Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Caderno de Fotos
© Acervo Pr. F. H. Cardoso
Mariquita em foto dedicada à filha no tempo em que lecionava ciências naturais no Colégio Estadual e na Faculdade de Farmácia, em
Araraquara.
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Mariquita e José com Ruth aos três meses, em foto do dia 8 de dezembro de 1930.
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A menina rechonchuda posou para Cantarelli, o fotógrafo das famílias araraquarenses, no dia de seu primeiro aniversário.
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Uma Ruth absorta (esquerda), em foto tirada entre 1933 e 1934. Ela morava na rua Osório, em casa cujo quintal ia até a outra quadra. Boa
parte da infância foi vivida ali e a lembrança mais forte era a da Vó Vizinha, velha muito pobre que “entiotava” rendas. Décadas mais tarde,
Ruth diria: “Vivi uma situação curiosíssima, uma vez que conheci duas bisavós e nenhuma avó. Eu chamava todas as tias de avó [...]. Por isso,
ser avó mexe comigo”.
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Ruth aos oito anos, no centro da primeira da fila. O “batizado das bonecas” era uma das boas brincadeiras e os meninos tomavam parte.
Alguns até de paletó e gravata.
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Aos doze anos, na fantasia de baleira que a mãe confeccionou.
Abaixo, Ruth em fantasias dos carnavais de 1934 (chinesa), 1937 (balalaica), 1943 (cigana) e 1940 (baiana). Todas feitas pela mãe.
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Ruth com seis anos
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Como anjo de procissão, aos dois
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Com sete anos, com o inevitável laço de fita na cabeça
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Em 1945, pouco antes de deixar a cidade natal.
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Ruth vestida para a primeira comunhão, em 1938. Apesar de não ser “igrejeira”, Mariquita cedia à tradição católica da família e cumpria
certos rituais.
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Aos nove anos (e o indefectível laço), com os bem definidos traços da jovem e da mulher que a distinguiriam no futuro.
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Certos dias, Ruth descia a rua Três e, na esquina da avenida Espanha, acenava para o interior de um banco onde Brasilino Stefano trabalhava.
Minutos depois, iam para a piscina. Ruth aprendeu a nadar em uma das primeiras piscinas da cidade, a dos funcionários públicos. O verso
destas fotos assinala 1947, portanto ela já morava em São Paulo e retornava nas férias.
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A pose na porteira, no centro da página, pode ter sido tirada na fazenda Santa Isabel, de Candido Rocha, pai de Gilda de Mello e Souza.
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Os últimos dias de Araraquara na juventude, em 1945. A foto guarda um mistério. Os contemporâneos não conseguem decifrar a faixa:
“oc.a.s.v.á s.a.ruth”.
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Em vestido de formatura, feito por Mariquita ao mesmo tempo em que preparava o enxoval para a filha, que estudaria em São Paulo, no Des
Oiseaux.
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Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara, 1967. Mariquita defende sua tese, em episódio que mostra sua determinação. Logo
depois, aposentou-se. Na foto, dona Nayde (segunda, a partir da direita), mãe de Fernando Henrique Cardoso, José Correia Leite, Ruth,
Mariquita e duas amigas não identificadas. Hoje a faculdade está integrada à Unesp.
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O golpe militar de 1964 forçou Ruth e FHC a se exilarem. Nesta foto o casal posa na neve, no Chile, em 1965.
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Ruth Cardoso e Fernando Henrique desembarcam no Chile com as filhas (1973).
© Arquivo/Ag. O Globo
Visita do então primeiro-ministro de Portugal Mário Soares ao Brasil, em 1984. A partir da esquerda, em pé: Ruth Cardoso, Carlos Alberto
Riccelli, John Herbert, Leylah Assumpção, Fafá de Belém, Nélida Pinõn, Mário Soares e FHC. Sentadas: Bruna Lombardi, Bibi Ferreira,
Regina Duarte, Lygia Fagundes Telles, Ruth Escobar, Irene Ravache e Dina Sfat.
© Ary Brandi
Em 1985, FHC, então no pmdb, concorreu à prefeitura de São Paulo. Ruth participou da campanha, mobilizando as mulheres. Foi seu primeiro
grande contato com os meandros melífluos de uma campanha eleitoral.
© Getúlio Gurgel e Domingos Tadeu
Posse de Fernando Henrique Cardoso, em 1º de janeiro de 1995. O ritual que Ruth definiu como uma cena de musical da Metro:
“Farfalhante”.
