Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
10 Anotar tudo: gestos, objetos, a atmosfera
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Anotar tudo: gestos, objetos, a atmosfera
Em 1982, numa festa na casa de Pedro Paulo Poppovic em Paraty, Ruth Cardoso e Iara Prado se
encontraram e tiveram uma conversa rápida.
— Iara, o que vamos fazer neste governo?
— Não sei, função burocrática não quero ter.
— Nem eu.
Ficou por aí. Pouco depois, em Picinguaba,[97]litoral norte do estado, onde Fernando Henrique e
Ruth tinham comprado uma casa de praia, novo encontro, desta vez num boteco, diante de uma cerveja.
Ruth viu Iara e a chamou: “Você não sabe! Fui convidada para ser secretária da Promoção Social em
Osasco”.
Humberto Parro, um professor ligado ao grupo de esquerda do pmdb, tinha ganhado a eleição para
prefeito. Parro não pensava em concorrer, acabou convencido e venceu por cinco votos. Então ligou para
Ruth e quase implorou: “Precisamos fazer alguma coisa, você pode assumir a área social?”. Na época,
Osasco não era a cidade de hoje, desenvolvida — não passava de uma cidade-dormitório, com uma
prefeitura endividada até o pescoço, os impostos federais não chegavam, enfim, só penúria. Ruth
acariciou a ideia por momentos, chegou a convidar Iara Prado para ser sua chefe de gabinete. Porém, em
seguida, a vida de Ruth deu uma guinada. Montoro assumiu o governo em São Paulo, deixou o Senado e
Fernando Henrique assumiu a vaga. Ruth disse que não se mudaria para Brasília e não se mudou. Fez
várias viagens, foi junto olhar o apartamento funcional de Fernando Henrique, tomar providências quanto
à instalação do marido, mas foi tudo. Ele vinha para São Paulo, ela, eventualmente, ia para lá por alguns
dias. Tinha ainda a vida acadêmica, seus orientandos. Diante disso, renunciou à ideia da Secretaria de
Osasco e indicou José Augusto Guilhon Albuquerque, aconselhando-o a ter Iara Prado como chefe de
gabinete. Todavia, através do cedac e junto com alunos de antropologia, dela e de Eunice Durham,
continuou apoiando os movimentos sociais de Osasco. O cedac, Centro de Estudos e Documentação para
a Ação Comunitária, tinha sido fundado em 1979 e sua sede era na rua dos Ingleses, numa casa que ela
havia herdado dos pais. Foi um período solitário de Ruth, o marido em Brasília, os filhos cada um para
um lado. Eram fins de semana repletos, foram organizados grupos comunitários de apoio a mulheres com
maridos desempregados, Casa da Criança, para quem não tinha onde deixar filho, Cozinha Comunitária,
com pratos baratos, preparados em conjunto, orientados por nutricionistas. Nesse momento, Bia Cardoso,
então com 22 anos, professora e jornalista, foi trabalhar no cedac, ela que já tinha uma coluna sobre
educação na Folha de S.Paulo. Bia queria uma experiência mais emocionante, não desejava ficar dando
aulas, e Osasco foi uma espécie de turning point.
Iara tem sempre em mente a calma de Ruth e seu modo de conviver e pesquisar. “Estávamos no meio
da favela Braço Morto, hora de ir embora, e a Ruth ainda lá na sua conversinha, sentada numa cozinha,
tomando café: ‘E a senhora faz como? Pode me dar a receita de tal coisa? Usa o quê? Quanto tempo ao
fogo?’.”
Calma, sem pressa, deixando a situação fluir — viria daí sua impontualidade?, um desprezo pelo
tempo convencional? —, olhando em volta, anotando detalhes, porque aquele era seu método, o que ela
passou a todos os alunos. Observar e anotar o entorno, dele extrair o cotidiano. Quando entrevistei
Teresa Caldeira, ela desenhou de maneira límpida o método de Ruth que marcou gerações de alunos e
orientandos, muitos deles nomes de primeiro plano — Sergio Paulo Rouanet, Gilberto Velho, Eduardo
Graeff, Guita Grin Debert, Maria Filomena Gregori, Danielle Ardaillon, Helena Sampaio, Esther
Hamburger, Ana Maria Niemeyer, José Álvaro Moisés, Simone Coelho, entre outros. Ruth, para Teresa,
foi muito influenciada pela escola inglesa The Centre for Contemporary Culture Studies, de Birmingham,
onde se fundou a Culture Studies, que junta literatura, antropologia e sociologia. Richard Hoggart, com
seu livro The Uses of Literacy, influenciou bastante a maneira de Ruth ser, fazer e ensinar.
