Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 10 de 35

Páginas do PDF

Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

4 Tudo pode, desde que haja informação

4

Tudo pode, desde que haja informação

 

No final da década, em 1959, Ruth tornou-se mestre em sociologia com a dissertação O papel das

associações juvenis na aculturação dos japoneses. Eunice Durham estava estudando o imigrante italiano

e Egon Schaden disse a Ruth para pesquisar o imigrante japonês. Ela tentou convencê-lo de que não era a

pessoa indicada, porque deveria ser alguém que falasse correntemente a língua, ficava difícil entrevistar

imigrantes muito velhos que nem sequer falavam o português. Quanto a Eunice, os italianos ou já falavam

português ou havia mais facilidade de interlocução. Egon foi categórico: “Então, Ruth, arranje uma

assistente que fale japonês”. Eunice Ribeiro Durham, hoje, passados cinquenta anos, afirma: “Sei que a

Ruth jamais gostou dessa pesquisa”.[47]

 

Quando 1960 começou, a segunda filha de Ruth e Fernando Henrique, Luciana, nascida em 20 de

fevereiro de 1958, já estava com dois anos. Aliás, quando Luciana estava para nascer, Ruth contou a

Antonio Candido que estava indecisa, sem saber se a batizava Luciana, nome de que gostava muito, ou

outro, de uma longa lista. Candido comentou: “Se eu tivesse um filho, escolheria Luciano. Filha então... é

um belo nome”. No dia 26 de janeiro daquele 1960 nasceu Beatriz. Quase no aniversário de São Paulo. A

casa da rua Nebraska era grande e confortável, com uma pequena piscina no quintal. Um dos vizinhos era

Florestan Fernandes, que tinha um filho e uma filha com as mesmas idades de Paulo Henrique e Luciana.

Fernando Henrique tinha telefone, e não raras vezes abriu a porta para o vizinho fazer as suas chamadas.

Os interurbanos demoravam horas para serem completados. Um frequentador assíduo da casa era Elias

Chaves Neto, ensaísta combativo, diretor da Revista Brasiliense, editada por Caio Prado Júnior. Chaves

ia até lá de bicicleta, atravessando a cidade.[48]A lembrança de Paulo Henrique sobre essa casa é a de

um lugar cheio de crianças tomando lanche, correndo e brincando no jardim, enquanto a mãe fazia bolos.

Ela era catalisadora, estava sempre juntando gente. A piscina, que eles chamavam “de pobre”, era de

tijolos e cimento, do chão para cima, com escadinha para subir e mergulhar. Ruth sempre vigilante,

olhando a criançada.

“Eu fugia de casa, descia até a Hípica e roubava bambus para fazer tacos e jogar. Uma única vez eu a

vi realmente brava, fora de si. Foi no dia em que sumi, caminhando até o rio Pinheiros, voltei tarde e

imundo, além de ser uma coisa perigosa. Ela perdeu a paciência, me deu três palmadas. Nunca mais me

bateu. Não se pode dizer que era brava, megera. Era justa, mas eu a fazia sair do sério às vezes. Com

ideias firmes, defendia seus pontos de vista, eu sempre brincava, ‘a senhora é protestante e comunista’.

Ela gostava das coisas boas da vida, mas possuía um sentimento ácido em relação a ‘grã-finagens’ e

vaidades vazias. Era o lado Araraquara que ela insistia em manter, aliás manteve a vida inteira. Não esquecer também que, por anos, ‘eu me achei’. Na juventude, era de pegar o carro e correr, podia ser

definido como um playboyzinho. Isso a irritava, mamãe tinha horror a esse tipo de gente, achava que era

uma coisa que não devíamos ser. À medida que cresci, tive horário para voltar, depois ela me ensinou o

princípio que transmiti às minhas filhas. Dizia: ‘Tudo pode, desde que haja informação’. Então, era só

dizer: hoje vou chegar tarde, hoje não vou chegar. Uma vez fui parar no Juizado de Menores, os dois

ficaram loucos comigo, mamãe muito mais. Na verdade, era ela quem tomava conta, papai só entrava em

cena por conta dela, ficava no mundo dele, não queria problemas, esse negócio de filhos é um incômodo.

