Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
17 Nunca se viu tanta unanimidade
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Nunca se viu tanta unanimidade
Ruth e Fernando Henrique tinham voltado de uma viagem à China, ela estava entusiasmada, sentia-se tão
bem que ele, em seguida, fez uma rápida viagem de três dias a Paris, cidade que ela planejava visitar
com a neta Isabel, filha de Luciana. Isabel morava em Brasília, era a única neta que ainda não tinha
viajado com Ruth, o que tornava a viagem um sonho que a deixava feliz, só falava nisso. Estava com
passagens compradas e programava museus, passeios, queria mostrar a cidade em detalhes, refazer os
itinerários de sua vida em Paris. Na noite de 20 de junho de 2008, uma sexta-feira, Ruth e fhc tinham um
programa oficial: ele, como presidente do Conselho Administrativo da Fundação Osesp, receberia o
príncipe Naruhito do Japão na Sala São Paulo, onde haveria um concerto da Orquestra Sinfônica de São
Paulo, em comemoração aos cem anos da imigração japonesa. Lembremos que a tese de doutorado de
Ruth foi sobre a imigração japonesa no Brasil.
Ela passara a tarde no Hospital Sírio Libanês, onde Maria Helena Gregori, sua amiga de juventude,
estava internada desde o dia 11 e tinha passado por uma cirurgia delicada. Conversaram muito e Ruth foi
embora junto com Bibia, filha de Maria Helena. Quando fhc chegou em casa, no início da noite,
conhecendo a mulher e seus atrasos, encontrou-a no computador. Vivia recebendo e respondendo e-mails
ou escrevendo seus textos, às vezes até duas da manhã.
— Ruth, não está pronta?
— Não, mas espere, me apronto num minuto.
Fechou o computador, levantou-se, apalpou a mandíbula.
— Parece que estou com uma nevralgia. Fui abrir uma janela, acho que levei um golpe de ar, me deu
uma dor incômoda.
— Talvez seja melhor você não ir.
— Não, nada disso! Tomo um banho rápido e vamos.
No banho, fez uma leve massagem com a água quente, melhorou. Meio atrasados, cortando caminhos,
conseguiram chegar antes do príncipe, e aguardaram a chegada da comitiva. Ruth passou por Pedro
Moreira Salles e nem olhou para ele. Pedro estranhou, segurou-a pelo braço, e brincou:
— Ruth, não me conhece mais? Foi alguma coisa que fiz?
— Pedro, me desculpe. Mil desculpas. Não estou bem hoje, fiz mal em vir aqui, estou aérea,
estranha.
“Ela parecia um tanto transtornada”, confessou depois Moreira Salles.
Cumpridas as formalidades, foram todos para o camarote oficial, cercados por japoneses. O
concerto começou e fhc ficou de olho nela. Para ele, Ruth não parecia normal, tinha uma feição esquisita, via-se que estava com dor. Ele pegou a mão dela, estava fria. Mais tarde, ele diria que ao olhar as
fotografias daquela noite, pode-se perceber que havia uma expressão nebulosa no rosto dela, como se
estivesse em outro lugar. No intervalo, Ruth cochichou: “Vou embora, a nevralgia está me incomodando.
Você fique, por favor!”.
Fernando Henrique e Pedro Moreira Salles a acompanharam até o elevador. Assim que o concerto
terminou, fhc voou para casa e encontrou-a tomando sopa: “Melhorei. Não se preocupe, estou bem”.
Na hora de deitar-se, tomou um remédio e dormiu. Acordou às duas da manhã, com muita dor no
peito. Fernando Henrique, imaginando que fosse um infarto, preocupadíssimo, ligou para o celular do
cardiologista dela, o doutor Artur Ribeiro, que estava em Berlim, e descreveu os sintomas. Ribeiro
diagnosticou: “Dor também na mandíbula? Sintoma de angina, leve-a rápido para o Hospital Sírio
Libanês”.[134]
De Berlim, onde eram seis da manhã, Ribeiro ligou para o cardiologista Edson Stefanini, de quem
Ruth gostava, e recomendou que fosse para o hospital, a recebesse, fizesse os procedimentos, enquanto
ele acelerava o retorno ao Brasil. Em casa, fhc chamou o filho Paulo e levaram Ruth para o Sírio
Libanês. Feito o eletro, constatou-se que era realmente angina, não um infarto, ela tomou Isordil, a dor foi
atenuada. “Ela estava muito bonita nessa noite, mostrava-se serena, conversou um pouco e dormiu”,
lembrou-se Fernando Henrique. Às cinco da manhã, ele e o filho voltaram para casa, descansaram e, ao
retornarem ao hospital, Ruth já tinha saído da semi-intensiva e estava no apartamento, mostrando-se
preocupada com Maria Helena Gregori, internada no andar de cima.
“Estou boa, posso voltar para casa”, dizia, inquieta.
Aquele coração vinha preocupando a família há alguns anos, não era um processo recente. Em fevereiro
de 1988, ao voltar de um seminário sobre “La participación de la mujer em programas de salud de la
comunidad”, em Santiago de Cuba, ela começou a sentir seguidas indisposições. Por volta de maio, além
da indisposição vieram fortes dores de cabeça, e Ruth Cardoso, com quase 58 anos, conversando com
sua sobrinha, a médica Fernanda Boueri, filha de sua tia Circe, descobriu-se hipertensa. Em seguida, veio
a consulta com o médico Artur Ribeiro, que confirmou a hipertensão, normal em mulheres de sua idade, e
medicou-a.
Ribeiro estava ligado à família Cardoso desde 1983, quando, por intermédio de José Arthur
Giannotti, que tinha conhecido e tratado em Nova York, tornou-se o cardiologista de dona Nayde, mãe de
Fernando Henrique, que até a morte dela, em 1984, passou a tratá-lo como a um filho. O processo da
doença de dona Nayde não foi simples, obrigava-a a contínuos exames, e Ruth estava sempre ao lado
dela, presente, acompanhava a sogra em tudo, unidíssimas.
