Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Retalhos da vida cotidiana I: Pinheirão
Revoltado, Pinheirão exilou-se.
Vem de um tempo remoto uma lembrança forte, e Ruth nunca soube precisar a data, ela era muito
criança. Às vezes, José a levava à Fazenda São Lourenço, também conhecida como Araraquara. Ficava
na saída da cidade, a quatro quilômetros do centro. Havia uma reserva de mata nativa extensa, existente
ainda hoje, com madeiras nobres como jequitibá e peroba-rosa, além de uma cachoeira com mais de
vinte metros de altura. Ali, numa casa senhorial do século xx, morava Joaquim de Souza Pinheiro, o
Pinheirão, homem esquisito, enorme, com barba e cabelos longuíssimos, há anos ele não os cortava.
Tornara-se uma lenda. “Papai e ele eram aparentados, não sei qual o grau de parentesco. Ficavam os dois
a conversar e eu passeava pela casa, desarrumada e empoeirada, repleta de pilhas e pilhas de jornais
velhos. Era fascinante. O que havia naqueles jornais? Era uma coisa misteriosa que mantinha aquele
homem ali. Pinheirão passava o dia a ler.” Diziam em Araraquara que, em 1917, ele teve um enorme
desgosto ao perder uma eleição para Plínio de Carvalho, o homem que deteve o mando político na cidade
por décadas. Houve uma briga violenta entre os dois e Pinheirão, enraivecido, prometeu que abandonaria
a cidade e, enquanto Plínio fosse vivo, nunca mais ali poria os pés. Dirigiu seu automóvel até a avenida
Portugal, parou, desceu, soltou o breque e empurrou o carro ladeira abaixo na direção do córrego da
Servidão (hoje canalizado, sobre ele está a Via Expressa). O automóvel espatifou-se num barranco.
Pinheirão jamais apareceu na cidade. “Por outro lado, papai era muito amigo de Plínio de Carvalho, e foi
com ele que aprendi a conviver e a respeitar pessoas de diferentes opiniões.”[8]