Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 26 de 35

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Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

15 Mulher, a promotora da mudança no mundo

15

Mulher, a promotora da mudança

no mundo

 

No ano de 1995, Ruth chefiou a delegação brasileira à iv Conferência das Nações Unidas sobre a

Mulher, em Pequim, na China. Ela foi acompanhada pela embaixadora Thereza Quintella e por Rosiska

Darcy. Na China, iriam se reunir com mais 180 delegações de todo o mundo e representantes de 2.500

ongs, e Ruth então divulgaria o Plano Estratégico de Ação no Brasil. Mais de quinhentas mulheres

brasileiras embarcaram para Pequim às próprias custas.

A viagem foi uma aventura. O discurso foi sendo preparado no meio do caminho. Como não havia

tempo para nada, tudo era feito correndo. Fizeram escala em Zurique, foram para o hotel e trabalharam

por horas no texto. Ruth e Rosiska se relacionavam mal com o computador, de maneira que chamaram

Vilmar Faria e Miguel Darcy, que formataram tudo. Na releitura, Ruth reclamou de um trecho

acrescentado por Rosiska entre duas vírgulas: “Não vou ler isto! Quem fala assim é você. Não eu!”.

“Leia, Ruth! Para empolgar a plateia. Não pode ficar lendo uma coisa acadêmica, monótona. Tem de dar

força.”

Põe, não põe, põe, tira, põe, afinal o trecho ficou, Rosiska venceu a parada, talvez pelo cansaço —

se Ruth firmasse o pé, o trecho não entraria. De qualquer maneira, ela não gostou muito. Terminado o

discurso, mortos de fome, decidiram sair para jantar. Ruth ficou, estava preocupada, ia falar no dia

seguinte. Rosiska, Miguel e Vilmar foram em busca de um restaurante e avisaram a Ruth que não mexesse

no computador, o texto estava na agulha, afinado. Ao voltar, deram com Ruth lívida: “Fui mexer, sumiu

tudo. Desapareceu”.

Miguel e Vilmar sentaram, levaram horas, recuperaram o texto já na madrugada. Ela ficou acordada,

cara de criança culpada: “Eu só queria ajeitar para ficar mais bonitinho”. No dia seguinte, Ruth subiu à

tribuna e começou a ler. Quando chegou ao tal trecho entre vírgulas que Rosiska tinha escrito, a plateia

ergueu-se em aplausos. Ela localizou Rosiska, desviou o olhar e começou a rir, não parava de rir,

ninguém entendia, precisou tomar fôlego e retomar sua fala, evitando olhar para a amiga, e foi assim até o

fim do discurso. Ela sabia ter humor.

Inquieta, certo dia sem programação, ela começou: “E o que vamos fazer? Ficar paradas aqui?”.

Decidiram ir para Xi’an conhecer o Exército do Imperador Oin, também conhecido como os Guerreiros

de Terracota. A embaixadora Thereza Quintella fez as conexões. Ruth pediu uma viagem sem rituais

oficiais, sigilosa, e lá se foram. Ruth se vestiu informalmente, de tênis e camiseta branca, bem à vontade.

Lá chegando, quando pôs o pé no primeiro degrau da escada para descer até as escavações, teve um

ataque de riso — um tapete vermelho, autoridades perfiladas e dezenas de bastidores de prontidão. Rosiska recuou: “O que é isso?”. E Ruth: “Para mim, claro. Para quem vai ser?”. Respirou fundo e,

impávida, percorreu o tapete vermelho, de tênis e camiseta. Essa impossibilidade de um minuto de

privacidade às vezes a incomodava, ainda que soubesse que fazia parte do cargo que ocupava.

Falando à tv Globo no dia 9 de setembro de 1995, Ruth Cardoso avaliou que “uma vez mais ficou

constatado que a pobreza atinge mais as mulheres do que os homens no mundo contemporâneo. Ela afeta

diferentemente as mulheres porque elas são chefes de família, e vejam que aumentou o número de

mulheres chefes de família e, principalmente, porque os salários das mulheres, em todos os países do

mundo, continuam sendo menores do que os dos homens. Estou vendo emergir dessa conferência, e disse

no meu discurso, uma nova consciência de que a questão da mulher é uma questão da humanidade toda, e

que a mulher não é só uma vítima da discriminação, mas ela é a promotora da mudança no mundo. Essa

nova visão do feminismo faz uma ligação muito mais articulada entre combate à pobreza e igualdade das

mulheres. Este é um enriquecimento da agenda feminista, que vamos levar para o Brasil, onde já estamos,

de certa maneira, trabalhando conjuntamente a questão da pobreza e a questão da mulher. Vamos ter de

avançar mais nessa direção”.

