Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Retalhos da vida cotidiana IX: Quero fazer só o que gosto
Laura Bush, mulher do ex-presidente Bush, em 2005 e 2006 assumiu a liderança das políticas de
alfabetização da Unesco. Foram eleitas as nove principais experiências de alfabetização no mundo e elas
seriam proclamadas em Nova York, numa reunião formal com Laura Bush e todos os governos. Quem
deveria estar presente seria Ruth Cardoso, todavia surgiu um impedimento formal. Ela não era mais
governo, e tratava-se de uma iniciativa do governo americano. Portanto, deveria ser de governo para
governo. Ou seja, o governo brasileiro deveria se envolver, porém o Comunidade Solidária não existia
mais, e aquilo significou um desafio. No entanto, a representante da AlfaSol poderia estar presente. Para
qualquer outra pessoa, interessada em estrelismos, honrarias, isso seria problema. Ruth nem se alterou, e
chamou Regina Esteves:
— Pois vá você.
— Eu? Estou com uma filha de 25 dias.
— Veja com seu pediatra se a menina pode ir, e leve. O que importa é que a AlfaSol compareça. Ela
não é governo, portanto não vai provocar polêmicas nem incidentes. A AlfaSol agora é uma ong. O
prêmio não é meu, não é da Ruth, é da AlfaSol.
Regina foi e levou a filha, que era amamentada nos intervalos. A história teve um desdobramento no
ano de 2007, quando Laura Bush veio ao Brasil em visita oficial e manifestou vontade de visitar a
AlfaSol. O primeiro problema que apareceu foi com relação ao prédio na rua Pamplona. Não era
adequado para receber com segurança a primeira-dama americana. Essa foi a análise dos americanos.
Segundo entrave: a primeira-dama norte-
-americana não tinha escolhido um programa social do governo brasileiro, e sim um da ex-primeira-dama
brasileira. Formalmente, havia constrangimentos. Caso Ruth Cardoso não comparecesse, o problema
estava contornado, seria a AlfaSol, uma ong, a receber a visita em caráter não oficial. Ruth nem
pestanejou. “Não vou”, disse. “Que venha Laura Bush.” Acompanhou todos os preparativos para a visita,
participou de cada movimento, ligava de manhã e à noite, vibrava. A americana veio e se foi, a imprensa
cobriu, nenhum arranhão no mundo burocrático.
Em janeiro de 2008, Ruth convidou Regina Esteves para um almoço na rua Rio de Janeiro. Era um
encontro há muito marcado entre as duas, não para discutirem projetos, andamento de programas, e sim
um bate-papo entre duas amigas sobre tudo e sobre nada. Fernando Henrique abriu um vinho, conversou
um pouco, e deixou as duas à vontade. Nesse dia, Ruth disse:
— Tenho pensado muito e daqui para frente quero ser mais seletiva.
— O que significa mesmo isso?
— Quero priorizar os assuntos a que vou me dedicar.
— De trabalho ou da vida pessoal?
— De tudo. Quero ser mais firme em relação a coisas que quero e que não quero fazer.
Há algum tempo Regina vinha sentindo uma Ruth diferente. Não era mais aquela Ruth que nunca se
cansava. Começara sutilmente a limitar seu tempo, suas atividades. Diminuíra o ritmo, não o entusiasmo.
Ao se despedirem nessa tarde, Ruth reiterou:
— Decidi. Vou começar a fazer só aquilo que gosto.[133]