Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
6 Ruth não viu o Maio de 68 em Paris
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Ruth não viu o Maio de 68 em Paris
Em Paris, a família foi morar num apartamento em Nation, linha [70]do metrô, no lado oposto a Nanterre.
Para chegar à universidade, atravessava-se quase toda a cidade, ao menos, a velha cidade. O apartamento
era muito bom, antes havia sido ocupado por “antropólogos malucos que foram dar aula na África”,
segundo Beatriz. O lugar era sujo, os antigos inquilinos não cuidavam, só usavam luz de velas, “decerto
para que não se visse a sujeira”. Mas nada que uma boa faxina não mudasse o astral. André, filho de Ana
Maria e Pedro Paulo Poppovic, morava também com os Cardoso. Anos mais tarde ele seria um dos
namorados de Bia.
Ruth não matriculou os filhos na escola, pois não se sabia quanto tempo ficariam na França. Paulo,
caminhando para os catorze anos, fez um curso de artes e era o único que podia sair sozinho. Luciana e
Bia, além de aulas de conhecimentos gerais, acompanhavam a mãe em programas culturais — todos os
museus foram passados e repassados. André era o único que podia tomar Coca-Cola durante a semana,
pois tinha o dinheiro dele. A vida continuava regrada. “A gente aprendeu desde cedo a viver bem, mas a
viver bem com o que se tinha, não era esbanjamento. Minha mãe era muito normatizadora: o que é certo,
o que é errado. Pedagoga em tempo integral no dia a dia. Eu me transformei numa por profissão, ela
exercia cotidianamente, em todos os momentos. Ensinava, ensinava”, comenta Bia com um leve sorriso.
Ruth fez alguns seminários muito curtos, mas a maior parte do tempo ficava com a família. Havia uma
faxineira semanal, Madame Emmanuelle, que cobrava uma fábula. Quando ela entrava, a família saía, ia
dar uma volta, a mulher dava a impressão de nunca ter tomado um banho. Nos outros dias todos
ajudavam, aprenderam desde cedo essa parte da vida, a colaborar, fazer junto.
Havia um lado curioso nesse apartamento. As pessoas vinham jantar, conversavam, discutiam,
normalidade em qualquer casa dos Cardoso. Todavia, havia aqueles que vinham das vizinhanças ou de
longe para um banho. Eram brasileiros que moravam em quitinetes com banheiro compartilhado no
corredor, coisa comum em Paris, e preferiam se deslocar até Nation para um banho brasileiro.
Nesse período eles se ligaram a um jovem sociólogo, um assistente em Nanterre de nome Manuel
Castells,1 depois reconhecido como o inovador da teoria sociológica. Ruth e Castells sentiram muita
afinidade e começou ali uma amizade que se fortaleceu e persistiu. Ao longo da vida, encontrando-se em
seminários e cursos pelo mundo afora, dialogaram intensamente, sempre a respeito do desenvolvimento
de novas análises sociológicas, “pessoas que se debruçavam sobre os movimentos nascentes, enquanto o
grosso da esquerda acadêmica estava ainda na luta de classes. A sociedade estava se transformando e
Ruth sempre foi mais aberta do que eu para perceber esse tipo de comportamento a nível popular. Ela se
interessava, mergulhava”, na avaliação de Fernando Henrique.[71]
Com a morte, em São Paulo, do professor Lourival Gomes Machado, abriu-se a vaga para a cátedra
de ciência política na Faculdade de Filosofia da usp, ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal
Militar declarou o processo de Fernando Henrique nulo. Diante disso, disposto a concorrer à vaga,
continuou a escrever a sua tese. Ruth voltou ao Brasil não só para começar a reorganizar a vida e a volta,
como também para cuidar do processo de inscrição do marido. Ele escrevia capítulo a capítulo e enviava
ao Brasil para a montagem final. Ruth lia, anotava, sugeria, indicava, e ele aceitava ou discutia. “Ela não
escrevia tanto, mas era excelente leitora, tinha o olho para apanhar o cerne das questões, ia ao ponto,”
reconhece fhc.