A relação, que até então tinha sido de amizade, dali em diante passou a ser também de médico e
paciente. Naquele ano, na primeira consulta, depois de ouvir sobre sintomas e consequências, permeados
por termos técnicos herméticos aos leigos, Ruth foi objetiva:
— Artur, não me venha enganar com papo de médico! A minha mãe sempre foi entendida nisso e me
passou algum conhecimento. Você só vai me dar coisas que eu aceitar. Nossa conversa será negociada.
Você propõe, questiono, aceito ou não, e vamos ver como isso anda!
— É um direito seu, está bem.
Na hora da receita, ele indicou Higroton, um diurético.
— Diurético? Não, senhor.
— Por que não?
— Diuréticos estragam a pele.[135]
Ruth era assim, discutia, dava sua opinião, colocava na mesa — o que, vez ou outra, gerou
problemas no governo. O remédio foi trocado. Naqueles primeiros exames, descobriu-se que Ruth não
tinha condições arteriais muito boas, o coração estava um pouco crescido, e o colesterol era elevado.
Remédios contra o colesterol, em geral, provocam dores musculares. Ruth ficou atenta e, se a ponta do
dedo doía, ela reclamava: “É o teu remédio!”.
Foi uma pequena novela, às vezes com certa comicidade da parte dela, para controlar a pressão alta
e o colesterol. A cada medicamento, ela abria, lia a bula, fazia uma sabatina. Certo dia, quando Artur
associou dois remédios, ela leu as bulas e deu um pito: “Artur, estes dois remédios não podem ser
associados”. Falava com firmeza, nunca agressivamente. Todos que trabalharam com ela conheceram os
pitos de Ruth, até José Serra, conhecido pela sua franqueza.
Veio a explicação científica, ela aceitou. Com ela era assim, “na linha”, outra expressão
araraquarense. No entanto, nunca fez nada sem ouvir o médico. A amiga Regina Meyer revela outra
faceta, ao contar como a sua dermatologista ponderava: “Por que você não é como a dona Ruth Cardoso,
que obedece todas as recomendações, usa direitinho todos os medicamentos e pomadas e cremes, é
disciplinada?”. Aquela oposição a remédios que traziam efeitos colaterais era uma defesa, ao mesmo
tempo em que “revelava um aspecto juvenil dela, uma rebeldia”. Ruth foi uma cardíaca que evoluiu sob
controle, sem nenhum problema maior, sem restrições e sem preocupações de porte.
Estava bem quando, em setembro de 1988, partiu para os Estados Unidos, a fim de fazer estudos
para o pós-doutorado em Nova York, na Universidade Columbia e também na Universidade de Nova
York. Permaneceu lá três meses e, segundo as amigas, curtiu a “solidão”, longe de tudo, do cotidiano
brasileiro. Ela gostava, eventualmente, desses espaços abertos dentro de uma rotina de casa, academia,
orientadora de teses, pesquisadora, participação em comissões, como o do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico, cnpq, do Instituto de Saúde do Estado de São Paulo, da
Fundação Nacional para Apoio a Projetos, Finep. Eram momentos de respiro. E Nova York significava
também muito cinema, musicais, muito teatro, livrarias e museus.
Ela era consciente de sua situação cardíaca e sempre se mostrou atenta à alimentação, o que de certo
modo exigia aqui e ali sacrifícios, uma vez que a cozinha era um de seus reinos. “Tenho esta saúde
porque como frutas, gosto de frutas. Não exagero, não sou como Fernando Henrique, que come de tudo,
devora o que está à sua frente.”
Ribeiro acentua que ela sempre foi afetuosa, sem dispensar, jamais, a posição crítica. Quando o
médico começava a explicar demasiadamente sintomas e consequências, ela rebatia: “Ai, quanta besteira,
Artur”. No tom da voz havia um certo carinho. A expressão é igualmente típica de Araraquara, de
pessoas mais velhas. Ruth, já primeira-dama, sempre preferiu vir a São Paulo para check-ups, daí
algumas viagens feitas em sigilo. Não era desconfiança da medicina em Brasília, era muito mais uma
questão de preservar a intimidade. Na capital, se ela se internasse, teria na porta do hospital uma bateria
de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos o tempo todo, e ela temia que isso perturbasse a tranquilidade dos outros, além da invasão ao seu espaço pessoal, com os infalíveis boletins médicos diários. Quanto ao
problema cardíaco, mesmo as amigas chegadas souberam muito depois, ela era absolutamente reservada.
Já com o Comunidade Solidária correndo, Ruth costumava convocar Ribeiro de tempos em tempos,
com relação a ajuda quanto a problemas médicos: “Tenho aqui umas coisinhas em que você pode me
ajudar”.
Eram cartas que vinham de todo o Brasil pedindo coisas. Uma delas sensibilizou Ruth, que a
repassou ao médico: “Veja como resolver”. Era uma mãe de Salvador cuja filha tinha ausência de
hormônios de crescimento, um problema que pode ser resolvido. Só que é um tratamento muito caro. Mas
foram movidos os pauzinhos e se conseguiu o medicamento por meio do Programa de Saúde do Estado de
São Paulo. A menina cresceu. Agradecida, a mãe escreveu de novo dizendo que não tinha dinheiro,
porém oferecia sua casa como pagamento. Ruth se comoveu com tanta simplicidade e desprendimento.
Ruth continuou a ser avaliada periodicamente e os médicos estavam seguros de que os distúrbios que
ela apresentava eram normais em 10% da humanidade, sem matar ninguém, devido à baixa frequência.
Ela se sentia bem e dava pitos:
— Vocês estão inventando, não tenho nada no coração.
