Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Retalhos da vida cotidiana IV: A teimosia e a tese de Mariquita
De Araraquara chegavam notícias sobre a tese que Mariquita iria defender na faculdade, o que servia
para amenizar e, de alguma maneira, divertir Ruth, que se encantava com o temperamento e a
determinação da mãe. Em primeiro lugar, o tema era a Luffa operculata, nome botânico da buchinha, ou
cabacinha, uma planta medicinal usada popularmente no tratamento de rinites e rinossinusites. Ruth ria,
pensando no buxinho (Buxus sempervirens), planta que estava em todos os jardins de Araraquara e que
as crianças jogavam no fogo para ouvir estalar. A buchinha era outra planta. Ao mesmo tempo, Ruth sabia
que aquela defesa era o fim de um percurso de teimosia e integridade da mãe. Mostrava o seu jeito de
ser, herdado por Ruth. Mariquita estava quase para se aposentar quando, em 1967, defendeu sua tese de
doutorado na Faculdade de Farmácia e Odontologia. Há um bom tempo, ela dera entrada num recurso
para ser efetivada, porém a direção da Faculdade argumentou que para isso teria de defender uma tese.
Ao que Mariquita respondeu que já estava há muitos anos como professora concursada e se recusava a
defender uma tese. Era seu direito. Entrou com mandato de segurança e ganhou a causa. Depois do
processo concluído, e confirmada a vitória do direito à efetivação, ela foi à direção da escola e disse:
“Agora, vou fazer a tese”. Fez, e quem a orientou foi o professor Angeli, do Departamento de Botânica da
usp. Dez com louvor. A tese encontra-se na biblioteca da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp,
em Araraquara.[72]