Os Números do Amor
Capítulo 20
Ao longo da semana seguinte, Michael foi aprendendo o ritmo de Stella.
Na cama, ela reagia melhor quando ele ia devagar e murmurava safadezas no ouvido dela. Se quisesse algo mais intenso — fosse o que fosse —, ela se mostrava disposta e ansiosa para agradar. Ele não podia querer uma amante melhor. A ironia da situação não passava despercebida.
Fora da cama, ela se dava bem com a rotina. Acordava todos os dias no mesmo horário, tomava um banho para se livrar dos resíduos do sexo matinal — ele adorava começar o dia com o pé direito —, tomava um iogurte e ficava no trabalho até as seis da tarde. As noites eram de Michael. Mas não ficavam se pegando como dois adolescentes cheios de hormônios — eles preenchiam o tempo com jantares, conversas e silêncios cúmplices que Michael nunca havia experimentado.
No sábado à noite, depois de passar o dia em um museu em San Francisco se revezando em comentários absurdos sobre arte, viram mais um episódio de Laughing in the Wind. Na verdade, ela viu. Michael ficou olhando para ela, penteando seus longos cabelos com os dedos.
Stella apoiou a cabeça no ombro dele, com os olhos voltados para a TV de tela grande pendurada na parede do quarto. De tempos em tempos, suspirava ou ficava tensa, reagindo à história, e suas pernas descobertas se mexiam sob a bainha da mesma camiseta comprida que usava na primeira noite que haviam passado juntos.
Michael não sabia descrever como se sentia ao vê-la com as roupas dele, ou ao tomar conhecimento de que ela guardara a camiseta e sempre a usava para dormir, mas era uma sensação boa. Ele vinha se sentindo bem nos últimos tempos — toda vez que Stella sorria, pedia um beijo ou chegava perto dele, mas também quando nem estavam juntos. Ele passara a semana inteira num estado de euforia, sorrindo ao pensar nela.
Não havia dúvida.
Estava perdidamente apaixonado.
Ele sabia que era só uma coisa temporária, que não era de verdade, que não havia como terminar bem, mas tinha feito algo proibido para um acompanhante profissional: ficara caidinho por uma cliente.
“Então ela salvou a vida dele, mas agora está escondida atrás da cortina fingindo ser uma velhinha. Ele vai ver a cara dela em algum momento?”, Stella perguntou, atraindo a atenção dele. “Ele vai se apaixonar por ela?”
“Quer mesmo que eu conte?”
Stella ficou pensativa por alguns instantes, então fez que sim com a cabeça. “Quero. Me conta.”
Ele deu risada e a puxou para mais perto, beijando sua testa. Ela era séria e pensativa, mas também cheia de caprichos. Michael adorava aquilo. “Não. Você vai ter que ver para descobrir.” Sem conseguir se segurar, ele beijou seu queixo e mordeu sua orelha. Era muito bom tê-la tão perto. Ele tinha sido feito para amá-la.
Stella cruzou os braços. “Por que ela não se deixa ver? Está na cara que gosta dele.”
“Porque ela sabe que os dois nunca vão poder ficar juntos.”
“Por que não?”
“O pai dela é um vilão.” Aquilo fez Michael pensar em si mesmo e em seu pai, o que o destroçou por dentro.
“Mas ela não é”, Stella insistiu. “Eles podem dar um jeito.”
Michael não disse nada. A heroína da série não era má pessoa, mas Michael ainda estava sub judice. Procurava andar na linha, mas quando as coisas ficavam feias e ele sentia que a vida o sufocava, pensamentos ruins passavam por sua cabeça. Um atalho, uma forma mais fácil de se libertar, uma trapaça. Ele conhecia as pessoas. Seria fácil aproveitar-se delas. Não havia muita coisa que o impedisse de fazer aquilo além de um código de ética um tanto vacilante e o desejo de não seguir o mesmo caminho do pai.