— Não inventamos nada, lemos os exames, diagnosticamos.
Ela lia atentamente, pedia explicações de tudo, queria ver os dvds do exame, ganhava cópias, exibia
para a família. Em abril de 2004, morando na rua Rio de Janeiro, costumava fazer caminhadas pelas ruas
do bairro de Higienópolis. Um dia, depois de subir uma escada que leva de uma rua a outra, ela parou no
alto e ligou para Artur Ribeiro pelo celular:
— Olha, estou sentindo um formigamento no peito.
— Não gosto nada disso. Para um médico, é um sinal ruim. Vamos fazer um cateterismo, não
podemos brincar. Você está com um problema e temos de diagnosticar.
— Cateterismo? Ah! Vocês são sempre assim, querem um procedimento agressivo, querem me passar
um cano por dentro do corpo, e não sei o que mais...
— Ruth, por favor, venha já!
Ela foi para o Hospital da Universidade Federal de São Paulo, Unifesp, também conhecido como
Hospital do Rim, onde Ribeiro sempre a atendia, e, feita uma cinecoronariografia, apareceu um problema
e os cardiologistas decidiram implantar dois stents, espécie de pequenas molas que regularizam o fluxo
sanguíneo. Nem precisou anestesia, a Ruth foi dado apenas um calmante, porque Artur a conhecia bem.
Fernando Henrique e Paulo assistiram à colocação, ela dormiu uma noite no hospital, no dia seguinte teve
alta. “Dormiu no hospital por precaução e um tanto por insistência das enfermeiras, que a conheciam e a
adoravam”, ressaltou Ribeiro, completando: “Dali em diante, tínhamos uma paciente coronariana, que é
uma das grandes causas de morte no mundo, consequente à hipertensão”. Vez ou outra, Ruth sofria breves
tonturas, ligeiros cansaços, mas ainda que com o coração fibrilando, não teve maiores problemas,
continuava a tomar um betabloqueador, que faz o coração bater em ritmo mais baixo, e deu-se bem.
Certo dia, Ruth deu outro pito em Ribeiro: “Você é muito organicista, ou coisa semelhante, não sei
bem, você só pensa em remédio. A vida é mais do que isso. Sabe o que vou fazer? Dieta! Vou procurar
uma médica light, natural”.
Mas, devido a um problema de coluna, um bico de papagaio que apareceu, ela passou a se tratar com um fisioterapeuta especialista em naturopatia, a medicina natural. Fazia ginástica, gostava, caminhava,
cuidava-
-se. Assim, a situação foi mantida sob controle, até que, no início de 2008, Ruth, bastante apreensiva,
ligou para o cardiologista.
“Meu coração está batendo esquisito!”
Feito o eletrocardiograma, verificou-se que a fibrilação atrial dela, que era de frequência baixa,
estava alta. O médico se viu numa situação de alerta, pois significava que ela poderia sofrer um avc a
qualquer momento. Chamou outros dois cardiologistas. Angelo de Paola, especialista em eletrofisiologia
do coração, e Valter Correia Lima, avaliaram e decidiram que o caminho, naquele momento, seria
anticoagular Ruth como prevenção. Ou seja, deixá-la com o sangue menos coagulável. Decidir é fácil,
colocar em prática já é mais difícil — é preciso experimentar até chegar à dose certa, ao índice ideal
rezado pela medicina, a fim de evitar o avc que estava sendo sinalizado. O que significou que, a partir
daquele dia, uma vez por semana ela estava no consultório para colher sangue, verificar a
coagulabilidade e ajustar a dose do medicamento. Isso a incomodava tremendamente. Acrescente-se
outro problema que ela vinha apresentando há algum tempo, o de sangramentos esporádicos pelo nariz.
Quando morava em Brasília, onde o clima é árido, ela começou a apresentar dificuldades respiratórias e
sofreu uma laringotraqueobronquite, que se manifestava por meio de tosses secas e intolerância ao ar-
condicionado. Ruth sofria nos meses secos.
Os sangramentos continuaram, sempre observados pelos otorrinos e pelos cardiologistas, estes
cautelosos por causa da medicação anticoagulante e o medo do avc. Por duas vezes ela foi internada,
ainda que rapidamente, uma delas às pressas, em plena madrugada, tendo sofrido microcirurgias para
conter o sangramento. A partir daí, Ruth passou a demonstrar certa insegurança, ficava intranquila quando
precisava viajar, consultava sempre os médicos: “Preciso ir a Salvador, tenho uma reunião. Acham que
posso?”. Vacilava antes de assumir compromissos, embora do ponto de vista cardíaco estivesse bem,
fazia ginástica, comia com gosto, tinha até engordado um pouco, a família chegou a brincar com o
médico, chamar sua atenção. Porém ele se justificava: “Nunca fui adepto da medicina castrativa”.
Vieram então as viagens à China e a Mendoza. O roteiro para a Argentina previa uma escala na
Bolívia, porém os médicos pensaram nos problemas de altitude e recomendaram que não fizessem a
escala, que fossem diretamente. Ruth, ao regressar da China, contou que tinha adorado a viagem, visitara
o deserto de Gobi, andara de camelo, fora ver a Grande Muralha, que Fernando Henrique, sempre
competitivo, tinha subido mais rápido do que ela. “Rimos muito”, confessou.
Logo depois da viagem à China, no começo de agosto, Ruth, Fernando Henrique e Lourdes Sola
tinham jantado na casa de Anna Verônica Mautner, amiga de longos anos. Lourdes tem a imagem desse
jantar bem viva: “O casal estava ‘tomado pela China’, este foi o assunto principal. Depois, falamos muito
sobre Obama, o que significava, não significava, se ganharia ou não. Foi antes mesmo de sua indicação
pelos democratas. Acho que nós duas fomos as únicas de nosso meio a ver o que acontecia com Obama.
