Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
13 Cena farfalhante de um musical
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Cena farfalhante de um musical
Logo depois da eleição e da vitória, o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, deu um jantar em
sua casa na rua Salvador. Celso Lafer e sua mulher, Mary, ali estavam e, a certa altura, conversando os
três, à parte, Celso disse a Ruth:
— Olha, vou te dizer uma coisa. Acho que o Fernando deve muito da eleição dele a você.
— Por quê?
— Você representa o que o Fernando tem de melhor, dignidade e padrões éticos. Você emblematiza
para a opinião pública essa dimensão que é do Fernando, mas da qual você é a expressão mais óbvia.
— Se você acha realmente isso, vai lá e diz a ele.
Ela riu, estava bem-humorada, ainda que inquieta quanto aos dias que viriam. Celso Lafer diz que
não somente foi e contou ao presidente o que tinha acabado de afirmar, como ainda enviou-lhe uma carta
reforçando. “E ele aceitou tudo com naturalidade. Se achava ou não aquilo, não sei, porém o futuro
mostrou, trouxe a comprovação inequívoca dessa dimensão dela, que deve ter surpreendido inclusive a
ele.”[108]
A mulher que tinha perdido o chão no início da campanha presidencial chegou a Brasília recuperada,
ainda que com o pé atrás. Ela começou a perceber o peso da mídia, a sua pressão. Sabia que teria atritos,
que seria necessário impor limites. De que maneira? Decidiu que não daria entrevistas, isto cabia ao
presidente. E nos primeiros tempos ela foi muito crítica, sempre questionava por que estavam
interessados em aspectos pessoais, dizia que invadiam a sua privacidade, que não podia dar um passo
etc. Mas acabou dando uma longa entrevista que foi capa da Veja. Para essa entrevista, foi Fátima
Pacheco Jordão, do grupo de trabalhos sobre a mulher, quem fez a intermediação entre a revista e Ruth.
Quando se garantiu de que quem ia fazer e editar a entrevista era a Dorrit Harrazin, não havendo o perigo
de um colher as informações e o outro editar e escolher as linhas ao bel-prazer, Ruth aceitou. Ao falar,
deixou bem claro que ela seria uma primeira-dama ou uma mulher de presidente com características
totalmente diferentes das anteriores. Já naqueles dias todos perceberam que Ruth ia reorganizar os
termos, os códigos e as funções de uma primeira-dama.
Interessante acompanharmos o trecho de um diálogo que Ruth manteve em 1994 com o repórter
Ernesto Paglia, da Globo. Surge sempre a Ruth professoral, didática, ensinando:
— A senhora, que acompanhou o seu marido, cresceu junto com ele na vida acadêmica, fez uma
carreira independente da dele, agora, de repente, se vê, se a senhora me permite, primeira-dama. Não é
uma surpresa, ou melhor, parece difícil assumir esse papel?
— Bom, devolvo a pergunta: qual é o papel? Acho que esse papel está mudando muito. Aliás, todos os papéis que tradicionalmente as mulheres assumiam, e que eram papéis femininos, estão mudando
bastante, elas estão entrando em áreas onde não entravam antes, estão redefinindo papéis tradicionais.
Neste país, uma dona de casa hoje não é a mesma que uma dona de casa de dez anos atrás. Ela é uma
pessoa que pode ser ativa politicamente, pode ter uma participação na sociedade muito maior do que
tinha antes. Então todos os papéis estão mudando e, certamente, este que ocupo agora também está. Digo
isso não porque eu tenha a pretensão de mudá-lo, mas porque eu acho que no mundo inteiro, se olharmos
em volta, o que está acontecendo com a participação das mulheres são inovações, algumas boas, outras
nem tão boas, mas esta função está sendo trabalhada e está assumindo um caráter bastante diferente do
que tinha.
Numa entrevista para a jornalista Beth Lima, também da Globo, em 1995, que insistiu no porquê da
ojeriza dela ao termo primeira-dama, Ruth retrucou veemente: “Você diz que não gosto de ser chamada de
primeira-dama, mas procure entender que esta é que tem muito pouco a ver com o Brasil, não tem
nenhuma tradição entre nós. É uma coisa nova essa ideia de primeira-dama, por isso acho que ela é
desnecessária, quero dizer que bem poderíamos nos ater a tradições que já temos”.