Cinco anos mais tarde ela presidiria o Comitê Nacional Pequim +5, uma conferência realizada em

Nova York.

 

Numa das primeiras entrevistas coletivas que deu, Ruth tentou fazer um acordo: “Vamos ter de discutir

até onde vocês vão. Porque só vou falar com vocês quando tiver o que falar”. Ficou uma saia justa, uma

situação delicada, criou-se certa animosidade. Mas aos poucos ela foi ganhando a imprensa, que passou a

ter outra postura. Até a revista Caras ficava o tempo todo atrás dela, ali na cola, tentando pegá-la numa

situação assim ou assado. Ruth em Brasília nunca abriu mão das coisas dela.

O grande problema com a imprensa, com o fato de ser primeira-dama, foi a exposição pública da

vida pessoal; ela pensava nas consequências que isso teria para os filhos e para os netos. Era a invasão

de uma vida que ela preservou por tantos anos, uma agressão à independência dela. Ruth sempre foi low

profile e, de repente, essa invasão tornou-se permanente, cotidiana.

Uma vez, em São Paulo, precisava fazer compras — havia um casamento, ou o aniversário de

alguma criança. E os jornalistas ali, diante do prédio, dia e noite. Ela desceu, olhou para aquele paredão

de fotógrafos, sorriu e pensou algo que repetia para os íntimos: “Ninguém sabe quanto sou capaz de ser

teimosa”. Saiu tranquilamente, o batalhão atrás. Foi para os Jardins, em seguida para os shoppings.

Caminhava, entrava em todas as lojas — ficava um pouco, saía, entrava em outra. Não comprava nada,

apenas conversava. Entrava e saía, entrava e saía, dando canseira neles todos. Então os jornalistas

começaram a desistir, um a um foi desertando. Quando viu que não tinha mais ninguém, ela começou

realmente a fazer as suas compras.

Ruth não ficava na defensiva com a imprensa por mero acaso ou picuinha, na terminologia

araraquarense. Precisava estar sempre alerta. Certa vez, durante uma coletiva, um repórter avançou com

o microfone na mão, até se postar diante dela. Rosiska percebeu a manobra, escreveu num papel

“cuidado, aborto”, e colocou-o na frente dela. Era um momento delicado, tenso, nas discussões sobre a

descriminalização do aborto, tudo conduzido com cautela por causa das posições da Igreja e do

Congresso. Não deu outra, o repórter jogou o microfone e fez a pergunta. Era sobre o aborto mesmo. Rosiska levantou-se, deu por encerrada a entrevista, o jornalista ficou furioso, Ruth agradeceu e saiu.

Complicado, no entanto, foi durante a visita do papa João Paulo ii ao Brasil em outubro de 1997.

Corria no Congresso a discussão sobre o aborto e Ruth Cardoso foi visitar uma obra na Rocinha, no Rio

de Janeiro. No momento em que entrou no carro para ir embora, um repórter enfiou o microfone pela

janela do carro:

— Qual a influência do papa na votação do Congresso?

— A influência do papa na votação do Congresso é zero.

No dia seguinte a declaração estava na primeira página dos jornais, logo na chegada de João Paulo

ii. No Rio de Janeiro haveria um encontro entre Fernando Henrique, Ruth e o papa. No grupo de

brasileiros foram incluídos Rosiska e Miguel Darcy. Os casais, para estarem junto ao papa, deviam ser

casados, e os únicos casados da entourage eram Rosiska e Miguel. Tensão no ar, afinal Rosiska era do

Conselho da Mulher, que se batia pelo aborto. Aqueles cardeais todos e o grupo se aproximando. Um

deles, ao olhar para Miguel, comentou: “O senhor parece muito com uma pessoa que conheço”. Miguel

deixou escapar: “Em geral dizem que me pareço com Fidel Castro”. Pronto, aborto de um lado, Fidel

Castro do outro. Estavam bem-arranjados em matéria de saia justa. Todos riram nervosamente, para

aliviar o clima, e se lembraram do dia em que, na onu, o papa tinha interpelado Maria de Lourdes

Pintassilgo, a mulher que ocupou o cargo de primeiro-ministro em Portugal. Portanto, já havia um

precedente de provável animosidade pública. A cada passo, a ansiedade aumentava. Finalmente viram-se

frente a frente com Sua Santidade. João Paulo ii foi simpático, deu presentes, tirou fotos. Ele era um

homem grande, com muito carisma. Bonito, mesmo aos 88 anos, impressionou como personagem,

concluíram todos. Elegâncias de parte a parte, nada foi mencionado, sorrisos, Igreja e Estado

reconciliados. No dia seguinte, os jornais estamparam uma foto de Ruth que ela detestou, de óculos

escuros e os cabelos revoltos pelo vento. Logo ela, que jamais perdeu a postura e sempre aparecia bem

penteada, impecável.

