Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
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Prezando a autonomia dos filhos
O homem já tinha ido à Lua quando chegaram os anos 1970, tempos do general Garrastazu Médici, o
avozinho de olhos azuis sempre com o radinho de pilha ao ouvido, enquanto nos porões da ditadura,
como se dizia, pessoas eram mortas e torturadas. O Brasil ganhou o tricampeonato mundial de futebol no
México e a televisão em cores chegou a todas as casas. Delfim Netto manipulou os índices e nos
tornamos o Brasil do milagre econômico. Houve uma crise do petróleo, obras ditas faraônicas garantiam
o Brasil grande. Orgulhoso de si, o governo, mais que recomendar, ordenava: Brasil. Ame-o ou deixe-o.
Geisel substituiu Médici, iniciou-se o processo gradual de abertura e a linha dura em alguns meios
militares começou a sofrer contestação. Porém, em 1975, Vladimir Herzog foi torturado e assassinado na
prisão, causando enorme celeuma e provocando um princípio de distensão no sufoco que passávamos. O
Movimento Democrático Brasileiro, mdb, surgiu como força se opondo ao partido oficial, a Arena. A
censura, por meio do ministro Armando Falcão, recrudesceu e ampliou os seus tentáculos — livros,
peças, filmes e canções eram proibidos a cada instante.
Inventaram os senadores biônicos, isto é, não eleitos pelo voto popular. A Emenda Constitucional no
11 revogou o famigerado ai-5. A Comissão Pastoral da Terra, sob influência da Igreja, criou novas
lideranças. Os trabalhadores do abc se uniram, do que resultou o Partido dos Trabalhadores, pt, e Lula
surgiu no cenário como força nova, carismática. O general Figueiredo — que não gostava do cheiro do
povo, preferia o dos cavalos — sucedeu a Geisel e, ainda que muito mal-humorado, manteve a transição
para a democracia. No final da década surgiu a Lei da Anistia. Em 1977, um Manifesto Contra a Censura
foi levado ao Ministério da Justiça, assinado por 1.046 intelectuais do Brasil inteiro, sendo a primeira
assinatura a de Antonio Candido.
Tempos de O último tango em Paris, de Love story (“Amar é nunca ter de pedir perdão”), de
Cabaret e Liza Minnelli, de Tubarão, de Pretty baby com Brooke Shields. Amávamos Jane Fonda,
Jessica Lange, Margaux Hemingway, Farrah Fawcett, Linda Lovelace (a garganta profunda), e a
principal, essencial e fundamental Leila Diniz, nossa musa libertária. Louvávamos Dina Sfat, Duda
Cavalcanti, Adriana Prieto, Joana Fomm, Helena Ignez, Rose di Primo. Homens usavam bolsa capanga e
camisas de tergal, camisas de gola rulê, calças boca de sino. Por toda parte Dener e Clodovil, pôsteres
de Guevara, sandálias de sola de pneu, concertos de rock. Orelhões pelas ruas assombrando o povo pela
tecnologia em comunicações, máquinas pensantes ou computadores entrando no cotidiano. Chico, Gil,
Caetano, Dzi Croquettes, Rita Lee, Elis Regina, Raul Seixas, os Festivais de Música Popular Brasileira,
o programa Esta noite se improvisa, Vinicius e Toquinho, revista Senhor, O Pasquim, Rolling Stones, o
jornal Flor do Mal e os nanicos Opinião e Movimento. A pornochanchada (proibido mostrar pelos púbicos), O poderoso chefão, m*a*s*h, Carlos Castañeda e A erva do diabo, maconha e lsd,
psicodelismo, chá de lírio e de cogumelo, O despertar dos mágicos, a revista Planeta e o realismo
mágico, artes marciais, tae kwon do, Bruce Lee, kung fu, David Carradine, uísque Old Eight, conhaque
Dreher, cerveja em lata, Kodak Instamatic, Mônica e a sua turma, revista Recreio, os teatros Arena e
Oficina, O rei da vela, o nu frontal de Ítala Nandi, The Living Theatre no Brasil, o show Opinião,
Bethânia, Carcará, João do Vale, Zé Kéti, Clóvis Bornay, Bandeira 2, Irmãos Coragem, O cafona, A
família Trapo e A grande Família, as peças teatrais Gota d’água e Roda viva, o Fantástico e Heloísa
Millet, a chegada da cultura dos shoppings, o patrulhamento ideológico, Fernando Gabeira, a tanga de
crochê, O que é isso, companheiro?, Os Beatles, John Travolta, Os embalos de sábado à noite, Glauber
Rocha, Dona Flor e seus dois maridos, Sonia Braga, danceterias, Regine’s, Hippopotamus, Ricardo
Amaral, Ton Ton Macoute, Ta Matete, rodízio de pizzas, dj (no fim da década), Danuza Leão, Zózimo
Barrozo do Amaral, Daniel Más, revista Status, As Frenéticas. Pelé abandona o futebol e namora Xuxa,
Loteria Esportiva, os 13 pontos, Saramandaia, “Silvio Santos vem aí...”, Buzina do Chacrinha, as
“chacretes”, Carlos Imperial, Dancin’ days, A mulher biônica, Mulher maravilha, Os Waltons e As
panteras, o pirulito do Kojak, bebê de proveta, o punk, o terrorismo no mundo, a holografia. Apesar da
repressão, foi a era do desbunde, das viagens de ácido, da amizade colorida, da promiscuidade, do
esoterismo, das civilizações desaparecidas, do misticismo, o islamismo começando a surgir como força.