Ruth tinha muita sintonia, era uma coisa intuitiva, instintiva com as mudanças sociais, sempre teve. ‘Ele
vai ganhar’, dizia. ‘Quer apostar?’ ‘Eu não, também acho. Por que não aposta com Fernando Henrique?’
Outro tema no jantar foi antropologia, misturada com mercado financeiro, e se alguém nos ouvisse ia
achar estranho, ela começava uma frase, um pensamento, eu continuava na mesma hora, e o mesmo da parte dela, eu começava, ela prosseguia, sem intermediação. Produto de uma intimidade profunda, de uma
ligação de anos e anos. Disse a ela que se alguém nos ouvisse ia achar que éramos loucas”.
No dia 18 de junho, aniversário de Fernando Henrique, Bia, Paulo Henrique e Van Van decidiram
comemorar com um jantar fora e Ruth, que gostava de variar, lembrou-se da cozinha espanhola e foram
para o Eñe, na rua Mário Ferraz. Restaurante novo, tinha acabado de sair uma matéria sobre ele. fhc
levou uma garrafa de Vega Sicilia e todos brindaram. Paulo Henrique estava preocupado nesse jantar,
porque ela viajaria com a neta Isabel para Paris, depois seguiria para Washington. Em determinado
momento, ele pediu à mãe: “Não viaje agora, não. Vou ficar em São Paulo, tomando conta de você”.
Sempre houve entre os dois uma ligação profunda, ela adorava o filho. Se alguém quisesse irritá-la
era dizer que o Paulo era a cara do Fernando Henrique. Ela retrucava na hora, brava: “Não é não, ele se
parece comigo, é a minha cara!”. Nesse jantar, ela sorriu ao responder: “Vou viajar e vou viver o que
tenho para viver. Vou fazer tudo, não adianta você vir me dizer que não, porque vou. Não se esqueça
disso”.
E foi dormir feliz da vida, acordou serelepe, recordou-se Van Van.[136]
Ruth teve suas atividades normais até a noite de 20 de junho de 2008, quando deixou o concerto da Osesp
e voltou sozinha para casa.
No sábado, dia 21, Ruth foi para o apartamento após os exames e Maria Helena Gregori foi visitá-la
na companhia da filha Bibia. Conversaram, logo entraram Fernando Henrique, Paulo e Van Van e, como
começou a chegar mais gente, Maria Helena voltou ao seu apartamento. Fernando Henrique telefonou
para casa, a empregada Terezinha Barbosa de Moraes atendeu, e ele indagou:
— Você não gostaria de fazer companhia à Ruth hoje?
— Seria um presente para mim.
— Pode vir já? Quando pode vir?
— Vou congregar, vou de mala e de lá sigo para o hospital.[137]
“Congregar” significava participar da cerimônia na Congregação Cristã no Brasil, da qual ela fazia
parte há 25 anos. Ruth sabia e incentivava, era preciso ter uma crença, fé em algo. Os encontros eram na
Congregação da rua Heitor Penteado. Terminado seu culto, Terezinha partiu para o Sírio Libanês.
Aproveitou que ainda havia visitas no quarto e subiu para ver Maria Helena Gregori. Quando desceu,
Ruth estava cochilando.
“Estranhei, ela nunca dormia cedo, era uma coisa com a qual eu estava acostumada. Muitas vezes,
tarde da noite, em casa, ia olhar e encontrava dona Ruth ao computador, mandando e-mails ou
trabalhando em algum projeto. Ali no hospital fiquei de vigília, quase não dormi, atenta, mas vi que ela
dormiu profundamente, parecia tranquila”, relata Terezinha.[138]
No domingo, Maria Helena e José Gregori desceram antes do almoço, ficaram mais de duas horas
conversando, até que o médico Artur Ribeiro chegou da viagem e comunicou que fariam um cateterismo.
Na mesma hora, segundo Maria Helena, Ruth disse: “Quero fazer no seu hospital!”. O hospital era o do
Rim. “Pois bem, faremos lá, na segunda-feira.”
Em seguida, Ruth ligou para Anna Verônica Mautner e ficaram conversando um largo tempo. Ruth
desligou e sugeriu: “Vamos marcar um jantar de poesia, o Zé tem de declamar isto e aquilo”. E citou alguns poetas que José Gregori interpreta bem.
Logo depois Teresa Caldeira ligou, tinha chegado dos Estados Unidos.
— Não sabia que você estava no hospital, Terezinha acabou de me contar. Vou para aí.
— Nem pensar. Imagina! Estou aqui, não sinto nada, esses médicos é que não me deixam ir para
casa. Nos vemos esta semana.
Tinha se tornado uma frase recorrente dela, como um mantra — “esses médicos não me deixam ir
para casa”.
“Estou indo para Portugal, tenho uma conferência, vou abrir um congresso de sociologia. Na volta,
marcamos, nos encontramos.”
No domingo, Regina e Luiz Meyer fizeram uma visita. Ao sair, Regina brincou:
— Agora você vai ficar sozinha, não é?
— Não, olha aqui.
Bateu com a mão num livro, era de uma autora africana com quem ela teria um encontro naquela
semana.
No final da tarde, Fernando Henrique ligou outra vez para Terezinha:
— Pode repetir a dose...?
— Quer dizer, ficar com dona Ruth?
— Sim.
— Vou congregar e sigo para aí, como ontem.
Terezinha conta que, quando chegou, Ruth sorriu:
— Estou com tanta saudade da minha sopinha.
