Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 19 de 35

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Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

9 Mergulhando no movimento feminino

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Mergulhando no movimento feminino

 

A notícia chegou como um balde de água fria.

— Dalmo Dallari e Hélio Bicudo recusaram.

— Por quê?

— Foram aconselhados por dom Paulo Evaristo Arns, que acredita não ser o momento de entrarem

na política partidária.

Silêncio. Depois de minutos ouviu-se a voz de Antonio Angarita, que até aquele momento não

dissera muito, observando a reunião. Há dois meses o grupo se reunia no domingo à noite na casa de José

Gregori,[82]discutindo. Apontando o dedo para o homem à sua frente, Angarita propôs:

— Então, por que não o príncipe da sociologia brasileira?

Era como o chamavam, às vezes, em tom de cordialidade e humor. Fernando Henrique deu um salto:

— Eu? Enlouqueceram? Candidato a senador? O meu papel não é esse. Meu papel é pensar coisas e

passar para a classe política. Não é me meter em política.

Maria Helena Gregori, mulher de José, retrucou em cima:

— Ninguém pode escolher papel numa hora dessas!

Ruth ficou paralisada. Por alguns instantes os olhos tornaram-se frios, furiosos. Mas contidos.

Estavam brincando? Não! Era sério, seriíssimo. Fernando Henrique ainda se lembra que a reação dela

foi negativa, porque “Ruth nunca foi chegada à política. A nossa vida era outra e a visão dela era a da

acadêmica, da intelectual, da pesquisadora de movimentos sociais, mas não a vida de partido. A política

poderia modificar inteiramente nosso ritmo e nossos projetos de vida. Uma coisa a perturbava, entrar

num mundo diferente do nosso em prática, exigências, necessidade de concessões”. O que amigos e

alunos comentam é que ela ficava por demais ansiosa tentando descobrir qual seria a relação dela com

essa nova posição. Ela não queria morar em Brasília, tinha preconceito em relação à cidade.

A indicação de fhc se deu após uma série de circunstâncias que foram se encadeando. Ulysses

Guimarães, que tanto tinha telefonado para Cambridge, apareceu no Cebrap para conversar sobre um

artigo que Fernando Henrique tinha escrito no jornal Opinião,[83]condenando o marasmo e a apatia da

intelectualidade. Chegara o momento de apoiar o partido da oposição, o mdb, que vinha sendo criticado

pelos bem-pensantes como uma farsa, o partido do yes, sir.

Ulysses pediu um programa para o mdb. Foi explicado a ele que o Cebrap era um centro de

pesquisas, estudos e debates, não de formulação de plataformas políticas, mas, de qualquer maneira, as

relações estavam estabelecidas até chegarem a 1977 e Ulysses insistir que deveria haver um candidato ao

senado que pudesse atrair jovens e estudantes para o mdb. André Franco Montoro, o candidato natural, não gostou, achou que era golpe contra ele, mas concordou finalmente que seria uma candidatura com o

objetivo de fortalecer a campanha da oposição. Uma anticandidatura.

Reuniões foram realizadas com Francisco Weffort, Roberto Gusmão, Francisco de Oliveira e Plínio

de Arruda Sampaio, que tivera grande experiência política como assessor de Carvalho Pinto quando

governador de São Paulo. Os exilados estavam voltando ao país após a Lei da Anistia. Os primeiros

nomes cogitados, Hélio Bicudo e Dalmo Dallari, em alta por causa da campanha pelos Direitos

Humanos, permaneceriam na resistência no plano da sociedade civil, apoiados por dom Paulo Evaristo

Arns.

 

Finalmente, na casa de José Gregori, saiu a indicação. Havia um problema: fhc era professor cassado na

universidade, o que invalidava sua candidatura. Assim, ele revelou: “Usei esse argumento com Ruth, no

início. Seria uma provocação da oposição, era pura campanha, eu seria cassado pelos tribunais e, mesmo

candidato, não teria votos, onde estava meu eleitorado?”. Na semana seguinte, em Ibiúna, Maria Helena e

José Gregori tiveram uma longa conversa com Ruth, tentando convencê-la da necessidade dessa

anticandidatura. Acalmada, Ruth concordou. De tal modo que, antes do lançamento oficial da

candidatura, que seria no Teatro Sergio Cardoso, ela conversou longamente com José Gregori no comitê

eleitoral, na rua Sena Madureira.

Nesse dia, Gregori reconhece, “ela me deu uma lição de política, aceitando a candidatura do marido.