 

Foram inúmeras as viagens internacionais protocolares. No voo, as malas privadas do presidente e da

primeira-dama vão dentro do avião, porque eles desembarcam já vestidos para a cerimônia de recepção.

No início, fhc e Ruth viajavam num avião da fab, depois se alugava um avião da tam adaptado — tinham

nos voos uma cabine com cama e chuveiro. Para cada lugar que iam havia as exigências formais. O que

vestir, os presentes a levar, como agir. A viagem à Inglaterra, em 1995, ficou célebre, por ser um país

cheio de tradições e ornamentos. Precisa-se usar chapéu, luva, o comprimento do vestido é determinado,

a cor é especificada, a reverência diante da rainha, o modo de estender a mão, a distância de cada

pessoa, os rituais fossilizados. Apesar de toda a rigidez, Ruth comentou com Gilda Portugal Gouvêa que

enfrentava tudo com naturalidade, porque tinha colocado na cabeça “que era como o enredo de uma

escola de samba. Não te dão o enredo, não existe um papel para você, tudo o que há a fazer é colocar a

fantasia, entrar na ala e sambar. Não é você que decide a cor, a fantasia foi desenhada por outro que não

te conhece, ela está pronta, você entra nela. Então, é assim que vejo, entrei no enredo, vou fazer tudo o

que me mandarem, vou entrar na avenida”.

Um problema foi a questão dos chapéus — ela deveria levar ao menos três, para ter opções. Assim,

indo a Nova York por uma semana, para resolver questões do Comunidade Solidária, aproveitou a oportunidade. Mas o que a incomodava era que vinham as mulheres dos diplomatas, os secretários, gente

do cerimonial, a assistente de não se sabe quem, e ela ficava rodeada por uma corte que a acompanhava,

e dava palpites. Queriam ajudar, compre um Armani, compre um Dior, desconhecendo a natureza de Ruth

e sua independência. Numa loja, certa tarde, quando viu que tinha em volta dela cinco mulheres dando

palpites, ela disse: “Por hoje, chega”. Voltou no dia seguinte, acompanhada da amiga Maria do Carmo

Sodré, de quem gostava e em quem confiava, e escolheu o chapéu.

No final, a viagem à Inglaterra foi simpática. Quando viram os filmes e os noticiários na volta,

acharam curioso e divertido perceber que quando Ruth chegou, a rainha olhou-a de alto a baixo,

medindo-a, curiosa com o fato de ela ser uma intelectual de nomeada. Ruth apenas não fez a reverência

protocolar por causa de um problema no joelho — se o joelho dela fosse, não voltava. Para os jantares

em Buckingham, ela usou um modelo de Lino Villaventura, em que entravam rendas do Nordeste, e um de

Marie Toscano, que durante toda a Presidência fez para ela vestidos muito elegantes. Quando não eram

presentes, porque todos eram amigos pessoais, Ruth fazia questão de pagar de sua conta pessoal.

Em Londres, circularam em carruagens, Fernando Henrique ao lado do príncipe Philip, Ruth junto à

rainha. Conto de fadas para a mulher de Araraquara, a quem o mundo se inclinava. Em Buckingham, onde

ficaram hospedados, se divertiram com as peculiaridades que revelavam os bastidores da nobreza. Por

exemplo, o vaso sanitário era tão camuflado, tão escondido, que custaram a encontrar. Era oculto num

pequeno móvel. Os seguranças ficavam num andar diferente, mas se revezavam de tantas em tantas horas.

Foram avisados de que os cachorros da rainha ficavam soltos e costumavam seguir as pessoas. Que

tomassem cuidado. Toda a noite se viu segurança fugindo de cachorro e procurando porta para se

esconder.

Ruth tinha convidado Regina Meyer para fazer parte da comitiva, porém a amiga não foi. Na volta,

só para espicaçar, Ruth passava horas descrevendo a corte inglesa, as roupas de cada um, os detalhes, o

dourado de tudo, parecendo escola de samba. Observadora, descreveu até mesmo a arrumação das

toalhas nos banheiros. Ela adorou a Rainha Mãe, velhinha simpática, pareceu-lhe a pessoa mais

interessante dali, viva. Referiu-se igualmente de maneira positiva à irmã de Elizabeth, a princesa

Margareth, que viveu sempre em conflito com a Casa Real, primeiro ao se apaixonar por um plebeu,

Peter Townsend, da Real Força Aérea, ligação que foi cortada pelo palácio. Mais tarde, Margareth

acabou se casando com Tony Armstrong Jones, um fotógrafo de moda que recebeu um título de nobreza,

Lord Snowdon, porém o casamento naufragou. Margareth era uma mulher liberada, célebre pelos muitos

affairs.