© Getúlio Gurgel e Domingos Tadeu
Encontro com representantes do Movimento Viva Rio, em janeiro de 1995. Na foto, Ruth Cardoso abraça Betinho, líder do movimento social
contra a miséria. Engajado no início, Betinho acabou por se afastar do Comunidade Solidária.
© Getúlio Gurgel e Domingos Tadeu
Ruth Cardoso com Tonia Carrero e Marina Colasanti na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em janeiro de 1995.
© Getúlio Gurgel e Domingos Tadeu
Em setembro de 1995, Ruth Cardoso (centro) e FHC (direita) passeiam num barco pelos canais de Bruges, Bélgica, cidade que encantou Ruth
e a levou a uma situação cômica ao embarcar num circular pensando que o ônibus fosse da comitiva.
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Ruth e José Gregori, seu inseparável par na dança, em meados dos anos 1990.
© Getúlio Gurgel e Domingos Tadeu
Ruth Cardoso, em visita oficial ao Vaticano, e João Paulo ii, em fevereiro de 1997. Quando o papa esteve no Brasil, em outubro daquele ano,
houve certa tensão. E se ele inquirisse sobre o aborto? Seria uma saia justa. Mas tudo correu tranquilamente.
© Getúlio Gurgel e Domingos Tadeu
Jantar no Palácio da Alvorada para receber o casal Bill e Hillary Clinton, em outubro de 1997.
© Getúlio Gurgel e Domingos Tadeu
Foto da família no Palácio da Alvorada, em 2002. A partir da esquerda, Ruth, Luciana e Paulo Henrique (de pé), Fernando Henrique, Julia,
Pedro, Beatriz, Joana, Helena e Isabel.
© Henrique Santos / Photo H
Em 2002, Ruth voltou a Araraquara, cidade que levou consigo a vida inteira. Quando presenciava uma situação na qual a boa educação e a
ética eram agredidas, ou melhor, estavam ausentes, Ruth dizia: “Isso não está de acordo com os nossos padrões araraquarenses”. Foto da
família no Palácio da Alvorada, em 2002. A partir da esquerda, Ruth, Luciana e Paulo Henrique (de pé), Fernando Henrique, Julia, Pedro,
Beatriz, Joana, Helena e Isabel. © Getúlio Gurgel e Domingos Tadeu
© Acervo Pr. F. H. Cardoso
Na China, em 2008, uma Ruth especialmente descontraída, em sua última viagem.
[1] Ruth foi registrada no Primeiro Cartório de Registro Civil, no Livro a-85, folha 220v, sob número 1.035. A menina nasceu na avenida Dom Pedro ii, 51-a, casa que desapareceu. Pais: Maria Villaça Corrêa Leite e José Corrêa Leite. Avós paternos: Luiz Corrêa Leite e Maria Augusta Corrêa Leite. Avós maternos: Antonio Ferraz Villaça e Maria Petrina Villaça. 2. A relação entre Pio Lourenço Corrêa e Mário de Andrade acaba de ser revelada por extenso no livro Pio & Mário, diálogo da vida inteira, trabalho primoroso realizado por Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido. São Paulo/Rio de Janeiro: sesc sp/Ouro sobre Azul, 2009.
[2] A relação entre Pio Lourenço Corrêa e Mário de Andrade acaba de ser revelada por extenso no livro Pio & Mário, diálogo da vida inteira, trabalho primoroso realizado por Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido. São Paulo/Rio de Janeiro: sesc sp/Ouro sobre Azul, 2009.
[3] No início do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, Ruth Cardoso concedeu a mim longo e proustiano depoimento sobre sua vida em Araraquara, relações familiares e de amizade. Foi publicado primeiro como um especial da revista Vogue, em seguida como um dos capítulos do meu livro A altura e a largura do nada. São Paulo: Editora Jaboticaba, 2006.
[4] A palavra entiotar usada por Ruth foi repetida por todas as pessoas em Araraquara. Todavia, não está registrada nem no Aurélio, nem no Houaiss, nem no Caldas Aulete.
[5] Em 1942 a escola passou a chamar-se Colégio Santa Terezinha, depois Externato Santa Terezinha, e finalmente Escola de Primeiro Grau do Externato Santa Terezinha. Mas o nome “Coleginho” permanece imutável na cidade.