Se ele fosse uma pessoa melhor, contaria a Stella sobre seu passado e abriria mão dela. Mas não se sentia capaz de fazê-lo. Queria mais contato, e não menos. E aquele relacionamento a estava ajudando. Dava para sentir. A cada dia, a confiança dela crescia. Stella sorria, dava risada e até fazia piada. Em pouco tempo, perceberia que estava pronta para seguir adiante.
Até lá, Michael estava decidido a aproveitar cada momento ao lado dela. Passando o nariz naquele pescocinho sensível, ele subiu uma das mãos pela coxa macia dela, por baixo da camiseta que era dele. Em seguida soltou um grunhido, sentindo o corpo todo enrijecer.
“Sem calcinha. Está tentando passar algum recado?”, ele murmurou no ouvido dela, gostando de vê-la estremecer e abrir as pernas para facilitar seu acesso. Stella nunca o recusava, estava sempre faminta por ele, da mesma forma que Michael por ela.
“Você sempre joga longe, e demoro um tempão para achar. Achei que…” Ela respirou fundo quando ele começou a massagear o clitóris, e jogou a cabeça para trás.
“Presta atenção no programa. Você pode perder alguma coisa.” Ela já estava molhadinha. Uma umidade quente se espalhou pelos dedos dele enquanto a acariciava, e seu pau tentou pular para fora da calça como se fizesse semanas que não transava, e não algumas horas. Ele queria tê-la de novo — aquela proximidade, aquela conexão, aquele prazer incrível e enlouquecedor. Por mais que transassem, nunca era suficiente.
Ela tentou obedecer — como sempre fazia —, mas não demorou para desistir e agarrá-lo num beijo profundo, que levou a outro, e mais outro, e mais outros…
Quando ele olhou para a TV de novo, estava na tela do menu. O DVD tinha passado inteiro enquanto se ocupavam com outra coisa. Depois de se lavar e desligar a TV e as luzes, ele deitou. Stella murmurou alguma coisa junto a seu peito e deu um beijo sonolento em seu pescoço.
Ele sentia uma possessividade misturada com carinho. Afastou os cabelos do rosto dela e passou os dedos no ombro macio iluminado pelo luar.
Sua Stella.
Por enquanto.
Até que ela decidisse que bastava de simulação. Ou descobrisse tudo a respeito do pai dele.
* * *
Quando Stella chegou em casa do trabalho na semana seguinte, encontrou a casa vazia. Michael mandara uma mensagem avisando que estava atrasado. O que ela não esperava era aquela tristeza aguda, aquela solidão fria.
O relacionamento simulado só estava em vigor fazia uma semana, mas ela já havia se acostumado com ele. Michael fazia parte de sua rotina, de sua vida, e a ausência dele a deixava inquieta. Quando as coisas terminassem, não restaria nada além do vazio.
Se as coisas terminassem.
Caso ela não conseguisse seduzi-lo. A lista inicial de quando pensara em aulas de sexo já tinha sido mais do que preenchida. Ela verificara. Estava na hora de partir para a sedução.
Desejou que Michael pudesse ensiná-la a fazer aquilo também, porque não tinha ideia de como agir. As pesquisas no Google resultaram em conselhos conflitantes, quase nada úteis em uma situação como a sua, já estando envolvida em algum tipo de relação monogâmica. Uma matéria particularmente revoltante aconselhava as mulheres a concentrar todos os seus esforços e seu tempo em melhorar o visual e a baixar o nível de exigência.
Mas os padrões de Stella já estavam fixados no mais alto nível. Apenas Michael serviria. Quanto à sua aparência, ela não ia se submeter a usar lentes de contato ou maquiagem, a não ser em ocasiões especiais. E, se a insaciabilidade dele na cama servisse como sinal indicativo, Michael estava satisfeito com seu visual.
Os músculos do ventre dela se contraíram ao se lembrar do que ele havia feito naquela manhã — a maneira como a beijara, acariciara, as coisas que dissera. Stella passou uma mão do peito até a coxa, desejando que fosse a dele. Mesmo que jamais dormissem juntos de novo, ainda o desejaria. E o que Michael fazia fora da cama era tão encantador quanto o que fazia entre quatro paredes, se não mais. Ele a fazia rir e a escutava, mesmo quando ela não dizia nada de muito interessante. Stella se sentia confortável ao seu lado, até demais. Às vezes ela até se convencia de que os rótulos atribuídos a ela não importavam. Eram apenas palavras. Não mudavam quem ela era. Se ele ficasse sabendo, não daria nem bola.