 

Um banquete em Pequim adquiriu contornos surrealistas e Ruth descreveu-o aos amigos nos mínimos

detalhes. Eram pratos chineses, claro, mas não negociados com o cerimonial brasileiro. Serviram

primeiro pintinhos que vinham com os pés para cima dentro de um consomê; eles eram recheados por

barbatanas de tubarão. As luzes do salão se apagaram e entraram trezentos garçons carregando, cada um,

um leitãozinho frito numa bandeja. Cada leitão tinha luz no lugar dos olhos, alimentada por baterias

velhas que lhes davam um ar lânguido.[129]

 

Ao chegar ao Japão, foram recebidos no aeroporto pelos imperadores. A imperatriz, toda de amarelo, aproximou-se de Ruth e disse: “Escolhi o amarelo porque é a cor do ipê, a flor nacional do Brasil”.

Foi uma revelação para Ruth e a comitiva. O presente para a imperatriz teve a mão de Ruth: uma

plaquinha de jacarandá com aplicações de pau-

-brasil, café, ouro e rubis. O café era referência aos imigrantes japoneses que vieram para o Brasil e

foram trabalhar nas lavouras.

Por anos, fhc e Ruth se lembraram do banquete no palácio imperial. O chefe de cerimonial alertou o

presidente: “Vão tocar os hinos de cada país. Quando o senhor levantar o copo, o senhor se levanta

também e então ouve o hino nacional. Mas não pode beber. O senhor deixa o copo na mesa e só bebe no

fim, porque tem o outro hino, de novo o copo, levanta, espera”. Começada a cerimônia, o presidente se

levantou, ergueu o copo, começou o hino, ele bebeu. O hino parou. Começou de novo, ele se levantou,

ergueu o copo, bebeu. O hino parou. Só deu certo o ritual na terceira tentativa. Um dos problemas é que

havia cerca de trinta copos à frente de Fernando Henrique na mesa. Ruth ficava cutucando o embaixador

Fred Araújo: “Fala para ele, explica”. Pequenas nuances que suavizam com humor o formalismo às vezes

rígido.

Istambul, em 1996, foi uma viagem que Ruth relatou em incontáveis encontros com as amigas. Ela foi

convidada por Boutros-Ghali para integrar o grupo mais do que seleto de doze personalidades nomeadas

assessoras especiais do secretário-geral da onu, durante o evento em que foram entregues os prêmios aos

responsáveis pelas doze melhores práticas urbanas. Nesse encontro, Ruth presidiu a mesa cujo tema era

“Diálogo sobre a democracia e a solidariedade”.

Em 1998 estavam em Madri e houve um banquete só para brasileiros na embaixada. Naquele

momento ligaram de Brasília para comunicar o falecimento do senador Luís Eduardo Magalhães, filho de

acm. Fernando Henrique telefonou, conseguiu falar com acm, avisou que estava interrompendo uma visita

de Estado para acompanhar o sepultamento. Ele tinha especial apreço por Luís Eduardo, altamente

cotado para ser presidente em 2002. O funeral foi atrasado, esperando o presidente. A ligação com Luís

Eduardo era tão forte que o próprio acm parecia sentir ciúme dessa amizade.

 

A cada viagem, Ruth chamava logo Fred Araújo. Davam-se bem, tinham o mesmo tipo de humor, a

maneira de ser: “O que vamos presentear agora?”.

Os presentes para os chefes de Estado tinham sempre um dedo de fhc ou de Ruth. Eles preferiam

livros raros, documentos, gravuras, e contavam para isso com a assessoria de Pedro Corrêa do Lago. O

presidente da Itália recebeu um original com anotações do barão de Rio Branco, que escrevia artigos

para o Diário da Noite, do Rio de Janeiro, e que eram traduzidos na Itália. Menem, da Argentina, ganhou

um manuscrito de San Martín atestando que ele tinha nascido em Yapeyú, desfazendo dúvidas históricas.

A rainha da Inglaterra deveria receber uma coleção das aquarelas de Margaret Mee, mas pertenciam

ao Banco Real e o custo era altíssimo. Então foram dadas gravuras e aquarelas sobre botânica, pintadas

por Dulce Nascimento, que tinha estudado em Kew Gardens. Portanto, havia uma relação com a

Inglaterra.

