Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
14 Isto é para o ser ou para o poder?
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Isto é para o ser ou para o poder?
Se isso tudo vai dar certo 100% ninguém pode garantir e nem eu, e nem estou aqui neste papel de produzir ilusões. Nós estamos
procurando um caminho novo, e a partir de tudo aquilo que nós já de antemão sabemos que é preciso corrigir. O Programa
Comunidade Solidária não irá autorizar despesas. O Programa Comunidade Solidária é uma espécie de selo de prioridade.
Ruth Cardoso, na posse do Conselho do Comunidade Solidária
Conheçamos, antes, Vilmar Faria que, ao morrer em 2001, deixou um enorme vácuo. Mineiro convicto,
falava pouco, era discretíssimo, não gostava de muita conversa e tinha uma admiração incontida por
Ruth. Foi uma sólida amizade, Ruth, Fernando e ele. Um homem ponderado, perspicaz, inteligente, nasceu
para ficar fora dos holofotes. Vilmar foi o secretário da coordenação da Câmara de Política Social da
Previdência no governo fhc. Nascido em Belo Horizonte, combateu na Ação Popular, ap, um dos grupos
que se opuseram à ditadura militar, militou na Juventude Universitária Católica, juc, e foi membro da
União Nacional dos Estudantes, une. Resultado: aos 22 anos estava exilado no Chile. Vilmar foi aluno de
Fernando Henrique Cardoso no Chile, na Flacso, depois trabalhou na Cepal e no Instituto
Latinoamericano y del Caribe de Planificación Económica y Social, Ilpes.
Segundo Fernando Henrique, “ele me ensinou técnicas de estatística para lidar com certos dados,
sabia muito. Nas sombras, exerceu uma influência muito maior do que foi notado. Aliás, poucos notaram,
ninguém nunca ressaltou. Os que trabalhavam com ele sabiam, os que conviveram também, mas não está
registrado nos escritos. Muito do que o governo fez na área social, na época em que fui presidente, tem o
dedo do Vilmar”.[110]
“Vilmar era hábil e, sobretudo, um homem que fazia um esforço para buscar convergências. Dotado
de enorme diplomacia e persuasão, certamente sua maneira de ser era fundamental para que ele pudesse
agregar as pessoas. Ele cumpriu missões difíceis na busca da convergência de pessoas”, disse Paulo
Paiva.[111]
Já para Regina Meyer, “a ideia de estar no centro da política também é uma coisa que apaixona e
Vilmar estava feliz de poder realizar, criar por meio daquilo que estava à volta dele. O que fez era uma
forma de poder, mas não o poder no sentido de nomear e desnomear. Ele tinha uma noção e uma
consciência muito forte da política e fazia análises exatas de tudo à sua volta. Ajudava Fernando
Henrique porque era um homem que tinha o sentido prático do mundo e com ele nasceu a ideia e o nome
solidariedade, essa rede que Ruth acabou criando de Universidade Solidária, Artesanato Solidário e
Alfabetização Solidária. Essa rede nasceu do Vilmar”.[112]
Mudemos a testemunha, passando para Celso Lafer:[113] “Vilmar dominava o conceito da política pública, tinha pleno domínio dos métodos quantitativos e muita sensibilidade. Ele se deu conta de que
não era a vocação dele a atuação direta como ator político. O papel dele sempre foi o de um grande
colaborador e assessor. Pessoa de imensa qualidade, grande caráter. É óbvio que um presidente em
exercício tenha grandes dificuldades de ter confidentes. E a pessoa com a qual talvez o Fernando
Henrique tenha tido mais facilidade para trocar ideias tenha sido o Vilmar.[114]Porque ele não tinha
ambições ou aspirações políticas, portanto o conselho dele era um conselho dado em benefício do
presidente, e não em benefício próprio. Ruth e Fernando sabiam disso e o apreciavam por essa
qualidade”.
“Foi uma pessoa muito especial, que teve atuação importante na construção que a Ruth acabou dando
ao seu papel. Sabemos que ela sempre quis ter um papel próprio, compatível com a sua capacidade.
Tinha consciência de que teria de atuar não como sombra, e sim como a mulher do presidente; o
Comunidade Solidária é a expressão disso e, no diálogo com Vilmar, ela encontrou o parceiro que a
ajudou nesse objetivo.”[115]
“Quem ajudou Ruth a formular a ideia do Comunidade Solidária foi o Vilmar. Era uma pessoa
profundamente analítica, cabeça privilegiada, um professor e tanto, porque ele tinha essa coisa que a
Ruth admirava muito, era completamente diferente da Eunice Durham e do José Arthur Giannotti, que
eram ‘brilhosos’, Vilmar não era ‘brilhoso’, era analítico, e Ruth adorava isso, ele era profundo e
inventivo, sabia avaliar bem os processos. Acho que foi com Vilmar que ela construiu a ideia”, cogita
Bibia Gregori.[116]
O telefonou tocou na casa de Regina Duarte. Era Ruth Cardoso.
— Regina, quero te fazer um convite.
— Para...?
— Fazer parte do grupo de conselheiros de uma organização que estamos montando. Estamos
montando a ação social do novo governo.
— Ruth, que maluquice é essa? Não posso, não sou capaz, nunca participei nem do grêmio
acadêmico. Procure alguém mais experiente, alguém equipado para pensar nossos problemas. Eu?
Loucura! Não fui preparada, quero dizer educada para a coisa política.
— Pois é isso o que quero, uma visão desavisada. Será um dia só, uma vez por mês. Ou a cada dois
meses. Pense!
Regina ficou tentada, achava um privilégio estar perto de Ruth, era uma chance de conhecer um
mundo novo. “Se ela achava que eu podia, por que recusar? Experiências sempre me atraíram, ainda mais
que tinha a certeza de estar diante de uma situação que seria um imenso aprendizado. Aceitei, contente,
mas apreensiva com a responsabilidade. A partir dali, janeiro de 1995, foram quatro anos de convivência
no Comunidade Solidária, em Brasília ou viajando para o Rio de Janeiro, Porto Alegre, Alcântara, no
Maranhão, aí pelo Brasil.”
Regina confessa que nas primeiras reuniões ficava ouvindo os colegas falarem e tudo parecia grego.
Às vezes, havia terminologias estranhas a ela. “Ali ouvi pela primeira vez a palavra ‘sinergia’, só mais
tarde descobri o que significava. Lembro-me bem do primeiro encontro, quando Ruth pôs em pauta a
discussão do tratamento assistencialista que vinha sendo adotado pela lba. Doce e ao mesmo tempo dura e firme, ela se colocou contra o protecionismo paternalista, combatendo posturas cujo resultado, ao longo
da história, se mostraram controladoras, autoritárias e castradoras do desenvolvimento dos ‘protegidos’.
Sua proposta, esclareceu, era levantar no ibge todos os dados, mapear a miséria, conscientizar, equipar e
emancipar as populações que viviam abaixo da linha da pobreza.”
Ruth estava com o conceito elaborado, com a filosofia do que pretendia, ainda que não soubesse
como iria pôr em prática o que queria e pensava.
“Importante ressaltar que na época não se sabia ainda quem eram nem onde estavam os miseráveis
de nosso país. Sabíamos que existiam, mas ainda não estavam no mapa. O número de brasileiros sem
carteira de identidade era assombroso. Era muito trabalho, muitas carências, tudo estava por ser feito.
Betinho propôs o ‘Natal sem Fome’ logo nas primeiras reuniões, mas o projeto em curso pretendia ir
muito além de matar a fome física das pessoas. Inclusão, conscientização, justiça, libertação e
desenvolvimento eram os objetivos. Assistência médica, alfabetização, educação de qualidade,
qualificação profissional, criação do marco zero para as ongs, Banco do Povo, Bolsa Família e tantos
outros objetivos foram sendo articulados e trabalhados.”[117]
Estava nascendo o Comunidade Solidária e Regina não podia avaliar que estava testemunhando um duplo
turning point — para Ruth Cardoso e para o Brasil. Após todo o aparente trauma que para Ruth
significava ser primeira-dama e a brusca virada de vida, tinha vindo a bonança. Fernando Henrique
assegura, com clareza, que na verdade Ruth “tinha um horror simbólico, ela queria simplesmente mostrar
que era preciso criar um novo papel, e criou”. Ela descobriu um caminho próprio que era,
paradoxalmente, no governo, ainda que fora do governo. Aliás, na contradição do seu nascimento residiu,
no início, um dos problemas mais complexos do Comunidade Solidária, iniciativa não somente inédita
como inovadora e, mais do que isso, revolucionária. Ela foi brigando para abrir esse espaço, para
construir essa função, que ela teve, a duras penas, de explicar para todo mundo. “Entender o
Comunidade, naqueles dias, era uma coisa inversamente proporcional ao entusiasmo que ela provocava.
A difusão do Comunidade foi muito mais veloz que o entendimento do que ele era realmente, o que
significava. Por sinal, Ruth passou a maior parte dos oito anos de governo fhc a explicar o que o
Comunidade era”, revelou Helena Sampaio em Nova York, numa noite de homenagens a Ruth, promovida
pela Universidade Columbia, em abril de 2009.[118]
Existia apenas um Comunidade Solidária, mas com duas “caras” ou vertentes: a Secretaria Executiva
e o Conselho Consultivo. A Secretaria Executiva era um órgão claramente governamental, com orçamento
e quadros, cuja missão era buscar maior sinergia entre as políticas sociais conduzidas pelos diversos
ministérios. O Conselho era um órgão situado na intersecção entre governo e sociedade civil (nisto
residindo exatamente seu caráter inovador), com uma dupla missão: fomentar uma interlocução entre
governo e sociedade a respeito das políticas sociais e fomentar projetos sociais inovadores via
parcerias, envolvendo múltiplos atores (ongs, universidades, empresas, prefeituras). O financiamento
para esses projetos propostos pelo Conselho não vinha do orçamento público, e sim de captações em
empresas, fundações e órgãos multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, bid.
Para complicar ainda um pouco mais a questão “Comunidade Solidária é ou não é governo”, a
composição do Conselho no primeiro mandato incluía dez ministros de Estado e 21 conselheiros da sociedade civil. No segundo mandato, foi feito certo deslocamento pró-sociedade civil, reduzindo o
número de ministros a cinco.