A mulher se redescobrindo, os spas, os exercícios físicos, os regimes, o colesterol, e forte, muito forte, o
culto ao corpo, a ego trip.
Nesses anos, os Cardoso se deslocaram para Stanford em 1972, para Princeton em 1975, para
Cambridge em 1976-1977, para Paris (École des Hautes Études) em 1977, em momentos diversos indo e
voltando, em períodos mais longos ou breves. Os dois dando aulas, ou um em trabalho acadêmico e o
outro, não. Para Princeton, os filhos foram junto e cursaram parte da High School. fhc define o Institute
for Advanced Study de Princeton “como uma torre de marfim criada para Einstein, quando ele foi para os
Estados Unidos em 1935 com sua mulher, Elsa. Uma instituição voltada basicamente para a física e a
matemática e um pequeno grupo de ciências humanas”. Bia levou sua amiga de infância Marjorie Geller
— que também foi a Araraquara diversas
vezes —, que mais tarde seria uma estilista reconhecida. As duas passavam de propósito diante do 112
da Mercer Street, onde tinha morado Einstein. Era uma casa simples, revestida de madeira, com uma
pequena varanda na frente. “Imaginávamos sempre ver uma velhinha caminhando pelas ruas e
reconhecíamos nela a mulher de Einstein que tinha morrido em 1936, no ano seguinte ao da chegada deles
aos Estados Unidos”, recorda-se Bia.
O pequeno grupo de ciências humanas era constituído de três ou quatro professores, não mais. Um
deles foi Albert Otto Hirschman, cuja mulher, Sarah, tornou-se grande amiga de Ruth. Era um sistema
curioso — os professores convidados não davam aulas propriamente, tinham como único dever fazer uma
palestra de tantos em tantos meses. Quanto aos alunos, eles eram convidados — trinta ou quarenta jovens
que viviam em grande competição porque, ou descobriam uma coisa muito importante e continuavam no
Instituto, ou iam dar aulas na universidade. Todos queriam descobrir uma novidade de impacto, ganhar o
Prêmio Nobel. Havia na época um grande antropólogo, formado em Filosofia, Clifford Geertz, tão
importante quanto Lévi-Strauss, não apenas pela teoria e a prática antropológica, mas também fora de sua área, em disciplinas como psicologia, história e teoria literária. Geertz foi o fundador da antropologia
hermenêutica ou interpretativa, que floresceu a partir dos anos 1950.
“Não me lembro se Ruth tinha aulas de inglês com a mulher de Clifford, porque sempre desejou
aprimorar-se, ou se foi com a de outro professor. O que é uma certeza é que ela ficou fascinada com os
trabalhos de Geertz sobre a Indonésia e o Marrocos, e especialmente seus estudos sobre a religião em
Java e as brigas de galos, analisadas do ponto de vista de valores culturais e simbologia na cultura.
