Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 22 de 35

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Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

11 Ibiúna, memória de uma vida

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Ibiúna, memória de uma vida

 

Ruth, na mesa da cozinha, segura com a mão esquerda o maço de couves que ela enrolou com cuidado, as

folhas compactadas na grossura de um charuto. Empunhando uma faca de aço, lâmina de navalha, com a

mão direita pica a couve, que se deposita sobre a mesa como delgados fios de cabelo de criança. Está

concentrada na couve, ao mesmo tempo em que ouve Danielle Ardaillon falar sobre sua dissertação de

mestrado.

No silêncio do lugar, onde o tempo parece correr mais lento, o trabalho tinha rendido. Passaram

horas à tarde debatendo página a página, até Ruth dizer: “Agora chega! Vamos jantar. Porque eu trouxe

você aqui também para o meu caldo verde”. Isso significava fazer o jantar, e ela havia prometido caldo

verde, uma de suas especialidades, que começava pelo corte da couve. Couve que vinha da horta, perto

da casa. Esta é uma das imagens de Ibiúna sempre presente na memória de Danielle, que mostra duas

faces de Ruth que ela equilibrava com maestria, a acadêmica e a gourmet.[98]Ao longo dos anos montou

um caderno com receitas vindas de Araraquara, da mãe e das tias, copiadas de outros cadernos, de

livros, programas da televisão, que amigas enviavam ou coletadas nas viagens ao exterior. Escreveu com

cuidado vários cadernos — no Des Oiseaux a caligrafia era arte essencial; um deles ficava em Ibiúna,

outro em São Paulo, outros ela presenteou a Luciana, Bia e a nora Evangelina Seiler, carinhosamente

conhecida como Van Van, segunda mulher de Paulo Henrique, e às filhas de amigos. Nas noites frias de

Ibiúna, os jantares começavam pela sopa. Predominam nos livrinhos as receitas de sopa, que ela adorava,

havia de todos os tipos.[99]De vez em quando — ainda não eram tempos do politicamente correto, de

preocupações com meio ambiente, nada —, o caseiro Joaquim aparecia com um tatu que ela preparava e

chamava os amigos. Maria Helena Gregori se regalava e falava muito da maneira como Ruth preparava

um coelho, no que é secundada por Celso Lafer: “Era de desmanchar na boca”. Outro prato em que ela se

excedia era o creme de mandioquinha, cuja receita não contava.

“Guisados, Ruth dedicava-se aos guisados com grande competência, tinha panelas especiais para

tudo, panela de barro, panela de ferro, de cobre, de alumínio, de vidro, panela daquilo, faca de não sei o

quê, faca de não sei o que mais, cultivava a variedade. Era imbatível nos cassoulets”, afirma Jorge

Caldeira, que viveu Ibiúna em sua totalidade e hoje toma conta da casa. “Ela era p’ra valer. Coisa meia

boca, tipo bifinho batido, massa com molho de tomate, só tinha vez de quando em quando, mas chegava à

mesa acompanhada da menção ‘emergência, olhem lá’. Ela gostava de pratos que demoravam para

cozinhar, que tinham bastante tempero, pratos aos quais era preciso se dedicar, estar atenta. Um bom

jantar com a Ruth tinha duas horas e meia de conversa depois, era o grande prazer dela, que sempre

gostou muito de reunir pessoas. Ibiúna era para quem cultivava a prosa com grande gosto.”

Caldeira tem uma visão curiosa sobre Ruth e a gastronomia: “Ela achava que a pessoa que não

cozinhava era alguém que tinha algum defeito, algum problema. Ela imediatamente se punha a ensinar o

manejo na cozinha e isso era para todo mundo. Vim de uma casa que tinha empregada o tempo todo, casa

de brasileiro que não põe a mão em nada, e a Ruth rapidamente me ‘curou’, me ensinou a fritar ovo, fazer

café, lavar pratos, copos, panelas, ensinava técnicas especiais, exigia competência. A Ruth era uma

pessoa para quem o exemplo era fundamental, não tem conversa, exemplo é exemplo — quem vai por

exemplo, vai, quem não vai por exemplo, não vai”.

Aquela casa, a pouco mais de sessenta quilômetros de São Paulo, desde os anos 1970 foi um refúgio

— ali ela podia se isolar ou receber amigos íntimos. Condomínio aberto dos tempos em que o Brasil não

tinha tantos problemas com segurança, assim permaneceu até o momento em que foi necessário instituir

portaria e vigilantes. As casas estão plantadas em terrenos amplos, nem tão próximas que se possa viver

uma vida bisbilhotada, nem tão distantes que não se possa caminhar de uma a outra para um almoço, uma

tarde à beira da piscina comum a várias moradias, ou um fim de tarde diante de canapés, cervejas, vinho

ou uísque, ou fechar a noite com um jantar grupal.