Malak El Chichini Poppovic, dada a sua experiência, foi uma assessora direta de Ruth para assuntos
internacionais. Ela comenta as dificuldades iniciais para se compreender a questão do Comunidade:
“Difícil, pois o Comunidade Solidária era duas coisas, o Comunidade Solidária do governo, e o que ela
quis fazer como primeira-dama, que é o trabalho com a sociedade civil. Foi um erro desde o início dar o
mesmo nome para as duas. Uma que era realmente do governo, oficial, pegava os municípios mais pobres
e supria as necessidades deles. O que foi uma ideia maluca, porque se precisava de uma grande
coordenação nos próprios municípios, que eles não conseguiam fazer por falta de pessoal, falta de
dinheiro, era uma pequena equipe que corria atrás de boas ideias com poucos fundos. E a Ruth nem
sempre achava bom o que estava acontecendo, por exemplo, as cestas básicas, que foram distribuídas
durante muito tempo. Ela era contra uma cesta básica sempre. Uma vez, fomos para a Amazônia e vimos
que os índios estavam recebendo farinha de mandioca. Nas cestas que aquela gente recebia, quase metade
era de farinha de mandioca industrializada. Ora, farinha de mandioca eles produziam naquela aldeia!”.
[119]
Em Brasília, não tinha “lugar” para ela. Uma comentarista política muito lida revelou as dificuldades
que Ruth teve para se encaixar em Brasília. Realmente foi complicado, dizem os que estiveram à sua
volta. E os boicotes? Ela precisava de espaço para montar esse trabalho do Comunidade Solidária.
Vinham as dificuldades. Ficou esperando meses um lugar, aí lhe deram uma sala no Ministério do
Esporte, mas tudo era lento, demorado, ela tinha de batalhar, precisava de gente para ajudar e não tinha.
“Sabe que até hoje é um mistério para mim a causa daqueles boicotes? Mas teve, aconteceu, assisti a
tudo, fui testemunha, ela desabafava comigo”, diz Regina Meyer. “As pessoas não sabiam no que ia dar
aquela ‘coisa’. O que pretendia a primeira-dama que pedia um espaço para montar uma ‘Comunidade
Solidária’. O que era aquilo? Ela precisava de motorista para levá-la a alguma parte e era uma
complicação. Depois, Ruth foi se impondo também e sabendo neutralizar esse universo brasiliense,
porque Brasília tem uma cultura complicada. Ali, eles chamam de gatos aqueles que já estão em Brasília
e, quando vêm os governantes, são os cachorros, porque vêm e vão embora e os gatos já estão e vão
ficar. E neutralizar os gatos é complicado, são os donos do pedaço, o território é deles, assim, formam
uma barreira”, conclui Regina.
Ruth não quis levar o Comunidade para o seu gabinete oficial de primeira-dama. O espaço de
trabalho no quarto andar do Bloco A da Esplanada dos Ministérios, vizinho à catedral, sempre foi a cara
dela. A salinha do Comunidade era simples, móveis usados apanhados nos depósitos do Ministério de
Educação. A sala de Ruth, com o tempo, foi sendo decorada com peças de artesanato que ela ganhava das
comunidades. Fotografias, só permitia as tiradas em viagens de trabalho, principalmente junto às pessoas
mais simples. Ou fotos em aulas com seus jovens universitários. Fotos posadas, portraits a
incomodavam, não queria, não deixava. Na maior parte das vezes, Ruth comia ali mesmo com suas
colaboradoras. Ela não se incomodava com nada, se tivesse pão com queijo, estava bem. Súbito, surgia
uma fornada quentinha de pães de queijo. Eventualmente — uma regalia —, pediam um delivery. Se
precisasse fazer uma ligação, apanhava o telefone e discava. A secretária só ligava se Ruth bobeasse. Um
dos problemas era que, muitas vezes, ela precisava dividir e ajeitar a agenda com atividades oficiais inerentes ao cargo, mas então respondia bem pela obrigação. No caso das entidades ligadas ao
Comunidade, discutia as prioridades.
Ruth Cardoso levou para Brasília, entre outras, Maria Helena Gregori, Regina Esteves, Regina
Meyer, Iara Prado, Danielle Ardaillon, Rosiska Darcy, que foi chamada para presidir o Conselho
Nacional da Mulher, Malak El Chichini Poppovic, Helena Sampaio, Maria Helena Guimarães de Castro,
uma linha de frente fechada com ela, em diferentes posições. Ela tentou levar Eunice Durham, mas esta
preferiu trabalhar com educação. Todos, o tempo todo, ouviam Ruth dizendo, não como advertência,
porque eram adultos, experientes e vividos, mas como se fosse um mantra: “Nesta nossa situação, porque
somos governo, representamos um governo, temos sempre de nos perguntar: isso é para o ser ou para o
poder? Porque somos humanos e o tempo inteiro todo mundo se aproxima e todos têm milhões de
interesses, que são apenas para o ser”.
Logo que Fernando Henrique Cardoso assumiu, um de seus primeiros atos foi extinguir a Legião
Brasileira de Assistência, entidade que vinha dos tempos de Getúlio Vargas, criada pela primeira-dama
dona Darcy. A lba era tradicional e distribuía benesses por todo o país. Eram auxílios de vários gêneros,
manipulados, aproveitados pela classe política, prefeitos, vereadores, deputados, senadores e até
ministros, como uma maneira de angariar votos, amarrar os eleitores nas urnas. Um cabide de empregos
para apadrinhados de todos os tipos. Clientelismo em alto grau que distribuía de comida a cadeira de
rodas e dinheiro.
Para Jorge Caldeira, quando a lba foi extinta, o Comunidade Solidária estava pronto como ideia. Foi
um trabalho que começou na faculdade, na cátedra de antropologia, nos estudos dos movimentos sociais
urbanos, nas pesquisas do Cebrap, na atuação do Centro de Estudos e Documentação para a Ação
Comunitária, cedac, fundado por Ruth, Eunice Durham, Guita Grin Debert e José Augusto Guilhon
Albuquerque, para dar suporte a instituições comunitárias, grupos, associações, por meio do
desenvolvimento e administração de projetos de interesse da comunidade, organização de cursos e
seminários, e o desenvolvimento de estudos sociais e projetos, segundo seus estatutos. Bia Cardoso até
hoje faz parte do cedac.
“Então, no dia da posse de Fernando Henrique, toda a pauta de Ruth, o que ela queria fazer, estava
desenhado, o primeiro decreto que o Fernando Henrique assinou foi extinguindo a lba e criando a
estrutura, que já estava em pauta, inclusive juridicamente. Ruth brincava que ela era uma ong em si,
porque tinha extinto o cargo de primeira-dama, as obrigações legais de primeira-dama, as instituições
que estavam presas à primeira-
-dama, o clientelismo, aquilo tudo acabou no primeiro dia, já estava tudo prontinho. E não é que estava
pronto há um mês — há mais de uma década a Ruth tinha, com seu trabalho acadêmico, formulado todos
os conceitos que precisava para uma nova política social. Tinha ensaiado tudo em pesquisas. Com ajuda
do Vilmar sabia de todos os detalhes operacionais dos programas. E conseguiu montar toda a estrutura
jurídica da mudança. Desse modo, desde o primeiro dia estava tudo pronto para ser executado. Os dez
anos de grande trabalho intelectual iam se provar como prática”, concluiu Jorge Caldeira.
Ruth inventou um lugar para ela. “Essa atitude de Ruth de sempre questionar o presente e sempre
reinventar a sua inserção nesse presente marcou-a desde os trabalhos acadêmicos, marcou a maneira pela
qual ela escreveu suas pesquisas e transformou os campos intelectuais em que atuou”, analisa Teresa Caldeira. “Ela sempre esteve interessada em processos sociais emergentes e na possibilidade de intervir
neles, estudou o problemático e aquilo que considerava necessário pensar, aquilo que imediatamente
parecia incerto, não havia como explicar, mas que do ponto de vista tanto pessoal quanto político ela
achava necessário refletir... Três trabalhos foram a base para as conexões que mais tarde seriam
exploradas no Comunidade Solidária. Um, a famosa pesquisa Estudo de dez famílias faveladas, de 1974,
que ela desenvolveu junto com Lúcio Kowarick. O segundo foi As periferias urbanas na representação
de seus moradores. Estudo em quatro cidades paulistas, de 1981. E o terceiro foi o trabalho A periferia
de São Paulo e o contexto da ação política, também da década de 1980, em parceria com a Comissão de
Justiça e Paz.”[120]Ali se alicerçou igualmente a parceria com Vilmar Faria.
A lba funcionou por décadas e jamais tirou alguém da miséria ou ensinou alguma coisa aos
desprotegidos. A sua extinção, no entanto, provocou animosidades e polêmicas. Ninguém sabia o que
estava vindo no lugar. Comunidade Solidária? Ninguém conseguia entender o projeto. Para aqueles que
estavam conduzindo o Comunidade, o que se queria ainda não era definido, todavia era bastante claro o
que não se queria. Não se queria “uma Evita Perón, não se queria a lba gigantesca, daí a decisão de
acabar com ela. O que sonhávamos precisava ser inventado”,[121]recorda-se Miguel Darcy,
companheiro de Ruth desde os primeiros instantes.
“Numa das primeiras reuniões do Conselho na Granja do Torto, quando Ruth declarou enfática ‘Não
sou governo!’, um dos jornalistas levantou-se e questionou: ‘Se a senhora não é governo, isto aqui é o
quê? É uma das residências oficiais do presidente da República. A senhora chegou aqui como? Em carro
oficial e com seguranças. Os conselheiros viajaram até aqui como? Com o dinheiro do governo. Então,
como a senhora não é governo?’. A expectativa da mídia era clara: ‘Qual é esse novo programa, essa
nova instituição que vai tomar o lugar da lba?’.” Na questão das incompreensões, Miguel Darcy
acrescenta outro episódio: “A mídia tinha um padrão para o que Ruth tinha de fazer, que não era o padrão
dela, mesmo porque ela foi criando com o tempo. O tempo todo os jornalistas viviam perguntando: ‘Dona
Ruth, onde está o dinheiro? A senhora é a esposa do presidente, tem um poder muito grande, quais são as
verbas, quanto a senhora vai investir?’. ‘Não vou investir nada!’ Eles não entendiam, voltavam à carga:
‘Quais são as diretrizes para a educação?’. ‘Nenhuma. Não é isso o que estou fazendo. Se eu tiver de
falar de educação, vamos discutir.’ A mídia queria que ela adotasse um certo estilo, que falasse de
política, falasse mal do pfl: ‘Que governo é esse que tem personagens políticos de quem a senhora não
gosta, já declarou que não concorda, como é o caso do Antonio Carlos Magalhães. Como é que fica?’.
‘Não vou falar disso agora, vou falar do meu trabalho, vou falar do que estou fazendo’.”
