Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 4 de 35

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Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ruth Cardoso e Araraquara

 

Certa vez, nos anos 1980, indo a Araraquara participar de uma banca de mestrado, Ruth Cardoso ficou

hospedada no Hotel Eldorado, em pleno centro. Mal entrou no apartamento, correu à janela. Atônita, teve

a sensação de estar em outra cidade, não a sua. Os referenciais estavam transtornados. A velha igreja

matriz, com seu avermelhado que lembrava a cor de Roma, e o Teatro Municipal tinham desaparecido,

assim como o Cine Paratodos, as árvores da rua São Bento, a casa dos Mendonça e a dos Sampaio. Ah, a

casa dos Mendonça!

“De repente, me senti só. No lugar daquele hotel tinha existido a Gráfica Lia, que fazia os

calendários que todos tínhamos na parede. Certa época, assim que deixei a cidade, os Lia passaram a

fabricar meias, porém competiram com a maior fábrica de meias da América Latina, fundada por outra

família da cidade, os Lupo. Olhando o largo lá embaixo, meus olhos deram com o chafariz. Não, a cidade

não estava inteira desaparecida. Aquele chafariz era o mesmo, eu tinha passado por ele centenas de

vezes. Na calçada oposta os negros faziam o footing, segregados. As árvores também estavam ali, uma

das marcas da cidade. E o monumento ao primeiro batizado, realizado em 1817, igualmente existia, ainda

que tivesse mudado de lugar, tinha avançado, porque a igreja nova, e muito feia, tinha ocupado um espaço

enorme. Eu sabia que a rua atrás do hotel era a Dom Pedro ii, onde nasci. De minha janela eu a via, me

lembro de como era arborizada, subia do córrego da Servidão em direção ao Carmo, passando pelo

Jardim Público, onde brinquei na infância e na adolescência, lá íamos estudar nas vésperas de provas. À

esquerda, atrás do hotel, estava a rua Cinco vista do alto, túnel de árvores, oitis, uma das áreas mais

frescas da cidade, um corredor ameno naquelas tardes quentes, quando saíamos das sorveterias ou do

Jardim Público. Comecei a telefonar. Já não conhecia tanta gente. Descobri, então, de uma chamada para

outra, que muitos amigos ainda estavam lá, e a cidade passou a ser reencontrada. Também, desde que

tinha me formado, casado e passado a trabalhar, voltara pouco, em geral eram a minha mãe e o meu pai

que me visitavam em São Paulo. Naqueles telefonemas do hotel, fui redescobrindo amigos e alguns

parentes. A cidade começou a me ser devolvida.”

Essa cidade Ruth Cardoso levou dentro dela a vida inteira. Disseram todos que quando presenciava

uma situação na qual a boa educação e a ética eram agredidas, ou, melhor dizendo, estavam ausentes,

Ruth tinha uma frase recorrente: “Isso não está de acordo com os nossos padrões araraquarenses”. Como

uma leve cortina a flutuar no fundo de um aposento, Araraquara sempre reaparecia como um referencial,

presença atuante, farol, memória necessária.