Quanto a Sarah Hirschman, Ruth a acompanhava em seu trabalho com literatura, principalmente no
projeto de literatura nos presídios, fazendo sessões de leitura para os presos. Outra que se aproximou
muito de Sarah foi Mônica Serra”, revela Fernando Henrique. “Hirschman, judeu-alemão nascido em
Berlim, hoje com mais de noventa anos, foi um sujeito que poderia ter ganho o Prêmio Nobel. Um tipo
curioso, que nunca fez doutorado, e escreveu livros admiráveis de economia e filosofia política. Em seu
círculo de amigos figuram brasileiros como Fernando Pedreira, José Serra e Roberto Schwarz. A última
vez que estivemos com Hirschman, Ruth ficou impressionada — ele nos recebeu todo engravatado e feliz,
mas não disse palavra. Mudo. Sarah explicou que o marido tinha desistido, já tinha falado muito na vida,
agora dedicava-se apenas à pintura. No estúdio dele havia dezenas de autorretratos.”
Ruth conseguiu criar um esquema que funcionava com relação às viagens e às escolas dos filhos.
Houve época em que eles os acompanharam, deixaram o país, outras ficaram com os avós. Houve
momentos em que foram matriculados em escolas locais no exterior, mesmo que temporariamente. Bia
confessa que nunca teve traumas, que até se divertia com as mudanças de escola, não havia monotonia, e
a mãe estava sempre controlando os estudos, atenta. Em São Paulo estudaram na Pirajá, “escola muito
maluca, porque multisseriada, não sei por que cargas d’água eu estudava numa escola multisseriada. Dali
nos transferimos para o Externato Jaraguá — onde conheci Marjorie Geller e Esther Hamburger. Depois,
veio o Rainha da Paz, dirigido por freiras, que me marcou, estive numa sala mista, enquanto Luciana
pegou uma apenas de meninas. Escola moderna, superposicionada, tanto que uma professora de
português, de nome Maria Otília, teve problemas sérios. Uma vez recomendou como leitura o livro O
caneco de prata e o pai de uma das alunas — mais tarde modelo, atriz e apresentadora de televisão —
denunciou Otília, que foi presa.[79]Havia professoras revolucionárias como Gigi, de estudos sociais, e a
Cynira Fausto, coordenadora de ensino.[80]Terminamos no Equipe, que, então, abria a cabeça da
meninada, ali fui colega de Arnaldo Antunes, Leda Catunda, de vários músicos, artistas plásticos.
Cursamos uma escola que preparou a elite que hoje chegou aos cinquenta anos. Do Equipe, partimos para
Cambridge”.
Fernando Henrique foi para a Inglaterra dar aulas no Clare College, acompanhado por Paulo e Bia,
enquanto Ruth seguiu depois com Luciana, que tinha ficado um tempo no Brasil preparando-se para os
vestibulares. Na Inglaterra, Bia, sempre muito independente, estudou, trabalhou num pub, no final decidiu
viajar pela Europa — com data certa para voltar e terminar os estudos, afinal fazia o colegial. As datas
corriam, Bia não voltava, e, quando conseguia ligar, dizia que tinha perdido o avião. Estava na Grécia
com uma amiga e perdeu realmente o navio de volta, foi um transtorno. E não havia telefone fácil para
avisar, dar notícias, ligar era uma odisseia. “Meus pais sempre foram de tirar o chapéu, mantinham a
calma, navegavam juntos, impressionante. Confiavam na gente, na educação que nos deram. Eu, que sou
mãe, imagino como ela devia se controlar, se segurar, porque a gente não acha graça nenhuma em não ter notícias dos filhos o tempo todo. Hoje, vejo que ela valorizava a importância da experiência, do
crescimento. Então dava corda para a gente ter autonomia
e independência.”
Quando Paulo Henrique, em 1978, terminou seu curso na Universidade Estadual de Campinas, a
Unicamp, e quis voltar a morar em casa, Ruth advertiu: “Olhe, meu filho, acho que há um engano aqui.
Sabe, até acabar a faculdade a gente ajuda muito, mas agora está na hora de você se cuidar. Arranje o seu
lugar”. Jorge Caldeira, quase um irmão, lembra que Paulo, em choque, foi morar na casa dele, na rua
Conselheiro Brotero, um prédio eclético e movimentado onde moravam José Américo Peçanha, filósofo,
Mariângela Alves de Lima, hoje crítica teatral de O Estado de S. Paulo, Alberto Rocha Barros, físico,
do Partidão, Silvia Poppovic, Enio Mainardi, o publicitário, e Cynthia Sarti, com quem Caldeira se
casou.
