Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 5 de 35

Páginas do PDF

Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

1 Lua minguante no céu de Araraquara

1

Lua minguante no céu de Araraquara

 

O sr. José Corrêa Leite, hábil guarda-livros aqui residente, e sua exma. consorte, d. Maria Villaça Corrêa Leite, têm o seu lar em

festa com o advento de sua primogênita, Ruth. Felicitando os dignos progenitores, auguramos perenes felicidades à recém-nata.

Notícia na página 2 do diário O Popular,

Araraquara, 21 de setembro de 1930

 

José dobrou a certidão, colocou-a num envelope, junto com o recorte do jornal, enfiou no bolso, desceu

para casa. Quinta-feira quente, dia 25 de setembro de 1930. Ele caminhou pela rua Quatro, a Padre

Duarte, passou pelo Colégio Progresso e, por um momento, pensou que sua filha Ruth certamente não

estudaria ali. Mariquita, uma agnóstica, não gostaria de matricular a filha num colégio católico, ainda

que, em seis anos de vida, o Progresso já tivesse reputação de escola de primeira. A religião talvez não

fosse o empecilho maior, a mensalidade sim seria problema, a vida era vivida no cortado.

José registrou a filha com uma semana de atraso, pois a menina tinha nascido na sexta-feira anterior,

dia 19, às 6h45, quando a lua minguante ainda estava no céu de Araraquara.[1] O tempo mostrava-se

ameaçador nesse dia 19, com nuvens negras e baixas. No dia seguinte, uma tempestade caiu sobre a

cidade, tanto que a esperada Prova Ciclística Silvânia-Araraquara foi adiada. No dia do registro, já era a

lua nova, o que, garantiam os antigos, era sinal de bom agouro, certeza de um grande futuro.

A vida toda a mãe de Ruth, que nasceu em São Roque, foi chamada de Mariquita. Filha de Antonio

Ferraz Villaça e de Maria Petrina Villaça, seu pai foi um educador, professor de matemática, que adorava

lecionar e estava sempre procurando novas maneiras de ensinar. Terminou a carreira como diretor de

grupo escolar. Quando Mariquita tinha sete anos, a mãe morreu. Logo Antonio casou-se outra vez, com

Ignez, também uma professora, que, segundo Circe Boueri, hoje com 91 anos, irmã de Mariquita deste

segundo casamento, foi uma pessoa que passou a vida a incentivar as mulheres a conduzir o próprio

destino, tendo uma carreira que as sustentasse, libertando-as de dependências. Antonio e Ignez moraram

em várias cidades, por conta do magistério, até se fixarem em Campinas. Mariquita foi fazer o curso de

farmácia em Itapetininga, morando com um tio, irmão do pai. Ali começou a namorar um primo, mas na

época isso era inadmissível, contrariava a moral e a religião, havia medo e enorme preconceito.

Casamento, nem pensar. A oposição foi enorme, levando à separação. Ela sonhava fazer o curso de

medicina, mas nenhuma das cidades pelas quais a família de Antonio Ferraz Villaça passou possuía

faculdade. Acabou fazendo farmácia.

Foi quando Mariquita conheceu José Corrêa Leite e começaram a namorar à distância. Noivado e

casamento demoraram, até que finalmente ele a foi buscar, casaram-se em São Roque e fixaram-se em

Araraquara. Quando Ruth nasceu, sua mãe estava com 26 anos. Circe lembra-se de que, criança ainda, os pais a embarcavam no vagão Pullman da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e ela ia sozinha até

Araraquara, onde era esperada por José e Mariquita. Uma ousadia para a época, liberalismo. Guarda a

imagem de uma irmã atarefada o tempo todo, ativa, não parava, sempre bem-humorada, com uma piada na

ponta da língua, uma frase mordaz, e um profundo senso do ridículo.

No livro dos santos, o 19 de setembro é dedicado a são Januário e seus mártires. São Januário é o

santo da firmeza e da coragem. Ele e seus seis irmãos, filhos de santa Felicidade, foram martirizados no

ano de 110, por determinação do imperador Antonino, por se recusarem a abjurar a fé católica. No dia

em que Ruth Corrêa Leite nasceu, o Teatro São Bento exibia o filme Revista colorida, que tinha como

“espetacular chamariz alguns rolos em cores”. A seguir, o filme principal, O beijo, com Greta Garbo e

Conrad Nagel. Por outro lado, o Cine Central, que garantia “onde soa o melhor som”, em sessão das

moças apresentava O circo da morte. O cinema marcou a adolescência e a juventude de Ruth, aliás,

esteve presente a vida toda como um de seus maiores divertimentos.

Não existem lembranças da infância passada na avenida Dom Pedro ii, 51-a, no centro. Em 1930,

Araraquara, a 315 quilômetros de São Paulo por rodovia (hoje são 278) ou 306 por ferrovia, era uma

cidade pequena, apesar de já ter 98 anos, e contava com uma população estimada entre 30 e 32 mil

habitantes, os registros são imprecisos. A agricultura sempre foi sua base econômica. Quando Ruth

nasceu, havia na região quatrocentas propriedades agrícolas registradas, com fazendeiros cuidando de

milhões de cafeeiros.

Pode-se imaginar a cidade circundada por um cinturão verde de cafeeiros, cujo produto alimentava

as ferrovias. Pode-se imaginar, igualmente, o tamanho da catástrofe gerada com a crise de 1929, a

debacle do café, que levou fortunas de roldão e provocou mudanças radicais na estrutura de uma

sociedade arrogante e pernóstica, moldando o espírito de uma população encerrada em si mesma, portas

fechadas, arredia aos que chegavam. O café começou a ser substituído por cana, laranja, algodão e

gêneros alimentícios, ao mesmo tempo em que se implantava uma pecuária incipiente e um parque

industrial que, todavia, só se desenvolveu após 1960. Cidade conservadora, fechada.

Cidade plana, a 664 metros de altitude, clima tropical, frio em junho e julho, quente, abrasante no

verão, com os termômetros chegando aos 37 ºC e, não raro, aos 40 °C ou 42 ºC. O sol é uma presença

constante, avassaladora, tanto que a tradução do nome da cidade em tupi-guarani é “morada do sol”,

segundo a monografia escrita por Pio Lourenço Corrêa, fazendeiro, intelectual, banqueiro e personagem

mitificado, que realizou um trabalho considerado definitivo.[2] Nos anos 1930, os dias eram pontuados

pelos apitos das locomotivas dos trens que chegavam e partiam. As ferrovias eram a Estrada de Ferro

Araraquara, efa, que se iniciava ali, e a linha-tronco da Companhia Paulista, cp, que vinha de São Paulo

para Barretos. Uma expressão corrente da época era: “Acerte o relógio, a Paulista está chegando”. Ou

partindo. Pontualíssimos os trens, orgulho dos araraquarenses. As ferrovias cortavam a cidade e

claramente a dividiam.