Por um mês, Ruth perdeu o bonde da história. Ela deixou a França em abril de 1968. Em maio, Paris
explodiu, a partir de Nanterre, chamada também Nanterre la folle (a louca) ou Nanterre la rouge (a
vermelha). Momento em que aconteceram as manifestações que repercutiram no mundo todo e se
tornaram um marco divisor na história moderna. O historiador Voltaire Schilling definiu 1968 como “o
ano louco e enigmático de nosso século [...]. Uma espécie de furacão humano, uma generalizada e
estridente insatisfação juvenil, que varreu o mundo em todas as direções”. Estudantes, operários,
executivos, donas de casa, professores — todas as classes ocuparam as ruas, formaram barricadas,
queimaram carros, combateram a polícia. Durante trinta dias o governo francês esteve ameaçado de
colapso.
Nada menos de 1.434 jornalistas estrangeiros se deslocaram para Paris para cobrir uma revolução
existencial, de mudança cultural. Revolução cujo lema era educação, sexualidade e prazer, e sobre a qual
Sartre, dois anos depois, ainda se dizia perplexo, pensando no que tinha acontecido, sem entender o que
os jovens queriam. Os slogans do Maio de 68 correram mundo, eram centenas de propostas novas,
poéticas ou radicais: “Sejam realistas, exijam o impossível!”, “A humanidade só será feliz no dia em que
o último capitalista for pendurado com as tripas do último burocrata”, “Abaixo a universidade”,
“Levemos a revolução a sério, não nos levemos a sério”, “O álcool mata, tomem lsd”.
Mas havia outro bonde do qual ela não escapou no Brasil. Os tempos eram bravos. O general Costa
e Silva tinha sucedido a Castello Branco na Presidência. A situação aqui se precipitou. Carlos Lacerda e
jk formaram a Frente Ampla, fazendo oposição ao que era denominado Sistema. Grupos de extrema-
esquerda iniciaram a radicalização, com a luta armada, sequestros, roubos a bancos, terrorismo. Os
direitistas também entraram na onda de atentados e terrorismo. Os estudantes se organizaram e
denunciaram o acordo mec-usaid, por meio do qual os Estados Unidos interferiam na estrutura
educacional brasileira, abrindo caminho para a privatização do ensino superior. Na Maria Antonia
discutia-se a reforma universitária e foram formadas comissões paritárias de professores, estudantes e
funcionários para discutir e projetar os processos internos e a gestão da escola, tendo cada grupo um
coordenador docente. Em julho, os estudantes ocuparam o prédio da universidade. No Rio de Janeiro, o
estudante Edson Luís foi assassinado pela polícia e recrudesceram os protestos, e igualmente a
repressão, culminando com uma passeata histórica na luta pela democratização, a dos Cem Mil.
Os operários se mobilizaram e organizaram greves em Contagem, Minas Gerais, e em Osasco, São
Paulo. A Frente Ampla de Juscelino Kubitscheck e Carlos Lacerda, em oposição ao regime, foi proibida. Costa e Silva fechou o Congresso e, em 13 de dezembro de 1968, editaria o ai-5, cancelando liberdades
individuais e instalando um regime duro. Nos dias 2 e 3 de outubro eclodiu a Guerra da Maria Antonia,
uma violenta batalha que teve, da parte da Filosofia, rojões, paus, pedras e tiros, contra metralhadoras,
rifles, revólveres e bombas da turma do Comando de Caça aos Comunistas, o ccc, entrincheirada no
Mackenzie. Significou o fim da Maria Antonia, que se viu incendiada e destruída. Os departamentos
foram transferidos para a Cidade Universitária, no Butantã, que não tinha condições de abrigar
convenientemente os novos cursos — amontoaram-se em barracões precários de madeira e zinco,
erguidos rapidamente, insuportáveis no calor, impossíveis nas chuvas, com o barulho da água nos tetos de
zinco, de arrepiar de frio no inverno.