O criar era com ela. A frase que todo menino ouve, ‘espere até seu pai chegar’, ouvi poucas vezes, ela

resolvia logo, não era de delegar. O que víamos em casa era uma mulher sempre tentando passar uma

visão, procurando ensinar, uma professora”, confessa Paulo Henrique.[49]Havia uma combinação entre

os casais Florestan Fernandes e Fernando Henrique. Cada dia era um que levava as crianças à escola

Chapeuzinho Vermelho. Bia andava pela casa o dia inteiro carregando uma lancheira e dizendo “quero ir

para a escola”. Não dava sossego. Tanto reivindicou que foi, aos dois anos e meio.

 

Nas férias, Paulo, Luciana e Bia eram mandados para os avós maternos em Araraquara ou,

eventualmente, para os paternos no Rio de Janeiro. Eles eram embarcados no vagão Pullman da Paulista,

sentindo-se importantes, e eram esperados por José na estação de Araraquara. Bia sofria uma angústia

terrível na hora do embarque, porque Ruth entrava no vagão para acomodar as coisas e a menina tinha

medo de que o trem partisse e a mãe não conseguisse descer.

Mariquita e José já moravam na avenida Quinze, foi a última casa que tiveram na vida. Mandaram

construir, quase à beira de um riacho, onde Paulo ficava tentando pescar, com o avô do lado, e Bia

aproveitava para nadar. Até a adolescência Bia frequentou essa casa, que, para todos, era imensa. Tinha

um jardim e a meninada adorava o banho de esguicho. Uma vez, Bia precisou fazer um trabalho sobre

uma planta e Mariquita foi a fonte, afinal, era sua especialidade. Era uma planta estranha, a pessoa

rasgava a folha e ela se colava sozinha, ou se “costurava”, como a avó dizia. Essa casa ainda existe, tem

a soleira das portas e as escadas em mármore de Carrara, comprado quando da demolição da igreja

matriz.[50]Os avós levavam as crianças à Doceria do Zoega ou à Sorveteria do Uesato, na avenida São

Paulo, fechada recentemente. Às filhas de Ruth juntavam-se Valéria e Adriana, filhas de Dora Medina,

uma quase vizinha que morava pouco acima de Mariquita na avenida Quinze, para uma sessão de cinema

infantil no Cine Capri, todos os domingos, às dez da manhã. A empregada de Dora deixava as meninas,

depois ia buscar. Interior ainda era tranquilo. Todas as crianças ainda se juntavam no quintal e no enorme

porão da casa de Rafael Medina, um porão que se tornava castelo do bem e do mal.[51]

Paulo Henrique adorava o jipão do avô José. “Nele andávamos pela cidade e visitávamos fazendas

das vizinhanças. Vovô gostava de dormir até tarde. Todos em casa gostamos. Acordava, tomava um

cafezinho, ficava na cama. Sistemático, obsessivo — qualidades que herdei, sou igual —, tinha tudo

marcado, hora de amolar a navalha no couro, de fazer a barba, do banho que durava cinquenta minutos,

de limpar o revólver, almoçar. O jantar era maluco: em uma cidade em que chegávamos aos 40 °C, uma

sopa quentíssima, e a sobremesa, invariável, era um prato de leite com ameixas, para regular o intestino.

Adorávamos as férias na cidade.”

A grande amiga era a Delfa, cozinheira fantástica, uma negra, mãe de santo. “Parecida com Milton Nascimento”, lembra-se Bia. Quanto a Paulo, Delfa foi a ligação dele com o povo, seus amigos eram

sobrinhos dela e o levavam aos terreiros. Boa pessoa, boa cozinheira, escondia garrafas de cachaça pela

casa, Mariquita descobria e quebrava.