[6] A próxima denominação foi Ginásio Estadual Bento de Abreu, depois Instituto Estadual Bento de Abreu, ieba, hoje é Escola Estadual Bento de Abreu, eeba. O antigo prédio está conservado no centro da cidade. Quando o ieba mudou-se, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Unesp ocupou o prédio. Hoje é a Casa da Cultura Luiz Antonio Martinez Corrêa.
[7] Entrevista com Circe Boueri, irmã de Mariquita por parte de pai.
[8] (retalhos i) Entrevista de Ruth Cardoso ao jornal O Imparcial, de Araraquara, 11 de setembro de 1994. A fazenda a que ela se refere tem hoje 171 hectares de mata nativa, mais de 26% do total da propriedade, uma joia rara no interior do estado de São Paulo. O título destes segmentos vem da revista Seleções do Reader’s Digest, imensamente popular nas décadas de 1940 e 1950 entre homens maduros. José Corrêa Leite apanhava seu exemplar — era assinante —, levava para o jornal e ficava lendo, à espera de serviço. A seção que ele me dizia preferir era “Retalhos do drama cotidiano”, aqui em uma releitura.
[9] Depoimento de Maria Helena Gregori.
[10] Depoimento de Maria Helena Gregori.
[11] Depoimento de Tessy Hantzschel, citado no livro de Margarida Cintra Gordinho, O livro de Ruth. São Paulo: fecap/Imprensa Oficial, 2009.
[12] Depoimento de Ruth para a revista Vogue, 1999.
[13] Depoimento de Joaquim Adolfo Mendonça, 2009.
[14] Depoimento de Ruth para a revista Vogue, 1999.
[15] Depoimento de fhc.
[16] Depoimento de Maria da Penha Villalobos.
[17] Conversa com o gravador desligado, na cozinha do apartamento da rua Maranhão, enquanto Ruth Cardoso fazia um café para dois, na tarde em que a entrevistei para a revista Vogue, 1995.
[18] Depoimento de Carmem Guedes a Lucia Helena Gama, no livro Nos bares da vida. São Paulo: Editora Senac, 1998.
[19] Depoimento de José Goldemberg em “Memórias da rua Maria Antonia”, no livro Maria Antonia, uma rua na contramão (Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, org.) São Paulo: Nobel, 1988.
[20] Depoimento de fhc e citação de seu artigo no livro Maria Antonia, uma rua na contramão, op. cit.
[21]fhc no livro Maria Antonia, uma rua na contramão, op. cit.
[22] Depoimento de Antonio Candido.
[23] Depoimento de Ruth para a revista Vogue, 1999.
[24] Depoimento de Leôncio Martins Rodrigues, junho de 2009.
[25] Depoimento de Gabriel Bolaffi, 17 de agosto de 2009.
[26] Somente depois da morte de dona Ritinha, uma pessoa muito estimada, é que se soube que, na verdade, ela se chamava Josefa, nome que odiava e eclipsou. Talvez traumatizada por nomes tenha escolhido um completamente diferente para sua filha, Leatrice — dos mitos e lendas de uma cidade.
[27] Depoimento de fhc, 26 de fevereiro de 2009. O dançarino a que ele se refere é o Brasilino, já citado.
[28] Depoimento de Ruth para a revista Vogue, 1999.
[29] (retalhos ii) Depoimento de Ruth para a revista Vogue, 1999.
[30] Entrevista concedida a Alessandra El Far et al. para a revista Cadernos de Campo e mencionada em O livro de Ruth, de Margarida Cintra Gordinho, op. cit.
[31] Foi o primeiro slogan, ou bordão, do telejornal, aliado a outro: “o primeiro a dar as últimas”.
[32] Segundo Dora Medina, em depoimento concedido em setembro de 2009, há uma versão de que Mariquita mandou fazer o vestido de noiva em Araraquara, desenhado por Wallace Leal, jovem diretor de teatro, cenógrafo e figurinista, fundador do Teatro Experimental de Comédias de Araraquara — teca. A confecção ficou por conta de Vanda Rodrigues Leal, da Camisaria Nino. Por outro lado, na cidade se comentou que o vestido era para um casamento civil, já que Fernando Henrique “era comunista”. Lendas e mitos do interior.
[33] Entrevista concedida a Alessandra El Far et al. para a revista Cadernos de Campo e mencionada em O livro de Ruth, de Margarida Cintra Gordinho, op. cit.
