tesão…”

Ele capturou seus lábios e enfiou a língua em sua boca. Quando se afastou, os lábios dela latejaram de excitação, e o calor que se espalhou pelo corpo fez seus dedos se contorcerem. Não era para ela estar com vontade de novo. Aquela manhã havia sido particularmente acrobática, e por muito pouco Stella não chegara atrasada ao trabalho.

A tensão em seu couro cabeludo se desfez quando Michael soltou seus cabelos. Ele enfiou a mão por baixo do vestido e apertou a coxa dela.

“Afe, parem com isso”, uma das irmãs disse ao passar.

Michael se afastou com olhos risonhos e desejosos. “Você só está brava porque perdeu a luta.”

“Cuzão”, Maddie disse.

Depois que a irmã desapareceu na cozinha, Michael passou a mão nos cabelos de Stella. “Tudo bem com você? Está envergonhada por ter sido pega no flagra?”

Ela sacudiu a cabeça negativamente. Desde que ele não ligasse também…

Michael pôs as mãos espalmadas na parede atrás dela e alinhou seus corpos para que se encaixassem direitinho, rigidez contra maciez, curvas contra ângulos retos. “Você é muito gostosa.”

Os lábios dos dois se colaram num beijo ofegante.

“Ai, meu Deus, parem!”

Stella teve um sobressalto com o tom brusco da voz de Sophie, e Michael se afastou dando risada. Sem voltar a olhar para os dois, Sophie foi para a cozinha.

“Vamos comer.” Ele pegou na mão de Stella e a conduziu até os últimos lugares vazios à mesa.

Todas lançaram olhares na direção dos dois. Stella ficou vermelha e baixou os olhos para a tigela. Fatias de tomate e verduras boiavam em cima da sopa engrossada com o que talvez fosse gema.

“Você deveria usar o cabelo solto mais vezes, Stella”, Sophie comentou. “Mas para comer é melhor prender, ou pode sujar.” Ela estendeu um pote com alguma coisa marrom. “Quer um pouco?”

Stella estendeu a mão para pegar. “O que é?”

Michael arrancou o pote dela e colocou na mesa. “Stella vai desmaiar só com o cheiro. O nariz dela é bem sensível.”

Sophie deu de ombros. “O cheiro é ruim, mas o gosto é bom.”

A maior parte das coisas escritas no rótulo estava em chinês, mas na parte de baixo dava para ler MOLHO DE CAMARÃO.

“Gosto de camarão”, Stella falou.

Michael empurrou o pote para longe. “Não desse tipo de camarão. Nem eu encaro isso aí.”

“Deixa ela experimentar, Michael”, Sophie insistiu.

Stella olhou para Janie e Maddie, que sacudiram a cabeça horrorizadas.

Com um suspiro de impaciência, Me. pegou o pote e colocou na frente de Stella. “Isso é mắm ruốc. A forma certa de comer bún riêu é com mắm ruốc.”

Stella fechou os dedos em torno do pote. Sentindo-se como Branca de Neve diante da maçã envenenada, levou o conteúdo ao nariz. Na primeira fungada, seus olhos se encheram de lágrimas. Tinha um cheiro bem forte de mar. Depois de uma segunda e de uma terceira cheiradas, porém, o aroma perdeu um pouco da força. “É só jogar na sopa?”

Me. colocou uma colher daquilo na tigela de Stella. “Assim. E com limão e molho apimentado.” Ela espremeu a fruta e acrescentou uma colher de um molho vermelho.

Quando Stella pegou os palitinhos e a colher de sopa, Michael a observou com os olhos arregalados, como quem pede desculpas. Ela misturou tudo, enrolou o macarrão nos palitos e colocou o caldo na colher, como vira Sophie fazer. Em seguida enfiou na boca.

O gosto era… bom. Salgado e doce ao mesmo tempo, e um pouco ardido. Ela sorriu ao dar outra colherada. “Gostei.”

“É bom, né?”, disse Sophie. “Parabéns pela coragem.”

