Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 17 de 35

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Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

8 Prezando a autonomia dos filhos

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Prezando a autonomia dos filhos

 

O homem já tinha ido à Lua quando chegaram os anos 1970, tempos do general Garrastazu Médici, o

avozinho de olhos azuis sempre com o radinho de pilha ao ouvido, enquanto nos porões da ditadura,

como se dizia, pessoas eram mortas e torturadas. O Brasil ganhou o tricampeonato mundial de futebol no

México e a televisão em cores chegou a todas as casas. Delfim Netto manipulou os índices e nos

tornamos o Brasil do milagre econômico. Houve uma crise do petróleo, obras ditas faraônicas garantiam

o Brasil grande. Orgulhoso de si, o governo, mais que recomendar, ordenava: Brasil. Ame-o ou deixe-o.

Geisel substituiu Médici, iniciou-se o processo gradual de abertura e a linha dura em alguns meios

militares começou a sofrer contestação. Porém, em 1975, Vladimir Herzog foi torturado e assassinado na

prisão, causando enorme celeuma e provocando um princípio de distensão no sufoco que passávamos. O

Movimento Democrático Brasileiro, mdb, surgiu como força se opondo ao partido oficial, a Arena. A

censura, por meio do ministro Armando Falcão, recrudesceu e ampliou os seus tentáculos — livros,

peças, filmes e canções eram proibidos a cada instante.

Inventaram os senadores biônicos, isto é, não eleitos pelo voto popular. A Emenda Constitucional no

11 revogou o famigerado ai-5. A Comissão Pastoral da Terra, sob influência da Igreja, criou novas

lideranças. Os trabalhadores do abc se uniram, do que resultou o Partido dos Trabalhadores, pt, e Lula

surgiu no cenário como força nova, carismática. O general Figueiredo — que não gostava do cheiro do

povo, preferia o dos cavalos — sucedeu a Geisel e, ainda que muito mal-humorado, manteve a transição

para a democracia. No final da década surgiu a Lei da Anistia. Em 1977, um Manifesto Contra a Censura

foi levado ao Ministério da Justiça, assinado por 1.046 intelectuais do Brasil inteiro, sendo a primeira

assinatura a de Antonio Candido.

Tempos de O último tango em Paris, de Love story (“Amar é nunca ter de pedir perdão”), de

Cabaret e Liza Minnelli, de Tubarão, de Pretty baby com Brooke Shields. Amávamos Jane Fonda,

Jessica Lange, Margaux Hemingway, Farrah Fawcett, Linda Lovelace (a garganta profunda), e a

principal, essencial e fundamental Leila Diniz, nossa musa libertária. Louvávamos Dina Sfat, Duda

Cavalcanti, Adriana Prieto, Joana Fomm, Helena Ignez, Rose di Primo. Homens usavam bolsa capanga e

camisas de tergal, camisas de gola rulê, calças boca de sino. Por toda parte Dener e Clodovil, pôsteres

de Guevara, sandálias de sola de pneu, concertos de rock. Orelhões pelas ruas assombrando o povo pela

tecnologia em comunicações, máquinas pensantes ou computadores entrando no cotidiano. Chico, Gil,

Caetano, Dzi Croquettes, Rita Lee, Elis Regina, Raul Seixas, os Festivais de Música Popular Brasileira,

o programa Esta noite se improvisa, Vinicius e Toquinho, revista Senhor, O Pasquim, Rolling Stones, o

jornal Flor do Mal e os nanicos Opinião e Movimento. A pornochanchada (proibido mostrar pelos púbicos), O poderoso chefão, m*a*s*h, Carlos Castañeda e A erva do diabo, maconha e lsd,

psicodelismo, chá de lírio e de cogumelo, O despertar dos mágicos, a revista Planeta e o realismo

mágico, artes marciais, tae kwon do, Bruce Lee, kung fu, David Carradine, uísque Old Eight, conhaque

Dreher, cerveja em lata, Kodak Instamatic, Mônica e a sua turma, revista Recreio, os teatros Arena e

Oficina, O rei da vela, o nu frontal de Ítala Nandi, The Living Theatre no Brasil, o show Opinião,

Bethânia, Carcará, João do Vale, Zé Kéti, Clóvis Bornay, Bandeira 2, Irmãos Coragem, O cafona, A

família Trapo e A grande Família, as peças teatrais Gota d’água e Roda viva, o Fantástico e Heloísa