“Ao lermos os ensaios dela sobre favelas, vemos como foi Hoggart quem forneceu as pistas de como
avaliar a favela e sua cultura. Ela olhava para a cultura da favela como Hoggart olhou para a cultura
operária inglesa, que era a da mãe dele, porque veio de uma família operária inglesa e reproduziu o
cotidiano dessas famílias. Assim, ele contava as histórias da avó, descrevia seus gestos. Lembro-me
bem, é tão claro, Ruth lendo um texto do Hoggart, em que ele diz como a avó tocava piano na cadeira
quando ficava sentada, ou então cortava a casca de laranja depois de comer e dizia que aquelas mãos não
podiam ficar sem fazer nada. Ruth nos lia esses trechos, para dizer que a gente tinha de observar tudo
quando íamos para a periferia. Tenho ainda meus cadernos de anotações de campo e posso ouvir Ruth
exigindo: ‘Quero os diagramas das casas, preciso saber onde tem mesa, tem cadeira, onde está a
televisão, quero saber o que tem na sala, o fogão, objetos, roupas, o chão, qual é a cultura material, como
as pessoas se inserem nela’. Ensinava a fazer o caderno de anotação de campo. Era essencial observar os
gestos, ver como as pessoas falavam, prestar atenção nas posturas. Escrevíamos mais horas de anotações
que horas de entrevistas. Ensino meus alunos da mesma maneira, hoje. Para cada hora de entrevista, são
duas ou três de anotação. Fazer aparecer nas anotações a cultura, o que não vinha nos depoimentos. A
cultura é tudo, o entorno, o ambiente, os objetos da casa, as interações, os movimentos no espaço.
Obviamente que isso é teoria antropológica clássica, mas houve uma transformação provocada pelo
Richard Hoggart, que obviamente a Ruth e a Eunice Durham continuaram a fazer, nos ensinando a
trabalhar e como trabalhar. Ela mandava ler Hoggart e, na época, eu lia mal inglês, então, a primeira
regra era ler bem o inglês, para continuar trabalhando, tínhamos de falar várias línguas, espanhol, inglês e
francês, como se lêssemos português. Caso contrário, não tinha discussão”, relata Teresa Caldeira.
A menção da avó de Hoggart, que dizia que suas mãos nunca podiam ficar sem nada a fazer, nos
remete a uma observação de amigos e familiares de Ruth. Ela fazia tricô o tempo todo, coisa que a Bia,
filha dela, faz também. Os grupos de pesquisa iam para alguma parte, Ruth tricotava sentada no banco da
rodoviária, à espera do ônibus, e tricotava no ônibus a viagem inteira.
Fernando Henrique em Brasília, Ruth sozinha em São Paulo. Ele no Senado e ela aqui. Bibia Gregori conta que ela ia de vez em quando, era uma pessoa muito independente, gostava, prezava e cultivava essa
independência: “Penso que ela e Fernando Henrique não viveram juntos de fato como um casal
convencional durante anos, a partir do momento em que ele começou a vida política, a vida pública. Foi
um período em que ela foi muito independente e era feliz com essa independência, tinha uma
administração tranquila da situação. Ela gostava disso, primeiro porque gostava de estar rodeada de
jovens e a gente gostava demais dela. Éramos muito jovens e ela curtia a nossa companhia, gostava do
que a gente trazia para ela de jovialidade. Isso tinha muito a ver também, porque muitos de nós éramos
amigos dos filhos dela, então ficava tudo meio em casa. Ela gostava de ter os programas com as amigas
dela, iam ao teatro, ao cinema, liam. Ruth insistiu muito para que eu fosse para os Estados Unidos:
‘Bibia, você vai ver que coisa maravilhosa é a experiência de poder aprender a gostar da gente vivendo
só’. Foi um grande ensinamento porque, vindo de uma família de um lado italiana e de outro meio
quatrocentona, eu achava que não ia conseguir viver sozinha nunca, então, quando fui morar em
Campinas, era em república, e, quando fui morar em Berkeley, onde fiquei três meses, primeiro
inteiramente sozinha e depois só com o meu filho, foi uma coisa assim, o maior presente que eu me dei, e
foi ela que insistiu muito... Ela criou uma coisa como se isso fosse absolutamente imperdível para a
minha formação, só que, lógico, ela estava pensando não só na formação acadêmica, mas na formação
pessoal. Quando comecei a trabalhar com ela, quando saí de casa e casei e tudo o mais, o primeiro
presente que ela me deu de Natal foi um caderninho, sempre um caderninho, de capa dura, com aquela
letrinha dela maravilhosa, ela fez um caderninho para cada uma com as receitas de culinária, porque ela
achava que a gente tinha de saber cozinhar. Achava que tinha de saber passar creme no rosto, tinha coisas
assim, que eram informações práticas na vida, não é?”