Stella bateu na mão que a irmã de Michael levantara para ela, se sentindo meio boba, mas querendo compensar toda a história com o BPA do primeiro dia. Me. sorriu, Ngoa.i fez “hummmm” e Janie e Maddie cochicharam.

“Elas se recusam a experimentar”, Me. explicou, apontando para as duas filhas mais novas.

“Tem cheiro de morte”, Janie falou.

Maddie assentiu de modo enfático com a cabeça. “De cadáver.”

Me. as repreendeu com uma sequência de frases em vietnamita, fazendo as duas baixarem a cabeça.

Por baixo da mesa, Michael apertou a perna de Stella, então se inclinou para ela e murmurou em seu ouvido: “Gostou mesmo? Não precisa comer se não quiser. Posso preparar outra coisa para você”.

“Gostei mesmo.” Ela comeria mesmo que tivesse detestado. Me. parecia orgulhosa e apaziguada. E a comida não estava envenenada. Pelo menos não que Stella soubesse.

Ele roçou os lábios nos dela e se afastou, tossindo e dando risada. “Dá para sentir o cheiro em você.”

Stella enfiou outra colherada na boca, olhando feio para ele e afastando os cabelos da frente do rosto.

“Deixa que eu prendo.” Ele tirou o elástico do pulso e fez um rabo de cavalo.

“Obrigada.”

Michael sorriu e beliscou o queixo dela. Pelo olhar dele, poderia beijá-la se a família inteira não estivesse olhando — e se ela não estivesse cheirando a molho de camarão e cadáver.

“Credo, para de olhar para ela com essa cara”, Sophie falou.

“É sério”, Maddie acrescentou.

“E desde quando você anda com elásticos na mão para prender o cabelo dela?”, Janie perguntou.

Stella quis sumir dentro da tigela de sopa.

Michael se limitou a encolher os ombros e sorrir. Em seguida a enlaçou com um braço e beijou sua têmpora.

O jantar passou depressa, com as irmãs se alternando em suas alfinetadas e provocações. A mãe interferia de tempos em tempos com discursos e olhares, mas Stella ficou com a sensação de que ela estava contente. Quando todos terminaram sua sopa e se empanturraram de toranja descascada e picada, Me. ordenou que Janie e Maddie tirassem a mesa e lavassem a louça.

Michael pegou Stella pela mão para levá-la para casa, mas Me. fez um gesto para que fossem até a sala de estar.

“Tenho uma coisa para mostrar para Stella.”

Michael soltou um grunhido. “Me., não. Hoje, não.”

“O que é?” Stella ficou curiosa.

“Vamos deixar para outra vez”, Michael sugeriu.

“Ele era uma gracinha”, Me. falou.

“Fotos de criança?” Stella só faltou sair dançando pela casa. “Quero ver!”

Michael resmungou, mas ela o puxou para a sala de estar. Me. entregou um álbum de fotos, e Stella se sentou entre os dois no sofá.

Ela passou os dedos na capa aveludada do álbum. O que sua própria mãe tinha dela era quase igual, do tipo que tinha adesivo nas páginas, com uma cobertura de plástico. A primeira página era a imagem granulada de um ultrassom e de um bebê todo enrugado que parecia ter mil anos de idade. À medida que avançavam, Michael ia ficando mais bonitinho.

Havia fotos dele no colo de Ngoa.i, aprendendo a andar e tentando pegar uma melancia. Em uma, um Michael pequenino e gorducho de terno — teria sido seu primeiro? — estava entre um jovem casal. A mulher era bem novinha, uma versão lindíssima da mãe dele usando um vestido vietnamita branco tradicional com flores bordadas na frente. O homem só podia ser o pai. Era alto, loiro e tinha o mesmo sorriso torto de Michael.

“Você era linda, Me.”, Stella comentou, passando os dedos pelo vestido florido. “Adorei essa roupa.”

“Ainda tenho esse aó dài. Pode levar se quiser.”

“Sério mesmo?”