Araraquara sempre teve uma característica muito forte, os pequenos jardins em frente às casas. Não

havia residência sem jardim, eram também ponto de orgulho. Neles cultivavam-se rosas, dálias,

crisandálias, cravos, palmas, violetas, margaridas, beijos-de-moça, cravos-de-defunto amarelos e

brancos (lindos e fedidos), onze-horas, e também as apelidadas de marias-sem-vergonha, uma vez que

“davam em qualquer parte”. Muitos chamavam Araraquara de terra das flores. Os buxinhos faziam as divisões entre os canteiros, buxinhos que a meninada gostava de jogar no fogo para ouvir estalar.

Ser ferroviário era uma das opções de trabalho para os homens. As outras, não tantas, eram os

bancos, o comércio, o funcionalismo público, profissões liberais, o professorado, algumas pequenas

indústrias de transformação. Pontificava na cidade uma das maiores indústrias do estado de São Paulo, se

não do país, a fábrica das meias Lupo, porém sua mão de obra era essencialmente feminina.

Araraquara recebeu um afluxo de imigrantes no final do século xix, principalmente italianos,

libaneses, portugueses e espanhóis. Eles acabaram montando a estrutura do comércio, e seus

descendentes lá estão até hoje. Já existia uma rádio local, fundada por amadores em 1923, profissional

depois de 1932, portanto anterior à Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Havia um teatro, o Municipal, em

estilo mourisco, construído por um grupo de empresários locais em 1914, mais um item de orgulho de

todos, dizia-se o mais belo do estado, depois do Municipal de São Paulo. O que havia de culturalmente

importante acontecia no Municipal, os concertos, as palestras e declamações, as companhias teatrais

itinerantes. Nele cantou Enrico Caruso. Intensamente arborizada, Araraquara era chamada a “cidade mais

limpa da América”.

 

Ruth era pequena quando sua família se mudou para a avenida Osório, de apenas duas quadras, na lateral

do largo da Santa Cruz, com a igreja, o convento dos padres redentoristas, o salão paroquial, onde se

realizavam festas e apresentações teatrais, a padaria Madalena, a casa modernista do médico Aufiero

Sobrinho, a fábrica de tachos e panelas de cobre do Lombardi. No largo eram realizadas quermesses,

com barracas, prendas, sorteios, e também feiras livres semanais.

“Nossa casa era comprida, o quintal extenso ia até o outro lado da quadra, nele se criavam

galinhas”, lembrava-se Ruth no início de 1995. “Nessa época havia dois tios que moravam conosco, um

era o Celso Villaça, irmão de mamãe, que se casou e se foi. O outro era tio Totó, Antonio Corrêa Leite,

que mais tarde se mudou para Jaboticabal. Numa das pontas da rua existia a casa do Edgar Sampaio, a

mais maravilhosa do mundo. A filha dele, Maria Cândida, era muito amiga. Casa escura, chique, com uma

sala de jantar maravilhosa.”[3] A mãe e as amigas achavam curioso como as casas despertavam a

atenção de Ruth, que observava tudo com acuidade, nenhum detalhe escapava, queria ver os quadros, os

bibelôs, os biscuits, os cristais nas cristaleiras, os aparelhos de jantar, as licoreiras, as cortinas e os

adornos, as toalhinhas de crochê dos filtros, as mesas de centro e as bandejas de café.

Na Osório, vivia a Vó Vizinha. Figura que marcou a infância. “Era uma velha que morava num

barraquinho escuro, no fundo de um quintal enorme. Ela estava sempre lá e era extremamente simpática

comigo. Tão solitária, não tinha companhia. Certos dias, eu era a sua ligação com o mundo. Não, não me

contava histórias, conversávamos por horas, eu perguntava muito, era perguntadeira. A Vó Vizinha, com

suas roupas pretas, saia comprida, é a memória mais antiga que tenho de uma pessoa que me marcou,

permaneceu em mim. Eu a via passando e engomando ternos de linho branco 120, moda para os elegantes

da época, arte que exigia cuidados imensos, desde a feitura da goma. E também ‘entiotando’[4] rendas,

com precisão e paciência e uns poucos instrumentos, um deles uma tesoura curiosa que ela esquentava em

um fogareirinho. Deslumbrada, porque o fazer sempre me interessou muito, podia ficar horas observando

a Vó, tão precisa, cuidadosa, pessoa de uma humildade a toda prova, nunca reclamou da vida, apenas

trabalhava. Não sei se ainda há pessoas ‘entiotando’ rendas, coisa tão araraquarense para mim, era um franzido que se fazia, como se fossem cachinhos de boneca, uma arte.”

Vó Vizinha morava em uma casa de quatro cômodos pequenos e despojados, nos fundos de um

corredor. O nome dessa Vó era Primina Bianchini Simone, imigrante nascida em Ferrara, Itália, em 1885,

e falecida em Araraquara aos 84 anos, em 1969. Seu marido morreu cedo, seus filhos estavam com

quatro e três anos. Passou a sobreviver como lavadeira e passadeira. Primina morou primeiro na avenida

Barroso, paralela à Osório, onde era visitada por Ruth, muito criança. Naqueles anos a cidade não tinha

movimento, carroças e charretes eram mais “perigosas” do que automóveis.

A menina passava horas xeretando as comidas que Vó Vizinha fazia para Hilda Peres, que mantinha

uma padaria na esquina da avenida Barroso. Cappelletti, tortelli com recheio de moranga, crostoli

(bolinhos de farinha de trigo, fritos e encharcados no mel), canaricoli (o mesmo processo, mas na massa

entra vinho tinto) e ciccirata (bolinhos fritos e lambuzados de mel), iguarias típicas peninsulares cujas

receitas regionais os italianos trocavam entre si. Coisas artesanais que exigiam perícia e delicadeza. “O

que me encantava”, disse Ruth em 1995, “eram os suspiros, pequenos e delicados, de difícil feitura. Eram

colocados em forno aberto e fogo baixo por horas, constantemente observados. Exigiam um timing

perfeito, rigoroso, para saírem secos e crocantes por fora, úmidos por dentro.” A filha de Hilda, Inayá,

sempre foi das melhores amigas de Ruth. Apesar da lembrança de Ruth quanto à solidão de Vó Vizinha,

ela tinha amigas chegadas, como a napolitana Giovaninna Lombardi, também imigrante, Carmelita de

Castro, de apelido Tuta, e Elisa Madalena, companheira de cinema aos sábados. Elisa era igualmente

passadeira e engomadeira, mas as famílias que tinham roupas finas preferiam o zelo de Primina.