Nessa noite as duas dormiram bem, só acordaram com as enfermeiras entrando no quarto. Tomaram
o café e, por volta das nove horas, o doutor Artur Ribeiro foi buscar Ruth, enquanto Terezinha apanhava
um táxi e voltava para casa, levando algumas flores e uns presentes que tinham chegado. De domingo
para segunda, Maria Helena comeu alguma coisa que não caiu bem, passou malíssimo, não visitou Ruth,
soube que ela havia sido transferida para o Hospital do Rim. No cateterismo, foi detectada uma
obstrução numa artéria muito pequena, todavia os médicos decidiram não mexer, não era o caso. Maria
Helena, por causa da indisposição, não teve alta na segunda-feira, os médicos preferiram esperar.
Quando Ruth voltou para casa, felicíssima, começou a contatar amigos, enviando e-mails para todos
os lados. Um destes e-mails foi para Regina Esteves que, nos Estados Unidos, preparava um projeto
muito querido para Ruth, o lançamento do Alfabetização Solidária no mercado americano, em parceria
com a iniciativa privada. Pessoas físicas poderiam adotar um aluno brasileiro no processo de educação.
Foram longas as negociações e Regina convenceu Ruth a fazer um evento na Organização dos Estados
Americanos — oea. Faltavam detalhes finais, Regina embarcou com o marido e os filhos, deu-se umas
feriazinhas.
No dia 24 de agosto de 2008, uma terça-feira, dia frio, Ruth levantou cedo, foi tomar banho, olhou o
corpo em busca da marca de entrada do cateter, mal conseguiu localizá-lo, e fez um curativo com a ajuda
do marido.[139]
— Agora vou fazer uns exercícios — comunicou.
— Está louca? Nem pense nisso. Acabou de sair do hospital, não tem cabimento.
Ela sentou-se na cama, deu uma organizada nas pilhas de livros sobre o criado-mudo:
Tocquevilleanas: notícias da América, de Roberto DaMatta, Memórias de Adriano, de Marguerite
Yourcenar, o Caderno de Literatura do Instituto Moreira Salles dedicado a Guimarães Rosa, O salão de
beleza de Cabul. O mundo secreto das mulheres afegãs, de Deborah Rodriguez, os originais de Os
sonhos que alimentam a vida, autobiografia de José Gregori, inteiramente anotado para a orelha que ela
escreveu, O banqueiro dos pobres, de Muhammad Yunus (que admirava Ruth, tornara-se amigo dela), A
cabeça do brasileiro, de Alberto Carlos de Almeida, Tigre de papel, de Olivier Rolin, um programa do
Cirque de Soleil, ao qual levou todas as netas, uma caixa de bombons semivazia, que a fez sorrir,
pensando no regime, uma pasta com originais de artigos de fhc,[140]um livro sobre o d.o.m., de Alex
Atala, um de seus restaurante favoritos — adorava ler sobre gastronomia.
Durante o almoço, ela e Fernando Henrique conversaram, programando a semana. Haveria um jantar
com Roberto Schwarz, ela queria saber quem viria, para equilibrar os casais. Tinha essas preocupações.
Às três da tarde Fernando Henrique se foi, tranquilo, ela estava com excelente disposição. O filho Paulo
Henrique passou por lá, conversaram, e, de repente, uma vez mais, ela criticou os cariocas. “Vez ou
outra, lembrava-se de que tinha essa ojeriza, era um trauma.”
— Mas, mãe, você não pode falar isso, moro no Rio há trinta anos, seus netos moram no Rio, setenta
por cento de sua família está lá.
Nesse momento, ela o surpreendeu, revelando:
— Você nunca foi esnobado como eu fui. Diziam que eu era branca, muito branca, que eu era caipira.
Nessa conversa, de repente, assim sem mais, ela disse onde queria ser enterrada.
— Mãe, que é isso? Que papo é esse?
Ela falou onde Mariquita e José estavam sepultados, queria estar ao lado deles, queria juntar toda a
família.
“Ah, mãe! Fique tranquila, deixe que eu faço isso, um dia coloco todo mundo junto!”
Ruth estava particularmente bem nessa tarde, sentia-se contente. Paulo Henrique partiu, logo depois
Van Van chegou, encontrou-a feliz, dizendo: “Vamos arrumar essas flores”. Começaram a distribuir pela
casa as dezenas de buquês e ramalhetes de flores vindos de amigos, colaboradores e organizações que
enchiam a casa. Entre um arranjo e outro, um e outro cafezinho (sempre na quantia exata, duas xícaras),
Ruth lembrava-se de alguém, corria ao computador, enviava um e-mail. Até o final da tarde teria
mandado mais de vinte. Cheios de júbilo, confessam os amigos. Feliz por estar bem, de volta a sua casa,
detestava hospital. Van Van contou em minúcias a exposição Espelhos: reflexos e reflexões, na Galeria
Marilia Razuk, da qual era a curadora, reunindo artistas contemporâneos que usaram espelhos em suas
obras. Ruth quis saber tudo, trocaram ideias. Pouco antes de sair, Van Van notou que Ruth tinha
desaparecido, procurou-a, e a encontrou no quarto, empurrando uma mesinha de televisão que não era
leve. Pediu que deixasse aquilo, depois ela e o Paulo mudariam o móvel de lugar. Ruth continuou
empurrando: “Veja como é fácil, tem rodinhas”, e ria. Ao se despedirem, ela prometeu à nora: “Por mim,
iria hoje. Os médicos me proibiram de sair. Fico, contra a minha vontade. Amanhã vou, pode esperar.
Esse tema, o dos espelhos, me interessa, é uma coisa de Jorge Luis Borges. Deve ser linda a exposição”.
E Van Van se foi. Ruth chamou Terezinha e avisou: “Olha, Fernando Henrique tem um compromisso à
noite, vai jantar fora, então você bem que podia fazer aquela sopinha nossa”.