Quanto a acm, a imprensa trazia à baila uma famosa declaração dela, em 1994, quando Fernando
Henrique fazia suas alianças políticas visando a Presidência. Ruth, certo dia, afirmou publicamente não
entender como o marido se aliava a um político como acm, figura que trazia todos os vícios do
autoritarismo e da prepotência da ditadura, político da velha guarda, com métodos arcaicos. Foi um
constrangimento que precisou ser “remendado” mais tarde, uma vez que acm costurava a aliança pfl e
psdb, fundamental naquele momento.
A mídia e os políticos não entendiam o que iam fazer dez ministros e 21 conselheiros que rejeitavam
o velho, mas ainda não sabiam exatamente o que seria o novo. Ruth procurava explicar que não era
governo, sem negar, contudo, que era um espaço viabilizado e legitimado pelo governo. “Na verdade”, esclarece ainda Miguel Darcy, “tentávamos trabalhar numa intersecção governo e sociedade, e aí fomos
inovadores, principalmente quando Ruth repetia que não queria recursos públicos para nenhum programa
do Comunidade Solidária. Rompia-se um padrão histórico. Se não é dinheiro do governo, vai sair de
onde? O Comunidade ia trabalhar com o Terceiro Setor, atuar com a força dos recursos da sociedade
civil brasileira, a esta altura suficientemente madura para assumir projetos com seus recursos humanos e
financeiros próprios. Uma inovação é a intuição de algo novo que é preciso captar, perceber o emergente
e, em seguida, experimentar. Se for bem-sucedido, fica alguma coisa que se aperfeiçoa. O primeiro
conceito que se tinha em mente era não olhar para as pessoas e para as comunidades como gente
destituída de, ou com problemas, necessidades, carências. Porque se sabe que as carências são um poço
sem fundo, não há recurso que baste. O fundamental era buscar as capacidades das pessoas e os recursos
das comunidades. Todos os programas passaram a ser pautados por um investimento na capacidade das
pessoas. O segundo ponto foi focar nas áreas geográficas mais pobres e nos setores mais vulneráveis, em
especial os jovens. Todos os programas do Comunidade Solidária tiveram, em certa medida, um forte
componente educativo e estão voltados para jovens, se apoiam, valorizam o segmento jovem. O terceiro
elemento foi a mobilização dos mais variados recursos da sociedade e aqui residiu outra grande
mudança. Ruth abriu o leque e chamou a universidade — e, claro, ela estava muito bem posicionada para
isso, tinha autoridade. Colocou a universidade dentro dos debates, dos projetos.”
Nessa etapa, certo dia, num grande encontro na Universidade de Brasília, no lançamento do
programa Universidade Solidária, uma espécie de reinvenção do projeto Rondon, ou seja, levar
estudantes e professores das mais variadas universidades para comunidades pobres, enquanto Ruth
estava expondo suas intenções, um grupo de jovens, liderado por professores radicais, invadiu a sala aos
gritos e palavras de ordem: “Queremos participar! Exigimos participação! Estudante é participação!”.
Ruth olhou e tentou continuar a fala, no seu jeito professoral. A balbúrdia recrudesceu. Os estudantes
tinham vindo para cima dela, deixando assustados os seguranças — principalmente a tenente Patrícia, fiel
escudeira —, que não sabiam se distribuíam pescoções ou o quê. Impassível, mesmo porque não havia
muito a fazer, Ruth indagou:
— Simplesmente, digam. O que reivindicam?
— Queremos participar!
— Ótimo, é o que eu também desejo e estou aqui propondo. Participação. Vim convocar para
participar.
— A senhora não entendeu, queremos fazer parte do poder, queremos estar no comitê central.
— Mas não existe comitê, muito menos comitê central. Vivemos outros tempos.
A sala — havia ali cerca de 250 estudantes — explodiu em gargalhada. Um dos “indignados” tentou
ignorar e prosseguir, e ela se mostrou enérgica: “Você já falou, ouvi, respondi. Agora, se quer participar,
procure o seu grupo. Qual é? De que universidade? Da Universidade de Brasília? Pois ali tem um grupo
de trabalho. Junte-se a ele, participe, já que é o que deseja. Não venha aqui me interpelar dessa forma”.
Cessou o tumulto, a turma do protesto sentou-se e ouviu, a reunião fluiu. Ela ganhava na calma, na
segurança, no respeito que impunha.
A incompreensão foi enorme com a extinção da lba. Maria Helena Gregori conta que recebia uma
avalanche de cartas por dia — chegaram a quinhentas no início —, de políticos, deputados, prefeitos e correligionários políticos fazendo solicitações assistenciais. Insistiam para marcar audiência com Ruth,
porém Maria Helena, que tinha o apelido de “mandona”, segurava bem as pontas. Fazia-se uma triagem
das cartas e, no fim do dia, Ruth e ela limpavam a mesa. Quando Ruth não queria uma coisa, era inútil, e
ela sempre repetia: “Não adianta, isso não passa, nem pense”.
Acontece que muitas coisas que Ruth idealizava, pensava, procurava estruturar, não faziam sentido
naquele momento. “Hoje, imagino que nem ela se dava conta de que algumas coisas não eram para aquele
instante, e sim para o futuro”, reflete Regina Esteves, aliada que Ruth foi buscar na área da educação,
uma vez que Regina atuava na fai-efmd, uma fundação do Ministério da Educação que cuida de
financiamentos e linhas de crédito. “Ela sabia que tudo deveria funcionar em rede, numa relação em que
uma entidade pode ajudar a outra de acordo com as necessidades, pode ser um somatório de esforços,
uma vez que essas entidades têm missões diferentes, mas que se complementam, nenhuma missão se
contrapunha a outra.”[122]
A mais significativa contribuição, o que mudou completamente o desenho da situação, foi a atitude
do setor empresarial perante a questão social. Não foi fácil convencer esse mundo porque, até então,
pelos velhos hábitos político-burocratas, ou simplesmente se pedia e não se mostravam resultados — o
dinheiro escoava-se por sacos sem fundo e sem explicações —, ou funcionava como moeda de troca —
dou tanto, mas quero isto, isto e isto. O papel de Ruth foi decisivo nos incontáveis encontros que teve
com lideranças empresariais, céticas a princípio, depois se aliando gradualmente, até se tornarem
parceiros sólidos. Foi um momento difícil e histórico esse da renovação da visão do mundo empresarial
para a questão social.
Algumas ideias e propostas de Ruth, hoje concretas e reconhecidas, naquela época não eram vistas
dessa maneira. Quando se diz hoje que a iniciativa privada é parceira, está certo, porque foram atingidos
5 milhões de alunos atendidos. Mas, naquele tempo, chegar até uma empresa e dizer que se queria ação e
colaboração, mas que não seria num município da sua escolha, e sim no lugar selecionado pelo ranking,
lugar que talvez o empresário nem soubesse onde era, do qual nunca tinha ouvido falar, aí era outra
história. Vencer isso foi uma mudança de postura e de relacionamento com a iniciativa privada.
A conquista do banqueiro Pedro Moreira Salles ilustra o clima com que o empresariado entrou em
contato com o projeto e foi sendo cooptado: “Fui convidado para um almoço no Palácio da Alvorada e
compareci, já conhecia o presidente, tinha admiração por ele e pela equipe que montou. Cheguei,
encontrei vários ministros, outros empresários, e fiquei muito cético quando me contaram qual era a
ideia, o propósito e as pessoas que iam se envolver. Senti na hora que ia virar comício. Então entrou Ruth
e começou a falar, o clima foi mudando. Não me convenci muito, porém continuei indo às reuniões, a
cada mês, dois meses. Não havia ainda, como era natural, uma agenda posta, e me parecia que Ruth
estava pondo fogo na panela de pressão, deixando as pessoas falarem para depois chegar a uma visão
mais concentrada. Quando ela encontrou o caminho da estruturação, fez com que todos se sentissem
envolvidos, todos viram claramente que havia algo novo, que iria acrescentar, juntando segmentos da
sociedade. À medida que a agenda foi se estabelecendo, ela se conscientizou de que eu não tinha ainda
uma visão positiva e clara do projeto, e Ruth, paciente, marcou comigo reuniões menores, fora do
Comunidade Solidária, muitas aqui em São Paulo, e eu diria que a minha relação passou a ser de maior
aproximação. Passei a entender as dificuldades do desenvolvimento da questão social no Brasil, a identificar quais eram os obstáculos, fui conhecendo a legislação, entendi como ela enxergava as
limitações, como lidava com o governo. Ela sempre deixou muito claro que não era governo, o
Comunidade Solidária não era governo, nós éramos sociedade civil — era dessa maneira —, e ela sabia
orientar, mostrar pelo que valia a pena brigar e o que era secundário, e não valia a pena gastar esforço.
Passei a enxergar a proposta sob outra óptica. Foi quando percebi o profundo compromisso dela com o
Comunidade. Quando os projetos surgiram, entrei no primeiro, o da questão dos microcréditos. Então
outros vieram e acabei me envolvendo numa série deles”.[123]
Além de Moreira Salles, envolveram-se no Comunidade Solidária Antônio Ermírio de Moraes,
Jorge Gerdau Johannpeter, Milú Villela, Renata de Camargo Nascimento, Horácio Lafer Piva, Emílio
Odebrecht, um a um convencidos por Ruth. Sérgio Reze, da Associação Brasileira dos Revendedores de
Automóveis, propôs dar para o programa da Alfabetização Solidária (AlfaSol) um real por veículo
vendido. Quanto lhe perguntaram o que isso significava, assustaram-se — receberiam 2 milhões de reais,
usados para criar um caixa e fazer deslanchar vários programas. A Associação Brasileira das Indústrias
Farmacêuticas, ofereceu-se para colaborar e então foram pedidos, em lugar de dinheiro, kits para os
agentes de saúde, ou seja, bicicleta, mochila, balança e medicamentos.
Na verdade, havia poucos recursos para o funcionamento do Comunidade Solidária. Podiam usar uma
sala da Granja do Torto, havia um escritório na Esplanada dos Ministérios, verbas mínimas para
locomoção. O presidente era quem nomeava os 21 conselheiros, começando por Ruth. Mas não era
governo, na medida em que ela, Ruth, foi quem escolheu personalidades da sociedade civil, da Igreja,
das universidades — dom Luciano Mendes de Almeida, Gilberto Gil, Betinho, Regina Duarte,
banqueiros como Pedro Moreira Salles, universitários. Luiza Erundina, chamada para o projeto, recusou
o convite. Eram pessoas com luz própria que iam pensar com suas próprias cabeças e abrir um diálogo
com o governo, sobretudo com a área social, e com a sociedade ao mesmo tempo. Estava claro? Não,
ainda não. O Comunidade Solidária foi se fazendo, às vezes percorrendo caminhos errados e outras os
que davam resultados. Surgiu outro fator complicador no desenho inicial, porque havia no Conselho dez
ministros dos mais expressivos, como os da Saúde, da Educação, da Fazenda, o chefe da Casa Civil. O
que queria dizer que havia significativo peso governamental dentro do Conselho. Era um diálogo
complicado.