Quem também fazia encomendas de quitutes a Vó Vizinha era a padaria Madalena. Ali Ruth

comprava sonhos “celestiais” — ela contou, vinha gente de longe para buscá-los — e mandava colocar

na conta, paga ao fim de cada mês por José Corrêa Leite. Parte das contas de José era quitada com seu

trabalho como guarda-livros. Por um tempo, José e seu sócio, Mauro Dantas, um parente, mantiveram um

escritório na avenida Feijó. Circe, tia de Ruth, tem uma lembrança vaga de uma mesa no mercado central,

na qual José atendia donos de bancas de frutas, verduras, peixes, que o chamavam para colocar em ordem

a contabilidade. As padarias Madalena e Peres, o Conservatório Dramático e Musical, o jornal O

Imparcial, diário fundado em 1931, eram alguns dos clientes maiores. José se dedicava ainda a perícias

contábeis em processos da Justiça, seus pareceres eram competentes, tanto que advogados de nomeada,

como José Benevenuto Fortes, o indicavam, ele era de confiança. Até poucos anos atrás, Inayá e Inah,

filhas de Hilda, mantiveram os livros-caixa e as “cadernetas dos fregueses”, onde cada pessoa tinha seu

nome em uma página com os gastos. As anotações de José eram feitas com letra primorosa.

Cabia a ele controlar tudo e somar as contas de cada um no fim do mês. Quando Ruthinha, como era

chamada, o acompanhava no fechamento, ganhava um agrado, era a regra do comércio regido pelas

cadernetas. Figura conhecida, José, que todos tratavam por Zé Corrêa, homem introvertido, que falava

pouco e adorava degustar uma cachacinha da boa (hábito que manteve até o final da vida), caminhava de

um cliente para outro — cidade pequena, tudo era perto — com passos comedidos, e era célebre pela

elegância com que ostentava seus ternos de linho, lavados e passados por Vó Vizinha.

José, com sapatos de cromo e um nó perfeito na gravata, estava sempre “na estica”, isto é,

impecável. Eram ternos simples, bem passados, o homem vivia “no prumo”. Ele teve infância e

adolescência difíceis, morou algum tempo em uma fazenda, e depois que os pais, Luiz e Maria Augusta, morreram, foi viver com os avós Antonio de Pádua Ferreira da Silva e Maria Salomé no casarão da

esquina da rua Seis com a avenida São Paulo. Quando Maria Salomé adoeceu, Mariquita passava todos

os dias pela casa dela, levando remédios trazidos da Faculdade de Farmácia, ou comprados e aviados

por Herculano de Oliveira, da então Farmácia Raia.

 

Uma irmã de Maria Augusta, portanto tia de José, ou tia-avó de Ruth, de apelido Binoca — chamava-se

mesmo Noêmia Zerbina, mas ela odiava esse nome —, casou-se com José Tescari, italiano que chegou ao

Brasil com doze anos e com vinte foi viver em Araraquara, onde deu aulas, fundou o Conservatório

Musical, organizou um quarteto de cordas, compôs operetas, prelúdios, sonatas, e dedicou-se com paixão

à música sacra. Ficaram célebres na cidade as brincadeiras dançantes organizadas por Binoca nos

aniversários do marido.

“Além desses bailinhos familiares, deliciosos, que sempre frequentávamos, outra memória límpida,

viva, da infância era o casarão amarelo da rua Seis, ali morava vovô Jorge. Era uma casa muito grande,

por anos nela viveram minhas tias Jacy e Adalgiza, solteironas altas, compridas, catolicíssimas, de missa

e reza diárias na igreja matriz, algumas quadras abaixo. Vivi uma situação curiosíssima, uma vez que

conheci duas bisavós e nenhuma avó. Eu chamava todas as tias de avó, a Salomé, a Binoca, era um povo

muito ligado. Uma avó é coisa que me fez falta, afinal as bisavós eram bem velhinhas. Por isso, ser avó

mexe comigo. Acho uma delícia ser avó...”

Outra avó entra em cena: “A Vó Elisena, que não era minha avó verdadeira, uma vez que era a

segunda mulher do meu avô Jorge. Depois que ele morreu, ela acabou muito pobre e foi morar com um

parente, o Chiquinho Vaz. Íamos visitá-la, eu adorava entrar e brincar naquela casa, na esquina da rua

Quatro, em frente ao Colégio Progresso. Nas portas e janelas havia vidros bisotê importados, com

desenhos delicados, e as maçanetas das portas e os lustres eram de cristal da Boêmia. Cada detalhe da

casa mostrava uma época de grandeza e sofisticação por que passara. Chiquinho morava em Santos, mas

estava sempre na cidade, fui muito amiga do filho dele, o Carlos Armando, um jovem alto e bem-

apessoado. Pegada à casa do Chiquinho existia outra, imensa, com um grande quintal cheio de árvores. A

casa das Laras. Elas me ensinaram declamação, talento que meninas bem-educadas deviam ostentar. As

Laras eram três solteironas que viviam com a mãe, viúva, uma velha que usava uma peruquinha muito

engraçada. Não tenho bem ideia, mas parece-me que ela tinha vindo de algum lugar da Europa Central.

Uma das filhas, a Leonor, dava aulas de piano, quase todos os dias eu estava ali, tinha uma salinha de

casa antiga, sofá e poltroninhas de madeira, almofadas, coluna para vaso de flores, toalhinhas de crochê.

Leonor era famosa por bater forte com um lápis nas mãos das meninas, quando elas erravam ou se

distraíam. Meus pais também compraram uma pianola de segunda mão, daquelas que tocam sozinhas. Era

uma sensação, mas nunca funcionou direito. Aquele contraste entre a riqueza de Chiquinho Vaz, com sua

casa, das mais belas da cidade, somente me veio claro muitos anos depois, as diferenças do mundo, os

abismos existentes dentro da sociedade. Claro, não realizava em termos racionais, criança não tem

dessas coisas”.

 

Ruth aprendeu piano no Conservatório Musical e muitas vezes ia para as aulas acompanhada por Inayá.

Desses dias se ilumina a figura de uma pianista de nome Taís Bittencourt, prima de Inayá, mulher exigente, que vinha a Araraquara uma vez por mês para fazer a inspeção dos cursos no Conservatório.