Nesse meio-tempo, entre 1980 e 1982, Ruth deu aulas no curso de especialização: “Práticas coletivas
populares: movimentos sociais urbanos”; foi coordenadora e pesquisadora do Cebrap no estudo “A
periferia de São Paulo e o contexto da ação política”; promoveu dois seminários, um sobre a “Violência
contra a mulher”, na Associação Brasileira de Antropologia, aba, e outro sobre “Cultura brasileira: uma
noção ambígua”, no Centro de Estudos Rurais e Urbanos, ceru, da usp. Debateu, em Paris, no colóquio
“Identité nationale et expressions culturelles: une comparaison entre les États-Unis et le Brésil”, na
Maison de Sciences de l’Homme, onde estava como professora associada, tendo passado ainda como
professora visitante por Berkeley, Universidade da Califórnia, no curso “Comparative Urban Culture”.
Ruth e Fernando Henrique foram para Berkeley, alugaram uma casa perto da casa de Manuel
Castells, com quem Ruth foi trabalhar, enquanto fhc dava aulas no Departamento de Sociologia. A
proprietária era mulher de um notório comunista americano, dirigente de um sindicato, que alugava a casa
para ter um dinheirinho extra. A casa era simpática, de madeira, num bom lugar — tinha vista para a
ponte Golden Gate. Embaixo havia um basement e um jardim. Quem cuidava dele era um jardineiro que
se via ter sido hippie tempos antes, com um cabelão amarrado tipo rabo de cavalo. Entrava-se na casa
por um jardinzinho lateral, subia-se uma escada, havia uma sala boa, uma cozinha, dois quartos, tudo
confortável.
Ao voltar para o Brasil, Fernando Henrique assumiu sua cadeira no Senado e Ruth foi para o
Cebrap, onde já desenvolvia alguns trabalhos. Ela só entrou no Cebrap após a saída dele, porque ali havia uma norma: ou o marido ou a mulher, nunca os dois juntos. Ela juntava o salário da usp com o do
Cebrap, que era ninharia, uma vez que se tratava de uma espécie de ong. Ele tinha a aposentadoria, mas
era mínima — tinha sido por tempo de serviço, não contaram os anos no Chile. Assim, o pé-de-meia era
feito com trabalhos no exterior — Estados Unidos, Inglaterra e França.
No Cebrap, Ruth foi se ligando a Vilmar Faria, com quem tinha convivido no Chile nos tempos do
exílio, e que no futuro desempenharia um papel fundamental na vida e na participação dela na vida
pública. Vilmar era um mineiro introspectivo, fechado, low profile; habilíssimo negociador, cientista
social de primeira linha, interessado nos movimentos sociais urbanos, foi acurado analista da situação
política e social brasileira.
Em 1984, o Brasil se agitou num movimento que mostrou alto grau de ebulição política — o Diretas Já
convulsionou o país em megacomícios e manifestações por toda parte, em todos os estados. No entanto, a
Emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso no dia 25 de abril daquele ano, provocando
imensa frustração. O próximo embate ficaria para o Colégio Eleitoral, em 1985, quando seria eleito o
novo presidente da República, desta vez um civil, para substituir o general Figueiredo. Tancredo Neves
foi eleito, mas morreu em seguida, num drama que comoveu o Brasil por meses. José Sarney assumiu, sob
desconfiança dos setores liberais da sociedade brasileira — afinal ele tinha sido sempre governo militar,
era o homem da Arena. Eleições diretas foram marcadas para novembro nas principais cidades
brasileiras. Em São Paulo, o senador Fernando Henrique foi o candidato do pmdb à prefeitura de São
Paulo, concorrendo contra Eduardo Suplicy, do pt, e Jânio Quadros, do ptb. A vitória do pmdb parecia
assegurada, mas já na abertura das primeiras urnas verificou-se a disparada de Jânio, político
conservador, representante da direita e demagogo clássico. Jânio chamou a imprensa para vê-lo
desinfetar a cadeira em que Fernando Henrique se sentara dias antes, para uma fotografia pedida pela
imprensa.