Ruth reclamava: “Cada ministro quer que eu apoie a área dele, os programas dele, quer que eu
funcione como uma superministra da área social e não vou fazer isso”. Era impressionante a firmeza e a
determinação dela, indo contra a ponta da faca, principalmente ao sabermos que, em oito anos do
Comunidade Solidária, ela jamais recebeu um político, um deputado, um senador. Claro que ela mantinha
muito boas relações com alguns ministros, como Paulo Renato Souza e José Serra, mas não com os
outros. O que era preciso fazer? Criar um modelo de atuação. Ter uma parte do diálogo voltada para o
governo, enquanto outra parte estava voltada para a sociedade civil. E isso foi inovador. Ela mostrou ser
possível trabalhar num espaço legitimado pelo governo, sem ser governo, e sobretudo falar de uma coisa
nova — a sociedade como ator político. Então, com quem se dialogou? Com as ongs, as empresas, a
Igreja, as universidades, e foram estes os setores que ajudaram a dar força aos programas.
Até mesmo o ultrapoderoso homem do governo, Sergio Motta, teve uma definição sarcástica: “masturbação sociológica”. Era uma estocada nos “uspianos”. Mais tarde ele se rendeu, e então apoiou
com todas as forças. Ruth tinha encontrado seu nicho e pela primeira vez na história estava dando um
sentido ao cargo, se é que primeira-dama é um cargo. Até então, as esposas dos presidentes não tinham
passado de acompanhantes oficiais, organizadoras de chás, recepções, coquetéis e bazares beneficentes.
Nasceu o Comunidade Solidária, um “processo de experimentação e inovação social desenvolvido
ao longo de oito anos, ou seja, por todo o governo fhc. O Comunidade desenvolveu novos modos de ver e
de fazer, provocando a gestação de mudanças de grande alcance — e para melhor — no padrão histórico
de relacionamento entre Estado e sociedade”, segundo Ruth Cardoso:[124]Alfabetização Solidária,
Capacitação Solidária, Universidade Solidária, Artesanato Solidário, Programa Voluntários, Rodadas de
Interlocução Política, Comunidade Ativa, Rede Jovem, Rede de Informações para o Terceiro Setor.
É evidente que, por um tempo, houve desconfiança de todos os lados. Os do governo achavam que o
Comunidade era uma apropriação indébita do trabalho deles, enquanto os setores da sociedade civil
resistiam: “O que vem a ser isso? Estamos aqui trabalhando para o governo Fernando Henrique, mas não
votamos nele, inclusive temos sérias críticas a vários aspectos desse governo”. Entrava aqui a famosa
capacidade de Ruth de administrar egos, o que tinha aprendido na vida acadêmica, época em que
transitava entre os maiores, alguns descomunais. “E isso ela fez lá o tempo todo, com grande garbo,
adorava viajar pelo Brasil, tinha pauta própria, todos os inimigos do presidente a adoravam, ela dizia
que não era do Estado e se divertia, fazia piada com isso, e Fernando Henrique Cardoso também, as
noites eram divertidas quando vinha cada um de um lugar para contar as coisas e fazer brincadeiras a
respeito disso, então eu acho que foi muito bom”, confidencia Jorge Caldeira.
Augusto de Franco e Miguel Darcy de Oliveira foram dois assessores, ideólogos, pesquisadores de
campo, administradores, o que se possa pensar, junto a Ruth no Comunidade Solidária. Reúno aqui falas
de ambos, que mostram como se pensava e se agia.
“O trabalho que nós queríamos fazer partia do conceito de que a sociedade civil era um sujeito
subsistente por si mesmo e que tinha um papel de protagonista no desenvolvimento. Foram realizadas
catorze rodadas de interlocução política, para as quais foram chamadas pessoas de todos os setores,
intelectuais, estudiosos envolvidos, economistas, políticos, artistas, acadêmicos, todos de alguma
maneira ligados ao tema em debate naquela sessão, e tentávamos chegar a alguma conclusão. Graças à
intuição de Ruth, nasceu uma situação que passamos a chamar de reforma social. Tínhamos certeza de
que o Terceiro Setor merecia um tipo de regulamentação legal que tivesse como objetivo incentivar a sua
própria reprodução. Não nos interessavam as grandes organizações do Terceiro Setor, o que nos
interessava eram as pequeninas. Porque a nossa força estaria na pulverização e não na consolidação
daquelas megainstituições da sociedade civil. Havia um dito, espécie de chiste particular entre nós, uma
brincadeira: ‘O povo desunido jamais será vencido’. Esse era um pouco o nosso lema. Quer dizer, era o
contrário do negócio do arrebanhamento: vamos arrebanhar e fazer um contingente para dar combate a
outro contingente. Não, vamos pulverizar! Havia, por trás disso, uma intuição, a ideia de que o processo
na sociedade civil é molecular, ele é um contágio. As teorias das redes sociais ainda estavam
engatinhando, palmilhando o caminho inicial, naqueles meados dos anos 1990. Nessa concepção já
estava embutida a ideia de que a sociedade não se transforma e não transforma a realidade social a partir da acumulação de forças de grandes contingentes e da criação de instituições sólidas, que então merecem
uma legislação. A sociedade se via assim, na pulverização — e a expressão foi de Ruth —, contaminada
pelo sarampo. Quantas e quantas vezes ouvimos essa palavra, ‘sarampo’, as pintinhas que se propagam
por todo o corpo. Muitas e muitas vezes ouvimos dela ‘pega como sarampo’. Ou seja, vai pegando, quer
dizer, essa dinâmica viral, ela adivinhou, ela não formulou, ela intuiu e caminhou nessa direção. Qual era
a direção? O Terceiro Setor tem um papel estratégico no desenvolvimento; não é para ser braço do
Estado, não é para ser continuidade da cadeia clientelista do sistema político tradicional — é para mudar
as relações ali mesmo onde elas se constituem. Levantando a bandeira do ‘Povo desunido jamais será
vencido’, começamos a tentar fazer algumas coisas. Talvez a mais importante tenha sido a aprovação de
algumas leis, como a que define o trabalho voluntário e estabelece a inexistência de vínculo empregatício
e todas as obrigações trabalhistas e previdenciárias. Uma reforma começa pelas definições, o que é o
quê. Uma associação para defender os direitos das crianças portadoras da Síndrome de Down não pode
ser igual a uma fundação empresarial, mas é tudo Terceiro Setor. Assim começamos pela tentativa de
estabelecer o que seria o caráter público, e depois de vinte meses de discussão e de muitas idas e vindas,
foi aprovada a Lei 9.790, a Lei das oscips, que institui o termo de parceria, que traz também inovação. E
a Lei da Gratuidade do Registro Civil, a lei que criou as Sociedades de Crédito ao Microempreendedor,
a Lei de Desoneração do icms sobre a Cesta Básica. As rodadas serviram para construir canais políticos
de diálogo entre governo e sociedade, sobre temas que subsidiassem a formação de uma agenda de
desenvolvimento social para o Brasil.”[125]
Muito cedo Ruth verificou que não existia nenhum órgão governamental, ou programa, que tratasse do
jovem, uma de suas perenes preocupações. “Está aqui a oportunidade, aproveitemos”, dizia, “vamos
ocupar o espaço vazio, montar programas para jovens, e que sejam inovadores, não copiem o modelo
clientelista, vamos dar atendimento a necessidades.” Repetia que é necessário olhar para as pessoas
procurando as capacidades que elas têm, e não detectando as suas necessidades. “Se olharmos para
alguém e dissermos que o jovem da periferia não tem escola, não tem atendimento, está submetido à
violência, ficamos aprisionados pela lógica das necessidades, vai ser preciso dinheiro, programas,
recursos. Se olharmos para ele como uma pessoa que tem capacidade e aptidões, então podemos
dinamizar isso, potencializar. Está encontrado o caminho.”
Quando o Comunidade Solidária foi iniciado, cerca de 32% da população brasileira era constituída
de jovens entre dez e 24 anos, e quase 80% deles viviam em áreas urbanas. Quase 10% desses jovens
não tinham nenhuma instrução, 22% (no Nordeste a cifra era de 40%) deles tinham ido à escola apenas
por três anos. O baixo índice educacional e a ausência de qualificação tornavam extremamente difícil a
incorporação desses jovens no mercado de trabalho. Era um problema a ser atacado com urgência,
“propiciar a esse segmento a oportunidade para o descobrimento e o desenvolvimento de seus potenciais.
Com o aprendizado de uma habilidade de geração de renda era possível interferir positivamente em suas
trajetórias de vida e reduzir a vulnerabilidade social a que estavam e estão expostos”.[126]Em agosto de
1995 já estava criada a Associação de Apoio ao Programa Comunidade Solidária, aapcs, hoje Apoio ao
Programa de Capacitação Solidária. Estavam fora de questão as conhecidas e difundidas escolas
técnicas. Era preciso trabalhar “a autoestima desses jovens, a sua sociabilidade, suas habilidades cognitivas básicas, como a leitura, a escrita e o cálculo elementar”, diz Célia de Ávila, que foi
coordenadora dos programas de Capacitação Solidária. “Os cursos do Capacitação incluíam a vivência
prática, e o jovem podia ter contato com a realidade de uma profissão. Parte do tempo era dedicada à
colocação em prática daquilo que vinha sendo aprendido. Qualquer organização, independentemente do
seu porte, podia executar um projeto e receber recursos para isso. Esses cursos levavam em conta as
realidades locais e tentavam dar ao jovem chances de inserção no mercado de trabalho no meio em que
vive. Para realizar um trabalho eficiente procurava-se usar organizações já inseridas na comunidade. Daí
encontrar-se segmentos como reparo de jangadas, criação de ostras, conserto de redes de pesca,
animadores de festas infantis, paginação eletrônica, conserto de computadores, e assim por diante. Os
gestores sociais das ongs que atuavam nesses cursos tinham uma consciência muito grande do papel que
desempenhavam na comunidade.”[127]
Um dos primeiros e fortes financiadores desses programas na época foi a Federação Nacional dos
Distribuidores de Veículos Automotores, Fenabrave. Anos depois, os parceiros chegaram a 150, entre
públicos e privados. Os jovens que participavam do Capacitação Solidária, segundo estudos do Núcleo
de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Campinas, aproveitaram mais a escola; melhoraram a
vida social e familiar; obtiveram ou ampliaram suas chances de obter trabalho; descobriram e
exploraram novos horizontes e tiveram mais chances de romper o círculo de desalento e da falta de
perspectiva que reforça a exclusão.