Era uma mulher imponente, respeitada, algumas alunas tinham medo de sua inspeção. Quando ela ficava

alguns dias, Hilda Peres oferecia a Taís um jantar ao qual Mariquita e José Corrêa Leite eram

convidados. Comidas caprichadas, as meninas comiam apressadas e corriam para a rua, brincar com as

bonecas e seus carrinhos, ou de roda, ou pular amarelinha. Brincadeira comum era procurar nas calçadas

de pedra rosa o que as professoras diziam ser as marcas dos dinossauros que tinham habitado a região há

mais de 100 milhões de anos. Coisa espantosa, os animais imensos provocavam pavor. Mariquita

costumava falar deles para as crianças. Nem sempre se permitiam os brinquedos noturnos. Durante os

anos da Segunda Guerra Mundial, quando a população enfrentava até racionamento de carne, pão e leite,

muitas vezes vinha o blecaute, uma coisa misteriosa. Todas as luzes da cidade eram apagadas por razões

que as crianças não chegavam a entender. Os velhos murmuravam: é para que os inimigos não

bombardeiem a cidade. “Quem eram os inimigos? Por que a nossa cidade?”. Ruth sempre insistia nos

porquês.

“Nunca me esqueço dos jantares de Hilda, numa sala enorme”, confessou Ruth. Inayá faz o ajuste:

“Questão de perspectiva. Nossa casa nem era tão grande, nós é que éramos crianças. Na verdade, a casa

de Ruth é que era pequena, cômodos apertados. A geladeira de Mariquita não passava de um móvel com

uma barra de gelo, que um homem entregava todos os dias. Na verdade, havia poucas geladeiras na

cidade, eram caras e importadas, indicavam sinal de riqueza. A vida não era fácil”.

Mariquita, José e Ruth eram os primeiros convidados para qualquer festa na casa de Hilda Peres, e

havia muitas, nas quais faziam sucesso os quitutes trazidos de Jaboticabal por tio Totó. Aquela cidade era

famosa pelas doceiras, mestras em docinhos caseiros de abóbora, laranja, mamão, batata-doce, banana,

de leite em pedaços, pés de moleque, baba de moça, beijinhos e cajuzinhos, olhos de sogra, que

encantavam Ruth pela forma, sabor, ela queria receitas, saber como eram feitos, como conseguir o ponto,

tudo. Era comum os amigos de Mariquita insistirem e Ruth ser colocada em cima de uma mesa de centro

para declamar. Outras vezes, ela se sentava ao piano e tocava “Clair de lune”.

Maria da Penha Carvalho, Villalobos depois de casada, sobrinha de Plínio de Carvalho,

acompanhada, às vezes, por sua irmã Maria Ernestina, costumava ir brincar no Jardim Público, ou Jardim

da Independência, quase todas as manhãs. Ali encontrava Ruth e Mariquita. “Minha irmã e Ruth eram

mais de bonequinhas, roupinhas e carrinhos de bebê, enquanto eu era da bola queimada, ou pega-pega.

Aproximamo-nos mais tarde como amigas.”

Mariquita, na hora de matricular a filha numa escola, decidiu sem hesitação pela escola pública.

Apesar de rodeada de todos os lados por parentes carolas e igrejeiros, ela pessoalmente não suportava a

ideia de ter a filha numa instituição católica, daí o Colégio Progresso estar fora de questão. Mariquita

não tinha afinidades nem com a Igreja nem com a diretoria do Progresso. Ruth: “Minha mãe era a favor

da escola pública, escolhia bem onde e com quem eu ia estudar”.

 

A menina foi matriculada no Grupo Escolar Antonio J. Carvalho, no largo da Câmara. Pesquisas na

escola mostram boletins somente a partir do segundo ano do Primário. Nenhum registro sobre Ruth no

primeiro ano. Muitos deram indicações — enquanto outros negaram — de que Ruth teria feito o primeiro

ano no Coleginho, como era conhecido o Curso Particular Jardim da Infância São José, inaugurado em

1932 por freiras franciscanas.[5] A questão fica no ar, porque o Coleginho tinha por objetivo inicial ser

um noviciado ou casa de formação para freiras, depois abriu-se para educação e formação de crianças e

jovens. Mariquita concordaria com isso? Outra hipótese em relação ao primeiro ano é que Ruth teria sido

preparada pela própria mãe, que, em seguida, a matriculou já no segundo ano, no início de 1939, quando

Ruth estava com oito anos e seis meses. O período escolar iniciava-se aos sete anos. Ou aos seis, quando

a família encaminhava os filhos para o Jardim da Infância.

O Grupo Antonio J. Carvalho (atualmente Escola Estadual) era central, de fácil acesso, uma bela

praça que ocupava duas quadras inteiras, intensamente arborizada com ipês amarelos e roxos, e ali

realizavam-se comícios políticos, manifestações populares e semanalmente uma feira livre. A casa

amarela do avô Jorge ficava numa das esquinas, em frente à saída do grupo. Apesar de homenageado com

o nome de uma das escolas tradicionais da cidade, o nome de Antonio J. Carvalho foi polêmico e remete

a um dos episódios mais trágicos da história de Araraquara, fato evitado por décadas: o linchamento dos

Brito em 1897. Por questões políticas, Antonio J. Carvalho, um dos líderes do clã que dominava a

cidade, foi assassinado por Rosendo de Brito, jovem nordestino. Preso junto com seu tio Manoel, os

Brito foram linchados a pauladas e facadas dentro da cadeia, seus corpos retirados e deixados no largo

da Matriz. Conta-se que, de manhã, quando o pároco Antonio Cesarino abriu as portas da igreja e deu

com os corpos, teria amaldiçoado a cidade, que permaneceu estagnada por décadas. Mitos

araraquarenses.

Matriculada no dia 1o de março de 1939, Ruth recebeu o número 27 em uma classe de 35 alunos.

Nos exames finais, ela foi aprovada com a média 90. Terminado o terceiro ano da Classe a, feminino

forte (eram as melhores alunas), Ruth, número 37, conseguiu ser aprovada com média 95. No quarto e

último ano, ela foi aprovada com média 100, ou seja, nota 100 em todas as matérias. Única da classe a ter

100. Todavia, Ruth nunca se preocupou com a questão das notas e esse sempre foi um dos princípios que

ela passou em classe. Aprender e saber, conhecer e entender são uma coisa. Notas altas e baixas, outra. O

diretor do grupo era Florestano Libuti, educador da melhor estirpe na história da cidade. Ruth confessou:

“Tive duas professoras fantásticas. Uma, a Eunice, mãe da Valnice Galvão, e a outra, a Iolanda Ópice”.