Antes disso, ao voltar, Ruth viu que a casa do Morumbi estava quase pronta, mas ainda não habitável.
Alugou um apartamento pequenino na rua Major Sertório e reiniciou a vida. Inclusive, retomou sua tese
de doutorado que, sob orientação de Eunice Ribeiro Durham, focava a Estrutura familiar e mobilidade
social: estudo dos japoneses no estado de São Paulo. Na Major Sertório o espaço era mínimo, mas Ruth
tinha paciência de Jó (como se diz em Araraquara). As crianças tinham cachorro, passarinho, houve até
um hamster que morreu afogado na privada. Quando Fernando Henrique voltou de Paris, a família já
estava instalada no Morumbi. Em outubro de 1968, diante de uma banca presidida por Sérgio Buarque de
Holanda, fhc defendeu sua tese e ganhou a cátedra. Quase não chegou a dar aulas.
Em 1973, Paulo Henrique, que estudava no Colégio Equipe, costumava aparecer dirigindo o Dodge
Dart azul do pai. E convocava sua turma: “Vamos p’ra casa ouvir música”. Jorge Caldeira, amigo dos
mais chegados, conta que todos iam para lá. Era “uma casa bastante liberal para os padrões da época,
Paulo tinha som no quarto, cada um fazia o que bem entendia, não tinha ninguém à tarde em casa. De vez
em quando, um ou o outro aparecia no fim da tarde, e assim conheci a Ruth e o Fernando, sabendo apenas
que eram os pais do Paulo. Não tinha ideia de que o Fernando Henrique era sociólogo e a Ruth,
antropóloga”.
Em novembro de 1968, um jovem de 26 anos bateu à porta da casa dos Cardoso com a mala na mão.
Chegou para ficar um mês. Foram trinta dias dos mais importantes, tanto para ele como para Ruth
Cardoso. Manuel Castells, nascido em Barcelona e tendo estudado em Nanterre, viria a ser um dos
sociólogos mais importantes do mundo, principalmente com seus trabalhos sobre a Sociedade em Rede.
Naquele ano de 1968, Castells descobriu a Ruth mulher, professora, dona de casa e antropóloga, e
compreendeu seu método de trabalho, o imiscuir-se na vida cotidiana como mulher comum, ao mesmo
tempo em que captava a realidade e a colocava num laboratório. Era a antropologia urbana. Depois de
ler a tese de 1959 e os primeiros capítulos do novo trabalho, Castells e Ruth visitaram a Liberdade, o
bairro japonês, percorreram a cidade, foram ao Mercadão Central, estiveram em feiras livres, viveram o
cotidiano paulistano. Ruth não deu descanso ao jovem e essa experiência o marcou e está descrita no
posfácio a este livro.
Em abril de 1969, a caminho da Universidade, Fernando Henrique ouviu no rádio do carro mais um
decreto com cassações. Eram constantes, a cada semana ou dia. Seu nome estava na lista dos cassados.
Ao chegar à usp a comoção era grande, e ele viu, dentro da Universidade, os primeiros sinais de reação.
A polícia cercou os professores numa sala, ele conseguiu escapar, foi a pé para casa. Ruth não tinha ido dar aulas nessa tarde. Aos 37 anos, veio a aposentadoria compulsória.
A casa do Morumbi era o oposto do apartamento em matéria de espaço, dava e sobrava. Voltou a ser
movimentada, agitada, característica permanente da família. O dia em que o pai se aposentou foi um
choque para Bia, ela não conseguia entender o que estava acontecendo, sabia que era grave, ruim, e ao
mesmo tempo obscuro. As conversas em casa eram claras, objetivas, não havia aquela história de criança
sair da sala porque os adultos estavam conversando, nunca houve. Mas eram tempos de sobressalto: se a
campainha da casa tocava, naquela solidão do Morumbi — então um bairro isolado em São Paulo, ruas
escuras —, as pessoas tremiam e logo se pensava na repressão. Na verdade, esse era o clima geral no
país, ao menos entre as classes mais lúcidas e intelectualizadas. Na Faculdade as pessoas iam “caindo”,
cassadas, perseguidas, como Célia Galvão, José Arthur Giannotti, Elza Berquó, Roberto Schwarz.