Millet, a chegada da cultura dos shoppings, o patrulhamento ideológico, Fernando Gabeira, a tanga de

crochê, O que é isso, companheiro?, Os Beatles, John Travolta, Os embalos de sábado à noite, Glauber

Rocha, Dona Flor e seus dois maridos, Sonia Braga, danceterias, Regine’s, Hippopotamus, Ricardo

Amaral, Ton Ton Macoute, Ta Matete, rodízio de pizzas, dj (no fim da década), Danuza Leão, Zózimo

Barrozo do Amaral, Daniel Más, revista Status, As Frenéticas. Pelé abandona o futebol e namora Xuxa,

Loteria Esportiva, os 13 pontos, Saramandaia, “Silvio Santos vem aí...”, Buzina do Chacrinha, as

“chacretes”, Carlos Imperial, Dancin’ days, A mulher biônica, Mulher maravilha, Os Waltons e As

panteras, o pirulito do Kojak, bebê de proveta, o punk, o terrorismo no mundo, a holografia. Apesar da

repressão, foi a era do desbunde, das viagens de ácido, da amizade colorida, da promiscuidade, do

esoterismo, das civilizações desaparecidas, do misticismo, o islamismo começando a surgir como força.

A mulher se redescobrindo, os spas, os exercícios físicos, os regimes, o colesterol, e forte, muito forte, o

culto ao corpo, a ego trip.

Nesses anos, os Cardoso se deslocaram para Stanford em 1972, para Princeton em 1975, para

Cambridge em 1976-1977, para Paris (École des Hautes Études) em 1977, em momentos diversos indo e

voltando, em períodos mais longos ou breves. Os dois dando aulas, ou um em trabalho acadêmico e o

outro, não. Para Princeton, os filhos foram junto e cursaram parte da High School. fhc define o Institute

for Advanced Study de Princeton “como uma torre de marfim criada para Einstein, quando ele foi para os

Estados Unidos em 1935 com sua mulher, Elsa. Uma instituição voltada basicamente para a física e a

matemática e um pequeno grupo de ciências humanas”. Bia levou sua amiga de infância Marjorie Geller

— que também foi a Araraquara diversas

vezes —, que mais tarde seria uma estilista reconhecida. As duas passavam de propósito diante do 112

da Mercer Street, onde tinha morado Einstein. Era uma casa simples, revestida de madeira, com uma

pequena varanda na frente. “Imaginávamos sempre ver uma velhinha caminhando pelas ruas e

reconhecíamos nela a mulher de Einstein que tinha morrido em 1936, no ano seguinte ao da chegada deles

aos Estados Unidos”, recorda-se Bia.

O pequeno grupo de ciências humanas era constituído de três ou quatro professores, não mais. Um

deles foi Albert Otto Hirschman, cuja mulher, Sarah, tornou-se grande amiga de Ruth. Era um sistema

curioso — os professores convidados não davam aulas propriamente, tinham como único dever fazer uma

palestra de tantos em tantos meses. Quanto aos alunos, eles eram convidados — trinta ou quarenta jovens

que viviam em grande competição porque, ou descobriam uma coisa muito importante e continuavam no

Instituto, ou iam dar aulas na universidade. Todos queriam descobrir uma novidade de impacto, ganhar o

Prêmio Nobel. Havia na época um grande antropólogo, formado em Filosofia, Clifford Geertz, tão

importante quanto Lévi-Strauss, não apenas pela teoria e a prática antropológica, mas também fora de sua área, em disciplinas como psicologia, história e teoria literária. Geertz foi o fundador da antropologia

hermenêutica ou interpretativa, que floresceu a partir dos anos 1950.

“Não me lembro se Ruth tinha aulas de inglês com a mulher de Clifford, porque sempre desejou

aprimorar-se, ou se foi com a de outro professor. O que é uma certeza é que ela ficou fascinada com os

trabalhos de Geertz sobre a Indonésia e o Marrocos, e especialmente seus estudos sobre a religião em

Java e as brigas de galos, analisadas do ponto de vista de valores culturais e simbologia na cultura.