Talvez.
Por força do hábito, foi até o piano. Acomodou-se no banquinho e ergueu a tampa. A frieza das teclas sob os dedos a acalmou. Durante anos, a música fora sua principal forma de lidar com as emoções — as boas, as ruins e as intermediárias. Com os acordes potentes das cordas, entoados por pura memória muscular, ela se entregou à melodia, deixando com que tudo o que sentia fluísse para as pontas dos dedos. Quando a música terminou, Stella manteve as mãos nas teclas, ouvindo o eco das notas se esvaindo no ar.
“Eu sabia que você tocava, mas não bem assim”, Michael comentou atrás dela.
Foi impossível para ela segurar o sorriso quando o olhou por cima do ombro. “Você já chegou.”
Ele abriu um sorriso cansado, mas que se estendeu até estreitar os olhos. Em uma fração de segundo, tudo pareceu voltar a ser como devia. A frieza desapareceu, e as peças que faltavam retornaram a seu lugar.
“Que música era? Acho que já ouvi antes”, ele comentou.
“‘Clair de Lune’, de Debussy. Minha favorita.”
Ele pôs as mãos nos ombros dela e deu um beijo em sua nuca. “É linda, mas muito triste. Sabe alguma mais alegrinha?”
Os lábios dela se curvaram em algo que não era bem um sorriso. Tristeza era o tema comum a todas as peças de seu repertório. “Bom… talvez esta.”
Ela mordeu o lábio e executou a conhecida melodia no piano, se perguntando se poderia ser considerada alegre.
Para sua surpresa, ele sentou ao seu lado no banquinho e falou: “Pensei que ‘Heart and Soul’ fosse um dueto”.
Ela encolheu os ombros. “Só toco a versão solo.”
Michael segurou a mão direita dela e a pôs no colo. Um sorriso apareceu nos lábios dele quando apontou com o queixo para o teclado.
“Você toca?”, ela perguntou.
“Bem pouco, mas essa eu conheço.”
Stella ficou sem fôlego. Seus dedos se atrapalharam nas primeiras notas, mas ela entrou no ritmo rapidinho. A parte mais grave da melodia era uma simples repetição, um padrão, algo que lhe vinha naturalmente. Michael se manteve no ritmo de forma impecável ao acompanhá-la, fazendo um calor intenso subir por sua espinha e seu corpo se encher de prazer. Ela nunca havia tocado um dueto com ninguém além de seu professor de piano, e só em exercícios técnicos, nada muito especial.
“Você é bom nisso”, ela comentou sem parar de tocar, olhando para ele.
O sorriso de Michael se alargou, mas sua atenção continuou voltada para os dedos. “Com seis pessoas e um só piano, a gente aprende a dividir. Além disso, nenhum de nós sabia como tocar a parte grave com apenas uma mão. Você é boa mesmo.”
“É só prática.” E necessidade.
A visão das mãos dos dois lado a lado no piano a encantou. Era um contraste gritante e belíssimo: grande com pequena, bronzeada com pálida, masculina com feminina. Tão diferentes, mas num ritmo perfeito. Produzindo música. Juntos.
A música terminou, e ela afastou os dedos do teclado e desviou os olhos. A sensação de nudez estava de volta.
Michael beijou seu pescoço e acariciou seu queixo com os dedos, puxando-a para que o encarasse. Stella pensou que ele fosse dizer alguma coisa, mas não. Apenas sorriu.
Ela teve vontade de perguntar se ele gostava de ficar ao seu lado, se gostava daquilo, mas não conseguiu criar coragem. E se dissesse que não?
“Está com fome?”, ele falou, e o momento se desfez. “Vamos comer.”
Ficaria para mais tarde. Depois que o seduzisse.