 

Não há uma data exata de quando os Corrêa Leite se mudaram para a rua São Bento, número 1.001, casa

alugada de Ada Zerbini de Carvalho. A casa ficava a uma quadra do Ginásio e do Cine São Bento, e a

duzentos metros da Esplanada das Rosas, onde a juventude se reunia após o cinema para o footing. Em

meados dos anos 1940 a família já estava ali. Quatro janelas na parede da frente, um portãozinho que se

abria para um corredor lateral comprido, janelas dando para ele. A primeira porta dava para a sala que

José Corrêa Leite tinha transformado em escritório, a porta sempre trancada. A porta seguinte dava para a

copa e a sala principal (onde havia um piano), que se comunicava com os três quartos. Vinham depois a

cozinha e o quintal com árvores. Mariquita montou no quintal, numa edícula, a sala onde preparava

alunos para o Exame de Admissão ao Ginásio. Uma sala com carteiras em fila e uma lousa. As aulas

eram em geral reforço de português e matemática. Havia uma classe no período da manhã e outra à tarde.

Não mais que quatro ou cinco alunos, em certas épocas um pouco mais. As aulas começavam às oito

horas e iam até o meio-dia, com um intervalo. Vez ou outra Ruth servia um cafezinho. Mariquita se

desdobrava. Era assistente do professor de química, Joaquim Pinto Machado, o Machadinho, no Ginásio Estadual, onde também substituía o professor de ciências naturais — atualmente biologia. Lecionava

botânica na Faculdade

de Farmácia e Odontologia, hoje Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp. A renda era

complementada com o nome dado como farmacêutica responsável a duas farmácias. Em 1956, foi

contratada para dar aulas de biologia pelo Colégio São Bento, uma nova instituição de ensino particular

na cidade (desde 1997, Centro Universitário de Araraquara — Uniara), cujo diretor hoje, Luiz Felipe

Cabral Mauro, filho do fundador, Walter Medeiros Mauro, lembra-se bem do “riso expansivo e do

repertório de piadas que ela gostava de contar e de ouvir. Sua gargalhada contaminava. Sem esquecer,

claro, que suas aulas eram extraordinárias, muito bem preparadas e concorridas”.

Dona de uma didática clara, precisa e rigorosa, Mariquita explicava bem, tinha cultura geral ampla,

era exigente, passava muitas lições para fazer em casa e, quando via que o aluno não ia bem, não se

aplicava, chamava os pais para uma conversinha. Extrovertida, bem-humorada, não poupava ironias. Na

época dos exames de seus alunos, ela comparecia ao Ginásio para acompanhá-los, tinha uma dedicação

total. Mariquita dizia coisas que outros professores não diziam, comentava a vida com naturalidade e

certo avanço liberal, trazia à baila assuntos tabus, lembram ex-alunos. Essa maneira de ensinar e agir se

refletiu mais tarde nas aulas de Ruth e nas relações com suas orientandas em trabalhos universitários.

 

No Boletim Geral de Exames de Admissão para o ano de 1942, do Ginásio Estadual, o nome de Ruth

Cardoso figurou em primeiro lugar, com a média geral 87. No curso primário, ou “grupo”, como o povo

dizia, estudava-se aritmética. Ao entrar para o ginásio, ou secundário, a matéria passava a ser a

matemática. O Ginásio Estadual existia há décadas. O Álbum da cidade de 1915 dedica duas páginas a

ele, então denominado Araraquara College, só que o povo preferia chamar de “a escola americana”.

Mudou para Colégio Mackenzie, filial do estabelecimento paulistano, tornou-se Ginásio Municipal em

1933 e Ginásio do Estado em 1934.[6] Ruth admitiu: “Achava fantástico esse nome, Araraquara College.

Meu pai tinha estudado lá, ele jogava futebol e ganhou uma bolsa, não sei se de graça, talvez com grandes

descontos. Papai sempre teve a letra muito bonita, aprendeu lá, nas aulas de caligrafia”.

 

Ela tinha entre treze e catorze anos quando se apaixonou por Joaquim Adolfo Mendonça, moço bem-

apessoado. Tido como bom partido, era filho de Adolfo Amaral Mendonça, um fazendeiro de família

tradicional que fundou duas cidades nas margens do rio Tietê, a caminho de Lins: Adolfo e Mendonça.

Adolfo possuía inúmeras fazendas entre Taquaritinga e Araraquara. A família Mendonça tinha as mais

belas casas na cidade. Moravam todos perto. A casa de Casemiro Mendonça, tio de Joaquim Adolfo, na

avenida São Paulo, próxima à rua Seis, vizinha à casa amarela de Vô Jorge, era luxuosa, nela foram

empregados mármores de Carrara. Ali, depois, funcionou por anos o Hospital São Paulo. Hoje é um

prédio de apartamentos.

Joaquim Adolfo encontrava-se com Ruth no Clube Araraquarense ou a esperava na varanda repleta

de colunas da casa de seu tio José, construída em 1891. A casa, que ia de um quarteirão ao outro,

ostentava um jardim repleto de palmeiras, de frente para a praça da Matriz e para o chafariz. Ruth

passava em direção ao Conservatório ou rumo à igreja, para a missa de domingo. Tudo era muito

discreto, à distância. Olhares sorrateiros, risos nervosos, acenos de mão. Os namoros eram estritamente vigiados, controlados, ainda que Mariquita visse com bons olhos a relação, afinal o jovem Mendonça

estava entre os melhores partidos de Araraquara. “Ruthinha era imensamente bela, um deslumbre, acho

até que foi Glamour Girl do clube, não havia como não se apaixonar por ela, que, aliás, tinha muitos

pretendentes. Depois que se mudou para São Paulo, retomamos o namoro por um curto tempo”, confessa

hoje, aos 83 anos, Joaquim Adolfo.

Também Ruth, quando ia para a missa da igreja matriz, os dois namorados se olhavam. Ela vinha

acompanhada pelos pais, porque, apesar de serem vizinhos à igreja de Santa Cruz, os Corrêa Leite

frequentavam — quando frequentavam — a igreja matriz, que, na verdade, era um ponto social, momento

em que as pessoas se viam, trocavam notícias, combinavam inclusive o almoço de domingo. Joaquim

Adolfo somente seguia para a igreja depois que Ruth passava e fazia tudo para ficar num banco de onde

pudesse vê-la. “Os Corrêa Leite nunca foram igrejeiros, iam porque era o encontro, a comunicação. Hoje,

diríamos, era o programa”, explica Margarida Troncon Busatto, afilhada de Mariquita. Quanto a Ruth, ela

admitiu: “Na verdade, meu pai era mais católico do que minha mãe. Uma das tias por parte dele, a Maria

do Carmo Corrêa de Almeida, era freira. Aliás, a tiarada era muito católica. Em casa a religião era

importante, existia, no entanto não tomava todo o cotidiano. Nada de pertencer a associações, como a das

Filhas de Maria, do Coração de Jesus ou de São José”.