Quanto a Sarah Hirschman, Ruth a acompanhava em seu trabalho com literatura, principalmente no

projeto de literatura nos presídios, fazendo sessões de leitura para os presos. Outra que se aproximou

muito de Sarah foi Mônica Serra”, revela Fernando Henrique. “Hirschman, judeu-alemão nascido em

Berlim, hoje com mais de noventa anos, foi um sujeito que poderia ter ganho o Prêmio Nobel. Um tipo

curioso, que nunca fez doutorado, e escreveu livros admiráveis de economia e filosofia política. Em seu

círculo de amigos figuram brasileiros como Fernando Pedreira, José Serra e Roberto Schwarz. A última

vez que estivemos com Hirschman, Ruth ficou impressionada — ele nos recebeu todo engravatado e feliz,

mas não disse palavra. Mudo. Sarah explicou que o marido tinha desistido, já tinha falado muito na vida,

agora dedicava-se apenas à pintura. No estúdio dele havia dezenas de autorretratos.”

Ruth conseguiu criar um esquema que funcionava com relação às viagens e às escolas dos filhos.

Houve época em que eles os acompanharam, deixaram o país, outras ficaram com os avós. Houve

momentos em que foram matriculados em escolas locais no exterior, mesmo que temporariamente. Bia

confessa que nunca teve traumas, que até se divertia com as mudanças de escola, não havia monotonia, e

a mãe estava sempre controlando os estudos, atenta. Em São Paulo estudaram na Pirajá, “escola muito

maluca, porque multisseriada, não sei por que cargas d’água eu estudava numa escola multisseriada. Dali

nos transferimos para o Externato Jaraguá — onde conheci Marjorie Geller e Esther Hamburger. Depois,

veio o Rainha da Paz, dirigido por freiras, que me marcou, estive numa sala mista, enquanto Luciana

pegou uma apenas de meninas. Escola moderna, superposicionada, tanto que uma professora de

português, de nome Maria Otília, teve problemas sérios. Uma vez recomendou como leitura o livro O

caneco de prata e o pai de uma das alunas — mais tarde modelo, atriz e apresentadora de televisão —

denunciou Otília, que foi presa.[79]Havia professoras revolucionárias como Gigi, de estudos sociais, e a

Cynira Fausto, coordenadora de ensino.[80]Terminamos no Equipe, que, então, abria a cabeça da

meninada, ali fui colega de Arnaldo Antunes, Leda Catunda, de vários músicos, artistas plásticos.

Cursamos uma escola que preparou a elite que hoje chegou aos cinquenta anos. Do Equipe, partimos para

Cambridge”.

Fernando Henrique foi para a Inglaterra dar aulas no Clare College, acompanhado por Paulo e Bia,

enquanto Ruth seguiu depois com Luciana, que tinha ficado um tempo no Brasil preparando-se para os

vestibulares. Na Inglaterra, Bia, sempre muito independente, estudou, trabalhou num pub, no final decidiu

viajar pela Europa — com data certa para voltar e terminar os estudos, afinal fazia o colegial. As datas

corriam, Bia não voltava, e, quando conseguia ligar, dizia que tinha perdido o avião. Estava na Grécia

com uma amiga e perdeu realmente o navio de volta, foi um transtorno. E não havia telefone fácil para

avisar, dar notícias, ligar era uma odisseia. “Meus pais sempre foram de tirar o chapéu, mantinham a

calma, navegavam juntos, impressionante. Confiavam na gente, na educação que nos deram. Eu, que sou

mãe, imagino como ela devia se controlar, se segurar, porque a gente não acha graça nenhuma em não ter notícias dos filhos o tempo todo. Hoje, vejo que ela valorizava a importância da experiência, do

crescimento. Então dava corda para a gente ter autonomia

e independência.”

Quando Paulo Henrique, em 1978, terminou seu curso na Universidade Estadual de Campinas, a

Unicamp, e quis voltar a morar em casa, Ruth advertiu: “Olhe, meu filho, acho que há um engano aqui.

Sabe, até acabar a faculdade a gente ajuda muito, mas agora está na hora de você se cuidar. Arranje o seu

lugar”. Jorge Caldeira, quase um irmão, lembra que Paulo, em choque, foi morar na casa dele, na rua

Conselheiro Brotero, um prédio eclético e movimentado onde moravam José Américo Peçanha, filósofo,

Mariângela Alves de Lima, hoje crítica teatral de O Estado de S. Paulo, Alberto Rocha Barros, físico,

do Partidão, Silvia Poppovic, Enio Mainardi, o publicitário, e Cynthia Sarti, com quem Caldeira se

casou.