[34] Depoimento de Leôncio Martins Rodrigues, 25 de junho de 2009.
[35] Lembrança de Antonio Candido em depoimento, 23 de setembro de 2009.
[36] Afirmação de fhc ao autor, 26 de fevereiro de 2009.
[37] Depoimento de fhc, 26 de fevereiro de 2009.
[38] Lembrança de Antonio Candido em depoimento, 23 de setembro de 2009.
[39] Lembrança, dita entre sorrisos, sem gravador, quando me concedeu o depoimento para a revista Vogue em 1999.
[40] Depoimento de Regina Meyer, agosto de 2009.
[41] Gioconda Mussolini tornou-se um nome fundamental, segundo artigo de Andrea Ciacchi na Revista de Antropologia, vol. 50, jan.-jun. 2007, “primeiro, por ela ter protagonizado os primórdios do ensino da Antropologia, em uma instituição pioneira como a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da usp, concorrendo para a formação de muitos cientistas sociais, alguns dos quais ativos até hoje e, segundo, pelas novidades teóricas, metodológicas e epistemológicas que ela tentou introduzir na sua produção acadêmica, a despeito da sua reduzida dimensão e da dispersão a que ela foi submetida”. Na Faculdade, Gioconda foi colega de classe de nomes como Gilda de Mello e Souza, Ruy Coelho, Décio de Almeida Prado e do próprio Egon Schaden.
[42] Depoimento de Eunice Ribeiro Durham, 29 de setembro de 2009.
[43] Entrevista de José Arthur Giannotti no livro Retrato de grupo — 40 anos do Cebrap (Flavio Moura e Paula Montero, orgs.). São Paulo: Cosac Naify, 2009.
[44] Paul Singer e Roberto Schwarz liam em alemão.
[45] Conforme o filósofo Paulo Eduardo Arantes em “O bonde da Filosofia”, no livro Maria Antonia: uma rua na contramão, op. cit.
[46] Depoimento de fhc, 4 de abril de 2009.
[47] Depoimento de Eunice Ribeiro Durham, 29 de setembro de 2009.
[48] Em 1955, a Editora Brasiliense, de Caio Prado Júnior, lançou a Revista Brasiliense. Dirigida por Elias Chaves Neto, a revista foi um veículo de expressão e discussão para filósofos, historiadores, sociólogos e para as diretrizes do pcb.
[49] Depoimento de Paulo Henrique Cardoso, 18 de agosto de 2009.
[50] Revelação feita por Ruth Cardoso no depoimento para a revista Vogue em 1999. A igreja, histórica, foi demolida em meados dos anos 1950. O riacho, chamado córrego da Servidão, foi canalizado.
[51] Depoimento de Dora Medina, setembro de 2009. Dora é casada com Clodoaldo Medina, prefeito de Araraquara por duas vezes.
[52] No jornal Última Hora, eram tantos os candidatos a fazer a cobertura da revolução cubana que foi necessário um sorteio. Ganhou o jornalista José Guilherme Mendes.
[53] Na redação havia uma mesa enorme, cabiam vinte pessoas. Entre os sindicalistas estavam Dante Pelacani e Salvador Romano Losacco, dois líderes exponenciais na época. A tradução foi de Jean Etcheverry, um dos diretores do jornal, homem culto. Zé Celso, o teatrólogo, ficou fascinando com Simone de Beauvoir. Ela não abriu a boca, olhou tudo com enfado e mexeu, o tempo todo, na casca de uma ferida no braço.
[54] Quando Sartre, cercado por intelectuais, se dirigia à Faculdade, misturou-se a um grupo de torcedores que descia a rua, cercando Pelé. Por momentos, na esquina da rua Três com a avenida Duque de Caxias, intelectuais e torcedores se juntaram, depois seguiram seus caminhos. Por algum tempo, o lugar ficou conhecido como a Esquina de Sartre e Pelé. Eu estava junto, fazia a cobertura para o Última Hora, ajudado na tradução por Albertina de Oliveira Costa. O Santos, mesmo com Pelé, perdeu de 4 × 0.