Fechavam-se todas as portas, de todos os lados. Mesmo com a proibição de reuniões políticas, a
casa dos Cardoso tornou-se — como de hábito — um centro de discussões. Fazer o quê? Fugir? Novo
exílio? Decidiram ficar, não fugir. Tinham experimentado o exílio, estavam preocupados com os filhos.
Desses encontros nasceu a ideia de um centro de pesquisas independente, privado, destinado a realizar
estudos sobre a realidade brasileira. Com as relações feitas no tempo em que trabalhou na Cepal, fhc
chegou a Peter Bell, da Fundação Ford no Brasil, que, mesmo hesitante (afinal eram pessoas banidas
pelos militares), concordou em financiar o projeto com uma doação inicial de us$ 100 mil. Assim nasceu
uma das mais celebradas, discutidas e famosas instituições do Brasil, o Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento, o Cebrap, que teria uma ação singular nas décadas seguintes. Seria um baluarte, núcleo de
resistência à ditadura, um posto avançado para o caminho de redemocratização. O primeiro endereço do
Cebrap foi na rua Bahia, 499. A data oficial de nascimento é 3 de maio de 1969. Os fundadores foram
fhc, Elza Berquó, José Arthur Giannotti, Juarez Brandão Lopes e Cândido Procópio Ferreira de Camargo,
o primeiro presidente. Nos anos seguintes juntar-se-iam nomes como Bolívar Lamounier, Octavio Ianni,
Francisco Weffort, Vilmar Faria — futuro braço direito de Ruth Cardoso, um dos pensadores em quem
ela mais confiava —, Carlos Estevam Martins, Francisco de Oliveira, Lúcio Kowarick, Boris Fausto,
Luiz Werneck Vianna, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Regis de Castro Andrade. Veio também o
eventual apoio financeiro de José Mindlin e de Severo Gomes, empresários de proa. Acrescentou-se a
eles o prestígio de Celso Lafer.
Com o exílio, Ruth tinha atrasado seu doutorado. Sua amiga Eunice Durham havia feito o dela antes, de
maneira que foi encarregada de ser a orientadora de Ruth. Por outro lado, como Eunice já estava fazendo
a livre-docência, e para isso estudando a migração rural urbana a convite de Darcy Ribeiro, Ruth passou
a ser sua orientadora. Eunice escrevia como desesperada e ia à casa de Ruth: “Veja se está bom”. Dias
depois, Ruth chegava e fazia sugestões. Depois era Ruth quem ia à casa de Eunice e entregava uma pasta
cheia de papéis. Dias depois ouvia: “Melhor mudar este pedaço de lugar. Isso que está aqui fica melhor
mais à frente. Corte este trecho”. Para Eunice, foi uma época divertida, “o primeiro caso de orientação
em mão dupla”.
As duas davam apoio ao movimento estudantil, a luta contra o regime autoritário, a ocupação.
Tempos de polvorosa, agito total. Ficavam na Faculdade muitas noites, ainda que não a noite toda, por
causa dos filhos. “Ruth sempre teve uma identificação maior com os estudantes”, reconhece Eunice, “sabia falar e compreendia os jovens. Ela se entusiasmou pelos cursos paritários, até que um dia eu a fiz
refletir. Se íamos dar cursos paritários, devíamos dividir o dinheiro com eles, porque, sendo um esforço
coletivo, eles trabalhariam para montar o curso, era a aprendizagem mútua. No fundo, um delírio da
democracia igualitária e assembleística. Que o trabalho é feito com o aluno, é; o aluno aprende, interfere,
pergunta, discute; agora, o aluno não é capaz de dar aula. Claro, dizer isso na época era uma heresia.