O carrossel da posse em Brasília durou cerca de 24 horas, porque a efervescência começou no dia
31 de dezembro e prosseguiu até o dia seguinte. A cerimônia foi às onze da manhã, depois seguiram-se
almoço e rituais formais.
José Gregori sintetiza tudo num episódio: “Na noite do dia primeiro, estávamos no jantar no Palácio
das Relações Exteriores, e Maria Helena e eu, quando conseguimos chegar perto da Ruth, eram mais ou
menos nove da noite. Quer dizer que passamos não só o dia inteiro como parte da noite sem
conseguirmos nos aproximar, tal o turbilhão que se estabeleceu. Para chegar ao Fernando, então, demorou
muito mais. Ela estava deslumbrante num vestido criado pela sua amiga Marjorie Gueller. Abraçamo-nos
felizes. ‘Como é, Ruth?’ ‘Parece que estou vivendo uma cena de um daqueles musicais da Metro.
Lembram-se dos musicais? Neles, uma cena se segue à outra e nada tem muita ligação, mas tudo é
colorido, farfalhante! É isso! Aqui tudo é colorido, farfalhante!’”.[109]
A posse de Fernando Henrique tinha sido realizada no primeiro dia de janeiro de 1995. As posses no
Brasil constituem um anticlímax, comenta fhc, porque são feitas num dia em que as pessoas estão em
família, curtindo o primeiro dia de um novo ano, há uma atmosfera de festa, porém de outro gênero, o que
está no ar é um feriadão. Os diplomatas estão em férias ou em viagem, os que chegam são representantes
consulares de menor expressão. No final, salva-se pelo povo, que gosta de uma festa.
Anticlímax foi a “posse” do Palácio da Alvorada, a residência oficial do presidente. Quem visse a
primeira-dama naqueles dias se assustaria, porque ela se transformou em dona de casa. A mulher que
tinha montado todas as casas em todos os anos de casamento, em todos os lugares em que viveram, a
mulher que tinha feito de Ibiúna o seu cantinho, no Alvorada agitou-se. O palácio era desolador, com seus
espaços enormes, o vazio, o mau gosto da decoração. Cortinas rasgadas, carpetes velhos e manchados.
Era um lugar inviável para viver e ela queria transformar aquilo num lugar “vivível”, aconchegante. Ela
poderia ter chamado alguém e ordenado “faça isto”, “faça aquilo”. Mas não a filha da Mariquita. A
mulher de Araraquara meteu mãos à obra, porque as coisas deviam ser do jeito dela.
“Parecia uma casa abandonada, onde ninguém vivia há décadas”, avalia Regina Meyer, que foi para Brasília com Ruth. “E a cozinha, então? Um lugar sombrio, sujo, cheiro de mofo. Andamos por toda parte
e a Ruth ia apontando: ‘Esta sala aqui, ao lado do nosso quarto, vou transformar num cômodo para
ficarmos à noite, conversarmos, vermos televisão’. Percebi então que ela já estava em Brasília, tinha
assumido, enfrentaria tudo, sabia que tinha de estar ao lado do marido. Assim fui vendo chegarem dois
sofás, e um quadro da Renina Katz, a grande amiga, e surgia um paninho, uma toalhinha, e quadros,
objetos, os ambientes iam se transformando.”
Oscar Niemeyer tinha dado ao país uma grande criação, desenhado com dignidade um palácio para o
presidente da República do Brasil, mas com o tempo as coisas tinham se degradado, e o que Ruth estava
tentando recuperar era a dignidade daqueles espaços, trazendo móveis, quadros, esculturas. Só achou que
uma compoteira interiorana não ficaria bem naquele ambiente tão modernista. Recuperou um piano que
estava encostado. Ali era apenas um lugar triste que merecia receber uma mãozinha. Ela mandou
construir uma copa na parte de cima — quando chegavam amigos para jantar, pouca gente, comiam em
cima, era mais íntimo, era o lugar que usavam para lanches quando estavam sós.