A casa é protegida por altas árvores, rodeada por um gramado. Tem uma varanda aberta, um jardim e

uma horta. Verde, em toda a volta. Por dentro, alvenaria e madeira rústicas. Sempre se disse “a casa de

Ibiúna”, mas na verdade ela fica no condomínio denominado Mirim-Açu, junto à represa de Itupararanga,

nas encostas da serra de Paranapiacaba. A cidade, que fica bastante próxima do condomínio, tornou-se

histórica por ter abrigado o célebre e já citado xxx Congresso da União Nacional dos Estudantes, em

outubro de 1968. Encontro clandestino, 2 mil estudantes foram presos numa noite de chuva e lama.

Ibiúna foi criação do arquiteto Carlos Lemos, que descobriu o lugar, projetou um loteamento nos

anos 1960 e começou a vender muito barato aos amigos. Amigos de nomeada como Pedro Paulo

Poppovic[100] e sua mulher Ana Maria, de apelido Nani. E foram chegando o historiador Boris Fausto,

os sociólogos Juarez Brandão Lopes, Lúcio Kowarick, Clélia e Gabriel Bolaffi, o advogado José

Gregori e sua mulher Maria Helena, o jornalista Ottaviano de Fiore, mais conhecido como Barão, e sua

mulher Elizabeth, Regina e Luiz Meyer, Luiz Carlos Bresser-Pereira, José Serra (que nunca vai), entre

outros. Os lotes foram sorteados, nada de cada um escolher o seu e depois começarem as reclamações.

Formou-se lentamente um reduto dito “uspiano”, não apenas pelos moradores, mas porque Ibiúna acabou

sendo ponto de encontro, de fins de semana, de breves férias de pessoas ligadas à usp. Foi Pedro Paulo

quem levou Ruth e Fernando Henrique para lá como hóspedes, eles se encantaram e alugaram a casa de

Fernando, irmão de Carlos Lemos. Era uma casa bastante simples, mas muito divertida, porque tinha duas

alas: os pais ficavam embaixo e a juventude subia. Numa das alas havia a cozinha, a sala e um quarto; na

outra, dois quartos e a lavanderia — somando tudo, não chegava a 100 m2.

Depois disso juntaram dinheiro, venderam um quadro — que ninguém na família mais se lembra qual

foi —, compraram um terreno e construíram a casa, que teve várias reformas comandadas por Ruth. Ela é

quem tratava com pedreiros, pintores, fazia compras de materiais de construção, escolhia portas e

janelas, pias e chuveiros, regateava preços, acompanhava e cobrava os serviços e os prazos. Um dia, o

motor que puxava a água do poço artesiano do condomínio quebrou e foi Ruth quem tomou as

providências. Para a casa, pedia sugestões a Regina Meyer, que é arquiteta, mas nem sempre seguia o

indicado. Ela gostava do simples, do despojado, do limpo — dizia-se modernista, mas não dispensava uma compoteira para dar o toque caipira.

Ibiúna foi o refúgio também dos filhos. Era divertido, reunia-se uma turma enorme, os pais eram

amigos, os filhos se juntavam e, quando os mais velhos não iam, vivia-se uma vida de adultos. Todos se

interligavam, havia campeonatos de vôlei entre os lotes, andava-se de barco na represa que margeia o

condomínio todo o tempo. Paulo Henrique, então com dezessete anos, comprou de um alemão um

veleirinho usado, um Snipe, que dava sempre um trabalhão para velejar. Parece que ganhou da mãe, que,

apesar de dura, fazia muito as vontades dele — foram buscá-lo na represa de Santo Amaro. Entre os

jovens, brincava-se que o rico de Ibiúna era o Pedro Paulo Poppovic, que tinha lancha e um Landau

branco. Afinal, ele era diretor da Abril.

Aos poucos aquele reduto acabou tendo a cara de Ruth e um pouco de Araraquara, transplantada em

quadros, luminárias, móveis, estantes, panelas, xícaras, objetos, quadros, vasos de flores, cortinas de

crochê, mesa de centro, estantes, biblioteca. Principalmente a cozinha, que ela moldou ao seu jeito e

maneira, exibindo uma coleção de panelas — muitas trazidas do exterior — que provocava inveja entre

os amigos, principalmente os que também eram homens de cozinha, como José Arthur Giannotti e Luiz

Meyer.