Acabamos dando os cursos.”
Nessa época, Ruth Cardoso e Eunice Durham trabalhavam com populações urbanas, estavam
levando à frente alguma coisa que já existia — havia uma tradição americana, pequena, mas havia.
“Época dos estudos de comunidades. Influências de Robert Redfield e seus trabalhos sobre Yucatán, a
cidade e a área tribal, comparando as duas coisas, misturadas à tradição da Escola de Chicago, na qual
os estudiosos estavam mergulhados na antropologia urbana. Não era uma coisa inteiramente nova, ainda
que o fosse no Brasil. A cidade era o contexto, os camaradas estavam aqui, nós estudávamos aqui. Na
verdade, fizemos uma bela adaptação da antropologia existente, junto com o marxismo galopante que
tomou conta da Faculdade de Filosofia, numa situação muito complicada. Quanto a Ruth, ela reintroduziu
Lévi-Strauss nos cursos.”
Mesmo com a ocupação da Faculdade, foi um momento fértil para o ensino. Ruth e Eunice
começaram a inventar métodos pedagógicos, seminários, a dividir as turmas em grupos de trabalho, os
alunos faziam relatórios, elas liam, discutiam, um trabalho do cão, porque tudo era devolvido, cada um
dos trabalhos, anotado, uma tarefa maluca. “A dedicação dela aos jovens era inesgotável”, confirma
Eunice.
O ano de 1968 se fecharia (ou nunca se fecharia, de acordo com Zuenir Ventura em seu livro 1968 —
o ano que não terminou) com a polícia invadindo um sítio em Ibiúna onde a União Estadual de
Estudantes realizava, clandestinamente, seu xxx Congresso. Foram presas centenas de jovens, entre eles
os líderes Luís Travassos e Vladimir Palmeira. O governador Abreu Sodré, referindo-se ao episódio,
afirmou sua disposição de “manter a paz e a tranquilidade para a população que deseja trabalhar”. E
acrescentou, referindo-se à prisão dos estudantes: “Agi com energia para reprimir a agitação e a
subversão quando determinei a prisão de estudantes subversivos que participavam do congresso da une”.
Nessa altura é que Ruth conheceu uma jovem de nome Danielle Ardaillon, que, no futuro, estaria
muito ligada a ela e a Fernando Henrique, de tal modo que, hoje, ela é a responsável pelos arquivos
pessoais do ex-presidente, tarefa da maior confiança e sigilo. Danielle tinha ido morar na rua Nebraska,
vizinha à casa de Ruth, então habitada pelo general Leônidas e dona Nayde. Entre as casas dos dois havia
um terreno que ela atravessava para ir telefonar, um hábito da casa que se manteve na vizinhança. Ao
decidir fazer pós-graduação em antropologia, Danielle se aproximou de Ruth. “Trazia em mim essa coisa
francesa que se misturava a timidez. A casa do outro, um espaço muitíssimo pessoal. Ruth, porém, não
era assim, acolhia as pessoas em sua casa, uma casa aberta o tempo todo. Quase me assustei quando ela
disse: ‘Está bem, vai fazer pós-graduação? Venha até em casa, vamos tomar um café e discutir’. Imagine,
chegar até a casa do Fernando Henrique, o deus da usp? E fomos nos aproximando. Ela tinha um jeito
muito especial, me olhava e dizia: ‘Ah, adoro suas roupas’, e eu me sentia mais perto. Outra vez,
comentava: ‘Ah, Danielle, a gente devia fazer uma viagem juntas para Portugal’. Nunca fizemos, claro,
mas isso quebrava protocolos, facilitava a relação. Ainda que ela fosse reservada — era muito reservada sobre ela mesma, acho que nunca se abria. Ruth ficou entusiasmada quando contei sobre o meu trabalho,
os programas do Chacrinha, que na época eram o máximo de audiência. Ela considerou um tema
inusitado, corajoso, ficou fascinada. ‘Este é o Brasil’, ela disse.” Essa era a Ruth.