Para a visita à Bélgica, as joias que Ruth usou tinham sido de dona Mary, mulher de Epitácio Pessoa,

e pertenciam ainda à família. Quanto à Holanda, depois de consultas ficou acordado — porque tudo é

negociado — que a rainha ia receber Ruth sem chapéu. As histórias que o embaixador Fred Araújo tem são uma vasta antologia. Na hora em que desembarcou, Ruth olha e o que vê? A rainha com o maior

chapéu. “Estão vendo, me disseram para vir sem chapéu e a rainha está com o dela. E agora?”

 

Ninguém se esqueceu da visita a Bruges, histórica cidade medieval belga, chamada a joia de Flandres.

Houve um banquete na prefeitura que durou três horas e meia. Interminável. Assim que acabou, as portas

se abriram e os convidados saíram para a praça principal da cidade. Todos se despediram, um ônibus

parou, abriu a porta, Ruth olhou e, tão ansiosa para voltar ao hotel, correu até ele e entrou. A porta foi

fechada e o ônibus partiu. Acontece que aquele era um circular da cidade, transporte público comum.

Num ônibus, assim que se entra, ou pouco depois, se paga a passagem. O motorista olhou para ela,

esperou o dinheiro, ela olhou para o motorista, e de repente entendeu a situação — caiu na gargalhada.

Nesse momento os seguranças já tinham rodeado o ônibus. Resgataram Ruth.

 

Celso Lafer serviu em Genebra como embaixador do Brasil durante anos e ali era um lugar que Ruth

gostava de chegar, ficava relaxada. “Aqui estou à vontade, faço o que quero, ninguém me impõe nada, não

estou presa por esta armadura que o cerimonial coloca. Em Genebra, faço o que quero, sento-me e

converso horas com Mary, despreocupada de horários. Sento-

-me na varanda e leio, ninguém preocupado em me providenciar uma atividade, ninguém fica me

mostrando o que sabe, o que conhece, como tal lugar é sofisticado.” Ruth ficava ouvindo repetidas vezes

um disco de Eliete Negreiros, decorou todas as letras, cantava junto. “Foram deliciosos esses momentos

que ela passava com a gente, permanecia três ou quatro dias.”[130]Ruth cantando é uma imagem que

também Rosiska Darcy recuperou. Uma vez, quando Rosiska fez 55 anos, recebeu amigos em sua casa no

Rio de Janeiro. Depois do jantar, Ruth sentou-se na varanda a cantar “Lua branca”. Era afinada, cantava

bem.

Em Genebra, Mary e Ruth entraram numa galeria onde havia uma loja com coisas bonitas e

divertidas. Ruth deu uma bolsa de presente a Mary. A vendedora, ao ouvi-las falando português, se

apresentou, era também brasileira.

— Sou de São Paulo. E as senhoras?

— Somos também de São Paulo, mas moramos em Brasília.

— Brasília? Mas por que moram lá? É um lugar horrível.

— Moramos lá porque nossos maridos trabalham lá. Fazer o quê?

No final, tiveram de se identificar e Mary acrescentou:

— O marido dela é o presidente Fernando Henrique Cardoso.

— Não sei, sabe? Estou fora há muito tempo.

Houve duas visitas que Fernando Henrique e Ruth adoraram nesse período em Genebra. Uma delas

foi ao Museu Voltaire, a outra, à Fundação Martin Bodmer, em Cologny. Bodmer, um ex-presidente da

Cruz Vermelha, possuía uma coleção fantástica de obras raras que iam de plaquetas cuneiformes a

papiros egípcios, manuscritos medievais, a Bíblia de Gutenberg e outros, e para preservar os 150 mil

documentos criou uma fundação. Sobre o túmulo de Bodmer, no cemitério de Cologny, há uma frase de

Sêneca, que está nas Cartas a Lucílio: “Aquilo que terás feito de tua vida, veremos no momento em que a

perderás”. Ao sair da Fundação, viram-se todos diante de uma coletiva de imprensa. A certa altura, fhc, com humor, declarou: “Ruth e Celso só gostaram da Fundação porque descobriram um manuscrito

raríssimo — ou um livro, me parece —, em que há uma referência a Araraquara. Porque os dois ficam o

tempo todo falando de Araraquara e puderam verificar como essa Fundação é da maior qualidade, tanto

que tem referências àquela cidade”. Os suíços procuram entender o que ele disse até hoje.