Fernando Henrique acentua que da mãe de Ruth “vieram duas coisas: o interesse pela biologia e

pelos jardins. O jardim de Ibiúna sempre foi paixão. Na varanda, ela cuidava de planta por planta. Teve

esse cuidado a vida inteira. Trazia sementes de nossas viagens, plantava, replantava, regava, seguia. E lia

sobre jardins, plantas, adubos, conhecia as espécies, as que crescem ao sol, à sombra, as que se abrem de

manhã, as da tarde, essas coisas. Havia um diálogo constante com Carlos Lemos o tempo todo. Queriam

fazer fogão a lenha, e ela amava o jardim, que dava um trabalho danado, é tudo gramado, é bonito. Indo

lá, se vê que é o estilo da Ruth, não é o meu estilo. O jardim é desordenado. Mistura árvores frutíferas

com sei lá o quê, era o estilo dela, que eu chamava de caipira. Araraquara, exatamente. Não é cartesiano.

Mas é muito agradável, bem cuidado. Agora, ela gostava da casa como foi feita originariamente por ela e

pelo Lemos, uma loucura, tinha chão de cimento queimado colorido, estava na época inventar moda e o

telhado era de telha-vã, como se fosse colonial, um frio desgraçado. Ibiúna é região fria. Isso levou anos

para mudar, e só mudou porque fomos para a Europa ou os Estados Unidos, não me lembro para onde, e

Bia ficou tomando conta da casa, e então pôs assoalho e forro, por volta de 1990 e poucos, por aí”.

Gabriel Bolaffi, vizinho de Ruth, é um gourmet e sempre teve uma horta de especiarias, salsinha e

cebolinha para o cheiro-verde, e Ruth ali se abastecia de hortelã, orégano e manjericão. Certa vez,

querendo fazer uma horta também, ela propôs a Roberto Schwarz a compra de um terreno que ele tinha no

condomínio. A venda não aconteceu, porém Roberto liberou: “Olhe, venha, entre no terreno, plante o que

quiser”. Clélia Bolaffi guarda algumas imagens e uma delas, forte, foi a de Ruth fazendo o enxoval para

uma empregada em Ibiúna. “Ela criava uma relação diferente com seus empregados. Pois Gilberto, o

motorista dela em São Paulo, não foi estudar convencido por ela e acabou fazendo Direito? Havia uma

empregada que engravidava e perdia, engravidava e perdia, e Ruth passou a orientá-la: ‘Você tem que se

tratar antes, vamos ver um médico’. Ou seja, ela sentia apreço por todos que estavam à volta dela.”

Os encontros entre as duas famílias ocorriam, em geral, na piscina, onde, segundo Gabriel,

“Fernando Henrique divertia todo mundo fazendo imitações, é ótimo imitador e mímico. Quando estava

inspirado e imitava o Lula e o Itamar Franco, eram gargalhadas sem parar. Ele se descontraía à beira d’água”. Houve um período, depois da morte de Mariquita, em que os Bolaffi levavam José Corrêa Leite

para Ibiúna, e ali ele se encontrava com Ferrutti, pai de Clélia. “Papai não tinha sotaque caipira, mas

quando se juntava ao seu José, voltava a falar com todos os ‘erres’ araraquarenses. Os dois estavam meio

surdos, mas se entendiam, adoravam nossa casa.”

Naquele tempo, os terrenos não eram cercados, ao contrário, eram unidos por meio de jardins. De

Fiore foi o primeiro a levantar uma cerca, já nos anos 1980. Ruth, em Ibiúna, vivia para a cozinha e a

casa, para a horta e o jardim, entrava tranquilamente na conversa cricri — criados e crianças —,

conversava com empregados e com os locais no mesmo tom, conhecendo e usando suas expressões. As

filhas de Clélia e Gabriel, bem mais novas que Bia e Luciana, tinham uma impressão curiosa: “Ah,

mamãe, ela só fala de sofá, de trocar a capa do sofá, de fazer reforma”.