[55] Quando se anunciou a presença de Sartre no Recife, para falar de literatura, o professor Adolfo Casais Monteiro, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (hoje um setor da Unesp, criada em 1976), partiu com uma pergunta de Fausto Castilho, então do Departamento de Filosofia. Era pedido a Sartre que falasse da relação entre O ser e o nada, Crítica da razão dialética e o marxismo. Casais Monteiro entregou a pergunta ao francês e viu-o abrir, ler e guardar no bolso. Quando Sartre chegou a São Paulo, por meio de Luiz Roberto Salinas Fortes, Dedeto, e Miguel Urbano Tavares, do jornal O Estado de S. Paulo, Fausto Castilho conseguiu ligar para Sartre no hotel e perguntar sobre a questão. “Recebi, mas é uma coisa que demanda uma palestra inteira.” “Então por que não vem a Araraquara fazê-la? É uma faculdade nova, mas aberta, moderna.” Sartre concordou, o esquema foi organizado rapidamente, Simone e Sartre partiram no sábado e pararam em Louveira, na fazenda dos Mesquitas, onde o doutor Ruy ofereceu um grande jantar à la brasileira. Até o velho Julio de Mesquita Filho esteve presente. Na manhã seguinte foram para Araraquara. Ao chegar, Sartre disse que precisava dos dois livros e de uma hora sozinho, fechado. No apartamento de Castilho, ao lado do Teatro Municipal, ele encontrou os livros e o sossego para preparar a palestra de duas horas que faria em francês, com tradução, para uma plateia selecionada de 50 ou 60 pessoas.
[56] Criador em Pernambuco das Ligas Camponesas, em que Jofre se inspirava e com quem Sartre desejava conversar, principalmente por ter chegado de Cuba. Fiz para o Última Hora uma série de reportagens a respeito de Jofre e seu movimento. Na ocasião, ele estava preso em Santa Fé do Sul.
[57] Depoimento de Antonio Candido, 23 de setembro de 2009.
[58] Comentário de Ruth na conversa de 1999, para a revista Vogue.
[59] A fala foi publicada no livro Sartre no Brasil — A Conferência de Araraquara, com tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Unesp/Paz e Terra, 1987. Salinas é o autor de Retrato calado, um depoimento forte contra a ditadura e a tortura. São Paulo: Marco Zero, 1988.
[60] (retalhos iii) Ruth Cardoso em seu perfil na revista Vogue, edição especial de 1999, reproduzido no meu livro A altura e a largura do nada, op. cit.
[61] (retalhos iii) Depoimento de Teresa Caldeira, julho de 2009.
[62] Depoimento de José Arthur Giannotti, dezembro de 2009.
[63] Ruth foi a grande incentivadora para que sua mãe fizesse sua tese de doutorado. Mariquita estava para se aposentar no Colégio São Bento de Araraquara quando defendeu a tese na Faculdade de Farmácia e Odontologia. O tema foi a planta buchinha (Luffa operculata), usada como descongestionante nasal.
[64] Depoimento de Albertina de Oliveira Costa, 6 de maio de 2009.
[65] Depoimento de fhc, 4 de abril de 2009.
[66] Em junho de 1963, o governador Adhemar de Barros nomeou Luís Antônio da Gama e Silva como Reitor. Em 1964, Gama e Silva assumiu como ministro da Justiça, passando a Reitoria para seus vice-reitores Mário Guimarães Ferri, Hélio Lourenço de Oliveira e Alfredo Buzaid.
[67] O Brasil saiu-se vencedor nos campeonatos mundiais da Suécia e do Chile.
[68] Malucha Solari, casada com Aníbal Pinto, era uma das grandes bailarinas chilenas, participou do Ballet Nacional do Chile e fundou o grupo Ballet de Câmara. Morava na mesma rua de fhc. José Serra foi ser assistente de Aníbal na Cepal e em uma festa conheceu Mônica, também bailarina, por quem se apaixonou e com quem se casou.
[69]fhc lembrou uma entrevista de Faletto em que Enzo relatou o trabalho em parceria para Dependência e desenvolvimento na América Latina, entre 1966 e 1967, quando se juntavam à noite em Santiago: “Era fácil escrever o livro: davam-me duas garrafas de vinho para que eu falasse, ou seja, como brincava a Ruth: Faletto fala e Fernando pensa...”.
[70] Este perfil de Ruth se fecha com um texto de Manuel Castells que é pura poesia em prosa, escrito especialmente para este livro.
[71] Depoimento de fhc, 30 de junho de 2009.
[72] (retalhos iv) Depoimentos de Luiz Felipe Cabral Mauro e Flávio Módolo, da Uniara, abril de 2009.
[73] Fernando Henrique Cardoso, em A arte da política — a história que vivi. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 79.