 

Malak El Chichini Poppovic, por sua experiência internacional, fez uma série de viagens com Ruth

Cardoso. Ela fez parte da un Foundation e teve vários encontros com Ted Turner, um homem fissurado no

relógio. Começa às oito? Às oito ele estava sentado à mesa. Aos poucos ele se acostumou com Ruth, que

jamais chegava na hora, mas nada exagerado, cinco, dez minutos de atraso. Apesar disso, tinham boa

relação os dois, ele gostava muito dela. Quando havia discussões em que não estavam chegando a lugar

nenhum, ele dizia: “Agora, vamos ouvir a Ruth”. Os debates eram principalmente sobre para quem iam

dar dinheiro, de que maneira, como seria o monitoramento. Havia grupos que só queriam para o meio

ambiente, mudanças climáticas, enquanto Ruth pendia para os problemas sociais, direitos humanos,

crianças. Ted dizia que era mais fácil dar dinheiro do que bens.

Ruth odiava quando marcavam reuniões cedo, logo às oito da manhã. Mesmo às nove ela

resmungava. Quanto à questão dos atrasos, o pessoal que trabalhou com ela diz que o problema é que

Ruth nunca sabia como acabar uma reunião, deixava as conversas se estenderam, não dizia fim, acabou,

não tem mais, fechando a pasta, levantando-se da mesa e seguindo para a reunião seguinte.

 

Ninguém em Brasília comentou a ausência de Ruth no início de 2000. Ela sumiu de Brasília e somente

uns poucos souberam de seu paradeiro. Foi para Berkeley, Califórnia. Fez questão de ir sozinha e de

morar num pequeno apartamento bonitinho, mas simples. Caminhava diariamente até a universidade.

Raramente pegava um táxi, só quando chovia, hábito que surpreendeu enormemente o então embaixador

Rubens Barbosa e sua mulher, Maria Ignez. Na verdade, era um grande problema, uma vez que ela era

uma primeira-dama e não podia dispensar a segurança e todo o aparato oficial em torno dela.

Ruth não deu curso. Fez o que planejava há muito tempo, na solitude e sem formalismos. Sempre

repetiu a Bibia Gregori que “precisamos, de tempos em tempos, de um período de solidão, essencial para

uma reciclagem, um repensar, ou testar se conseguimos viver sozinhos conosco”. Leu, pesquisou,

escreveu artigos de antropologia, sua grande fonte de prazer, encontrou colegas das ciências sociais, e,

sobretudo, fez palestras sobre o Comunidade Solidária, com grande entusiasmo. Lourdes Sola, que se

encontrava lá na mesma época, juntou-se a ela muitas vezes em jantares, em compras em San Francisco,

em visitas aos museus. San Francisco lembrava-lhe o filme de Alfred Hitchcock, Um corpo que cai

(Vertigo), com James Stewart e Kim Novak, um de seus trabalhos mais complexos. Divertiu-se e ficou

fascinada com o documentário Buena Vista, de Wim Wenders, que acabou sendo um sucesso mundial, ao

recuperar a música de um dos grupos musicais mais instigantes de Cuba. Quando descobriram que o

Buena Vista ia se apresentar em San Francisco, correram para lá e conseguiram os ingressos. Diz

Lourdes que o difícil foi se conterem para não dançar junto com a plateia, que estava a toda.

Houve, na época, um grande seminário internacional sobre o Brasil, com um mix no mínimo curioso:

Ruth Cardoso, Marina Silva, Raul Jungmann, os sindicalistas Marinho e Medeiros, Antônio Barros de

Castro, Jorge Wilheim, Vilmar Faria e Lourdes Sola. Pelo lado brasileiro. Pelo lado americano, além de líderes sindicais, o que ficou na memória de Lourdes Sola foi a intervenção da democrata Nancy Pelosi,

a atual speaker da Câmara dos Representantes, que acaba de liderar a reforma da saúde no Congresso

dos Estados Unidos.

 

Ver filmes sempre foi um dos divertimentos no Palácio da Alvorada. Eventualmente produtores e

diretores brasileiros levavam suas produções em avant-première e então havia convidados especiais, a

sala se enchia. Uma dessas estreias foi Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, com a presença do

escritor Paulo Lins, autor do livro. No dia a dia, todavia, reuniam-se a família e alguns empregados mais

chegados. Pedro Paulo Poppovic, que estava em Brasília, ia muito ao palácio. Vilmar Faria também, e

Pedro Malan, que já era amigo de antes, Luiz Felipe Lampreia, Mary e Celso Lafer. Ruth recebia um

catálogo de filmes e indicava os que desejava. Em geral, era Luciana quem ia buscar nas locadoras um

lote que durava dias. Tudo com a nota fiscal e o dinheiro do próprio bolso. Não se usava o dinheiro

público. Luciana confessa que aprendeu a gostar de musicais acompanhando a mãe, desde criança. As

duas adoravam, iam muito ao cinema. Muitas e muitas vezes, quando os netos estavam em Brasília, em

algum feriado, ou em férias escolares, Ruth pegava a troupe e ia por sua conta — entrava na fila e

recusava qualquer mordomia.