No dia da eleição, tudo estava preparado para a comemoração da vitória de fhc. Seria no Buffet
Baiuca. Na noite anterior, José Gregori e João Rodarte, um dos assessores de campanha, além de amigo
da família, conversaram no comitê e Gregori sentia no ar um quê de derrota. Maria Helena criticou o
marido: “Você está louco, lógico que vai ganhar. Por que diz isso?”. José puxou o braço de Rodarte:
“João, se ele ganhar, tudo bem. Mas se perder, quero estar ao lado dele, para levá-lo para casa”.
Moravam na rua Maranhão, e Ruth estava em casa, acompanhada de Sergio Motta e José Serra, e, assim
que o resultado se tornou oficial, a rua se agitou com os militantes janistas tripudiando, num barulho
ensurdecedor. Ela tomou as rédeas e decidiu que o melhor era sair de São Paulo; refugiaram-se em Ibiúna
por uma semana. “Ficou sentida”, disse Maria Helena Gregori, “mas sem grandes manifestações.”
Quando voltaram, Fernando Henrique tinha virado a página.
No ano seguinte, ele disputou nova eleição para o Senado e teve uma vitória arrasadora. Para Ruth
significava conviver com Brasília de novo, com as ausências. Todavia, suas atividades acadêmicas
prosseguiam — ela acabara de fundar o Nemge, Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de
Gênero, da Pró-Reitoria da usp, tornou-se professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas, também da usp, passou uma temporada na Universidade Columbia, em Nova York,
deu aulas de antropologia na Unicamp, em Campinas, e continuou atuando no cedac, em São Paulo, ao lado de sua filha Bia, assessorando associações comunitárias, alunos e institutos.
Em 1989 ela liderou o projeto “O contexto cultural da ação política”, com Eunice Durham, a
parceira constante, e José Augusto Guilhon Albuquerque, cujas pesquisas trariam subsídios importantes
para seu trabalho futuro na vida pública. Eles escolheram seis jovens professores para as pesquisas e
eram estes que iam para Ibiúna com Ruth e Eunice, onde o trabalho rendia. Ruth foi diminuindo o ritmo
de orientação a partir de 1990, aceitando ocasionais participações em bancas de mestrado ou doutorado,
e passou também a fazer palestras pelo país sobre movimentos sociais e políticas públicas. Cada vez
mais os temas ligados aos jovens e aos direitos dos estudantes a interessavam, sentia uma angústia muito
grande em relação ao futuro do Brasil e ao papel que os jovens nele desempenhariam. “Seu olhar
antropológico identificava grupos diferentes, com linguagem própria; não considerava a existência de
uma única juventude, mas de juventudes diversas, com potencialidades distintas, todas se desenvolvendo
em contato direto com as tecnologias de comunicação e sendo o melhor exemplo de rede.3 Discutia isso
com seus orientandos e queria conhecer sua opiniões. Ouvindo, refletindo, estudando, ela ampliou os
limites das ciências sociais, derrubou fronteiras e abriu novos campos de estudo.”4
Assim como veio, Fernando Collor de Mello se foi, rapidamente. Eleito em 1989, prometeu acabar com a
inflação com um único tiro, e no fim acabou confiscando o dinheiro de todos os brasileiros, mudou a
moeda, congelou salários e preços, enxugou a máquina estatal (ele se proclamou “o caçador de
marajás”), extinguiu autarquias e fundações, anunciou medidas para abrir o Brasil ao mercado exterior,
mergulhou o país em depressão, arruinou empresas, provocou suicídios. Montou uma máquina
governamental de corrupção perfeitamente orquestrada, que daria, a cada membro, 1 bilhão de dólares,
porém o desmonte da engrenagem resultou no impeachment do presidente, o primeiro da história do
Brasil. O ano de 1992 ainda não tinha terminado, mas o governo do dono da Casa da Dinda, sim. Itamar
Franco sucedeu a Collor. Ao formar seu gabinete, chamou para o cargo de ministro das Relações
Exteriores o senador Fernando Henrique Cardoso, líder do psdb, um novo partido criado por dissidentes
do pmdb em 1988.