Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Posfácio Ruth Leite Cardoso, minha mestra, minha colega, minha amiga
Posfácio
Ruth Leite Cardoso, minha mestra, minha colega, minha amiga
Ruth irradiava serenidade nos seus olhos café que iluminavam um rosto eternamente jovem, embelezado
por seu sorriso tranquilo. Conversar com ela sobre qualquer coisa, da política brasileira às alegrias e
dores da vida, sempre me transmitia uma profunda calma. Os temas mais espinhosos, as questões mais
complicadas se simplificavam, se tornavam razoáveis e se transformavam em possibilidades de entender,
de fazer, de trabalhar para as pessoas e com as pessoas, de se sentir à vontade com os entes queridos.
Mas Ruth, a dona Ruth, a professora Ruth Leite Cardoso, era muito mais do que um ser dileto e uma
mulher inteligente e sensível. Era uma pesquisadora de primeiro nível, uma acadêmica respeitada no
mundo todo, uma líder de mulheres, uma ativista política comprometida e apaixonada e, chegada a
ocasião, uma primeira-dama que rompeu com os moldes tradicionais e também com os novos modelos
que outras primeiras-damas quiseram introduzir. E, para mim, foi minha mestra e amiga.
Ruth foi minha mestra. Ensinou-me muitas coisas desde os nossos primeiros encontros na Paris de
1968 e, em seguida, em novembro do mesmo ano, no mês que morei em sua casa no Morumbi, com sua
família. Conduziu-me pela São Paulo que só uma antropóloga urbana como ela sabe decifrar. Permitiu
que lesse sua tese sobre as comunidades japonesas de São Paulo, levou-me aos mercados onde eles
vendiam suas verduras e me explicou os circuitos comerciais e familiares a partir dos quais cresceram
em riqueza e influência, com base no duplo processo de integração ao país e de conservação de sua
identidade. Um tema que hoje é central no mundo e que Ruth me ensinou a pensar quatro décadas atrás.
Mas o tema em torno do qual desenvolvemos nossa mais profunda colaboração de pesquisa foi
o dos movimentos sociais urbanos. Juntos, identificamos a importância das comunidades locais na
mudança social a partir da luta cotidiana pela satisfação das necessidades básicas das pessoas e o papel
decisivo das mulheres como organizadoras da comunidade. Procuramos encontrar uma perspectiva de
pesquisa que superasse o dogmatismo marxista de fazer das organizações comunitárias um apêndice da
classe operária, ao mesmo tempo em que nos distanciávamos do enfoque funcionalista da cultura da
pobreza, montagem ideológica a serviço dos interesses das Igrejas.
Com a Ruth, procuramos, e acho que conseguimos, identificar um novo sujeito de transformação, a
cidade dos cidadãos, um movimento cidadão e de vizinhos que, para resolver seus problemas, tinha de
transformar a cidade e, portanto, a sociedade, o que constitui a essência de um movimento social. Ruth
era radicalmente crítica do populismo e encontrou na análise concreta do povo concreto a forma de
desmistificar a ideologia e de identificar as vias de mudança social que se adaptassem a uma realidade
latino-americana, em que a classe operária foi mais frequentemente fonte de privilégios corporativos do
que agente de transformação social. Ruth me ajudou, sem dizer nada, a superar o dogmatismo ideológico que em parte impregnava meu primeiro livro, A questão urbana. Sem dizer nada porque, em vez de entrar
numa discussão textual (frequente nos círculos talmúdico-marxistas da América Latina da época), abriu
meus olhos para o novo significado dos movimentos sociais urbanos que eu tinha identificado no Chile e
na França, mas que procurava entender com categorias que não se adaptavam à sua problemática. Desse
compartilhamento de experiências urbanas com a Ruth saiu um novo olhar meu para os movimentos
sociais urbanos na Espanha e, a partir dessa nova pesquisa, meu livro La ciudad y las masas, que
rompeu explicitamente com a teorização marxista estruturalista para tentar situar a prática de
transformação urbana em seu contexto, partindo do que os sujeitos eram e diziam ser ao invés de
codificá-
-los conforme os interesses ideológicos do analista. Essa conversa sobre as comunidades locais e os
movimentos sociais urbanos nunca se interrompeu. Prosseguiu nos seminários que Ruth ministrou no
Departamento de Planejamento Urbano e Regional em Berkeley, em 1982, e no Centro de Estudos Latino-
Americanos de Berkeley, em 1999. E se articulou em reuniões locais e internacionais nas quais
