Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
Ruth Cardoso e Araraquara
Certa vez, nos anos 1980, indo a Araraquara participar de uma banca de mestrado, Ruth Cardoso ficou
hospedada no Hotel Eldorado, em pleno centro. Mal entrou no apartamento, correu à janela. Atônita, teve
a sensação de estar em outra cidade, não a sua. Os referenciais estavam transtornados. A velha igreja
matriz, com seu avermelhado que lembrava a cor de Roma, e o Teatro Municipal tinham desaparecido,
assim como o Cine Paratodos, as árvores da rua São Bento, a casa dos Mendonça e a dos Sampaio. Ah, a
casa dos Mendonça!
“De repente, me senti só. No lugar daquele hotel tinha existido a Gráfica Lia, que fazia os
calendários que todos tínhamos na parede. Certa época, assim que deixei a cidade, os Lia passaram a
fabricar meias, porém competiram com a maior fábrica de meias da América Latina, fundada por outra
família da cidade, os Lupo. Olhando o largo lá embaixo, meus olhos deram com o chafariz. Não, a cidade
não estava inteira desaparecida. Aquele chafariz era o mesmo, eu tinha passado por ele centenas de
vezes. Na calçada oposta os negros faziam o footing, segregados. As árvores também estavam ali, uma
das marcas da cidade. E o monumento ao primeiro batizado, realizado em 1817, igualmente existia, ainda
que tivesse mudado de lugar, tinha avançado, porque a igreja nova, e muito feia, tinha ocupado um espaço
enorme. Eu sabia que a rua atrás do hotel era a Dom Pedro ii, onde nasci. De minha janela eu a via, me
lembro de como era arborizada, subia do córrego da Servidão em direção ao Carmo, passando pelo
Jardim Público, onde brinquei na infância e na adolescência, lá íamos estudar nas vésperas de provas. À
esquerda, atrás do hotel, estava a rua Cinco vista do alto, túnel de árvores, oitis, uma das áreas mais
frescas da cidade, um corredor ameno naquelas tardes quentes, quando saíamos das sorveterias ou do
Jardim Público. Comecei a telefonar. Já não conhecia tanta gente. Descobri, então, de uma chamada para
outra, que muitos amigos ainda estavam lá, e a cidade passou a ser reencontrada. Também, desde que
tinha me formado, casado e passado a trabalhar, voltara pouco, em geral eram a minha mãe e o meu pai
que me visitavam em São Paulo. Naqueles telefonemas do hotel, fui redescobrindo amigos e alguns
parentes. A cidade começou a me ser devolvida.”
Essa cidade Ruth Cardoso levou dentro dela a vida inteira. Disseram todos que quando presenciava
uma situação na qual a boa educação e a ética eram agredidas, ou, melhor dizendo, estavam ausentes,
Ruth tinha uma frase recorrente: “Isso não está de acordo com os nossos padrões araraquarenses”. Como
uma leve cortina a flutuar no fundo de um aposento, Araraquara sempre reaparecia como um referencial,
presença atuante, farol, memória necessária.