Um dia, Francisco Weffort deu uma dica sobre duas esculturas que estavam ao lado da porta no
Ministério da Cultura, ignoradas, em situação estranha. Ela foi ver, ficou fascinada — eram dois
Brecheret, duas figuras femininas lindíssimas. Foram para o Alvorada, mas tudo dentro da lei, com
papéis formalizados. Para esse trabalho ela criou uma comissão em que estavam Emanoel Araújo, Vera
Pedrosa, Lélia Coelho Frota. Esculturas de Maria Martins e Amilcar de Castro foram levadas para lá. O
palácio foi se transformando e adquirindo vida ao longo dos anos. Ela queria — e montou — um lugar
onde o Brasil, na pessoa deles, pudesse receber com dignidade, um lugar em ordem.
O fotógrafo Cristiano Mascaro chegou para documentar o Alvorada, passou dois dias, registrou tudo,
até hospedou-se lá. Certa tarde, Regina Meyer ouviu um diálogo.
— Qual é o cantinho que a senhora mais gosta neste palácio? Qual é o seu cantinho?
— Cantinho? Como, cantinho? Esta não é a minha casa, é a casa do presidente da República do
Brasil, no momento ocupada por mim.
O cantinho era a casa dela em São Paulo, a casa de Ibiúna, retratos da vida dela. Muitas vezes, na
hora de um jantar, Dalina, que se tornou um braço direito de Ruth, colocava a toalha na mesa e descobria
um rasgo, uma renda esgarçada — eram jogos de toalhas da Tchecoslováquia que estavam lá desde os
tempos de Juscelino, sem manutenção. A primeira-dama desaparecia, surgia a dona de casa com agulha e
linha na mão. Ela de um lado, Dalina do outro, cerzindo o melhor possível. Daisy Setubal, mulher de
Olavo Setubal, que foi ministro das Relações Exteriores no governo Sarney, conhecia a situação e ficou
tão penalizada que deu de presente ao Alvorada um jogo de toalhas de linho.
Embate duro, complicado, foi com a cozinha do palácio. Foi um desafio difícil, ela quase desistiu por
causa das tradições e da burocracia existente. No início foi uma tragédia, porque a cozinha do Alvorada
estava a cargo da Marinha e os cozinheiros eram taifeiros. Uma coisa inominável, garante Celso Lafer,
que comeu ali várias vezes. Era muita lataria, muita maionese,
comida de gente que ficava 25 dias no mar. “As razões dela eram muito substantivas”, releva Lafer, “a
comida era um horror.” Ruth ia para a cozinha e tentava fazer mudanças numa simples salada. Impossível.
Qualquer coisa, por mais elementar que fosse, encontrava obstáculo. Era a inação da burocracia. Em determinado momento, Ruth achou que tinha encontrado a solução quando o embaixador em Paris, Carlos
Alberto Leite Barbosa, sugeriu que se enviasse o pessoal da cozinha do palácio à França, para fazer um
estágio com algum chef ou numa escola estrelada, a fim de que aprendessem a diferença entre lataria e
cozinha. Não foi solução. Deu em nada. A solução só veio quando Roberta Sudbrack, uma das melhores
chefs do eixo Rio-São Paulo, foi contratada.
Mary e Celso Lafer deixaram uma boa herança para Ruth, a secretária Dulcineia, segundo os dois
uma personagem fantástica. Conhecia todo o funcionamento da máquina, dos bastidores, dos usos e vezos
da burocracia, sabia onde as coisas pegavam e emperravam. Inteligente e hábil. Quem a “herdou” depois
foi o embaixador Alberto da Costa e Silva. Para enfrentar e destrinchar o cerimonial, Ruth encaminhava
Dulcineia. Se bem que ela mesma às vezes dizia “Isto é a senhora que tem de fazer”, em outras
tranquilizava: “Deixe comigo, resolvo o assunto”. Ruth gostava muito dessa secretária, ainda que
reconhecesse que “para ela chegar no ponto exato, preciso ouvi-la durante meia hora, porque ela nunca
vai direto ao assunto”. Isso porque a mulher tinha encarnado o jeito e a maneira do Itamaraty. Conhecia e
julgava bem as pessoas, mas nunca batia de frente, montava as narrativas cheias de desvios e
maneirismos. Mas protegia bem Ruth. Sabendo quem era quem, depois de meia hora, quarenta minutos,
chegava e cortava a reunião, encontro, fosse o que fosse, com quem fosse.