Era uma sopa simples, ou com ossobuco ou com frango sem pele. Extraía-se um caldo espesso, sem
gordura, misturava-se com legumes bem picados, e Ruth adorava que acrescentassem também aveia. No
final da tarde, depois de telefonar à mulher e certificar-se, uma vez mais, de que ela se sentia bem,
Fernando Henrique Cardoso, tranquilo com a recuperação de Ruth, deixou o Instituto que leva seu nome,
no Anhangabaú, e se dirigiu ao Hotel Golden Tulip Plaza, na alameda Santos. A convite do Instituto de
Estudos Empresariais, ia fazer uma palestra sobre o tema “O Brasil num mundo em transformação:
desafios e perspectivas”.
Ruth ligou para Rosiska Darcy no Rio de Janeiro, alegre, avisando que tinha deixado o hospital e
que estava perfeita, tinha sido apenas um susto. Rosiska prometeu vir a São Paulo quando descobrisse
uma brecha. No meio da tarde, Celso Lafer telefonou, disse que gostaria de lhe fazer uma visita, ela
repetiu que estava bem, mas que adoraria que ele aparecesse no fim de semana.
— Quer que leve uma cachaça das boas? Tem a do meu primo, Armando Klabin. Vem da fazenda
dele em Minas, você experimenta, me diz.
— Pois me traga essa!
Quase ao mesmo tempo, Paulo Henrique Cardoso tomou um táxi na cidade, decidido a passar em
casa para tomar um banho e trocar de roupa, a fim de chegar em tempo ao vernissage de Van Van.
Quando o táxi parou em frente ao prédio da rua Rio de Janeiro, o motorista não tinha troco e Paulo
subiu para apanhar dinheiro. Ele entrou, procurou pela mãe, encontrou-a no escritório ao telefone:
— Você tem troco para eu pagar o táxi?
Ela fez um sinal, espere, e disse seca e rapidamente:
— Não vê que estou falando com meu fisioterapeuta?
Paulo virou as costas, foi à procura de Terezinha, não a encontrou, voltou, viu a bolsa da mãe, tirou a
carteira, apanhou quinze reais e desceu. Ao subir, deu com Ruth na porta, esperando. Inquieta, achava que
o filho tinha ido embora, bravo com a maneira como ela dera um “corte” nele. Às vezes, quando ela se
mostrava rígida, severa, para dar um “corte” nela, Paulo sumia. Quase um jogo entre os dois.
— Filho, você sumiu, saiu correndo...
— Tudo bem, mãe, precisava do dinheiro, apanhei eu mesmo, foram quinze reais.
— O que veio fazer?
— Tomar um banho, me aprontar, vou para a galeria encontrar Van Van. Antes, vou comer alguma
coisa, estou com fome.
— Vamos para a cozinha, conversamos um pouco.
Era o que gostava de fazer, conversar, contar histórias, tinha sempre assunto.
“Naquela tarde, ela estava particularmente radiante, feliz por ter deixado o hospital, o cateterismo
tinha sido tranquilo, o médico estava satisfeito. Os dias anteriores tinham sido tensos, mamãe tinha ficado
assustada”, disse Paulo. Nem chegaram a sentar-se, Paulo abriu a geladeira, pegou um pedaço de queijo e
virou-se para Terezinha:
— Tem banana?
Ruth aconselhou:
— Coma uma pera, é muito melhor.
Terezinha apontou para uma fruteira cheia de bananas vindas de Iguape, trazidas por amigos dela.
— Purinhas, das boas, experimente.
A empregada saiu, Paulo apanhou uma e viu a mãe oferecendo:
— Olhe este figozinho seco, trouxe da China, delicioso.
Passou a contar histórias da viagem recente. Então, levou a mão ao peito e deu um suspiro abafado:
— Ui.
Nada mais, como se fosse um sopro provocado por uma dor intensa.
— Mãe...!
Ao ver que ela cambaleou, Paulo largou tudo, segurou-a por trás, porém um corpo desmaiado pesa, e
os dois foram ao chão. Ele acomodou a cabeça de Ruth, começou a ver pulso, temperatura, saiu correndo
em busca de Isordil, um remédio que ele também toma depois de ter colocado dois stents.
Completamente transtornado, desesperado, sem saber que atitude tomar, o que fazer, tentava massagear o
coração. Chegaram as empregadas, Terezinha e Rose, e começaram a chorar.
— O que fazemos? O que fazemos?
— Não sei, rezem.
Terezinha abaixou-se, amparou a cabeça de Ruth. Atordoado, Paulo correu ao telefone e ligou para o
Hospital Samaritano, a duas quadras dali, pedindo ambulância e uma equipe médica. Esperou, andando
para lá e para cá, olhando a mãe no chão da cozinha. Ligou de novo, pedindo urgência. Nada. Acabou
ligando cinco vezes, inclusive dizendo “É a primeira-dama!”. Aí Terezinha telefonou para Sandra, uma
vizinha do nono andar, cuja irmã pertence à mesma Congregação Cristã. A amiga desceu e, mais calma,
viu que Ruth estava morta. Chamaram o Corpo de Bombeiros, o resgate chegou em minutos, fez os
primeiros procedimentos. Veio uma segunda equipe e, enfim, o pessoal do Samaritano.
O médico Artur Ribeiro entrou, inclinou-se sobre Ruth, avaliou e comunicou:
— Perdemos a guerra!
Moveu a cabeça, abalado. Paulo sentou-se na sala para tomar fôlego, o apartamento estava cheio de
gente, devia haver lá umas quinze pessoas agitadas. “Olhei para o chão e vi um brilho. Abaixei-me e era
uma estrelinha simples. E brilhava. O que será isso? Apanhei e guardei. De onde surgiu essa estrelinha?
Imediatamente vi que precisava avisar meu pai e minhas irmãs.” Ligou para o celular do segurança, o
homem levou o aparelho para Fernando Henrique, que estava começando a palestra. fhc estranhou,
atendeu e ouviu: “Pai, venha para cá que a mãe está passando mal, não precisa vir depressa”. Não disse
mais nada.