Uma pessoa que trabalhou bom tempo com Ruth foi o coreógrafo e professor de dança Ivaldo
Bertazzo, figura singular, homem aberto a todas as experimentações em arte e dança, chegando a montar
um espetáculo com indígenas da etnia tuiuca que vieram de São Gabriel da Cachoeira (am). Ruth
frequentou as aulas de Ivaldo por muito tempo, adorava dançar (lembremos de sua paixão pelos
musicais), levava filhas e netas. Cooptou-o para o Comunidade Solidária. Bertazzo foi um grande
parceiro nos cursos do Capacitação.
Ruth foi a todos os lugares possíveis neste Brasil. No Amazonas, viajou uma hora de helicóptero até
chegar a uma comunidade indígena. O aparelho pousou e havia ainda uma caminhada até a aldeia. Os
índios à frente, nas trilhas, entrando na água, saindo, Ruth e Malak El Chichini atrás, um calor tenebroso,
os vestidos grudados no corpo, cansadas, suadas. E firmes. Outra vez, no Acre, elas ficaram num hotel
que estava mais para maloca, chovia em cima das camas, e Ruth ainda tinha de equilibrar o ciúme de
egos disparados — estudantes da Unicamp de um lado e estudantes amazonenses de outro, todos eles
querendo se mostrar. Uma noite, os índios vieram até o hotel e dançaram e cantaram para ela, que estava
com Bia e os netos Júlia e Pedro (que dormia no colo da avó). Marlui Miranda cantou junto com os
índios. Ela tinha ensinado a eles que no canto era melhor ficarem parados, para não atrapalhar a voz.
Depois que cantaram, todo mundo dançou.
Um dos programas mais bem-sucedidos, o Alfabetização Solidária não era para crianças, e sim para
jovens e adultos. Todos concordam que foi o exemplo mais feliz da parceria entre universidade, empresa
e poder público porque se montou um programa de ong que é quase um programa público em grande
escala, com um balanço formidável de resultados. Tratava-se de uma parceria público-privada como não
existia na época, não se falava nisso, não se cogitava, e saiu inteira da cabeça de Ruth. A primeira reunião foi realizada no Recife e Ruth dizia aos seus colaboradores que não era fundamental inovar,
bastava observar o que existia, avaliar e ver o que podia ser feito para fortalecer. “Muitas vezes estão
acontecendo coisas muito boas e nem é o caso de melhorar, apenas fortalecer, colocar uma rede em
contato com outra, ligar um parceiro ao outro.”
Regina Esteves acentua que a primeira preocupação de Ruth não foi buscar a melhor metodologia de
alfabetização, e sim verificar o que existia no país, nas redes pública e privada, nas universidades. E
então multiplicar esse esforço, trabalhar para que tivesse cobertura nacional, para que determinada
proposta atendesse às comunidades que mais necessitavam. Em um projeto-piloto, no interior do
Amazonas, do qual até Paulo Henrique Cardoso fez parte, 82% da população era analfabeta. E
analfabetos eram também 80% dos funcionários públicos. Dá para imaginar o impacto que isso tinha no
sistema público?
Regina trabalhava com cinco colaboradores, funcionários que a fai lhe cedeu, na sala pequena do
Bloco A, no quarto andar, com telefone e fax, e todos os planejamentos tinham sido feitos com base nos
dados do ibge. Subitamente, ela se lembrou de como Ruth trabalhava, ou seja, indo aos locais, olhando,
anotando, conversando, perguntando. “Ela era uma grande perguntadeira. E anotava em cadernos tudo o
que observava.” Naquele dia, Regina e seus colaboradores fecharam gavetas e portas, dividiram-se em
grupos e partiram para visitar os municípios com maior índice de analfabetismo. Ao voltar, jogaram fora
todo o planejamento e reiniciaram do zero.
A princípio, encontrou-se resistência. Numa reunião com um enorme grupo de universidades, em
Alagoas, Regina detectou enorme desconfiança porque as pessoas ainda tinham ideia de que se tentava
retomar o falido Mobral — não se convenciam de que era um programa autônomo, tinham certeza de que
a AlfaSol era do Ministério da Educação. Ela confessa que os questionamentos que receberam foram
bons, porque ajudaram a preparar respostas e a encaminhar projetos. Ensinaram também que o trabalho
só se desenvolveria ouvindo as comunidades e fazendo, antes de tudo, parcerias locais.
Assim, ao invés de um programa pedagógico único para todo o Brasil, a AlfaSol desenvolveu uma
enorme variedade de programas, cada um criado a partir das necessidades locais. Conseguiu-se uma
mobilização maciça de instituições de ensino superior, responsáveis por produzir as propostas
pedagógicas. Em 25 estados foi montada uma rede voluntária formada por universidades federais e
estaduais, públicas e privadas, faculdades e centros de ensino superior e cursinhos. Além disso, os
professores também intervieram em nível local, fomentando melhorias no sistema educacional dos
municípios, apoiando projetos sociais e econômicos. A linha de frente desse exército era formada por
aqueles que treinavam e capacitavam os alfabetizadores e representam o elo entre a estrutura montada e
os alunos nas classes de aula. Os alfabetizadores eram escolhidos entre os moradores das cidades
atendidas e a maioria era de jovens entre vinte e 24 anos. Esses alfabetizadores faziam estágios nas
universidades parceiras e, quando iam para os grandes centros, capitais como São Paulo, Rio de Janeiro,
Curitiba e Recife, participavam de várias atividades, visitavam museus e exposições, iam a shows de
música, ouviam palestras, frequentavam teatros, faziam passeios turísticos. Pela primeira vez na vida,
alguns entraram num museu ou assistiram a uma peça teatral. As aulas não se limitavam a alfabetização,
ensinavam também noções de higiene, saúde, obrigações civis, e assim eles se tornavam promotores de
cidadania.
O banqueiro Pedro Moreira Salles, que se tornou um dos mais entusiastas defensores e
colaboradores do Comunidade Solidária, escreveu um pequeno texto que repassou a amigos, conhecidos
e empresários:
Aquilo que parecia a muitos de nós uma ideia ingênua, fadada a não ser mais do que outra experiência bem-intencionada, acabou sendo
uma realidade inquestionável. Em retrospecto, o ceticismo se devia possivelmente à excessiva simplicidade aparente da ideia: reunir
governo, universidade e setor privado em torno de um projeto, extraindo de cada um uma contribuição específica fundamental. Material
didático, capacitação pedagógica, recursos; “bastava” reunir esses ingredientes na sua justa proporção e pronto. Havia certa lógica no
ceticismo inicial...
E D. Ruth pôs-se a campo. Promoveu dezenas de encontros com grupos de empresários e universidades. A cada rodada, mostrava
o quanto acreditava na ideia de que era possível mobilizar a sociedade em torno de uma causa concreta, e demonstrava a sua habilidade
em gerar consensos. Uma vez montada uma equipe mínima para fazer a gestão do programa, deu-se início ao projeto. De forma
prudente, o primeiro módulo do Alfabetização Solidária abrangeu apenas 38 municípios do Norte e Nordeste, atendendo 9 mil alunos.
Contava então com o apoio de onze empresas privadas e 38 universidades. Apesar do óbvio impacto que o processo trazia para as
comunidades envolvidas, o Conselho do Programa optava por avançar com cuidado, avaliando constantemente os resultados obtidos,
redesenhando o formato sempre que necessário.
Apesar das críticas então feitas ao projeto, acusado de não ser mais do que uma experiência de laboratório, a equipe procura prever
e eliminar eventuais limitadores ao crescimento sadio do Alfabetização Solidária, sem ceder ao apelo e à demagogia fácil dos grandes
números. A questão da formação acelerada de um contingente expressivo de alfabetizadores torna-se, desde o início, claramente um
gargalo. Nesse ponto, o papel das universidades foi fundamental, já que a dispersão geográfica do programa exigia que as parcerias se
multiplicassem, garantindo um processo de formação e acompanhamento a custos baixos. Da mesma forma, o volume de recursos
financeiros necessários cresceu na exata proporção da ambição do programa; aqui também o número de parceiros precisava ser
ampliado para assegurar a continuidade do projeto. Felizmente, nada disso assustava os idealizadores do Alfabetização Solidária.
No final dos anos 1990, Pedro Moreira Salles deslocou-se para Barroquinha, Ceará, quase divisa
com o Piauí. Eram 10h30 de um sábado, temperatura de 35 °C à sombra. O relato emocionado é dele:
Numa das modestas salas da escola Governador Virgílio Távora, Suyara, mulher de idade, conta orgulhosamente a sua história para a
Presidente do Conselho do Comunidade Solidária, Professora Ruth Cardoso. “Descobri que tinha talento, um dom; quero dar o melhor de
mim para os meus alunos”, explica, desinibida, para mais de vinte pessoas, entre elas o Governador do Estado e o Prefeito da cidade. “A
Solidária me ajudou a definir o que quero ser. Quero continuar e vou continuar.”
Suyara é um dos 70 mil alfabetizadores de um admirável, e pouco conhecido, programa, o Alfabetização Solidária. Iniciado em 1997
a partir de ideias discutidas no conselho presidido por D. Ruth, o Alfabetização Solidária terá atendido mais de 1 milhão e meio de
indivíduos até o final deste ano, o que equivale a 10% do contingente de analfabetos do país. O programa é dirigido à população acima de
catorze anos de idade, sendo a maioria dos alunos até o momento moradores de zonas rurais, entre vinte e 29 anos. É isso mesmo: quatro
anos apenas, 1,5 milhão de pessoas! E o custo? R$ 34 por aluno, por mês.
O sucesso do programa foi de tal ordem que, uma vez concluído o módulo básico de alfabetização — cuja duração era de cinco
meses —, os alunos queriam mais. Uma evidência concreta é que 93% dos municípios atendidos organizaram turmas de ensino supletivo.
Onde o programa foi implantado, observou-se a expansão imediata da rede formal de ensino. Uma verdadeira revolução, sem ruídos e
com um mínimo de palanques e holofotes. Dela participaram 90 empresas, 180 universidades, 1.200 municípios e vários governos de
estado.
Quanto a Suyara, a alfabetizadora de Barroquinha, ela decidiu entrar para a faculdade. “Estou com saudades de deixar os meus
alunos”, explicou para sua plateia seleta. Pode não ter sido o mais perfeito uso do idioma, mas a frase expressou com clareza a força
desse extraordinário projeto.
