Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Retalhos da vida cotidiana VIII: A leitora
No Cebrap, Ruth trabalhava numa sala ao lado da escada, e Bibia Gregori e Rodrigo Naves gostavam de
passar para prosear, coisa a que ela não resistia. Os dois sabiam que estavam atrapalhando, mas
adoravam os casos de Ruth. Certo dia, Bibia deu com Rodrigo Naves do lado de fora da sala de Ruth, a
observá-la. Fez um gesto a ela, disse “Veja que beleza”, e Bibia se aproximou. Ficaram por uns minutos
observando Ruth mergulhada num livro, tão concentrada que nem percebeu os dois. “Ela lia de um jeito
especial”, confessou Bibia. “Cruzava a perna muito professoralmente, um tanto pudica, o livro sobre a
mesa, a cabeça levemente inclinada, uma expressão de prazer. ‘Uma imagem linda’, comentou Rodrigo,
que a admirava demais.” Rodrigo esteve no Cebrap entre 1987 e 1996, convidado a reformular a revista
Estudos Cebrap, que se transformou em Novos Estudos.
Contei um dia a Regina Meyer que os boletins de Ruth no ginásio mostravam que suas notas em
português eram mais baixas que as notas em trabalhos manuais e canto orfeônico. E ela acrescentou: “Ela
não era boa de português porque escrever não era o pedaço de Ruth, mesmo. Já ler! Como lia!”.
Fernando Henrique reforça Regina: “Como a Ruth mais lia do que escrevia, ela escrevia com dificuldade
e pouco. Agora, lia muito, e eu sempre dizia: ah, você lê muito e não consegue escrever, as ideias dos
outros atrapalham as nossas. Leio bastante, mas escrevo mais do que leio, o que também não é bom. A
Ruth não, a Ruth lia, lia, lia sem parar, e nunca deixou de ler, até o fim. Ela lia à noite. Ou, então, no fim
de semana. Como dormia tarde, gostava de dormir ali pela uma, duas da madrugada, ficava lendo. Nunca
acordou cedo. Ruth despertava por ela mesma às oito e meia. Até o fim da vida, quando íamos para
Ibiúna, a primeira noite ali, com aquele silêncio, o cheiro da natureza, Ruth dormia dez horas direto. Em
Ibiúna líamos bastante também, aquele recanto foi muito bom desse ponto de vista. Porque se isola e se lê
muito”.
Ela tinha uma relação torturada com a escrita, escrevia pouco, rabiscava tudo e nunca publicava,
porque achava que nunca estava bom, era perfeccionista e achava que faltava sempre alguma coisa, e ela
se recriminava: “Ah! Nunca consigo acabar esses artigos, não tenho parágrafo final”, e as pessoas à volta
diziam: “Ruth, está pronto, manda o texto para publicar, para com isso”. A maior parte das coisas que ela
publicou é da época em que ela estava no Cebrap, porque a pressão para publicar era muito grande, todo
mundo forçando: “Imagine, Ruth, publica, põe aí e publica”.
Lourdes Sola, falando a respeito da divisão do tempo em Ruth, que mantinha inúmeras atividades
paralelas, comentou que “algumas vezes ela deixou escapar: ‘Tive de me dividir e, portanto, não escrevi
tanto como gostaria’. É claro que se ela se comparava com o Fernando Henrique, ou com a minha
geração, que produziu muito em escrita, ela produziu menos, mas ela virou a antropologia”.
“Ela tinha uma relação singular com o que escrevia. É que ela enjoava da coisa assim que acabava
de escrever, então achava que não precisava publicar”, na visão de Bibia Gregori. “Pode ser que outras
pessoas tenham outra interpretação, certamente terão, o que eu acho engraçado, o que a gente via, era que
ela adorava discutir e ter ideias e propor essas ideias para a gente produzir ideias vivas. Ela tinha
imenso apego à ideia viva, quando a ideia passava a ficar enrijecida pelo texto, ela se desinteressava.
Então, por exemplo, os textos que ela publicou, tem textos que são absolutamente pioneiros, mas sempre
tem alguma coisa que ela não burilava, porque ela se desinteressava. Não sei se era um desinteresse, se uma insegurança, não sei, mas ela produzia a ideia e não tinha interesse em publicar. Então, para
publicar, a gente sempre tinha de fazer certo esforço, dizer que a gente revia, porque ela não tinha esse
interesse.”