“Não serve mais, e as irmãs de Michael não têm o menor interesse nele. Elas sempre queriam usar as joias, antes que eu me desfizesse delas.” O tom de voz de Me. perdeu o vigor, e os olhos dela se voltaram para o rosto do homem. “Esse é o pai do Michael. Bonito, não?”

Michael virou a página sem dizer nada.

A gordura infantil foi aos poucos dando lugar a membros mais compridos e uma beleza mais masculina. O sorriso de Michael na maior parte das fotos era divertido e cheio de vida. Havia dezenas de fotos dele e das irmãs cercados de dezenas de primos cem por cento vietnamitas. Eles pareciam meio deslocados ali, com a pele mais clara e as feições mestiças, assim como deveriam parecer entre os coleguinhas de escola. Como seria aquela sensação de não pertencer?

Talvez não muito diferente da que ela própria experimentara na infância.

Havia fotos de Michael no início da adolescência, jogando xadrez com o pai com o rosto franzido de concentração, envolvido em projetos científicos ou vestido com traje completo de kendô, com o sobrenome bordado na frente do uniforme em letras garrafais: LARSEN.

Ele virou a página parecendo alarmado, mas ela manteve uma expressão neutra, fingindo que não tinha visto. Não era muito boa em mentir, mas sabia fazer parecer que estava tudo bem. Vinha praticando desde criança.

Mas odiava ter que fazer aquilo com ele.

Por que era importante para Michael esconder dela o verdadeiro sobrenome? O que ele achava que faria com aquela informação? A percepção de que não confiava nela diminuiu a alegria daquela noite. Era tolice ter alguma esperança de que ele fosse seu?

Quando emergiu de seus pensamentos e voltou a prestar atenção nas fotos, já estavam quase no fim do álbum. Elas mostravam um Michael quase adulto, tão lindo que foi impossível para Stella segurar um suspiro. Ao lado do pai, todo sorridente, com um troféu de um torneio de xadrez, e outro de kendô, e outro de uma feira de ciências.

“Quantos troféus”, Stella comentou.

“Meu pai ficava feliz quando eu ganhava, então me esforçava bastante.”

“Michael era o primeiro da sala”, sua mãe contou, olhando para ele com um amor sem limites.

Stella sorriu. “Sempre soube que você era inteligente.”

“Eu só me esforçava bastante. Aprendi a me dar bem nas provas. Você é muito mais inteligente que eu.”

Ela procurou o rosto dele, se perguntando por que aquele homem se diminuía tanto. “Na verdade, não fui a primeira da classe. Só era boa em matemática e ciências.”

“Meu pai teria preferido que fosse assim comigo.”

Michael passou para a última página.

Havia uma foto de sua formatura no Instituto de Moda de San Francisco. Os ombros dele estavam firmes, e a expressão no rosto era de determinação. A mãe visivelmente explodia de orgulho e felicidade, enquanto o pai parecia estar ali de má vontade. Os cabelos loiros tinham se tornado brancos. Apesar de ainda ser atraente para um homem mais velho, parecia ter uma expressão carregada de cansaço e cinismo. O sorriso torto não estava mais lá.

“Ele não queria que você estudasse moda.”

Michael deu de ombros. “A decisão não era dele.” A resposta veio num tom de voz indiferente, assim como o olhar, geralmente tão vívido.

Stella segurou e apertou a mão dele. Michael a virou e entrelaçou os dedos dos dois, retribuindo o aperto.

“Michael é muito talentoso. Logo que se formou, recebeu cinco propostas de emprego. Trabalhava para uma grife importante em Nova York antes de precisar voltar para casa porque o pai tinha ido embora.” Me. olhou para o vazio, com a boca contorcida de amargura, então piscou algumas vezes e se voltou para o filho. “Mas fico feliz por ter te chamado de volta. Você estava saindo demais. Era um exagero. Tudo de que precisava era uma mulher, boa o bastante.”