Havia noites calmas, Maria Helena e José Gregori apareciam, jantavam. Se estava frio, abria-se um

vinho, a adega era bem abastecida, ainda que controlada. Ruth cutucava: “Fernando Henrique, abra um

vinho dos bons, você tem tantos”. Tinha, sim, das melhores marcas, das melhores cepas, que, dizia ele,

ficavam para ocasiões especiais. “Vamos perder todos se não bebermos”, Ruth reclamava, e ele acabava

concordando, mas era econômico no servir, fazia a garrafa render.[101]Depois de comer, Ruth sentava-se

na sala e ficava conversando com José, os dois não eram dados ao jogo. Ela jogava baralho, sim, com os

netos, biriba ou rouba-monte, e divertia-se. Ruth e José eram também parceiros de dança, faziam dupla

em qualquer festa. Na quietude de Ibiúna e boa conversa, ela sorvia uma boa cachaça, tinha uma coleção

de esplêndidas marcas. Preferia pura, nada de batidas ou caipirinhas. Maria Helena e Fernando Henrique

sentavam-se à mesa de jogo — ele gosta do pôquer, mas fazia concessão concordando em jogar buraco

ou tranca. Apostas baixas. Quando perdia, Fernando Henrique não gostava nada. Em fins de semana mais

agitados, casa cheia, a mesa de pôquer durava horas.

Havia um bar por lá, onde os locais se reuniam para conversar, beber, jogar sinuca. Começaram a

aparecer problemas, inclusive de drogas. As mulheres dos operários, jardineiros, caseiros, pedreiros

passaram a reclamar. Ruth interveio, negociou com o prefeito, conseguiu o fechamento do lugar, as

mulheres agradeceram: “Agora nossos maridos não chegam mais bêbados em casa”. O bar tornou-se um

lugar onde se vendia artesanato, feito pela população local. Durou dois anos. À medida que o tempo

passou e as questões ligadas à segurança se acentuaram, decidiu-se “fechar” o condomínio, com os

empregados usando crachás, o que deixou parte dos “condôminos” indignados, causando protestos.

Bolaffi foi um deles: “Logo estaremos todos isolados em fortalezas fechadas”.

Momento especial era a ceia de Natal. Algumas foram feitas em Ibiúna e uniram mais a família. Ruth

curtia toda a preparação, a compra de presentes para cada um, porque todos ganhavam, e cada qual

embrulhado de maneira personalizada, a árvore de Natal, a arrumação da mesa, a toalha, os pratos, os

arranjos, as velas. Depois de muita comida, inventavam-se coisas engraçadas que todo mundo fazia. Mas

em geral a ceia era no apartamento da cidade — além da família, amigos chegados passavam para os

abraços de boas-festas —, ainda que muitos preparativos tivessem sido feitos em Ibiúna,

antecipadamente, em especial certas comidas.

Uma vez, Luciana e um namorado fizeram para Ruth um manto de Super-Mãe igualzinho ao do Super-

Homem, tinha o sm nas costas, e ela distribuiu todos os presentes com o manto nas costas, ria muito. Os

filhos vinham com os namorados e namoradas, para os amigos era uma casa em que todos se sentiam bem-vindos, a maior farra. Ela continuou fazendo esses Natais em Brasília, mas então só para os filhos e

netos, em encontros mais contidos.

Teresa Caldeira conheceu Ruth em Ibiúna e jamais imaginou que um dia seria sua aluna e ali

desenvolveriam trabalhos em fins de semana. Ela e o irmão Jorge Caldeira foram como que adotados por

Ruth e Fernando Henrique. Teresa acompanhava o irmão a Ibiúna, junto a um grupo de jovens. Mais

tarde, já na faculdade e trabalhando com Ruth, transferiam-se todos para lá, principalmente nas pesquisas

sobre a periferia. “Ela e Eunice Durham levavam a equipe inteira. Éramos seis pesquisadores de campo

ali reunidos e o trabalho rendia naquele silêncio e solidão. Eu estudava a Zona Leste, Helena Sampaio

estudava Osasco, Antonio Teixeira Mendes, hoje superintendente do Grupo Folha, fazia o que a gente

chamava o bairro virgem, que era uma questão de método fundamental. Esse bairro, Cidade Júlia, na

Zona Sul, era o único que não tinha movimento social. Ficou assim chamado porque não tinha nenhuma

forma de organização social, para servir de comparação com os outros. Claro que em seis meses o bairro

estava agitado, cheio de movimentos sociais, e vimos tudo aquilo começar. Os outros da equipe eram

Antônio Flávio Pierucci, professor de sociologia da usp, que trabalhava com o Procópio Ferreira de

Camargo no Cebrap, a Célia Sakurai, que depois foi estudar os imigrantes japoneses, e a Cristina

Guarnieri. Claro que, depois, Ruth fazia o caldo verde para todo mundo.”