Tanto em viagem quanto em São Paulo, quando amigos a visitavam ou jantavam, Ruth de repente se

levantava e perguntava: “Agora vamos ficar parados? O que vamos fazer?”.

Se estavam em viagem, saíam para museus, eventualmente para lojas. Durante o governo, Rosiska

Darcy ia para Brasília e ficava até a quinta-feira, e então regressava ao Rio de Janeiro. Todos os dias, ao

sair do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, ela ia para o Comunidade Solidária e faziam um

balanço do dia. Uma noite, cansada, depois de um dia cheio de problemas, Rosiska comunicou: “Está

ficando pesado, Ruth! Vou voltar para o Rio de Janeiro. Brasília é muito chata, além de tudo”.

Ruth ouviu um rosário de queixas com um leve sorriso nos lábios. Quando Rosiska terminou, ela

disse apenas isto: “Engraçado! E eu que pensava que esta era a aventura da nossa geração. Você vai

voltar lá, ficar quieta e aguentar este negócio até o fim”.

Ela trabalhava muito. Uma noite, terminado o expediente do Comunidade, as duas saíram e Ruth

bateu a mão na testa: “Tem uma recepção para as embaixatrizes de todos os países. Vamos correr”. Era

uma recepção anual comandada pela primeira-dama. Chegaram ao palácio, entraram por uma porta dos

fundos, Ruth subiu, trocou de roupa, se arrumou toda e desceu, fresca e lépida, para receber as

embaixatrizes, como se nada tivesse acontecido. E tinha sido um dia puxado, desde a manhã.

Havia, de tempos em tempos, um café com as embaixatrizes. Regina Meyer acompanhou Ruth

algumas vezes e conta que era um encontro de um tédio mortal, uma coisa sem graça e que isso fazia

parte, sempre tinha sido assim e continuaria a ser. Nessa tarde, havia um café para as embaixatrizes do

mundo árabe. Lá estavam todas aquelas mulheres, muito quietas, as mãos cruzadas sobre os joelhos, a

conversa não saía, não fluía, silêncios longos. Somente uma delas falava inglês, algumas arranhavam uma

palavra de português, ainda que houvesse intérpretes para um socorro. Uma coisa encrencada. Eram vinte

pessoas no máximo, sentadas em poltronas, um sofá maior, banquinhos, enquanto funcionárias do palácio

serviam canapés. “Então, está gostando de Brasília? Muito seca a cidade, não?” E pronto, a conversa

parava. De repente, a dona de casa que havia em Ruth emergiu: “Tenho muita curiosidade de saber uma coisa. Vocês todas são de países onde se toma muito café. E me contem, quero muito saber como é que

cada uma prepara o seu”.

Foi um alvoroço. De um minuto para o outro, todas elas destravaram, se tornaram faladeiras,

começaram a dar depoimentos, riam, se animaram, foi preciso organizar a conversa e acabou sendo muito

interessante. Ela se demorou relatando a maneira de fazer café em Araraquara, como a mãe e as tias

faziam, o café para um ou para dois, na medida exata. Ruth tinha essa capacidade, diz Regina, de sacar,

levantar um assunto pelo qual todos se interessariam, era a inteligência ligada à visão prática de mundo.

Tirava leite da pedra.

 

Quando Hillary Clinton veio ao Brasil, Ruth, que gostava dela, convidou-a para um encontro reservado.

As duas se davam bem porque ambas tinham projetos em defesa da mulher. Era uma coisa fechada e

Hillary chegou com quatro acompanhantes. Do lado brasileiro estavam Ruth, Rosiska, Malak, Marina

Silva e Teresa Caldeira. Falaram dos trabalhos do Comunidade Solidária, do Conselho dos Direitos da

Mulher e então Marina Silva começou a contar a sua história. Falava em português com tradução e as

americanas ficaram fascinadas. Uma trajetória que pareceu uma epopeia, rara. Hillary, impressionada,

perguntava e perguntava. Havia naquela sala uma corrente de verdade que permeava todos e emocionava.

Uma das assessoras de Hillary não se conteve: “É uma coisa fantástica”. Rosiska acentuou: “Pois sem o

movimento feminista não teria sido possível. Ou seja, vinte anos atrás não teria acontecido, seria um

chazinho com bolachas, não uma conversa densa sobre dificuldades”.