[74] Depoimento de Rosiska Darcy de Oliveira, outubro de 2009.
[75]Revista de Cultura Vozes, Petrópolis, v. 67, n. 2, pp. 49-54, março de 1973.
[76] Consórcio de Estudos Urbanos, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
[77] Depoimento de Eunice Ribeiro Durham, 29 de setembro de 2009.
[78] (retalhos v) Depoimento de Fátima e Fernando Pacheco Jordão, 31 de agosto de 2009.
[79] “O caneco de prata, de João Carlos Marinho, é um livro ímpar, singularíssimo. Lançado em 1971 [pela Editora Obelisco, hoje da Global Editora], tem um humor nonsense e surrealista muito próximo ao daqueles deliciosos filmes da série de tv dos Monkees”, define o escritor Eduardo Haak em seu blog. E prossegue: “As gags verbais e situações delirantes — tudo primorosamente bem escrito — de O caneco de prata acontecem à medida que um campeonato de futebol entre colégios se desenrola. O enredo em si é o menos importante da coisa: o pai do Gordo manda o mordomo encher a piscina com gasolina, põe um calção cor de laranja, deita-se em uma placa de isopor gigante e põe-se a recitar poesia concreta. A mãe decide se casar com um automóvel e o padre que celebra o matrimônio tira-a para dançar rock’n’roll — sobre o capô do ‘noivo’. É uma prosa radical e inventiva que, coisa rara em se tratando de prosa radical e inventiva, não torra o saco do leitor — muito pelo contrário.” Acrescento: o que deve ter incomodado o pai da estudante é a menção ao Esquadrão da Morte, que devastava vidas naquela época e era acobertado pela ditadura militar, e finas ironias em relação ao Exército, um crime na época. Era comum pais denunciarem professores quando consideravam as indicações subversivas ou imorais. Ainda hoje esse tipo de atitude persiste.
[80] Cynira Fausto, recentemente falecida, responsável pela criação do ise — Instituto Superior de Educação Vera Cruz, foi na verdade orientadora educacional no Rainha da Paz, por três anos, no início da década de 1970. A tia-avó de Bia, Circe Boueri, é que nessa época foi assessora da coordenação pedagógica, junto a Alice Cavalcanti.
[81] Depoimento de Jorge Caldeira, 9 de abril de 2010.
[82] José Gregori, dos amigos mais próximos e fiéis de Ruth e Fernando Henrique, foi ministro da Justiça e embaixador em Portugal no governo fhc.
[83]Opinião era um jornal da chamada imprensa nanica, ou alternativa, aquela que, não aceitando a censura, desafiava o Estado totalitário pregando a resistência, a oposição à mordaça, publicando os assuntos proibidos, fossem políticos, drogas, sexo, religião etc. Entre os jornais mais notáveis estiveram O Pasquim, Movimento, Opinião, Brasil Mulher, Nós Mulheres e Beijo.
[84] Depoimento de José Gregori, 17 de janeiro de 2010.
[85] Entrevista com Regina Duarte, setembro de 2009.
[86] Entrevista de Ruth Cardoso a Danielle Ardaillon, Conselho Estadual da Condição Feminina, São Paulo, junho de 1988.
[87] Entrevista com Iara Prado, 11 de novembro de 2009.
[88] Entrevista de Ruth Cardoso a Danielle Ardaillon, Conselho Estadual da Condição Feminina, São Paulo, junho de 1988.
[89] Depoimento de Lourdes Sola, 6 de agosto de 2009. O Teatro Ruth Escobar, na rua dos Ingleses, Bela Vista, foi um dos pontos de resistência na época da ditadura. Ali, inclusive, foi promovida uma “Noite Contra a Censura”, em que todos os que tiveram livros, peças, canções e filmes censurados protestaram publicamente, o que, na época, era absolutamente proibido.
[90] Entrevista com Fátima e Fernando Pacheco Jordão, 31 de agosto de 2009.
[91] Entrevista de Ruth Cardoso a Danielle Ardaillon, Conselho Estadual da Condição Feminina, São Paulo, junho de 1988.
[92] Eva Blay em “Um caminho ainda em construção: a igualdade de oportunidades para as mulheres”, Revista da USP, São Paulo, n. 49, março-abril-maio de 2001.
[93] Depoimento de Danielle Ardaillon.