Fernando Henrique, quando ouviu o “não precisa vir depressa”, compreendeu tudo. Apanhou o
carro, enfrentou o trânsito do início da noite. Os minutos pareceram séculos. Ele entrou em casa
profundamente transtornado, Ruth já estava acomodada no quarto de hóspedes, Paulo o acompanhou até
lá, viu quando ele caiu de joelhos e abraçou sua mulher. Paulo deixou-
-o sozinho, ele ficou um tempo e saiu em lágrimas. “Porém, ele tem uma capacidade incrível de
recuperar-se, as pessoas o rodearam.” As outras ligações foram para as filhas dele, Helena e Joana, as
gêmeas de 23 anos, e para a irmã Luciana, que mora em Brasília. Helena chorava: “Pai, uma amiga minha
que trabalha na Globo me ligou e disse que vovó morreu, verdade?”. Ele confirmou e então percebeu que
a imprensa já sabia. Vizinhos do bairro, ao verem a movimentação de ambulâncias, tinham avisado
jornais e televisão, e em minutos a rua Rio de Janeiro e adjacências ficaram bloqueadas.
Estabeleceu-se rapidamente uma corrente de informações, os celulares congestionaram. Nessa rede,
funcionaram os rádios dos seguranças dos prédios e das casas da rua, porque eles têm canal aberto com a
polícia e os bombeiros e foram captando e transmitindo mensagens. Uma amiga de Gilda Portugal
Gouvêa, assessora do secretário de Educação e amiga de Ruth, que passeava com o cachorro pela rua, ao
ver ambulância, resgate e imprensa aproximou-se, soube da morte e comunicou a Gilda, que ligou para o
Palácio dos Bandeirantes avisando o governador. José Serra comunicou ao presidente Lula. Amigos que
moravam perto, quase vizinhos, como Luiz Meyer e Regina, Fátima e Fernando Pacheco Jordão, Malak e
Pedro Paulo Poppovic, Maria Adelaide Amaral, todos logo se inteiraram da situação e passaram a
comunicar aos amigos.
O grande problema foi avisar Bia, que estava em Barcelona, na Espanha, com o celular desligado,
era madrugada lá. José Safra, que acabara de chegar, ofereceu um Learjet para buscá-la. No entanto, um
avião de carreira seria mais rápido, até preparar o jatinho, obter autorização de voo, atravessar o
oceano, regressar, demoraria mais. Embaixada e consulados entraram no circuito, Bia foi avisada,
embarcou de volta.
Outra ligação foi para a galeria de arte onde estava Van Van, porém o coquetel tinha começado e ela
desligara o telefone. E a cada um que perguntava pela sogra, sorria e comentava: “Está ótima”. A certa
altura, Van Van percebeu Amanda, filha dela, fazendo sinais desesperados. Van Van, rodeada de gente,
acenava: “Espere um pouco, o que há?”. A filha insistia: “Mãe, venha aqui, preciso falar com você”. Van
Van imaginou que era um problema menor, uma roupa rasgada. Amanda insistiu: “Liga para o Paulo
Henrique, liga já!”. Bateu uma preocupação, afinal o Paulo Henrique tinha, também, colocado dois stents
há pouco tempo. Van Van, ressabiada, indagou: “Aconteceu alguma coisa com ele?”. Quando a filha
respondeu “Não, ele está bem, é a Ruth”, caiu a ficha. Na mesma hora Van Van ligou o celular, havia
dezenas de mensagens. Ela correu a Jorge Caldeira, que estava na galeria, avisou-o, saíram juntos,
voando, não disseram nada a ninguém, não quiseram alarmar nem estragar o coquetel. Partiram, chegando
ao apartamento cerca de 20h30.
O telefone de Jorge Caldeira tocou, era sua irmã Teresa completamente fora de si, sem compreender
o que se passava, totalmente bloqueada. Era tarde da noite em Lisboa, ela estava lendo os e-mails, havia
um de Ruth dizendo: “Já estou em casa, foi só para dar um susto nos médicos. Confirmo nosso encontro
semana que vem”. Pouco depois, Jim, marido de Teresa, telefonou a ela dos Estados Unidos contando
que Ruth tinha morrido.
Na porta, um mar de jornalistas, carros de televisão e rádio, populares, curiosos. Van Van entrou no
elevador, errou o andar, subiu, desceu, errou de novo, até acertar o oitavo andar: “Havia um mundo de
gente, um tumulto, todos atarantados. Ruth já estava numa cama do quarto de hóspedes. As amigas
confabulando como vesti-la. Acabamos escolhendo um vestido discreto, bege, uma cor que ficava bem
nela, apanhamos um xale, ela gostava de xales”. Os amigos de Paulo, Jorge Caldeira e Carlos Eduardo
Régis Bittencourt, estavam pensando no velório, providenciando o necessário. Chegou Andrea Matarazzo
e ajudou fazendo contatos. O Palácio dos Bandeirantes e a Assembleia Legislativa foram descartados,
não tinham o perfil de Ruth, e assim chegou-se à Sala São Paulo, “lugar que ela amava”, completa Van
Van.[141]
No começo da noite, no Rio de Janeiro, Miguel entrou no escritório de Rosiska pálido, abalado:
— Ruth morreu.
— Como morreu? Acabamos de nos falar, estava bem.
Nesse momento, o celular tocou, ela atendeu e ouviu: “Aqui é fulana de tal, da Globo News, meus
sentimentos”. Rosiska correu para o escritório de Miguel, a notícia estava na internet viajando. Chovia
muito no Rio. Uma amiga ligou, havia um helicóptero pronto para decolar. Rosiska, que tem horror a
avião, agradeceu, disse que ainda estavam decidindo. Helicóptero, e numa chuva daquelas! Outro
telefonema, de Eduardo Eugênio Vieira, presidente da Firjan, a Fiesp do Rio, oferecendo-se para levá-
los num jatinho. Aceitaram, decolaram, meia hora de voo e uma pane no avião, tiveram de voltar em meio
à tempestade. Nessa altura, os aeroportos do Rio estavam fechados, já era tarde. Na manhã seguinte
partiram no primeiro avião de carreira, e somente ali Rosiska se lembrou do medo que tinha de avião.