 

Não se sabe por que terminou o namoro com Joaquim Adolfo, a verdade é que entrou em cena outro

bonitão da cidade, Renato Corrêa Rocha. Coisa para provocar comentários, porque reunia dois dos mais

belos jovens da cidade. Ela, muito bonita, com suas trancinhas, vestida sempre impecavelmente.

Mariquita não se descuidava de nenhum detalhe; cada vez que a filha saía, a mãe passava em revista dos

sapatos aos cabelos. Ruth era disputada platonicamente pela rapaziada bem situada de Araraquara. Ainda

que alguns, talvez por despeito, a considerassem um tanto pedantinha, vários eram os apaixonados que

“carregavam vagões” por ela, tentavam flertar com Ruth no colégio, no cinema, no Clube Araraquarense,

na piscina do Tênis. Aliás, falar em Tênis e em Araraquarense era falar a mesma coisa, tratava-se do

mesmo clube, só que um era a sede social e o outro, a de campo, que, aliás, ficava dentro da zona urbana,

verdade que no limite; além do Tênis, eram os campos de Araraquara, uma das primeiras designações da

cidade.

Renato vinha de uma família conhecida e respeitada, dona de uma grande fazenda, a Santa Isabel,

que resistiu até poucos anos atrás. Intelectualizado, irmão de Gilda de Mello e Souza, que se casou com

Antonio Candido. Politizado, fundou uma facção do Partido Socialista em Araraquara aos dezesseis anos.

Atualmente, aos 84 anos, Renato conta: “Ruth e Adolfo chegaram a namorar. Namoro de adolescente. Ele

foi um rival em certo período da minha juventude. Ruth e eu, foi um momento muito bonito, uma linda

interação. Aquela grande paixão quando se é jovem e a vida está à sua frente. Penso que ela via em mim

uma pessoa diferente dos meninos da minha idade. Eu era quatro anos mais velho, inquieto, convivendo

com pessoas como minha irmã Gilda, mulher à frente de seu tempo. Houve uma relação um tanto

tumultuada por causa do rigor de dona Mariquita, mas foi uma coisa profunda, durou dois anos. Ruth ia

aos bailes, mas eu não podia dançar com ela, mal a tirava, vinha a Mariquita e a levava para casa. Mas

todos os meus amigos foram parceiros de dança especiais para ela”. Ruth lembrava-se com afeto de

Renato, das poesias que liam juntos.

Numa tarde, assim que uma súbita chuva de inverno parou, Maria da Penha Carvalho, que já tinha se

mudado para São Paulo, mas passava as férias em Araraquara, desceu para o centro e encontrou-se com

Renato Corrêa Rocha.

— Venha comigo, vou encontrar-me com a Ruth, quero te apresentar a ela.

— Já a conheço. Da infância.

— Então venha, vou reapresentar.

— Mas depois não comente isso na casa dela; Mariquita quer me ver do outro lado do mundo.

 

Domingo de manhã, missa das dez horas na igreja matriz e em seguida o footing na Esplanada das Rosas,

onde aconteciam os flertes, e então sabia-se quem estava dando bola para quem. Por pouco tempo, pois a

brincadeira dançante do Clube 22 de Agosto, da classe média, esperava. O 22 rivalizava em animação

com o Araraquarense. Ruth, Inayá Bittencourt da Silva, Maria da Gloria Jordão, as irmãs Galvão, Maria

Lúcia, Vera e Ângela, seguiam para o Araraquarense, sentavam-se nas cadeiras da varanda e, ao sentar-

se, cruzavam as pernas. Então aparecia a fenda na renda da anágua de Ruth e todo mundo admirava, e ela

ria. Ruth nem sempre ia ao clube. Muitas vezes tinha de estar em casa, para fazer a sobremesa. Mariquita,

cozinheira de mão-cheia, ensinava à filha os segredos da culinária. Quando se investiga a vida de Ruth

Cardoso em Araraquara, sente-se flutuar a figura da mãe como mentora, orientadora, conselheira.

Margarida Troncon Busatto confirma: “Ela iluminava o lugar”.

Quanto a Ruth, lembranças dessa época variavam: “Na minha casa se tomava muito café, meu pai

tinha mania. Éramos obrigadas a fazer café bom, ele não tomava requentado, era inaceitável. Minha mãe

me treinou tanto que, se tiver três pessoas, vou à cozinha e faço a quantidade exata para três. Mariquita

me ensinou e ensinou às empregadas. Tivemos uma que ficou conosco por mais de trinta anos, a Delfa.

Vivia nos candomblés. No Carnaval, sumia. Assim, aprendi a cozinhar com minha mãe e com a Delfa.

Exigência do meu pai, homem metódico, que ensinava postura, educação e caráter como qualidades

essenciais. Ele tinha hora para cada coisa e gostava de seguir as rotinas. Dizia que a pessoa tem de saber

fazer tudo, saber se cuidar, ser autônoma. Só pode mandar quem sabe fazer, afirmava. Desde pequena

tenho essa consciência do trabalhar, do ser economicamente independente. Filha única, fui criada assim”.

 

Com o preparo reforçado pela mãe, Ruth enfrentou o Ginásio e suas catorze matérias: história geral e do

Brasil, geografia geral e do Brasil, matemática, ciências naturais, desenho, português, inglês, francês e

latim, além de economia doméstica, canto orfeônico e trabalhos manuais. Educação física era obrigatória.

O último ano do Ginásio foi 1945, tendo sido Ruth aprovada com a média 8,9. “O Ginásio foi

fundamental, aprendi muito. Sei matemática por causa das aulas do professor Djalma Epinghaus, sei

história por méritos do Luis Perestrello Carvalhosa. Ele era engraçado, tinha preguiça de dar aula,

gostava de ler. Entrava e dizia: ‘Prova!’. E ficava lendo jornal. Quando dava aulas mesmo, não

entendíamos nada. Ainda tenho um livro didático com anotações nas margens. No capítulo ‘Capitanias

Hereditárias’, está escrita a frase: ‘As capitanias eram, na verdade, a expressão de um capitalismo

expansionista’. Eu não tinha ideia do que significava, ele falava o que dava na cabeça, a criançada não

estava acompanhando, nem interessada. Era fascinante, ele impulsionava o pensar. Só que, no dia da

prova, a pergunta era: ‘Quem foi o donatário da capitania tal?’. Quer saber? Onde mais aprendi foi no Ginásio do Estado.”