Pedro Paulo Poppovic morava em Ibiúna numa casa perto do lago, a dez minutos de caminhada da

casa de Ruth. Depois, ele se mudou para a casa vizinha, era só atravessar um gramado. Pedro Paulo, cuja

mulher morrera num acidente em 1983, casou-se de novo com uma egípcia recém-chegada ao Brasil,

Malak El Chichini. Mulher interessante, inteligente e bonita, economista que tinha estudado na Suíça,

trabalhado na onu e morado na África e nos Estados Unidos, Malak veio ao Brasil em 1985 para passar o

Carnaval, gostou e ficou. No encontros em Ibiúna, uma de suas primeiras amigas foi Ruth, porque se

comunicavam em francês, uma vez que Malak não falava uma palavra em português. “Nas reuniões, as

pessoas procuravam falar numa língua que eu entendesse, mas depois de quinze minutos e alguns copos,

estavam todos falando português e eu inteiramente perdida”, diz Malak. Numa viagem que Ruth fez ao

Egito para uma reunião sobre antropologia, entre 1986 e 1987, Malak não só lhe deu todas as dicas sobre

os modos de ser do país, como também o endereço de sua mãe — as duas almoçaram juntas, conversaram

e, evidente, ficaram amigas. “Eu estava interessada em trabalhar, fazer alguma coisa, e Ruth me

aconselhou a participar do núcleo de estudos da violência. Na época conheci muitas alunas dela, que

alguns chamavam de ‘ruthetes’, e acabei me entrosando com elas. Mal podia prever que trabalharíamos

juntas, mais tarde, num projeto de importância vital para o Brasil.”

Danielle Ardaillon, no começo dos anos 1980, estava trabalhando no Cebrap e seu relacionamento

com Ruth e Fernando Henrique se estreitou, ela foi convidada para Ibiúna, o que, de certo modo, indicava

sinal verde, uma vez que os dois sempre foram reservados quanto ao círculo familiar e amigável. Quando

Danielle, que teve uma trajetória de vida complicada devido à ditadura, prisões e perseguições, foi fazer

seu doutorado, precisou antes fazer o mestrado para fechar o círculo — o mundo acadêmico era rigoroso

em suas regras. Nesses momentos, foi como se Ruth a tivesse tomado sob sua guarda. As visitas a Ibiúna

passaram a ser mais frequentes. Era comum ver Paulo Henrique e Ana Lúcia chegando com as filhas

gêmeas Helena e Joana, mais Júlia, filha de Bia, e as netas logo rodeavam a avó na cozinha, aprendendo

a cozinhar. Pedro tirava suas casquinhas, vez ou outra. Havia ainda lições de corte e costura, entremeadas por uma conversa cheia de casos. O espírito da bisavó Mariquita perpassava, evocando aquelas tardes

em que ela fazia vestidos de baile para Ruth ou uma fantasia de pipoca, ou copiava, com o que havia nas

lojas de Araraquara, a alta-costura parisiense. Certa noite, Ruth deu um presente a Van Van.

— Um ovo de madeira?

— Para cerzir as meias do Paulo.

— Muito obrigada, mas acho que não vou usar isso, não!

Com a mãe de Evangelina, já idosa, Ruth conversava sobre árvores e natureza, inclusive enviava

fotos ou livros sobre fazendas, ela sabia como chegar e envolver cada um, não importava a idade e o

meio. Regina e Luiz Meyer eram amigos de longuíssima data que também tinham casa em Ibiúna, ainda

que um pouco afastados — para se visitarem era preciso ir de carro. Luiz, um psicanalista que também

fazia da cozinha um momento especial, adorava cozinhar para Ruth. Esta cena era comum: ele terminava

um prato, oferecia, ela apanhava o garfo, levava até a boca, fechava os olhos, sentia o paladar, e

comentava. Ficou famosa a mesa de almoço com gavetas (uma coisa mineira) e um centro giratório que

era um sucesso. Wilma, mulher de Sergio Motta, braço direito de fhc, fez uma cópia moderna dessa mesa

em pau-marfim. Aliás, certa vez Wilma trouxe de Paris uma luminária em forma de losango (“Me deu um

trabalho enorme trazê-

-la no avião”, confessou) que deixava todo mundo embasbacado. Ruth colocou-a sobre essa mesa.

“Em Ibiúna, eu saía de cena e Luiz entrava”, comenta Regina, “porque era uma coisa muito forte, ele

é quem comprava as coisas para levar, escolhia, procurava, buscava uma novidade, e a ida para Ibiúna

era agradável, muitas vezes levávamos trabalho, ela também, e nos reuníamos à noite, a conversa rolava.