continuamos a redefinir a análise dos movimentos sociais segundo sua evolução na prática. Um dos
momentos mais reveladores de sua capacidade analítica, exercida com a discrição da pesquisadora
atenta à observação, foi sua intervenção no seminário sobre globalização e mudança social na América
Latina no ano de 2002, em Cochabamba. Num momento da animada discussão nesse seminário fechado,
de alto nível acadêmico, Ruth sintetizou em uma frase o que estávamos descrevendo sem realmente
entender: “O povo desunido jamais será vencido”. Simples, brilhante, profundo. Porque o que ela estava
dizendo era que as vias de transformação em nossas sociedades segmentadas e multiculturais não surgem
de uma centralidade do sujeito, seja ele qual for, em torno do qual se aglutinem os protestos sociais e os
projetos políticos. É a multiplicidade de fontes da mudança social, sua não articulação em aparelhos
políticos instrumentais, seu trabalho intersticial nas mentes das pessoas numa série de práticas diversas
que vai solapando as raízes da dominação. Porque a dominação tende a se exercer centralmente, no
Estado, no capital, no oligopólio da informação, já que resulta de alianças entre interesses e valores
dominantes. Ao passo que a resistência é multiforme, cada pessoa, cada grupo, cada fonte de valores
alternativos tem suas próprias causas para defender contra a dominação encarnada nos aparelhos da
sociedade. Fundir essa diversidade de resistências e projetos alternativos sob uma bandeira comum pode
ajudar a ganhar eleições ou tomar o poder. Mas à custa de sacrificar a capacidade transformadora dos
movimentos sociais, ações coletivas que procuram, antes, mudar os valores da sociedade do que
empoleirar-se nas instituições.
Esse debate com a Ruth e essa fórmula sintética, que agora figura no frontispício de minha análise
sobre os movimentos sociais, forneceu-me a pedra angular que me faltava para entender a
descentralização do processo de transformação social em nossos tempos.
Mas Ruth não concebia os movimentos sociais como gestas heroicas, desvinculadas das
reivindicações cotidianas. Ao contrário, via-os brotar da luta diária para satisfazer as necessidades das
pessoas e da organização comunitária dessas lutas.
E via o processo político relativo ao Estado como uma instância necessária para uma melhora da
sociedade, mas uma instância na qual um projeto de reforma só poderia triunfar caso se enraizasse na
dinâmica dos movimentos sociais, sem por isso segui-los em seu deslocamento utópico. Sempre desconfiada da ideologia, que tanta dor causou na América Latina, alertava contra o voluntarismo
político das vanguardas. Ao mesmo tempo, insistia na necessidade de manter os valores de transformação
social que surgiam da base da sociedade como referentes últimos da gestão política, obrigatoriamente
prudente e limitada pelo contexto institucional. Diferentemente dos líderes políticos, porém, ela e eu
sempre consideramos que a essência da mudança provinha do que sucedesse nas comunidades locais e
nos movimentos sociais múltiplos que surgem em todas as esferas da vida social. Não creio que seja trair
um segredo de Estado recordar conversas semiprivadas nas quais, cada vez que num círculo íntimo
lembravam
ao então presidente Cardoso a importância dos movimentos sociais e comunitários, ele costumava dizer,
concentrado que estava nas grandes decisões políticas do Estado, que “desses temas” (ou seja, sociedade
civil, movimentos sociais e outros) já se ocupavam Ruth e Manolo. Não era um comentário pejorativo,
muito pelo contrário: sabia que ali estava a raiz de tudo, mas suas tarefas e responsabilidades de gestão
eram inadiáveis. Esperava que de Ruth saíssem ideias para o restante. E saíam. Mas Ruth nunca interferiu
nas decisões do presidente. Diferentemente de outras primeiras-
-damas, que consideraram ter direito a copresidir, Ruth soube definir um papel autônomo de primeira-
dama, utilizando o prestígio de sua função para tomar iniciativas próprias, como o desenvolvimento da
rede de programas sociais das Comunidades Solidárias, financiados e patrocinados por recursos
privados. Foi uma decisão amadurecida e consciente, que a transformou em agente de ação na sociedade,
à margem de sua função de representação como primeira-dama, que assumiu dentro de parâmetros
estritamente protocolares.