Luciana Cardoso, a primeira das filhas, revela que, chegando aos trinta anos, os filhos eram

“despachados” para que cuidassem de suas vidas. De qualquer modo, cada um ganhou um apartamento

para viver. “Mas eu ia comer na casa da minha mãe todos os dias.”

Ruth e Fernando Henrique deixavam Cambridge, acompanhados por Luciana, e iam para Brighton,

onde moravam Clélia e Gabriel Bolaffi, ela fonoaudióloga, ele sociólogo. Passavam lá fins de semana ou

mesmo expandiam a estada, pois Ruth adorava o cottage dos Bolaffi, achava lindíssimo. Clélia também

nasceu em Araraquara e morava próximo da casa de Mariquita. Dora, irmã mais velha de Clélia,

conviveu com Ruth na juventude, frequentaram juntas o footing, o cinema e o clube. Clélia fez parte do

grupo araraquarense de Zé Celso Martinez Corrêa e Luiz Roberto Salinas Fortes, o Dedeto. Os pais dela,

os Miari, eram amigos de José e Mariquita. Gabriel, marido de Clélia, foi aluno de história de Ruth no

Colégio Fernão Dias, em São Paulo.

Bia queria fazer jornalismo, comunicação, no Brasil, mas, “ao conversar com Gabriel e Clélia

Bolaffi, ganhei deles um livrinho pequenino, vermelho, chamado The little red book, sobre educação. Era

uma espécie de manual de sobrevivência nas escolas inglesas e fiquei alucinada com aquilo, e eu, que

achava a educação inglesa inacreditável, fiquei revoltada, resolvi prestar para pedagogia. Aqui no

Brasil, claro, fui para a eca, e não passei, fui ser aprovada na puc, fiz um ano, adorei a matéria, odiei a

escola, era como se eu tivesse retrocedido no tempo. Decidi, voltei à usp, prestei vestibular, passei. Eu

continuava com minhas ideias de independência, minha mãe queria me dar dinheiro, eu não tinha um

tostão, mas recusava, era uma luta. Depois tentei ensinar aos meus filhos que não precisavam ser assim

tão... tão fundamentalistas ...”.

Lourdes Sola, que fazia seu doutorado na Inglaterra, costumava passar fins de semana em

Cambridge. Lembra-se da casa bastante ampla dos Cardoso, num bairro fora da universidade, ainda que

próximo, tanto que costumavam caminhar até o centro. Eram três quartos em cima e o dia a dia

perfeitamente organizado, porque Ruth listava os deveres de cada um, incluindo os do marido. Havia um

jardinzinho bem cuidado e um pequeno quintal. “Surpreendia-me vendo o Fernando Henrique tentando

arrumar as camas, enquanto Ruth, diante do desajeitamento dele, dizia: ‘Deixe, deixe’.” Eventualmente

iam a Londres e Lourdes e Ruth saíam para o teatro. “Ela era fanática por teatro, íamos ver tudo,

engolíamos cada coisa. Às vezes Fernando Henrique nos acompanhava, só se recusava a ir aos balés.

Certa vez, conseguimos entradas para ver Nureyev em Romeu e Julieta, era uma coisa dificílima, ingressos sempre esgotados.”

No mesmo período, Regina e Luiz Meyer estavam em Londres. Ele tinha ido para a Europa fazer seu

doutorado em psiquiatria e psicanálise, naquele tempo flertava com a ideia de uma psicanálise

existencial. “Era uma relação que tinha se estreitado a partir dos anos 1960, dos tempos de Sartre no

Brasil. A vida na Inglaterra era animada e alegre, um momento efervescente. Fernando estava à frente de

uma cátedra chamada Simón Bolívar, que tinha sido ocupada antes por Celso Furtado. Ruth não tinha uma

atividade universitária, só me lembro que ela escrevia muito”, diz Regina. “Fernando estava começando

a se interessar por política, ao passo que Ruth fazia de conta que não estava nem aí. E, quando a conversa

ia para esse lado, ela mostrava uma expressão irônica que significava: ‘Não estou ouvindo nada’. Eram

frequentes os telefonemas do Brasil, da parte do Ulysses Guimarães, ou do Severo Gomes, as conversas

eram longas, e se eu estava na casa, ouvia e pensava: mas o que está acontecendo? Mal podia saber que o

embrião do que aconteceu no futuro estava ali, naquela casa em Cambridge.”