Ela insistia: ‘Regina, precisamos fazer alguma coisa aqui’, e eu pensava em biblioteca, tinha mania de

biblioteca, ela não, procurava alternativas. Um dia, falou: ‘A gente tem de montar aqui uma escola de

hotelaria’. ‘Mas por que hotelaria?’ ‘Esse pessoal do interior sabe receber,

gosta de receber, sabe colocar as pessoas à vontade.’ E, como eles sabiam, talvez pudessem ensinar. A

última foi: ‘Temos de levar essas pessoas a aprender formas novas de agricultura, criativas, eles têm de

ter perspectivas, não serão caseiros apenas porque seus pais são caseiros, é preciso quebrar essa

engrenagem’. Ela sabia que as pessoas mais interessantes não são as mais conhecidas, as que estão sob

os holofotes; às vezes, as pessoas interessantíssimas estão é fora, e Ruth tinha atenção para essas

pessoas, ela gostava, ia buscar, não ia atrás do consagrado. Ruth gostava de ver fazer, ela punha gosto

nisso. Olhar uma mulher fazendo renda, ou comida, uma peça de artesanato. Quando ela me trazia um

presente, por exemplo, eu abria e ela dizia entusiasmada: ‘Você precisa ver como é feito’. O fazer era

importante, forte para ela. E o descrever? Ela gostava de descrever o lugar, o espaço, a decoração. Foi

essa história do fazer que a levou para a antropologia, porque na antropologia ela estava mais perto da

comunidade, do real, não do abstrato. Ela não gostava tanto da teoria, aliás nem o Fernando, ainda que

ele faça teoria com facilidade. Ela era da concretude, da realidade das coisas, e isso a levou a essa

dimensão do chegar perto, falar com as pessoas, ela sentia interesse pelas pessoas, mais interesse pelas

pessoas que pelos livros. Ruth se formou em Araraquara, ali teve o aprendizado do mundo real, da

valorização do fazer. Tudo o que veio depois poderia tê-la afastado desse mundo, no entanto ela guardou

tudo como uma herança que prezava profundamente. Não ficou nostálgica, e sim evocativa. Carlos

Drummond de Andrade foi para o Rio de Janeiro e o que fez? Falou de Minas, porém Minas era o retrato na parede. Para Ruth, Araraquara não era o retrato na parede, era uma coisa do cotidiano — se comia

goiabada, falava de Araraquara.”

Quando visitavam os Meyer aos sábados, logo após o jantar todos saíam, sentavam-se nos degraus

da entrada, ficavam batendo papo. Então Ruth se esgueirava pelo corredor, ia para a salinha de televisão,

via um capítulo da novela e voltava toda contente. Regina comenta: “Ela não se justificava, ‘Estava

zapeando, por acaso parei na novela’. Via mesmo, gostava, não se envergonhava, se interessava, achava

graça, dizia que as novelas a faziam entender o Brasil. Era uma intelectual sem o pedantismo intelectual”.

“Ruth tinha loucura por Ibiúna, coisa que a Bia não tinha, e a Luciana viveu mais afastada, morando

em Brasília”, comenta Bibia Gregori, que teve uma relação bem próxima com o lugar. “Paulo ali passou

sua juventude e depois, vivendo no Rio de Janeiro, ligou-se menos. Ruth adorava Ibiúna, tanto é que ela,

aos poucos, começou a levar as coisas dela para lá, achava que ia começar a viver um pouco lá, um

pouco cá. Mas era a única que gostava muito. Depois que o caseiro Joaquim foi morto em circunstâncias

misteriosas, aquilo foi virando uma experiência dolorosa para ela.”

Fernando Henrique conclui: “Foram quarenta anos de Ibiúna, e foi muito bom, ali os meninos foram

criados, desfrutava-se a convivência de todos. Depois, casa de campo, você ocupa por geração, primeiro

os filhos, depois os netos. Se os netos vêm, tudo bem, mas nossos netos foram criados todos fora de São

Paulo. Ficamos eu e a Ruth. Lá a gente almoçava e ia para a varanda, tomar sol, ler um pouco. Ela

implicava comigo nisso também, porque eu gostava de dormir na rede. Porque ela não dormia depois do

almoço, então implicava: ‘Você fica dormindo, depois não dorme à noite’. Depois ela parou de implicar.

Ibiúna é a memória de uma vida”.