Me. deu um tapinha na perna de Stella, que sentiu um desejo intenso e ao mesmo tempo terrível surgir dentro de si. Naquele momento, ela era considerada uma boa mulher. Mas o que a mãe dele pensaria se soubesse dos rótulos que Stella fazia de tudo para esconder? Poderia se tornar indigna do filho dela? Que tipo de mãe ia querer uma nora e provavelmente netos autistas?

Mas desde quando Stella tinha o direito de pensar em casamento e filhos? Ela e Michael não tinham um relacionamento de verdade. Ele estaria com ela se não precisasse de dinheiro? Se tivesse a liberdade de sair com quem quisesse, escolheria Stella?

“Muito bem”, Me. falou de forma repentina. “Vimos todas. Michael, vem me ajudar enquanto procuro o aó dài.”

Michael soltou um suspiro resignado e ficou de pé.

“Posso ver as fotos de novo?”, Stella pediu.

Me. sorriu e assentiu, mas Stella só conseguiu se concentrar no álbum por um minuto ou dois antes de Janie aparecer na sala com um livro bem grosso nas mãos.

“É verdade que você é economista?”, ela quis saber. Posicionou os pés descalços no carpete para que seus joelhos ficassem alinhados.

“É verdade. Você está no terceiro ano em Stanford, certo? É um ótimo curso.” Stella se lembrou de que Me. queria que ela conversasse com a filha sobre seu trabalho. “Esse livro é sobre o quê? Está precisando de ajuda com algum trabalho da faculdade?”

Janie abraçou o volume e sentou no braço da poltrona que ocupara antes do jantar. “Na verdade, achei…” Ela respirou fundo. “Queria saber se você pode me ajudar a conseguir um estágio. De repente mandar meu currículo para algum colega que esteja contratando. Não estou conseguindo muitas entrevistas. Não tenho experiência nenhuma, e fui muito mal no primeiro ano. Minha média continua baixa por causa disso. Mas tenho um bom conhecimento da área. E sei que é isso que quero fazer da vida.”

“Você tem seu currículo aí para me mostrar?” Assim que as palavras saíram da boca de Stella, ela se arrependeu. Estava agindo como se fosse uma conversa formal de trabalho. Janie parecia nervosa.

A irmã de Michael tirou uma folha de papel do meio do livro sobre macroeconomia internacional e entregou para ela.

O currículo mencionava a paixão de Janie por teoria econômica em uma linguagem concisa, listava os aspectos mais importantes de seu histórico e seu potencial e apresentava suas médias. Em disciplinas relacionadas a economia, 3,5. No geral, 2,9. Não bastariam para ingressar em empresas importantes, mesmo sendo aluna de Stanford.

Com a maior gentileza de que era capaz, Stella perguntou: “Posso saber o que aconteceu no seu primeiro ano?”.

Janie voltou os olhos para o livro. “Foi quando minha mãe ficou bem mal mesmo. Foi difícil para todo mundo. A gente precisava cuidar dela e tocar a loja, e ainda tinha o lance da separação. Não consegui administrar meu tempo direito. Sendo bem sincera, não estava nem aí para os estudos, o que foi uma grande burrice, porque a faculdade custa uma nota, e a gente estava bem mal de grana.”

Qual seria o motivo dos problemas financeiros? Teriam a ver com o pai de Michael? Para quem olhava de fora, eles pareciam bem. A loja era movimentada e tinha boa reputação. A família morava numa casa própria. Morrendo de vontade de perguntar, Stella cravou os dedos no álbum de fotos. Sabia que não era de bom-tom. Por mais que sentisse que conhecia aquelas pessoas, havia entrado na vida delas fazia pouco tempo.

E, da última vez que deixara a curiosidade assumir, fizera a mãe deles chorar. Não queria fazer aquilo com mais ninguém.

Sem saber o que dizer, ela apenas respondeu: “Entendi”.

“Acha que tenho chance de conseguir um estágio com essas notas? Tem alguma coisa que posso fazer para deixar meu currículo mais interessante?”

Aquilo era difícil. A não ser que… Uma ideia começou a se formar na mente de Stella, que inclinou a cabeça e encarou Janie com novos olhos. “Você tem algum interesse em econometria?”