A cada momento, problemas eram encontrados e resolvidos. Quando se avaliou o porquê da enorme
evasão dos cursos, descobriu-se um dado curioso. Grande parte dos que desistiam tinha problemas de
visão. Criou-se imediatamente o Programa Ver, que distribuiu 50 mil óculos após as avaliações oftalmológicas.
O que havia a fazer? Agregar as universidades que tivessem competência e criar condições para que
essa competência chegasse aos lugares mais carentes. Criar logísticas impossíveis. As empresas
privadas não contribuíam apenas financeiramente, mas também com expertise, com eficiência. A AlfaSol
estimulava a sintonia entre a iniciativa privada, as universidades, as comunidades e as prefeituras, cujas
estruturas são diferentes daquelas das grandes metrópoles. A expectativa de cada parceiro era diferente.
O empresário queria ver o resultado prático, o que aconteceu com o município e como o índice se
comportou. Para a universidade, isso não era suficiente — o professor queria ter oportunidades de
pesquisa, de reflexão, esperava outro retorno. As prefeituras queriam saber o que resultaria de recursos.
O que a AlfaSol levava até eles era uma demanda pela escolarização a que a prefeitura e a rede tinham
de responder.
O grande objetivo era que o projeto criasse demanda para que novas salas fossem abertas na própria
rede de ensino. Cabia à AlfaSol potencializar, reunir parceiros de diversos segmentos para uma ação
conjunta, com foco. Qual era o objetivo? Atender a comunidades que não tinham programas de
alfabetização, que não recebiam nenhum atendimento. Numa avaliação dos primeiros seis anos da
AlfaSol, verificou-se que para 74% dos municípios atendidos aquela tinha sido a primeira experiência de
alfabetização.
O Timor Leste foi um dos primeiros países a adotar a experiência do Alfabetização Solidária, em
2001. Em seguida ela migrou para Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Uma sucessão de
prêmios internacionais mostra o alcance do Alfabetização Solidária: em 1999, o Prêmio para Iniciativas
Bem-Sucedidas em Educação, concedido pela Unesco. Em 2000, em Paris, o Prêmio Internacional de
Alfabetização. Em 2002, participação no kit comemorativo da Década da Alfabetização, iniciativa
lançada pela onu. No ano seguinte, Prêmio onu para a Educação, como uma das dez mais bem-sucedidas
experiências de alfabetização existentes no mundo. Em 2004, o Prêmio Rei Sejong de Alfabetização, uma
doação da Coreia do Sul à Unesco, e o da Rede Innovemos — Rede de Inovações Educacionais para a
América Latina e o Caribe. Em 2007, o Prêmio Dubai, iniciativa do Programa de Melhores Práticas e de
Lideranças Locais desenvolvido pelo un — Habitat, programa das Nações Unidas para Assentamentos
Humanos, e pela Together Foundation, com sede em Nova York, instituição que prepara líderes
socialmente responsáveis ao redor do mundo.
Ruth não estava em toda parte, ainda que viajasse para os mais longínquos lugares. Ela sempre foi uma
pessoa que deu liberdade, incentivou a autonomia, mas com absoluto compromisso e muita
responsabilidade. “Não tínhamos necessidade de ela se fazer presente diariamente, ou de ela ter uma
agenda determinada na AlfaSol”, acentua Regina Esteves. “Só que a relação com ela de concepção, de
ideias, de fidelidade, era um compromisso rigoroso. Ela manteve a vida toda um aspecto que era próprio
da sua personalidade. Gostava de formar pessoas. Toda vez que via alguém jovem na equipe, dava para
ver um brilho diferente nos olhos dela. Tinha paciência e interesse na formação de jovens. Essa formação
não era apenas no campo profissional, a coisa era mais complexa. Ela se preocupava como estava a
Regina profissional da AlfaSol, a mãe, a esposa, como estavam minha família, minhas relações de
amizade. Assim como se preocupava com uma mulher simples do vale do Jequitinhonha. Delegava, impunha desafios, confiava. Uma vez, no
gabinete do Comunidade Solidária, em Brasília, ela devia fazer uma apresentação para o pessoal do
Banco Mundial. De repente, virou-se para mim: ‘Você é quem vai fazer essa apresentação!’. Uma coisa é
você ter as coisas preparadas para o seu trabalho, outra é a apresentação para um banco desse porte. Ela
sentou-se na primeira fileira e me apoiava com o olhar e acenos de cabeça. Foi um desafio assustador na
hora, porém vejo que foi uma oportunidade para mim, ela fez com que eu enfrentasse meus medos e
limites. Era uma pessoa que, ao comentar algo, destacava os pontos positivos. Não apontava os
negativos, fortalecia os positivos. Era muito séria e exigente em algumas coisas. Por exemplo, naquilo
que acreditava em termos de seriedade e respeito em relação à comunidade, ela não abria mão. Nosso
compromisso era com aquele lugar, aquela gente. Com os recursos captados, então, era de uma rigidez
total, quase absurda, contava tostão por tostão.[128]Agora, se fosse para testar, inovar, mesmo que
naquele momento ela não estivesse convencida, ela dava apoio para fazer, estimulava. Achava sempre
que é essencial testar, experimentar, pensar diferente, avançar. Acreditava que as pessoas poderiam
sempre colocar um tijolinho numa ideia que veio dela e dava total liberdade para que essa construção
fosse um processo. Era uma pessoa única porque conseguia manter o foco num ponto específico, técnico,
olhando o todo, sem se desviar do conjunto”, conclui Regina Esteves.
Miguel Darcy jamais viu Ruth Cardoso dar uma ordem, impondo autoritariamente algo como “quem
manda aqui sou eu, vai ser feito do meu jeito”. Quando não estava de acordo, afirmava com clareza:
“Isso não vou fazer”. Demonstrando certa teimosia, para ela não era fácil abrir mão de seu ponto de
vista, ficava firme nas suas ideias. Sempre foi opinativa, determinada.
Era questionadora também. Se o grupo estivesse discutindo uma nova forma de atuação, e ela tivesse
uma dúvida, intervinha, discutia, repensava e tentava ver lá na ponta como é que aquilo funcionaria. Se
achasse que ia funcionar para a comunidade, então tudo bem. Importante ouvir Teresa Caldeira: “A
atitude da Ruth de constante questionamento, tanto dela quanto da prática e do contexto que ela
encontrava, tinha um complemento fundamental. Ela foi sempre uma grande professora, mas detestava a
escola, e ficaria horrorizada em saber que tem seguidores, porque o que ela ambicionava, acima de tudo,
era forjar a autonomia de cada um que se relacionava com ela. Jamais quis que repetíssemos o que ela
dizia. Tinha ataques se isso acontecia, porque o que ela queria era abrir caminhos para que cada um
seguisse o seu. Sempre enfatizou que dar autonomia aos outros era a melhor coisa que se podia fazer, e
ela fez isso brilhantemente, foi essa atitude que ela levou para o Comunidade Solidária. Queria criar
condições para que sobretudo os jovens pudessem ser, eles mesmos, produtores da sua própria visão de
mundo e da sua própria representação. Numa das últimas discussões que tivemos com ela, num trabalho
sobre vídeos na Cidade Tiradentes, ela explodiu: ‘Esses meninos têm de produzir eles mesmos os seus
vídeos. Não dá para a gente ficar aqui vendo os intelectuais produzirem vídeos sobre a periferia. O que a
gente tem de fazer é capacitar esses meninos para que eles criem as suas próprias representações’. A
ênfase nessa atitude de forjar sujeitos autônomos, que podem ser agentes do seu próprio futuro, é um dos
seus grandes legados, foi a alma e o eixo do Comunidade”.
Uma coisa que provocava perplexidade nos críticos do Comunidade Solidária e na mídia, sempre
preocupada com o que é governo e o que não é, era a participação da Força Aérea Brasileira nas ações do programa Universidade Solidária. Para isso, a Aeronáutica montou uma Sala de Comando e uma Sala
de Estado-Maior para gerenciar a logística dos aviões, cuidar do abastecimento e formar as unidades de
intervenção em casos emergenciais. Fizeram um mapa gigantesco do Brasil, das linhas de comando, das
hierarquias, a logística funcionou, os universitários adoraram, partiram com entusiasmo para as
comunidades mais pobres e longínquas.
Os aviões Buffalo, da fab, desciam em qualquer pista, e era neles que os estudantes viajavam. Ruth
fazia questão de estar no aeroporto a cada chegada dos jovens. Revirava sua programação para liberar
aquele dia, aquela hora. Desde os tempos de Faculdade de Filosofia ela conseguia administrar bem o
tempo, dona de casa, funcionária pública, mas a chegada dos estudantes era dos raros momentos em que
ela não se atrasava nunca. Eles chegavam e, quando a porta se abria, Ruth Cardoso corria, com um
sorriso enorme no rosto. Queria abraçar a rapaziada que descia vestida com a camiseta da Universidade.
Todos eles bastante emocionados, muitos choravam, inclusive Ruth. Alguns daqueles jovens estudantes
não acreditavam que estavam diante da primeira-dama. Aquela mulher vestida simplesmente, que
distribuía abraços e conversava com todos era a mulher do presidente? Uma das mulheres mais
importantes da República?
Em pequenos municípios do interior da Bahia, de Pernambuco, Ceará ou Acre, a chegada dela era
uma festa, o lugar como que se iluminava. O espírito araraquarense auxiliava, facilitando tudo — em
poucos minutos ela estava integrada. Numa viagem ao Amazonas, em 1996, o grupo seguiu de barco para
visitar comunidades ribeirinhas, pois Ruth queria avaliar como estavam se comportando os universitários
naquela região. A determinada altura havia uma pequena comunidade mais distante e ela insistiu em
chegar até lá. Protocolo rígido, pediu às seguranças que a rodeavam: “Me deixem só, não me
acompanhem”. A essa altura, as seguranças estavam começando a aprender — ou não ficariam no grupo
—, quase a caminho de se sentirem acostumadas com essa sua maneira de ser, mas mesmo assim ficaram
apreensivas. Elas adoravam Ruth. Chegaram à tal comunidade, Ruth começou a conversar com um, com
outro, perguntava, respondia. Para se ter ideia do isolamento do lugar, meia hora depois ninguém tinha se
dado conta de que aquela era a primeira-dama. Na hora de partir, um senhor idoso, líder da comunidade,
não se conteve: “Diga, por favor, aquela senhora não é a mulher do presidente? Ou estou enganado?”.
Identificada, ela distribuiu abraços e sorrisos. No barco, de volta, abriu-se: “Foi o máximo essa viagem,
tive uma hora de pura antropologia”.
