Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Retalhos da vida cotidiana V: Ruth, mulher de televisão
Na altura de 1970 ou 1971 — as lembranças das pessoas acabaram imprecisas —, Ruth recebeu um
convite do jornalista Fernando Pacheco Jordão, que estava pronto para produzir uma série de programas
didáticos sobre ciências humanas para a tv Cultura de São Paulo, Fundação Padre Anchieta, que todos
conheciam como tv Educativa. Seis professores eram os consultores de produção: Ruth Cardoso,
antropologia; José Sebastião Witter e José Jobson Arruda, história; Rodolfo Azzi, psicologia; Gabriel
Cohn, sociologia; e Paulo Singer, economia. Eventualmente outros especialistas, todos acadêmicos, eram
chamados a colaborar, discutir, fazer pesquisas e elaborar textos teóricos em forma de apostilas, que
eram roteirizados para a linguagem da televisão.
O programa, de vinte minutos a meia hora, ia ao ar no início da noite, às 19 horas, e misturava teatro
e música. Como era sobre família e problemas familiares, usavam-se muitas vezes bonecos de papel
machê — eram eles que abordavam os assuntos, discutiam as questões levantadas pelos consultores.
Fernando Pacheco Jordão lembra-se com um sorriso de como havia escrúpulos por parte dos
acadêmicos, notava-se um visível preconceito com relação à televisão, considerada arte menor (e havia
pudores quanto à palavra “arte”). Com exceção de Ruth e Azzi, os outros se sentiam levemente
incomodados, preocupados em ver como tudo seria formatado. Ela achava graça em tudo, queria saber
como se fazia, qual era o processo, divertia-se com os achados e as soluções, adorava os bonecos,
entregava-se sem restrições. Era um conhecimento que acrescentava. “Muitas vezes, Ruth sentava-se ao
meu lado no estúdio para conversar sobre meios de comunicação. Na época eu já trabalhava com
pesquisas sobre a mídia, atuava em agências de publicidade, e ela queria saber minhas descobertas,
indagava muito sobre as mudanças no comportamento dos brasileiros, tendo em vista o crescente
‘consumo’ dos bens de comunicação. Ela vivia com os olhos bem abertos para isso, e ainda estávamos no
início dos anos 1970. Eu não tinha, vamos dizer assim, a ‘respeitabilidade acadêmica’, porém estava
mergulhado de cabeça nas investigações e trazia dados que eles não possuíam, nem sequer imaginavam.
Eram esses dados que ela recolhia de mim. Ruth não se fechava numa torre de marfim.” Fernando, por um
instante, fica em silêncio, depois faz uma indagação: “Sempre me perguntei por que Ruth nunca teve
ambição, curiosidade, ou por que nunca foi convidada a fazer alguma coisa em rádio ou televisão. Não
sei se em algum momento ela cogitou isso. Por quê? Notei naquele período os olhos dela, curiosos,
intensos, excitados com aquele meio, com as palavras transformadas em imagens”.[78]