No Hospital Sírio Libanês, Maria Helena Gregori percebeu uma movimentação estranha,
funcionários entraram no apartamento, desligaram a televisão, começaram a retirar o aparelho.
— O que está acontecendo? Vão levar minha tevê?
— Deu um problema com a tevê a cabo, estamos desligando tudo, até que façam os reparos. Vamos
trocar sua tevê, logo traremos outra.[142]
Não trouxeram. E assim Maria Helena não viu os telejornais da noite. Os médicos tinham se
prevenido, ela estava frágil, convalescendo. Depois, ela viu suas três filhas, Maria Stella, Maria Cecília
(Ticha) e Bibia, chegarem juntas e estranhou. De repente, as três desabaram e Maria Helena ficou
sabendo. José Arthur Giannotti tinha acabado de chegar do cemitério, sua mãe tinha falecido no dia
anterior. Ele telefonou para fhc, que pediu: “Não venha, não é justo, você não vai suportar duas dores
dessas seguidas”. Quando José Gregori entrou, deu com o governador Serra, abismado: “Você acabou de
perder a sua parceira de dança, Gregori”. E lágrimas correram pelo rosto dos dois. Pedro Moreira Salles
chegou ao apartamento da rua Rio de Janeiro cerca de uma da madrugada e encontrou um Fernando
Henrique desolado, atônito: “O que fazer sem ela? Olhe esta casa, ela está inteira aqui, fez tudo, a gente
respira Ruth neste lugar”.
Regina Esteves, em Nova York, recebeu a notícia e não pensou duas vezes — falou com o marido,
apanhou bolsa e passaporte e foi para o aeroporto, conseguiu um voo para o Brasil. Ficou até a missa de
sétimo dia — que provocou polêmicas, Ruth nunca teve essa religiosidade de missas e igreja. Terminada
a missa, quando Regina saía da igreja, o celular avisou que havia uma mensagem. Ela abriu: “Regina,
muito obrigada pela sua solidariedade e pela sua fidelidade. Ruth”. A mensagem tinha ficado retida no
espaço por sete dias.
A essa altura, a notícia corria o Brasil em edições extras. Por instantes a nação paralisou, percorrida
por uma profunda emoção. Todos os jornais do país, no dia seguinte, falariam dessa mulher. Como disse
Eva Blay, “poucas vezes se viu tanta unanimidade”. Desapareceram partidarismos, ideologias,
rivalidades, ressentimentos, idiossincrasias. Roberto Pompeu de Toledo, na revista Veja, sintetizou que
ela uniu, “na mesma louvação e na mesma tristeza, pessoas de diferentes áreas e posições políticas
opostas. A admiração e o respeito que despertava faziam dela uma unanimidade”. Gaudêncio Torquato
definiu-a com exatidão: “Ela nunca transigiu com a integridade”. Manuel Castells telegrafou de
Barcelona: “Ruth foi uma das maiores antropólogas urbanas do mundo”.
No dia seguinte, José Arthur Giannotti foi o primeiro a chegar, encontrou Fernando Henrique desmoronado, o ar perdido. A casa estava silenciosa, enormemente vazia. Giannotti disse que iria à Sala
São Paulo, o corpo de Ruth já tinha sido preparado para o velório. fhc tomou um banho, vestiu-se. “Ao
entrar na sala, estava recomposto, a postura de presidente reassumida”, acentuou Giannotti.
Em Lisboa, Teresa chegou para sua conferência, estava completamente atordoada. Pediu desculpas,
comunicou que leria rapidamente seu texto, não teria tempo para debater, nem ânimo, acrescentou. Já
tinha passagem marcada na tap para regressar ao Brasil. E disse o porquê. Na plateia, dezenas de
pessoas começaram a chorar.[143]
O falecimento foi notícia de primeira página em todos os jornais brasileiros, nas rádios, nas tevês.
Os grandes jornais do mundo deram destaque. O Brasil continuava incrédulo, atônito. As filas
começaram a se formar diante da Sala São Paulo. O presidente Lula, rodeado por sete ministros, entrou, e
o abraço entre ele e Fernando Henrique, ambos em lágrimas, emocionou todos os presentes. No avião da
comitiva presidencial veio uma pessoa simples, ligadíssima a Ruth, seu braço direito no Palácio da
Alvorada. Era Dalina, uma de suas assessoras diretas mais queridas. Ela fincou pé, fez porque fez,
embarcou com Lula e Marisa. De pé, magro e ereto, aos 91 anos, ali estava o professor Antonio Candido,
o único que ainda chamava Ruth de Ruthinha. Coroas e coroas chegavam a cada minuto. Nenhuma
celebridade, nenhum estadista brasileiro, nenhum ídolo recebeu tantas flores, o espaço na Sala São Paulo
quase desapareceu. O velório estendeu-se por toda a quarta-feira, à espera de Bia Cardoso, já no avião,
de volta.
Ruth foi levada às dez horas do dia 26 ao Cemitério da Consolação, a essa altura já tomado por uma
multidão. Difícil entrar, impossível se locomover. Terezinha, a empregada, estava esperando amigas que
não chegavam, tentou sair, um segurança avisou-a: “Se sair, não terá mais como entrar. Aliás, não vai
encontrar ninguém no meio dessa multidão”. A bandeira de Araraquara surgiu sobre o caixão. Fazia sol, o
símbolo da terra natal dela.
Na noite seguinte seria lua minguante.