No Acre, Rosiska Darcy e Ruth foram a Xapuri, terra de Chico Mendes. Emocionaram-se com o
túmulo de Chico num cemitério de covas rasas. Há um mausoléu de ladrilho branco com uma pequena luz
permanentemente acesa acima dele. Todos os dias alguém vem e troca as flores. Dali foram visitar o
hospital. Encontraram um número grande de meninas de onze, doze anos, grávidas, maltratadas, tremendo
com a malária. Já emocionadas com a visita ao cemitério, passaram contidas por aquelas quase crianças.
Pouco depois, quando entraram no avião, as duas desabaram.
Todos que trabalharam com Ruth asseguram que as formas de monitoramento foram aprendidas com
ela, que ensinava: nos primeiros momentos se devia ter uma relação de igual para igual, sem intimidar
ninguém, de maneira que as pessoas se vissem reconhecidas pela capacidade e importância que têm na
comunidade e o que têm a dizer, comunicar.
Regina Esteves traz outros episódios significativos: “Fomos à favela da Rocinha para o lançamento de um programa em parceria com o bndes, planejado em conjunto com a Associação Comunitária local.
Chegamos ao pé do morro, o favelão estendia-se acima de nós, compacto. As seguranças vieram,
temerosas: ‘Não vai dar. A senhora precisa mudar o programa. Não pode subir. A situação é perigosa.
Vamos fazer a cerimônia aqui embaixo mesmo’. ‘Mas aqui não é a Rocinha! Estão nos esperando lá em
cima, se prepararam para isso. O programa é deles, para eles, vai fazer bem para a comunidade. Vamos
lá, estão nos esperando. Confiem neles.’ ‘Só que não dá para subir, de maneira alguma.’ ‘Vocês fiquem.
Já estou subindo.’ E começou a caminhar. Juntei-me a ela, tensa, tremendo. Teria sido um vexame não
subir. Ela passando e o povo saudando, aplaudindo. As seguranças dela tiveram de montar um esquema
diferente, mas sabíamos que havia também uma segurança própria da comunidade. Chegamos a uma
pequena e humilde casa, já nos esperavam, uma alegria imensa nos rostos. De repente, um susto.
Começaram a soltar fogos, uma confusão, as seguranças se prepararam. Tanto poderia ser algo festivo
como o anúncio da chegada de drogas ou armamentos, ou mesmo a presença de polícia. O lugar tinha seus
códigos, que desconhecíamos. Ruth, imperturbável, conversando, e o diretor do bndes alarmado. Quando
tudo terminou, descemos, entramos no carro, ela virou-se para mim: ‘Nossa, Regina, como você está
acabada!’. Recostou-se no banco: ‘Vocês não conhecem esse tipo de comunidade. Sei como trabalhar nas
favelas, conheço os códigos. Sei como tenho de trabalhar. E este projeto irá a toda parte’. Em outro
evento, em Mangueira, tivemos uma situação parecida e ela soube como interagir e nos ensinou muito.
Nunca ouvi Ruth dizer que algum projeto seria difícil, complicado ou impossível. Isso não existia. Ela
sempre trabalhou nos mostrando que era necessário apenas desenhar o modelo para cada tipo de
comunidade. O nosso princípio era trabalhar em parceria com as prefeituras municipais. Num dos 38
municípios do projeto-piloto, em Mata Grande, Alagoas, o prefeito não quis apoiar, não havia condições,
e mesmo assim ela não desistiu, insistia que devíamos achar um jeito. Esse era o desafio. Acabamos
fazendo parceria com a associação comunitária. Foi tudo tão benfeito que depois o prefeito acabou
assumindo. Podemos não ter as condições ideais para o trabalho, mas temos os ideais, ela sempre
repetia”.
Os alfabetizadores sempre foram jovens locais que tinham ido fazer estágio numa capital e voltavam
com a cabeça cheia de imagens e novidades. Ela dizia: “Ofereçam algo sólido e todos crescem”. Ruth
quebrou a ideia de professor e aluno. Cada um, em diferentes situações, pode ser educador ou educando.
Os alfabetizadores se educavam e transmitiam, enriqueciam suas comunidades, alargavam horizontes. A
troca de experiências era rica. A UniSol nasceu de uma ideia simples: a troca de conhecimentos. Todas
as atividades valorizam o envolvimento da comunidade na busca de soluções locais, ampliando as
possibilidades municipais de parcerias inovadoras.
As prefeituras tinham a chance de reciclar seus servidores, professores e agentes comunitários e de
ver o cotidiano transformado em atividades educativas e culturais. No município baiano de Araci, os
universitários conseguiram reduzir a taxa de mortalidade infantil a partir da descoberta de uma tradição:
as parteiras cicatrizavam os umbigos dos recém-nascidos utilizando estrume de galinha e de cabra.
Extinta a prática, mudou-se a situação. São detalhes que transformam um lugar. Multiplicados,
transformam regiões. Ou o mundo, se quisermos. Em muitos municípios, a simples criação de uma escola
reduziu a migração de moradores que buscavam outras localidades, desejando dar ensino aos filhos. Os
universitários alfabetizadores eram (e são) criativos, de acordo com a necessidade. Em Acauã, no Piauí, por exemplo, construíram um sistema que puxava água de uma localidade a dois quilômetros de distância.
Recusa-se a questão assistencial e isso é explicado em reuniões, seminários, publicações. Aquela
história antiga de os jovens chegarem e extraírem dentes não existe mais, é outro departamento. O
Comunidade Solidária não atua, nunca, sob este ângulo. Muitos universitários, uma vez formados,
acabaram indo trabalhar nas regiões onde estiveram com a UniSol. Outros pediam para ser monitores de
novas equipes. A ideia de Ruth sempre foi, no futuro, a formação de uma grande rede de troca de
informações.
Com o programa Universidade Solidária conseguiu-se mexer com a cabeça dos estudantes,
contribuir para sua formação pessoal e profissional, como acentua Elisabeth Vargas, uma de suas
coordenadoras: “As universidades descobriram que podiam fazer diferença, participando de uma ação
conjunta e coordenada, podiam ser parceiras do desenvolvimento. Estava sendo cumprido o papel da
universidade, que é o de disseminar conhecimentos e informações. Ou seja, uma ação educativa que
semeava para o futuro e levaria ao desenvolvimento sustentável”.
Miguel Darcy sustenta que “as equipes do Universidade Solidária foram as maiores beneficiárias do
programa, talvez mais que as próprias comunidades. Muita coisa se levou, muita se aprendeu. A UniSol
levou a modernidade às comunidades”.
No meio de uma reunião formal do Comunidade Solidária, estivesse presente quem estivesse, de repente
Ruth se inclinava para Regina Esteves e anunciava:
— Vou sair por dez minutos.
— Logo agora? E se entrar algum assunto importante na pauta?
— Dez minutos, segura aí.
— Mas, Ruth...
— Nem mais, nem menos. Combinei com o Pedrinho, meu neto, filho da Bia, e ele vai me mandar um
fax em cinco minutos.
E saía. Aqueles compromissos com os netos eram sagrados, ela não abria mão deles de modo algum.
Inúmeras vezes desmarcava tudo porque havia prometido a Bia ficar com os filhos dela no Rio de
Janeiro. Ela não era muito ligada a horários e a equipe à sua volta dava um jeito de manter a
pontualidade, raras vezes conseguida. Quando viajavam, o problema era diferente. Ao chegar a uma
comunidade, cumpria as inevitáveis formalidades com prefeitos, empresários etc., mas sabia que havia
encontros reservados com pessoas da comunidade, todo tipo de gente, e era a hora da conversinha, de
onde ela tirava farto material e via o andamento dos projetos. Ali estava a resposta de tudo. Os atrasos
muitas vezes eram motivados por essas conversas. Ela se deixava levar deliciada e esquecia o tempo, o
relógio, as obrigações. José Gregori tem uma explicação curiosa: “Ruth nunca aprendeu a entrada do
político. Este chega a um lugar, cumprimenta um por um, aperta a mão de todos, diz uma frase, segue.
Feito o tour, então ele seleciona com quem vai se demorar. Ruth, não. Entrava e ia se enroscando em
papos que se eternizavam”. Havia muito de Araraquara nisso. Para Regina Esteves, ela trazia a cultura de
sua terra natal em tudo o que fazia, daí sua empatia com o povo do interior. “Sei como as coisas
funcionam nessas cidades, sou de Araraquara”, enfatizava Ruth.
Era uma mulher de fácil manejo, mas que ninguém chegasse bajulando. Odiava isso, cortava logo, desviava o assunto. Que ninguém viesse tentando usá-la como intermediária para chegar ao presidente.
Para vê-la irritada, bastava mudar algum programa do Comunidade Solidária inserindo no meio de uma
agenda previamente estabelecida algum encontro de cunho político que nada tinha a ver com o
Comunidade. Exclamava, irada: “Faço outra viagem só para isso, mas não posso gastar meu tempo em
prejuízo do programa que vim cumprir”.
Há um programa pelo qual Ruth tinha muito interesse, o voluntariado. Foi algo muito discutido, eram
pessoas que vinham do mundo acadêmico, das ongs, da sociedade civil. O voluntariado é uma ação
bastante antiga, principalmente entre senhoras da alta sociedade dispostas à prática da caridade. É uma
coisa entranhada na raiz brasileira, surge nas associações religiosas, nos bairros, nas escolas, nas
associações esportivas ou culturais, nos comitês políticos, até numa quadra entre amigos. Nos Estados
Unidos o voluntariado é algo diferente, é um componente fundamental da ação cidadã. Assim, o
Comunidade Solidária decidiu ressignificar o sentido de voluntariado, sem desqualificar as formas
generosas de ação inspiradas no desejo de ajudar os outros. Decidiu-se fazer um casamento entre a noção
de solidariedade e a de cidadania. A cidadania sozinha é coisa abstrata, a solidariedade sozinha é apenas
um ato generoso. “Vamos juntar esses dois mundos”, disse Ruth. Montou-se um projeto, financiado pelo
bid, para estimular a criação de centros de voluntariado em várias cidades, a fim de formar gente e
desenvolver tecnologias de ação de voluntários — e isso explodiu no Brasil inteiro.