 

Certo dia, Ruth sumiu no Alvorada, desapareceu das vistas dos seguranças, foi andar, andar, andar. Só

para mostrar que eles não tinham controle sobre ela. Também para fazer picuinha, como boa

araraquarense, aquela coisa de “vocês não são tão bons assim!”. Ela saiu caminhando e eles a perderam,

foi um desespero. Em outro dia, ela e Luciana saíram caminhando e também desapareceram. De repente,

ela apareceu e foi um auê: “Viu? Viu só? Vocês não viram que eu saí?”. Tipo transgressão, sabe? “O

negócio do palácio era assim: você estava no banheiro, entrava um cidadão para colocar papel higiênico,

era público! Por quê? Porque quem manda é o Itamaraty, o Serviço Secreto de não sei o quê.”

Uma noite, em São Paulo, ela telefonou para Regina e foram ao teatro. A segurança em volta, atenta.

Mas era uma peça em que havia nudez, nu frontal, e ela subitamente percebeu o constrangimento das

moças que faziam a segurança. Levantou-se e liberou-as: “Se quiserem, me esperem ali fora”. Elas

saíram rapidamente, aliviadas.

 

Por algum tempo, havia as visitas à fazenda de Goiás. Nos anos 1980, fhc vendeu a casa de Picinguaba e,

estimulado por Severo Gomes e Sergio Motta, comprou uma fazenda a oitenta quilômetros de Brasília.

Eram terras baratas, o hectare custava um par de sapatos na época. Mas ele não tinha dinheiro para tocar

a fazenda, e então indagou de Sergio Motta se ele não queria ser seu sócio. Motta aceitou, fifty-fifty, US$

25 mil para cada um. Com o tempo Fernando Henrique foi investindo lá dinheiro de senador, “a época em

que eu tive mais dinheiro”, mais os minguados vencimentos da aposentadoria, juntando com parte do

salário da Ruth. Quando Sergio morreu, Fernando Henrique tinha apenas 28% da fazenda, porque não

tivera fôlego para acompanhar os investimentos do amigo. Foi então que Jovelino Mineiro, que era fazendeiro, comprou a parte do Sergio, porque a Wilma, mulher de Sergio Motta, disse: “Não vou tocar

fazenda”. Logo em seguida vendeu-se a fazenda para um plantador de soja.

“Bom, a Ruth não era muito favorável à fazenda, por quê? Porque Ibiúna era dela, ela mandava, era

dela e de mais ninguém. Em Goiás tinha o Sergião, que mandava também, então, como é que faz? Ruth

nunca incorporou a fazenda, porque ela era uma pessoa que mandava. Em Ibiúna ela mandava, ela

gostava, ela adorava o jardim, a horta, as plantas. Luciana, por sua vez, diz que as viagens até a fazenda

eram complicadas, em geral iam de helicóptero, havia a eterna questão da segurança, imagine o

presidente ficar sozinho no sertãozão? Isabel, filha de Luciana, adorava, porque, curtindo cavalos e

praticando hipismo, a fazenda era o paraíso.”[131]

 

Tanto fhc quanto Ruth refletiam sobre o fato de um presidente ser um prisioneiro de luxo. “Às vezes, aos

sábados, andávamos a pé pelo parque, mas era complicado; a não sei cada quantos metros, passávamos

por um guarda com fuzil. Era uma vida aborrecida também pra eles, rapazes jovens e pobres da periferia,

houve o caso de dois que se suicidaram, espremidos pelo tédio. Não tinha graça nenhuma passear e dar

com aqueles jovens, e ainda perceber a segurança que nos seguia a uma distância prudente. Não havia

privacidade, era a sensação constante de estarmos vigiados. Para variar, outras vezes, íamos ao jardim

da frente, e então éramos observados pelo povo, pelos turistas, pela imprensa que ficava esperando não

se sabe o quê. Se você decide ser simpático e se aproximar do povo, os seguranças ficam nervosíssimos.

Saíamos com os netos, eles gostavam de assistir à cerimônia de hasteamento da bandeira, com os toques

de clarins. A vida era isso, enfim, curiosamente doméstica, porque você não pode sair, não tem para onde

ir em Brasília, a imprensa não deixa, vai atrás. Nunca fomos a um clube comer fora, era complicado,

cinco minutos depois que você se sentava chegavam os fotógrafos avisados pelo dono. Ou o próprio dono

cheio de rapapés.”

Sobre a estrutura e o poder, com sua mordacidade, um dia Ruth deu exemplo do que isso significava:

“Você entra num espaço, cheio de figuras do primeiro ao último escalão, olha para o teto e comenta como

quem não quer nada: puxa, não tem uma vaca neste teto? No dia seguinte, ao entrar no salão, vai

descobrir que alguém colocou uma vaca no teto”.