A volta era uma complicação, Paulo Henrique entrava no trem e Mariquita entregava um farnel com

empadinhas e croquetes. “Os melhores do mundo. Só que eu, metido a besta, queria ir ao carro-

restaurante.”

 

O Brasil tinha vindo em ritmo acelerado com jk, que criou Brasília e mudou a capital do país para o

interior. A industrialização tinha sido a meta maior, fabricamos os primeiros carros brasileiros. Foi o

famoso “50 anos em 5”. Não se sabe ainda se para o bem, se para o mal. Inflação e crise financeira.

Fidel Castro tomou o poder em Cuba, para gáudio da América Latina, que anteviu a possibilidade de

formar um continente socialista. O Cinema Novo era a revolução nas artes, uma câmera na mão, uma

ideia na cabeça. E salas vazias, completavam os mais críticos. Já havia um teatro mergulhado no social e

no político, o Arena seguido pelo Oficina. A Nouvelle Vague ensinou novas formas de fazer filmes

baratos e calcados na realidade, anti-Hollywood. Fellini, com A doce vida, espantou o mundo, mostrando

que coisas tenebrosas aconteciam na burguesia, na aristocracia. Ele anteviu as drogas em alta escala na

sociedade, os travestis, os gays, a corrupção, a mídia exasperada, as celebridades vazias.

Jânio Quadros, um político demagogo, à base de uma vassoura e caspas nos ombros, passou de

vereador a prefeito, a governador, e seria eleito presidente da República. Mal se podia prever um

terremoto no país. Na Maria Antonia, agitação. Alunos queriam mais professores e mais verbas. Houve

uma greve, a Faculdade se agitou, foi ocupada pelos alunos.

 

Agosto de 1960. Jean-Paul Sartre deixou a França e foi observar o fenômeno Fidel Castro e sua

revolução, um impacto no mundo. Sobre essa viagem escreveu um best-seller, Furacão sobre Cuba.

Quando soube que Sartre iria a Cuba, o estudante Luiz Meyer, presidente do Centro Acadêmico da

Faculdade de Medicina da usp, telegrafou ao filósofo convidando-o para que viesse a São Paulo. Meyer

estava fissurado, como todo jovem antenado com o mundo, pela revolução cubana, queria ir para Cuba

como médico. Toda uma geração quis sair correndo para Havana naquele momento,[52]era algo novo,

excitante, uma ilusão ideológica. De qualquer modo, Sartre viria também ao Brasil para o Primeiro

Congresso de Crítica e História Literária do Recife. Pretendia ficar uns meses afastado da França, por

motivos ideológico-políticos. Regina Meyer, mulher de Luiz, conta: “Não é que o homem aceitou? Tenho

até hoje o telegrama que ele enviou. Nesse momento, Luiz, que era amigo de infância de Roberto Schwarz

e se relacionava com José Arthur Giannotti, se aproximou de Bento Prado Júnior, Renina Katz, Fernando

Pedreira, Ruth e Fernando Henrique Cardoso. Ruth tinha um papel ‘maternal’ naquele grupo e, embora

todos estivessem no mesmo patamar, o casal se destacava. Ruth era a mulher-modelo, ela tinha essa coisa

brasileira da mulher que sabe fazer comida, arrumar casa, criar filhos, preparar e dar aulas, fazer

pesquisas, teses, palestras, ir a cinema e teatro, divertir-se”.