O que faziam esses voluntários? Tudo o que quisessem. Tudo o que fosse necessário. Foi uma coisa
inovadora, porque se quebraram as hierarquias. Perguntava-se às pessoas o que elas tinham a oferecer,
que bem elas poderiam fazer a alguém com alguma carência — Ler para um cego? Trabalhar numa
creche? Tudo bem, ainda que se saiba que uma coisa não é melhor ou mais nobre do que a outra. Quer
então trabalhar com causas “maiores”, mais contemporâneas? Com o meio ambiente? Cada qual é
voluntário ao seu jeito e maneira, e não existem fórmulas ou modelos. O Programa Voluntários sabia que
mobilizar adeptos não era tarefa difícil, as pessoas estão sempre dispostas a ajudar, a participar.
Fundamental é oferecer a elas um leque amplo de oportunidades. O que cada um precisava saber e disso
se imbuir é que voluntariado é escolha, é ação, é compromisso.
Quando se estruturou o programa, em 1996, havia no Brasil uma ausência de infraestrutura de apoio,
devido ao desgaste da palavra “voluntariado”, significando apenas ação de cunho assistencial. Havia
isolamento. Faltava diálogo, dominava a ausência de um esforço sistemático de produção de
conhecimento, de metodologia de trabalho, portanto, perda de eficiência. E existia, principalmente,
desinteresse das empresas pelo voluntariado como componente da responsabilidade social do
empresariado.
O desafio era este: como se organiza uma coisa que é espontânea? Uma das ideias foi montar um
programa de incentivo, com Regina Duarte como garota-propaganda. Agências de publicidade
produziram comerciais e spots, valorizando a ideia de participação. Logo se formaram Centros de
Voluntariado nas principais cidades brasileiras. Em seguida cuidou-se da elaboração de uma metodologia
para a melhoria das ações voluntárias, com seminários, publicações, intercâmbios. Foram elencadas as
prioridades: pessoas portadoras de deficiências, segmento de aposentados e idosos, jovens e crianças. A
publicação do manual Como as empresas podem implementar programas de voluntariado, a parceria
com a Rede Globo na divulgação e o aporte financeiro do bndes deram uma estatura física forte ao programa. Os Centros de Voluntariado nasciam de uma demanda local.
A publicação Fortalecendo a sociedade, promovendo o desenvolvimento assinala que “uma pessoa
de terceira idade, que tem tempo, vontade de trabalhar e de ajudar os outros, pode se engajar num
trabalho voluntário. Isso é ótimo para a saúde psíquica dessa pessoa, ela se sente útil, vive experiências
com outros grupos sociais. Os deficientes, os idosos e os jovens são três grupos muito importantes e não
podem ser vistos apenas como beneficiários da ação voluntária. Nós queremos vê-los também como
sujeitos dessa ação voluntária”. Ou então, “quanto mais uma escola se abre à participação dos pais de
alunos e da comunidade, melhor ela é. E a participação dos pais é uma ação voluntária. A entrada da
comunidade na escola é uma ação voluntária”.
Ruth Cardoso era intransigente quanto a compromisso: “A partir do momento em que a pessoa diz
‘sim, serei voluntário’, assume o compromisso de fazer, de ter horários e tarefas. Não é aparecer quando
dá na veneta, quando tem um tempinho livre. Se você dispõe de quatro horas por semana e oferece essas
quatro horas, que seja responsável, sério, porque é uma relação com os outros, haverá pessoas
esperando, instituições que precisam de sua presença. Não é só você doando, é você também recebendo,
abrindo-se a novas experiências e vivências, se enriquecendo”. Se alguma coisa a tirava do sério era o
fato de não se cumprirem compromissos.
Foi criada uma lei para defender as organizações nas quais os voluntários trabalhavam. Muitas vezes
um sujeito se apresentava, trabalhava três ou seis meses como voluntário, se desinteressava e saía, ou se
desentendia e ia embora e então acionava a Justiça do Trabalho, requerendo direitos. A Justiça sempre
dava ganho de causa a eles. Daí as organizações terem medo de receber voluntários. A lei visava
proteger os parceiros desses abusos.
Nos anos 1970, viajando pelo interior de Minas Gerais, na cidade de Boa Esperança fui levado à casa da
velha Dula, noventa anos, dita a última tecelã da região. Dula tecia colchas, toalhas de mesa e edredons a
partir da lã que escolhíamos e comprávamos no próprio carneiro. Ela tosquiava, tingia e tecia. Seu tear
era de madeira centenária, abrigado num telheiro ao lado da casa. Dula me confessou: “Este ofício acaba
comigo”. Por quê?, indaguei. E ela foi realista: “As meninas não querem aprender, acham as coisas das
Casas Pernambucanas mais bonitas e fáceis. O povo também tem ido para as lojas”. Estava chegando ao
fim uma época de beleza. Dula morreu em seguida, seu tear apodreceu.
Quando a seca assolou o sertão nordestino em 1998 e se criou o Projeto de Capacitação e Geração
de Renda, percebeu-se que o artesanato poderia se tornar uma atividade geradora de renda, já que
profundamente ligado ao modo de vida de centenas de comunidades e forte expressão de sua identidade
cultural. Mas o que estava ocorrendo, com a modernidade do mundo e as tecnologias se disseminando?
Do mesmo modo que as filhas de Dula — aliás, mulheres na casa dos setenta anos — tinham se recusado
a aprender a arte da mãe, a maioria dos jovens não se interessava por herdar dos pais e avós aquele
conhecimento cultural. Não valia a pena, consideravam. Não se ganha quase nada. Com obras espalhadas
por museus do Brasil e do mundo, todavia a vida dos artistas populares continuava inalterada, à beira da
miséria.
Um dos problemas que se apresentavam era o escoamento da produção. No Nordeste, ou em Minas
Gerais — para citar apenas dois centros mais difundidos —, era difícil um canal para se chegar às capitais, portanto o ritmo era de pouca demanda e os preços, aviltados. Havia, e este foi um fator
complicador, os intermediários, aqueles lojistas de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte etc.,
que iam buscar esse artesanato, pagavam uma ninharia por ele e o revendiam a preço de peça de design.
Quando a grande seca devastou o Nordeste, uma das primeiras perguntas de Ruth à sua equipe foi:
“O que podemos fazer, de imediato? Mandar cestas básicas? Tudo bem, precisa. Mas só eu vou mandar?
Cestas básicas, não! Isso vai ser feito pelo Ministério de Assistência Social”. Ela tinha uma ojeriza a
isso. Mesmo sabendo que em certas horas é preciso dar de comer, ela oferecia resistência à cesta básica,
preferia encontrar algo novo, que não fosse assistencialismo. Então foi feita uma pesquisa, no Nordeste e
no vale do Jequitinhonha, e vieram as respostas às perguntas: o artesanato estava sobrevivendo com
dificuldade, à beira da extinção. O que fazer? Quem são os artesãos? Do que eles precisam?
Treinamento? Comercialização?
Novas perguntas se sucederam, equipes foram enviadas para várias regiões, gente com experiência
de cidade, para ver como se poderia comercializar melhor os produtos, como aprimorar a técnica dos
artistas. Um ângulo que parece pequeno, mas que aposta na capacidade das pessoas, por isso tende a
durar, não está condenado a ficar pequeno. Quem ia para o Jequitinhonha era uma pessoa diferenciada,
não ia para intervir na criatividade, castrar a imaginação, não ia fazer a cabeça de ninguém, ia
compartilhar, auxiliar. Nenhum agente do artesanato foi ensinar a fazer diferente, essas coisas vêm
passando de geração para geração e a intenção era fortalecer isso. Recuperar o que estava sendo perdido
e aprimorar o trabalho. Aquelas bonecas feita com bucha, ou com pano, ou papel, eram lindas, mas como
avançar, valorizar mais o material? A questão sempre foi a potencialidade, era esse o ponto no qual Ruth
Cardoso batia. Identificar e fortalecer potencialidades, desenvolver quem executa, quem cria. Desse
modo, foi montada uma central de vendas para quebrar o intermediário e canalizar o máximo de
rendimento para o artista local. Quebrar o intermediário mas sem criar atritos, procurando encontrar
outros tipos de canais.
Parcerias funcionaram com o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular/Funarte, com seus
pesquisadores selecionando municípios e orientando artesãos que passaram a integrar o Artesanato
Solidário. O projeto foi iniciado com os trabalhos em Candeal (mg), onde se montou o Galpão dos
Oleiros, e rapidamente a cerâmica começou a ser revitalizada em outras localidades mineiras, como
Campo Alegre de Minas e Coqueiro do Campo, em São Mateus, no Espírito Santo, em Tracunhaém, em
Pernambuco, Rio Real e Irará, na Bahia, em São João da Varjota, no Piauí. Os brinquedos da Paraíba,
cuja produção era desorganizada e escassamente comercializada, começaram a ser disseminados pelo
Brasil. A renda irlandesa, feita pelas sergipanas de Divina Pastora, passaram a fazer parte da alta moda
— foram vistas até nas passarelas da Fashion Week. O labirinto, trabalho dificílimo, complexo, mistura
de renda e bordado do Rio Grande do Norte, foi redescoberto. Em cada lugar, os consultores do
Artesanato orientavam as artesãs a procurar revitalizar técnicas e aprendizados do tempos das avós e
bisavós, e assim se recuperou muita técnica desaparecida. O programa, em alguns anos, atingiu 66
localidades de treze estados brasileiros. Muitas questões foram tratadas, como as relações interpessoais,
o uso sustentável dos recursos naturais, o aproveitamento do lixo, saúde, educação, cidadania e
autoestima.
Na onu, no Banco Mundial, no bid, eles viam em Ruth a possibilidade de falar com uma pessoa que estava seriamente interessada em problemas sociais, em como investir aqui, como ajudar, mesmo quando
não davam dinheiro. Eles a ouviam com respeito. A certa altura, a União Europeia decidiu dar dinheiro
para o Artesanato Solidário, mas impuseram tantas condições, mudaram tanto o projeto, que Ruth recusou
a oferta. Malak El Chichini, que transitava à vontade nesses meios, tinha dito a eles que não
interferissem. Houve bons resultados quando o bid ajudou o Capacitação Solidária.
Muitas vezes Ruth fez questão de acompanhar seus agentes, e passava horas em cada localidade,
sentada ao lado daquelas senhoras de mãos habilíssimas (85% delas praticam o artesanato),
conversando, perguntando, às vezes tentando fazer, aprendendo. Os que a conheciam, os que estavam
próximos, íntimos mesmo, não sabiam, no entanto, daquela Ruth, criança em Araraquara, na casa da Vó
Vizinha, fascinada enquanto a velha senhora “entiotava” rendas. Se soubessem, entenderiam melhor Ruth.
Uma bela definição do que Ruth fazia com o artesanato foi expressada por Celso Lafer: “Ela conseguia
trazer o sujeito lá do Piauí, ou de onde quer que fosse, para uma dimensão mais ampla do que sua
localização”.