Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 16 de 35

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Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Retalhos da vida cotidiana V: Ruth, mulher de televisão

 

Na altura de 1970 ou 1971 — as lembranças das pessoas acabaram imprecisas —, Ruth recebeu um

convite do jornalista Fernando Pacheco Jordão, que estava pronto para produzir uma série de programas

didáticos sobre ciências humanas para a tv Cultura de São Paulo, Fundação Padre Anchieta, que todos

conheciam como tv Educativa. Seis professores eram os consultores de produção: Ruth Cardoso,

antropologia; José Sebastião Witter e José Jobson Arruda, história; Rodolfo Azzi, psicologia; Gabriel

Cohn, sociologia; e Paulo Singer, economia. Eventualmente outros especialistas, todos acadêmicos, eram

chamados a colaborar, discutir, fazer pesquisas e elaborar textos teóricos em forma de apostilas, que

eram roteirizados para a linguagem da televisão.

O programa, de vinte minutos a meia hora, ia ao ar no início da noite, às 19 horas, e misturava teatro

e música. Como era sobre família e problemas familiares, usavam-se muitas vezes bonecos de papel

machê — eram eles que abordavam os assuntos, discutiam as questões levantadas pelos consultores.

Fernando Pacheco Jordão lembra-se com um sorriso de como havia escrúpulos por parte dos

acadêmicos, notava-se um visível preconceito com relação à televisão, considerada arte menor (e havia

pudores quanto à palavra “arte”). Com exceção de Ruth e Azzi, os outros se sentiam levemente

incomodados, preocupados em ver como tudo seria formatado. Ela achava graça em tudo, queria saber

como se fazia, qual era o processo, divertia-se com os achados e as soluções, adorava os bonecos,

entregava-se sem restrições. Era um conhecimento que acrescentava. “Muitas vezes, Ruth sentava-se ao

meu lado no estúdio para conversar sobre meios de comunicação. Na época eu já trabalhava com

pesquisas sobre a mídia, atuava em agências de publicidade, e ela queria saber minhas descobertas,

indagava muito sobre as mudanças no comportamento dos brasileiros, tendo em vista o crescente

‘consumo’ dos bens de comunicação. Ela vivia com os olhos bem abertos para isso, e ainda estávamos no

início dos anos 1970. Eu não tinha, vamos dizer assim, a ‘respeitabilidade acadêmica’, porém estava

mergulhado de cabeça nas investigações e trazia dados que eles não possuíam, nem sequer imaginavam.

Eram esses dados que ela recolhia de mim. Ruth não se fechava numa torre de marfim.” Fernando, por um

instante, fica em silêncio, depois faz uma indagação: “Sempre me perguntei por que Ruth nunca teve

ambição, curiosidade, ou por que nunca foi convidada a fazer alguma coisa em rádio ou televisão. Não

sei se em algum momento ela cogitou isso. Por quê? Notei naquele período os olhos dela, curiosos,

intensos, excitados com aquele meio, com as palavras transformadas em imagens”.[78]