A coerência da visão de Ruth sobre a distância e a relação entre sociedade civil e Estado se
manifestou com clareza exemplar em sua prática e análise do feminismo. Dela aprendi o que foi e é
atualmente minha visão do movimento de mulheres e do feminismo. Ruth não se dizia feminista, apesar de
ser uma mulher plenamente autônoma e já defender os direitos da mulher antes de o termo feminismo ser
utilizado no Brasil. No entanto, ela não qualificava a si mesma como tal para se distanciar do feminismo
ideológico da classe média alta que, na América Latina, importava modelos de feminismo norte-
americano ou europeu e os aplicava a um contexto completamente diferente. O que interessava a Ruth era
a emancipação das mulheres populares na sociedade mediante a assunção da liderança da família, do
bairro, das associações civis, mudando, assim, as relações de poder dentro e fora da família. Ela
distinguia movimento de mulheres, direitos da mulher e feminismo ideológico. Interessou-se pelos dois
primeiros e ignorou (sem se opor) a dimensão ideológica, que sempre lhe pareceu artificial e elitista no
contexto do Brasil. Assim, entendi o que em seguida denominei (e Ruth considerou apropriado)
“feminismo prático”, isto é, uma prática de afirmação cotidiana da autonomia da mulher sem ter de
revesti-
-la com a roupagem conceitual da crítica do patriarcado. Essa perspectiva é
essencial para a transformação da condição feminina no mundo, porque é somente por meio desse
feminismo prático que se solapa o patriarcado na maior parte do planeta. Sem essa perspectiva, não é
possível entender o feminismo prático de mulheres islâmicas, mesmo o das integristas, para quem usar o
véu não as impede de decidir sobre suas vidas e escolher suas próprias batalhas, dentro de sua cultura.
Ruth não interveio diretamente nesses debates, deixou-os simplesmente de lado, porque para ela o essencial era a igualdade legal, as condições de vida das famílias, a defesa do direito ao aborto e a
proteção das mulheres contra a violência doméstica. Quando teve de defender esses direitos, não hesitou,
de forma tranquila, em enfrentar as mais altas instâncias do poder, ganhando batalhas decisivas e
contrariando todos os prognósticos.
A Ruth acadêmica educou, na sua cátedra da Universidade de São Paulo e em algumas das mais
prestigiosas universidades do mundo, gerações de jovens cientistas sociais, para os quais abria novas
perspectivas partindo de observações minuciosas de realidades no Brasil e na América Latina. Lembro
como, no Centro de Estudos Latino-Americanos de Berkeley, estudantes de vários países, frequentemente
imbuídos de juízos preconcebidos sobre a realidade da América Latina, alcançavam de repente a
compreensão de seu mundo real. Passavam a ver, por exemplo, na realidade das crianças de rua, não
pobres criaturas abandonadas, mas trabalhadores precoces explorados por seus próprios pais para trazer
dinheiro para casa, estando proibidas de voltar enquanto não conseguissem o suficiente. E, de repente,
nos dávamos conta da conexão entre uma análise colada na realidade e a possibilidade de transformar
essa realidade. Por exemplo, oferecendo um subsídio suficiente aos pais em troca de mandarem os filhos
para a escola, programa este que teve um impacto decisivo na redução do número de crianças de rua no
Brasil. Ou a análise de Ruth sobre a possibilidade
de controlar a aids mediante o fortalecimento do poder das mulheres para poderem dizer não e, assim,
evitar a contaminação. Esse fortalecimento só podia provir da capacidade de organização comunitária e,
portanto, da sociedade. Só depois é que as instituições do Estado podiam apoiar as mulheres para reduzir
a violência doméstica resultante de sua negativa ao sexo perigoso. Essa análise, que também esteve na
base do desenvolvimento de comunidades de mulheres contra a aids no Brasil, foi decisiva para frear a
disseminação da doença, em contraste com a África do Sul, onde a incapacidade da sociedade civil para
organizar a resistência das mulheres contra o abuso sexual dos homens tornou quase inúteis os programas
institucionais de informação.