Sartre esteve no Recife, foi à Bahia, ao Rio de Janeiro, e chegou a São Paulo. Fez palestras, deu

autógrafos na Livraria Francesa, reuniu-se com líderes sindicais na redação do jornal de centro-esquerda

Última Hora, na época o porta-voz do operariado, dos sindicatos.[53]Entrou no circuito o professor Fausto Castilho, da Faculdade de Filosofia, Ciências de Letras de Araraquara, uma faculdade muito nova

que tinha enviado ao Recife, por meio do professor Adolfo Casais Monteiro, uma carta formulando uma

questão em torno da filosofia marxista e a ideologia existencialista. Sartre respondeu que era a pergunta

mais difícil que lhe tinham feito no Brasil e que poderia ser respondida somente por meio de uma

conferência. Castilho não perdeu a deixa, convidou-o para ir a Araraquara, e ele aceitou. O francês,

apesar da oposição de Simone de Beauvoir e do escritor Jorge Amado, e dos ciúmes provocados no

pessoal da usp — como, ir a uma faculdade tão nova, com apenas três anos, sem tradição? —, acabou

fazendo um desvio em seu roteiro e foi a Araraquara, numa Kombi fechada e sem ar-condicionado, no dia

4 de setembro de 1960. Era um domingo de verão causticante, marcado por outra festa — o jogo entre o

Santos de Pelé e a Ferroviária, então um dos times poderosos do interior.[54]

A cidade ficou em polvorosa, do ponto de vista cultural. Enquanto a Igreja condenou veemente a

presença do “comunista e existencialista”, a uee, União Estadual dos Estudantes, mobilizou-se

velozmente e convocou seus filiados — caravanas partiram de cidades vizinhas como São Carlos, Matão,

Catanduva, São José do Rio Preto e Ribeirão Preto — e Araraquara encheu-se de jovens que ocuparam

totalmente o Teatro Municipal com faixas de apoio a Cuba e à revolução socialista. Fidel foi um dos

ícones daquela geração. Da turma da Maria Antonia chegou um grupo compacto, comissão de frente: João

Cruz Costa, Ruth e Fernando Henrique, Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza (ambos estavam

dando aulas em Assis), Bento Prado Júnior, Michel Debrun, Gilles-Gaston Granger, que lá se juntaram a

José Celso Martinez Corrêa, Jorge Nagle, Nilo Scalzo, Dante e Miriam Moreira Leite, José Aluysio Reis

de Andrade, Dante Tringalli, Alain Touraine e sua mulher, a chilena Adriana, e ainda Albertina de

Oliveira Costa, então aluna de colegial.[55]

No Municipal, Sartre falou aos jovens sobre Cuba. Tinham prometido que trabalhadores rurais

estariam presentes, entre eles Jofre, um líder carismático de Santa Fé do Sul, espécie de Francisco

Julião[56] da alta araraquarense. Havia várias faixas de algodãozinho: “Posseiros de Santa Fé do Sul

saúdam Jean-Paul Sartre”. Não apareceu um único posseiro. Sempre que se tratava de jovens, Ruth

estava presente; ela conseguiu seu lugar numa plateia em que não cabia mosca e debaixo de um calor

tenebroso. Mal Sartre iniciou, verificou-se um descontentamento com a tradução, e chamaram Fernando

Henrique ao palco. Ele aceitou com uma condição: “Só se o Antonio Candido for comigo”. Candido

sentou-se ao lado de Sartre e reiniciaram fala e tradução. “Mas não consegui, era muito difícil, calei-me

logo; Fernando continuou aos tropeções, Sartre falava rápido, com um turbilhão de ideias. Não deu muito

certo, mas estivemos na mesma mesa”, lembra-se Antonio Candido.[57]Ruth, que nunca perdia a ocasião

para a ironia e o bom humor, ria muito e perguntava: “Podem me sintetizar as falas do mestre...?”.[58]De

qualquer maneira, foi um dia histórico para a cidade e para a Faculdade.[59]Terminada a fala no teatro,

Sartre, Simone, Jorge Amado e um grupo de professores subiram para a Faculdade de Filosofia, antigo

Instituto de Educação Bento de Abreu, a cem metros dali. Mesmo lugar onde, quinze anos antes, Ruth

tinha se formado no Ginásio. Foi quando ele respondeu à pergunta de Fausto Castilho.