Conversei sobre isso com a professora Lourdes Sola e a posição dela é que “não é que Ruth não
escrevia, mas escrevia muito menos do que sabia e do que doava”. E comentou: “Escrever é um ato muito
solitário. Escrever com a intenção de fazer algum tipo de ciência, só faz piorar as coisas, pois você tem
uma interlocução direta e imaginária (pode ser fantasiosa) com os autores, mestres, adversários,
concorrentes etc. Seus fantasmas são acionados toda vez que surgem dúvidas. Sua insegurança também.
Imagine se tiver ao seu lado uma pletora de intelectuais extremamente confiantes e competitivos, que
conviviam regularmente com ela e Fernando Henrique Cardoso. Conheço poucas mulheres da geração
dela — nenhuma da geração que a antecedeu, Gioconda Mussolini é um caso paradigmático — que
tenham produzido por escrito o que sabiam — e o que doaram. Mas isso tem a ver com duas ou três
coisas. A meu ver, sempre a meu ver. Uma: o contexto acadêmico, nos anos 1950-1970, era totalmente
outro, não exigiu produção regular na escala que passamos a ter depois, a partir da instauração do
sistema nacional de pós-graduação, que exigia mestrado e doutorado reconhecidos pelo mec para os
docentes. O Florestan, ao obrigar os assistentes, como fhc e outros, a fazer várias teses, não era o padrão.
Nesse contexto, o golpe de 1964 acelerou muito a disposição do Florestan de nos obrigar — aos mais
jovens assistentes, como eu — a fazer imediatamente um mestrado para garantir a nossa inserção formal
na universidade. E a sobrevivência da cátedra de Sociologia. Fizemos, com o que tínhamos e sem a
orientação dela. A Ruth estava em outra cátedra, a de Antropologia. Duas, questão de geração. A dela era
muito menos competitiva, quase nenhuma pressão ‘demográfica’: eram poucos os pares, e poucos os
jovens a pressionar por critérios competitivos. O que dispensou a preocupação com títulos, reforçando as
limitações inerentes à dupla ou tripla jornada das mulheres profissionais. Hoje, para ser livre-docente ou
disputar a condição de titular, são necessárias duas teses mais, além do mestrado e doutorado. Uma vez
escritas, viram livros ou artigos em série. Três, hesito um pouco em dizer, mas a autoconfiança foi
adquirida com o tempo, bem mais tarde, num ambiente que era, e é ainda, machista, e que tendia a
‘ignorar’ o que ela de fato era — em benefício dos pares homens. A imagem que se tem hoje, de enorme
deferência para com a Ruth intelectual e iniciadora das Redes Solidárias, foi construída e isso levou
tempo. Portanto, a terceira razão resume-se à timidez”.
Jorge Caldeira fecha o quadro: “Como dizia o Murilo Mendes, existia o menino experimental, que
toca fogo no circo para testar a eficiência dos bombeiros. Ruth era o menino experimental. O que ela
gostava mesmo era de estar na ponta. Respeitava as instituições políticas no sentido de que achava que
tudo em política tinha de ser institucionalizado, fazer direito, etcétera e tal, mas as ideias dela, ela não se
deixava institucionalizar. Desenvolvia uma ideia nova, testava. Se tudo estivesse certo, apresentava os
conhecimentos. Em geral em paper para um pequeno grupo de especialistas. Esses leitores muito capazes
apresentavam alternativas, sugeriam caminhos – e, claro, faziam os elogios. A imensa maioria dos
intelectuais
guardaria os elogios e publicaria. A Ruth, menina experimental, guardava as críticas que ajudavam a ir
adiante, jogava os elogios na conta das bobagens formais, quase não perdia tempo com publicação.
Simplesmente incorporava as boas ideias da crítica, fazia um projeto ainda mais ousado e ia adiante. Seu projeto intelectual não parava, não ganhava a forma fixa do reconhecimento público. Em vez de livros,
ela produzia inovações permanentes. Com a Presidência do marido, ela viu a oportunidade de mudar de
escala. Tudo aquilo que ela dominava em laboratório foi aplicado ao país como um todo, com o nome de
Comunidade Solidária. Esses resultados são conhecidos, embora quase ninguém saiba como tudo foi
construído. Do meu modesto ponto de vista, acho que superaram até os sonhos que ela e o Fernando
Henrique alimentaram sobre políticas sociais”.