Ruth foi uma grande pesquisadora e sua obra será compilada de forma sistemática nos anos
vindouros. Mas foi sobretudo uma extraordinária inovadora social, que utilizou sua pesquisa e sua mente
para inventar processos de mudança social em benefício de uma multidão de pessoas. E extraiu
permanentemente ensinamentos dessas experiências a fim de refinar a análise e colocá-la em prática em
novas iniciativas que contribuíram para mudar a sociedade, de baixo para cima. Influenciou agentes
políticos, empresariais, líderes sociais, que viram em suas ideias a resposta para muitos dos problemas
práticos que eles se colocavam. Durante muito tempo veremos seus conselhos e suas ideias nas práticas
de políticas reformadoras no Brasil, no Chile e em toda a América Latina. Muitos jamais saberão que, na
origem dessas práticas, estão suas ideias. Ruth não se importará com isso. Ela desfiava ideias com
paixão tranquila em torno de uma xícara de café, no transcurso de uma viagem, na sala de um seminário
ou numa reunião de um centro comunitário. Semeava. Semeava as sementes do que aprendeu como
pesquisadora, esperando que a colheita fosse algo mais além de artigos científicos: que fosse uma
colheita de humanizar as vidas de pessoas que ninguém via. Foi uma antropóloga para quem as
comunidades observadas eram comunidades vivas e não culturas dissecadas para consumo das elites.
Compartilhei momentos de vida com a Ruth. Muitos momentos. Na sua casa do Morumbi, no meu apartamento de Paris, no apartamento dela em São Paulo, na minha casa de Berkeley, nas aldeias da
Amazônia, nos bairros de Barcelona, nos seminários do Cebrap, nos seminários em São Paulo, no Chile,
no México e na Bolívia, nos seminários de Berkeley e Stanford, em movimentos comunitários e em
palácios presidenciais, em universidades censuradas e em acadêmicas torres de marfim, em jantares
preparados por ela e em churrascos feitos por mim, em viagens longas e curtas, em entardeceres e
amanheceres, em esperanças e desesperos. Cada um desses vários momentos foi intenso e tranquilo,
falávamos de tudo e projetávamos tudo, mas sem angústia, com tempo pela frente. Tínhamos toda a vida
pela frente para analisar o mundo, senti-lo, mudá-lo. E, de repente, a música parou. Durante muito tempo
não pude aceitá-lo, não conseguia imaginá-
-lo, o mundo não podia prosseguir sem a Ruth, porque não achava o rumo sem essa bússola escondida
fundamental que, periodicamente, ela era para mim. Inicialmente, reagi como intelectual, escrevendo um
artigo sobre ela no jornal da minha aldeia local (La Vanguardia, de Barcelona), como se o testemunho e
a análise pudessem aliviar a ausência. Não podem. E não o fizeram e continuei com esse espaço vazio na
minha vida, um vazio ao mesmo tempo pessoal, intelectual e político. Até que entendi que a Ruth está
viva, viva em mim, como tenho certeza de que está viva em muitas outras pessoas. Não só como memória
e lembrança. Mas no que pensamos, no que pesquisamos, no que fazemos. Sem pensar nela. Sendo ela na
realidade. E quando reconheci sua presença em tantos gestos de meu trabalho e de minha vivência,
recuperei a calma, a calma que ela transmitia. E por isso pude agora, só agora, escrever este texto.
Manuel Castells
Catedrático emérito da Universidade da Califórnia, Berkeley
Barcelona e Los Angeles, dezembro de 2009
Traduzido do espanhol por Claudia Berliner