O uniforme do Ginásio era uma saia azul-marinho pregueada e uma blusa branca com bolso, no qual

estava bordado o monograma ge em azul. O dos homens era calça azul e blusa branca, com o mesmo

monograma. As classes eram mistas e os primeiros anos ficavam no andar de baixo. Todos deviam entrar

e sair organizadamente em filas, sob o olhar severo da inspetora Lucíola Moema.

 

Na adolescência e juventude havia um grupo apelidado “Turma da Banheira”, devido a um carro enorme,

uma verdadeira banheira, como se dizia, um Upmobile, largo na traseira e com estribos, que levava todo

mundo empoleirado, provocava sensação no corso carnavalesco. Anos mais tarde, o próprio Fernando

Henrique andou nele várias vezes, a turma ia buscá-lo na estação, lembra José Edgar Machado,

conhecido pelos íntimos como Zé Baiano. A banheira pertencia ao “seu” Cândido, pai de Renato Corrêa

Rocha. Entre outros, no grupo, havia Brasilino Stefano, Isidoro Celiberto, Luís Pennelli, Arnaldo

Palamone, Mário Granato, Roberto Carvalho Franco, Renato Ópice, Celso Oelmayer, José Acetoza,

Paulo Amarante. Eventualmente, participavam Mário Barra, Ernesto Lia e Nelson Gullo. Granato foi

outro namorado na época. Todos asseguram que ele sempre teve o mais completo álbum de fotos de Ruth

Corrêa Leite. A mim, confessou: “Sou um cavalheiro à antiga. À medida que minhas ex-namoradas foram

se casando, por lealdade à amizade, destruí fotos, cartas e bilhetes”.

“Angelical” — é como José Edgar define a Ruth daqueles dias. Para os amigos, Ruthinha. Antonio

Candido a chamou assim a vida toda. Conversei com alguns que conviveram com ela. Gente que, desde

que o marido foi eleito presidente da República, foi rever velhos álbuns de fotografias, remexer

guardados de fundos de gavetas e armários. Imagens desencontradas foram fixadas em tempos diferentes.

Maria Ernestina, descendente dos Carvalho, família que por anos pilotou a política local, quando ia para

Araraquara, em lugar de se hospedar na mansão dos parentes, preferia ficar na casa de Mariquita, mais

solta, descontraída, sempre com boas comidas.

Cinema era programa desde a infância, com as matinês, ou vesperais, em que havia sempre um filme

seriado, do Zorro, ou Flash Gordon, de Tarzan ou Fu-Manchu, Tocha Humana ou O Príncipe

Submarino. Na adolescência e juventude, principalmente às terças-feiras, havia a Sessão das Moças.

Mulheres pagavam menos para ver filmes românticos, comédias ou musicais. Ruth não perdia um musical

da Metro, fazia o possível e o impossível para ir. Os homens alegavam que frequentavam a sessão para

flertar com as moças, uma vez que aqueles filmes leves e xaroposos eram desprezíveis, divertimento de

mulher. Vinha em seguida o footing na rua Três, com os homens parados na rua, continuando o flerte,

fazendo sinais ou piscando os olhos para as mulheres, que andavam de braços dados. Não se olhava

diretamente para os homens, fingia-se indiferença, para não parecer oferecida, o pior que podia haver.

Era necessário se fazer de difícil, quase inacessível. Não se saía todas as noites. Terça-feira, sim, era o

cinema. Às vezes, quinta-feira. Depois, sábado e domingo, sempre com alguma companhia.

Em casa havia o rádio, as novelas, os programas humorísticos e de auditório da Rádio Nacional do

Rio de Janeiro, imbatíveis em audiência, com as cantoras mais populares do Brasil. Saiu de Araraquara

um dos maiores autores de radionovela dos anos 1940 e 1950, Amaral Gurgel, apelidado Duque. Gurgel,

ex-ferroviário, foi ainda autor de uma peça teatral que explorava bem a questão da crise do café, Terra

bendita. Ele era filho de Sebastiana, uma das mais célebres “boleiras” da cidade — não havia festa, casamento ou comemoração sem os bolos de Sebastiana. Na Rádio Cultura de Araraquara, prd-4, também

havia novelas com boa audiência. Radioatores encenaram no Municipal uma peça teatral, Jangadeiros,

que foi comentada por meses, uma vez que, em ritmo de superprodução, caminhões de areia

transformaram o palco numa praia.

De tempos em tempos, o Teatro Municipal lotava para a apresentação dos jovens irmãos Heitor e

Altéa Alimonda, pianista e violinista nascidos na terra e que fizeram carreira nacional. Também se

comentou muito a peça Deus lhe pague, de Joracy Camargo, um supersucesso internacional, filmado

inclusive na Argentina.

Haveria um grande baile no Municipal, e Mariquita garantiu que faria o vestido de Ruth. Como

sempre, superocupada, deixou para a última hora. Praticamente o vestido saiu da máquina pouco antes de

o baile começar. Ruth vestiu e a família correu. Quando chegaram ao teatro, antes de entrarem, Mariquita

viu uma linha saindo da manga do vestido. A cidade era quente, mas não havia vestidos de baile sem

manga. Puxou e simplesmente a linha veio inteira, desprendeu a manga do vestido. Antes que outros

presenciassem a saia justa, voltaram para casa correndo — moravam a cem metros — e Mariquita

providenciou o conserto.[7]

Despachada, criativa, certo Carnaval Mariquita resolveu fazer uma fantasia diferente para a filha.

Era a maneira de fugir da realidade, ou seja, o dinheiro curto. Escolhido um dia de relativa folga, ela

convocou as amigas e, com paciência infinita, e em meio a risos, confabulações, bolos, cafezinhos e

muito falatório, passaram o tempo a estourar pipocas que foram costuradas, uma a uma, num vestido. As

tardes então eram quietas, modorrentas, marcadas por cheiros que iam se alternando como o das

torrefações preparando-se para o dia seguinte, substituídos ao crepúsculo pelo doce intenso dos jasmins

e damas-da-noite se abrindo. Quando os sinos das igrejas bateram, assinalando o ângelus, a fantasia

estava pronta. Com ela, Ruth ganhou o primeiro prêmio no concurso do Clube Araraquarense. “Aquela

fantasia foi um momento de plenitude para Ruthinha”, comentou Gilda de Mello e Souza.