Luciana Cardoso, a primeira das filhas, revela que, chegando aos trinta anos, os filhos eram
“despachados” para que cuidassem de suas vidas. De qualquer modo, cada um ganhou um apartamento
para viver. “Mas eu ia comer na casa da minha mãe todos os dias.”
Ruth e Fernando Henrique deixavam Cambridge, acompanhados por Luciana, e iam para Brighton,
onde moravam Clélia e Gabriel Bolaffi, ela fonoaudióloga, ele sociólogo. Passavam lá fins de semana ou
mesmo expandiam a estada, pois Ruth adorava o cottage dos Bolaffi, achava lindíssimo. Clélia também
nasceu em Araraquara e morava próximo da casa de Mariquita. Dora, irmã mais velha de Clélia,
conviveu com Ruth na juventude, frequentaram juntas o footing, o cinema e o clube. Clélia fez parte do
grupo araraquarense de Zé Celso Martinez Corrêa e Luiz Roberto Salinas Fortes, o Dedeto. Os pais dela,
os Miari, eram amigos de José e Mariquita. Gabriel, marido de Clélia, foi aluno de história de Ruth no
Colégio Fernão Dias, em São Paulo.
Bia queria fazer jornalismo, comunicação, no Brasil, mas, “ao conversar com Gabriel e Clélia
Bolaffi, ganhei deles um livrinho pequenino, vermelho, chamado The little red book, sobre educação. Era
uma espécie de manual de sobrevivência nas escolas inglesas e fiquei alucinada com aquilo, e eu, que
achava a educação inglesa inacreditável, fiquei revoltada, resolvi prestar para pedagogia. Aqui no
Brasil, claro, fui para a eca, e não passei, fui ser aprovada na puc, fiz um ano, adorei a matéria, odiei a
escola, era como se eu tivesse retrocedido no tempo. Decidi, voltei à usp, prestei vestibular, passei. Eu
continuava com minhas ideias de independência, minha mãe queria me dar dinheiro, eu não tinha um
tostão, mas recusava, era uma luta. Depois tentei ensinar aos meus filhos que não precisavam ser assim
tão... tão fundamentalistas ...”.
Lourdes Sola, que fazia seu doutorado na Inglaterra, costumava passar fins de semana em
Cambridge. Lembra-se da casa bastante ampla dos Cardoso, num bairro fora da universidade, ainda que
próximo, tanto que costumavam caminhar até o centro. Eram três quartos em cima e o dia a dia
perfeitamente organizado, porque Ruth listava os deveres de cada um, incluindo os do marido. Havia um
jardinzinho bem cuidado e um pequeno quintal. “Surpreendia-me vendo o Fernando Henrique tentando
arrumar as camas, enquanto Ruth, diante do desajeitamento dele, dizia: ‘Deixe, deixe’.” Eventualmente
iam a Londres e Lourdes e Ruth saíam para o teatro. “Ela era fanática por teatro, íamos ver tudo,
engolíamos cada coisa. Às vezes Fernando Henrique nos acompanhava, só se recusava a ir aos balés.
Certa vez, conseguimos entradas para ver Nureyev em Romeu e Julieta, era uma coisa dificílima, ingressos sempre esgotados.”
No mesmo período, Regina e Luiz Meyer estavam em Londres. Ele tinha ido para a Europa fazer seu
doutorado em psiquiatria e psicanálise, naquele tempo flertava com a ideia de uma psicanálise
existencial. “Era uma relação que tinha se estreitado a partir dos anos 1960, dos tempos de Sartre no
Brasil. A vida na Inglaterra era animada e alegre, um momento efervescente. Fernando estava à frente de
uma cátedra chamada Simón Bolívar, que tinha sido ocupada antes por Celso Furtado. Ruth não tinha uma
atividade universitária, só me lembro que ela escrevia muito”, diz Regina. “Fernando estava começando
a se interessar por política, ao passo que Ruth fazia de conta que não estava nem aí. E, quando a conversa
ia para esse lado, ela mostrava uma expressão irônica que significava: ‘Não estou ouvindo nada’. Eram
frequentes os telefonemas do Brasil, da parte do Ulysses Guimarães, ou do Severo Gomes, as conversas
eram longas, e se eu estava na casa, ouvia e pensava: mas o que está acontecendo? Mal podia saber que o
embrião do que aconteceu no futuro estava ali, naquela casa em Cambridge.”