[94] Por outro lado, o então governador José Serra me assegurou, certa noite no Palácio dos Bandeirantes, diante de um prato de frutas frescas, que esse título “Conselho Especial da Condição Feminina” foi sugerido por ele a Ruth.
[95] Depoimento de Eva Blay, 5 de outubro de 2009.
[96] Depoimento de Rosiska Darcy de Oliveira, outubro de 2009.
[97] Severo Gomes tinha comprado uma casa de pescador em Picinguaba e Ruth e Fernando Henrique pediram: “Veja se arranja uma para nós”. Picinguaba era primitiva, não tinha luz. Foi comprada a casa de pescador, que era vizinha à de Severo. Difícil chegar lá, caminhava-se sobre pedras e a vantagem era a prainha, praticamente privada. Um grande personagem era o Ovídio, um negro que fazia gaiolas bonitas. Na varanda do sítio que os Cardoso montaram em Ibiúna tem uma gaiola que Ovídio fez.
[98] Há amigos que discordam — quem cozinhava bem, dizem, era Terezinha, fiel empregada de Ruth desde 1978. Mas, registro, estes foram depoimentos isolados.
[99] Costume antigo na família em noites frias ou não, Paulo Henrique se lembraria das sopas quentíssimas tomadas todas as noites em Araraquara, na casa de José e Mariquita.
[100] Pedro Paulo, sociólogo, criou a tv Escola, as séries de fascículos da Editora Abril e as coleções Os Pensadores e Os Economistas, dois megassucessos. Depois, junto com Rodrigo Naves, participou da reformulação da revista Novos Estudos, do Cebrap, nos anos 1970. O filho dele, André, morou com os Cardoso em Paris e namorou Bia, certa época.
[101] Evangelina Seiler, Van Van, segunda mulher de Paulo Henrique, contou em Brasília, em 1998, que na noite em que foi conhecer os sogros, sentou-se à mesa, o vinho foi servido, ela tomou logo, era um primor. Fernando Henrique perguntou: “Gostou?”. E ela: “Ótimo, tem mais?”. A família inteira caiu na gargalhada, e ela só entendeu mais tarde, com o convívio.
[102] Anos mais tarde, quando convidou José Gregori para seu ministério, Fernando Henrique Cardoso perguntou a ele pelo telefone: “Você está sentado ou em pé?”. Diante da surpresa de Gregori, fhc explicou: “Pelo seguinte: o Itamar, quando me convidou para ministro, disse que ministro é um convite que se faz para a pessoa que tem de estar em pé”.
[103] Depoimento de fhc, 11 de agosto de 2009.
[104] “O pai de Celisa, o tio Carlos, era tio de meu avô, pai do meu pai. Meus avós morreram cedo e então cada tio, cada padrinho, ficou com um dos pequenos órfãos.” Explicação de Ruth Cardoso no depoimento que concedeu para a revista Vogue, 1999.
[105] A Nosso Sorvete permaneceu aberta durante 64 anos. Fechou as portas recentemente. Com a decadência do centro da cidade, o movimento migrou para os shoppings. Creme Suíço é um sorvete de leite com açúcar queimado que só existe em Araraquara.
[106] Bia casou-se aos 21 anos com o artista plástico Fábio Cardoso, mas separou-se aos 24 anos.
[107] Fernando Henrique Cardoso, em A arte da política — a história que vivi, op. cit., p. 217.
[108] Em um depoimento feito a mim em sua casa, Fernando Henrique confessou-se mais do que surpreso, assombrado com a imensa repercussão nacional, mais do que isso, global, não só da morte como da profundidade do trabalho de Ruth. O depoimento de Celso Lafer foi colhido em 20 de julho de 2009.
[109] Depoimento de José Gregori, 10 de janeiro de 2010. Quanto à cena de musical: na entrevista que fiz com Ruth para a revista Vogue em 1999, a certa altura, ao ouvir que ela adorava os filmes musicais, que em Araraquara eram exibidos aos domingos, confessei que eu não só adorava, como via duas ou três vezes e sonhava, principalmente, em ser Gene Kelly. Ela contrapôs: “Por que não Fred Astaire, tão mais leve, elegante, melhor dançarino?”.
[110] Fernando Henrique Cardoso na faap, em tarde de homenagens a Ruth Cardoso, 24 de setembro de 2009.
[111] Paulo Paiva, presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, em depoimento na faap, 24 de setembro de 2009.