 

Certos dias, depois do almoço, Maria Ernestina de Carvalho e Ruth desciam a rua Três e, na esquina da

avenida Espanha, acenavam para o interior de um banco onde Brasilino Stefano trabalhava. Ele fazia um

sinal: “Já vou”. Minutos depois, o trio ia para a piscina. Ruth aprendeu a nadar numa das primeiras

piscinas da cidade, a dos funcionários públicos, meio distante, onde hoje se localiza a Vila Melhado. Em

seguida, veio a fase do Tênis, na avenida Dom Pedro ii, com a piscina azulejada, point da sociedade.

Brasilino era parceiro nos jogos de tênis e nos bailes, um exímio dançarino. Ruth adorava os bailes.

Quando seus pais não podiam levá-la, ela era confiada à guarda da “Turma da Banheira”. Eficiente como

segurança, muitas vezes era José Edgar, feroz, cônscio de suas responsabilidades, quem tinha a

incumbência, conferida por Mariquita, de ser o vigilante. Parece que todos tiveram sua queda por

Ruthinha. Nos bailes, era disputada, não parava. Conta-se que Nelson Gullo, um bonitão atlético (depois

catedrático e cirurgião da Faculdade de Odontologia), quando não conseguia dançar com ela, não

dançava com ninguém.

A Segunda Guerra Mundial terminou em maio de 1945 e nos meses seguintes os pracinhas, ou

expedicionários, começaram a voltar para o Brasil. Os soldados araraquarenses foram recebidos com

desfiles e comemorações, e por muito tempo famílias convidavam famílias para ouvir histórias, não se falava de outra coisa. Não houve pracinha que não tivesse trazido principalmente comidas, café e leite

em lata, novidades que encantavam as pessoas. Entre os suvenires, as máscaras contra gases que

assustavam as crianças.

As formaturas eram um acontecimento numa cidade sem grandes eventos. Eram todas em dezembro,

com a cidade decorada para o Natal e o tradicional Papai Noel já empoleirado na marquise da Casa

Barbieri, os presépios armados nas igrejas e nas casas católicas, árvores de Natal nas casas dos

protestantes, cada um comemorava à sua maneira. Aliás, no censo de 1940, para uma população de

67.724 pessoas, havia 64.026 católicos, 1.113 protestantes, 47 judeus e 282 budistas. Depois dos

ortodoxos, espíritas, ateus e aqueles de religião não declarada, foram descobertos um positivista e um

maometano.

A formatura de Ruth deu-se num sábado, dia 22. O vestido de baile, branco, de renda, provocou

frisson nas frisas do Teatro Municipal, reduto dos grandes acontecimentos. “Ah, o Municipal! Invejado

por gente de outras cidades, com o piso da plateia ajustável. Mecanismos erguiam o piso à altura do

palco, formando um único plano, em geral para os dias de baile ou para as grandes formaturas. Frisas,

balcões, camarotes, muita luz, decoração feérica, diziam todos, felizes. As famílias, nas frisas, vigiavam

as moças, mas fingiam às vezes não ver o que estavam vendo”, lembrou Ruth.

Os oradores da turma foram os dois melhores alunos, Ruth Cardoso, pela turma b, e Luiz Rodovil

Rossi, pela turma a, noticiado pelo jornal O Imparcial, que reproduziu, na íntegra, o discurso de Ruth.

Teria sido escrito por ela ou por Mariquita? Há um trecho curioso, visto à distância:

Avassala-nos o dever de elevar bem alto, aos píncaros da glória, o nome do Colégio Estadual de Araraquara, do qual hoje nos

despedimos, após ter colhido todas as flores do seu jardim, e com elas feito um resplandecente buquê, que levamos agora pelas diferentes

estradas que queremos trilhar.

Talvez ainda nos encontremos um dia, então veremos quem melhor cumpriu este pacto que agora livremente constituímos, quem

juntou mais louros àqueles com que já se coroa o Colégio Estadual desta cidade.

Colégio amado, berço dos nossos sonhos, esteio de nosso futuro, adeus!

 

Ela também sabia que estava se despedindo de Araraquara. Há meses, Mariquita vinha preparando o

enxoval para o colégio em São Paulo. Roupas com monogramas, meias, lençóis, fronhas, tudo levava a

marca. Ela não tinha um minuto do dia, dava aulas na faculdade, no colégio, em casa. Para complementar

a renda, passou a vender roupas feitas, para homem e para mulher, e bijuterias, produtos de maquiagem,

perfumes. O pintor Ernesto Lia, amigo de Ruth desde a juventude, artista que retratou toda uma época da

cidade, garante que comprou muito suéter e camisa, indo escolher na casa dela, a loja era no quarto do

casal. Terminado o curso, a mãe decidiu: “A menina vai para São Paulo”. Inayá Bittencourt e Silva diz

que “as mulheres ficavam na própria terra, estudando o que tivesse. Mariquita fez sacrifícios enormes

para manter a filha numa escola de primeira”. Os homens que saíam iam para o Colégio Arquidiocesano.

As poucas mulheres, para o Des Oiseaux ou o Sacré-Coeur. Margarida Troncon Busatto: “Era uma atitude

moderna, liberal, de quem estava cinquenta anos à frente. Uma atitude ousada para a época. Coisa do

outro mundo, as jovens não iam embora sozinhas”. Para se ter ideia, uma prima de Maria da Penha

Carvalho conta que, ao dizer ao pai que pretendia estudar arquitetura, teve esta resposta: “Estudar numa

escola onde há homens? De jeito nenhum!”. Renato Corrêa Rocha acha que na atitude de Mariquita teve

um dedo de Gilda, irmã dele, “uma influência velada”. Sabe-se que muita gente criticou Mariquita, lá isso é coisa que se faça, mandar uma menina dessas sozinha para São Paulo? E a própria Ruth: “O sonho

de mamãe era ter feito medicina, não tiveram condições, ela foi cursar farmácia meio a contragosto.

Minha mãe chorava na hora de fazer as minhas malas. Estava desesperada e me mandando para fora. Uma

sensação esquisita. Ela tinha a certeza de que assim era melhor, não havia outro caminho”.

Numa manhã de 1946, quando José e Mariquita levaram a filha Ruth à estação para apanhar o trem

das 6h05, que chegava em São Paulo às 11h10, ainda estava escuro. Esse foi o trem que levou gerações

para fora de Araraquara. O sol começou a nascer quando o trem passou pela estação de Tamoyo, uma das

mais famosas usinas de açúcar do estado, e prosseguiu nos trilhos que, navalhas paralelas, cortavam

extensos canaviais.