[112] Depoimento de Regina Meyer, 27 de agosto de 2009.
[113] Depoimento de Celso Lafer, 20 de julho de 2009.
[114] Ler também o perfil “A atualidade de Vilmar Faria”, por Maria Carolina da Silva Leme e George Avelino, no livro Retrato de grupo — 40 anos do Cebrap, op. cit.
[115] Depoimento de Regina Meyer, 27 de agosto de 2009.
[116] Depoimento de Bibia Gregori, outubro de 2009.
[117] Depoimento de Regina Duarte, outubro de 2009.
[118] Helena Sampaio, no paper “Ruth Cardoso and the Comunidade Solidária (Solidary Community): coherence and inovation”, Universidade Columbia, Nova York, 9 de abril de 2009.
[119] Depoimento de Malak El Chichini Poppovic, 31 de julho de 2009.
[120] Depoimento de Teresa Caldeira, 31 de julho de 2009.
[121] Depoimento de Miguel Darcy de Oliveira, 21 de setembro de 2009.
[122] Depoimento de Regina Esteves, 2 de julho de 2009.
[123] Depoimento de Pedro Moreira Salles, 14 de dezembro de 2009.
[124] Ruth Cardoso, na apresentação do livro Comunidade Solidária: fortalecendo a sociedade, promovendo o desenvolvimento, organizado por ela, Augusto de Franco, Miguel Darcy de Oliveira e Thereza Lobo. Rio de Janeiro: Comunitas, 2002.
[125] Depoimentos de Augusto de Franco e Miguel Darcy de Oliveira na faap, 24 de setembro de 2009.
[126] Informações extraídas do livro Comunidade Solidária, op. cit.
[127] Depoimento de Célia de Ávila para o livro Comunidade Solidária, op. cit.
[128] Em entrevista concedida em outubro de 2009, Bibia Gregori, sua aluna, orientanda e amiga, afirmou que “Ruth era profundamente correta, a relação dela com dinheiro era maluca a ponto de ser rígida, criteriosa ao extremo. Se a gente tinha um projeto de pesquisa de 120 mil reais, e raros eram os projetos que ofereciam mais que isso na época, anos 1980, Ruth dava um jeito de ser econômica, quase chegando ao pão-durismo. Então vamos contratar um bolsista, dizíamos. E ela: ‘Só três meses, olhe lá’. Ruth, três meses só não dá, devolvíamos, mas ela tinha uma coisa de ir fazendo despesas na medida da necessidade, sempre guardando um pouquinho, porque ‘a gente deve ser previdente na vida’. Ela tinha essa mentalidade, era assim que lidava com o dinheiro, tinha uma coisa da correção, do bom gosto. Tinha muita clareza e para ela Brasília era o oposto, então, quando se viu na iminência de ser primeira-dama, primeiro resistiu muito, ela brigou mesmo, ela disse que não ia topar...”.
[129] Embaixador Fred de Araújo, em depoimento lúcido e bem-humorado, 10 de agosto de 2009.
[130] Depoimento de Mary e Celso Lafer, 20 de julho de 2009.
[131] Depoimento de fhc, 7 de agosto de 2009.
[132] Depoimento de fhc, 7 de agosto de 2009.
[133] Depoimento de Regina Esteves, 2 de julho de 2009.
[134] Entrevista com fhc.
[135] Entrevista com Artur Ribeiro.
[136] Depoimento de Evagelina Seiler, Van Van, 1° de outubro de 2009.
[137] Entrevista com fhc.
[138] Depoimento de Terezinha Barbosa de Moraes.
[139] Entrevista com fhc.
[140] Entrevista com fhc, 30 de junho de 2009. Fernando Henrique Cardoso comentou que aqueles originais eram artigos que ele escrevia para os jornais, Ruth lia e devolvia tudo com anotações precisas do que não gostava. Nesse dia, as pilhas de livros estavam ainda intocadas e a caixa de bombons continuava lá.
[141] Entrevista com Evangelina Seiler, Van Van.
[142] Entrevista com Maria Helena Gregori.
[143] Foram quase quarenta anos de amizade, convívio próximo, Ruth era professora, amiga, quase mãe e madrinha de casamento de Teresa Caldeira. Morando nos Estados Unidos (ela leciona em Bekerley, nas últimas décadas), acostumaram-se a intensa correspondência, e-mails disparados de todos os lados, incessantemente.
Você terminou Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Ignácio de Loyola Brandão