Fez uma análise do Brasil, mostrou quanto aquela geração que tinha estudado, viajado, dado aulas no

estrangeiro, e possuía ampla visão do Brasil e do mundo, essa geração tinha sido proscrita, mas estava

madura para realizar coisas. Foi uma aula de raciocínio estratégico, ela tinha uma cabeça política. Anotei

e comentei que aquela seria a minha fala no lançamento da candidatura. Entendi que o recheio existencial

de uma vida política não era o que ela queria, e aí entrava Araraquara, porque ela sabia que o político

tem a vida invadida, perde a privacidade, o direito de pautar a sua vida, os outros é que a pautam, o

político não tem o direito de dizer: estou cansado, estou com sono, não vou sair, não vou lá. Os

interlocutores marqueteiros pressionam: Como não vai? Quer perder os 2 mil votos que a Vila Quererê

significa? Há também o outro lado, o de você ter, muitas vezes, de limitar suas ideias, sua autodefinição

das coisas, tudo passa pelo crivo do partido. Ruth era ciosa do exercício do direito do livre pensar e

expressar seu pensamento. Em síntese, a liturgia da vida política é que a incomodava. Por outro lado,

Ruth dominava a teologia da política, conhecia bem o que ela é como instrumento para avançar o

pensamento, as ideias, a liberdade, a igualdade. Sempre teve noção clara disso e exerceria, no futuro,

uma influência grande, porque várias vezes chegamos a esquinas onde devíamos decidir para que lado

seguir, e ali estava aquela mulher para fazer a cabeça da gente. Uma vez, disse a ela: ‘Você tem uma

qualidade entre nós todos, porque vai direto à jugular do problema’”.[84]

 

O Supremo Tribunal Federal acabou reconhecendo a legitimidade da candidatura e então era entrar com

tudo. A campanha foi articulada por um grupo de voluntários — Almino Affonso, Luiz Inácio Lula da

Silva, Sergio Motta, João Rodarte, Jorge Caldeira, Maria Helena e José Gregori, Plínio de Arruda

Sampaio, Francisco Weffort —, além do apoio de Mario Covas, sem contar nomes como Sérgio Buarque

de Holanda, Florestan Fernandes, Mário Pedrosa e Antonio Candido. Chico Buarque compôs um jingle, e Elis Regina, Bruna Lombardi, Carlos Alberto Riccelli, Gianfrancesco Guarnieri e Fúlvio Stefanini foram

alguns dos artistas que se engajaram.

Regina Duarte, ao saber que fhc era candidato, foi ao comitê e se ofereceu para trabalhar. “Um dia,

tive de ir até o apartamento deles e conheci Ruth. Ela estava ocupada lá para dentro, mas passou

rapidamente pela sala e fomos apresentadas. Simpática, gentil, afetiva, olhava a gente dentro do olho.

Tinha um jeito delicado de ser, parecia uma prima que eu tinha em Avaré, interior de São Paulo. No final

daquele ano, Daniel Filho me chamou para fazer Malu Mulher, que era uma socióloga. Sabendo que eu

conhecia Ruth, ele me pediu para solicitar que ela nos recebesse em sua casa para falarmos do projeto. A

ideia, por trás, era saber mais, observar a casa de uma socióloga, o seu ambiente pessoal,

extrair referenciais para a personagem, como anda, fala, age, pensa, o que lê. Ruth era uma profissional

importante em sua área, seria inspirador para nosso trabalho mergulhar naquela atmosfera. Ela nos

recebeu com chá e bolos e não deixou de responder a uma única pergunta. Enquanto isso, a direção de

arte estava de olho em móveis, estantes, cômodas, estatuetas, paredes, fotografias, gravuras, vasos, e

acabou se inspirando na casa dela para criar o cenário de Malu. Objetos indígenas, muito artesanato

brasileiro, pinturas naïves nas paredes ao lado de Calder, pôsteres de vanguarda de Berlim. Um toque de

bom gosto com personalidade, nacionalidade. O que se viu na série foi a cópia do que vimos naquela

tarde. Ela gostou, tinha humor.”[85]

 

Em 1978 Ruth mostrou uma nova face. Ela narra melhor do que ninguém: “Naquele momento eu estava

diante de uma situação diferente. Nunca tinha sido de me inserir em grupos de mulheres, ainda que

conhecesse e me relacionasse com muitíssimas pessoas que participavam da luta feminista e se

organizavam em círculos que agregavam os nomes mais variados. Todavia, convivia com um problema

de ordem pessoal, a minha rebeldia a engajamentos. Militância não combinava comigo. Havia uma

pergunta importante. Como me comportar sendo mulher de candidato? Não queria saber de ficar num

comitê, dar plantão na sede da campanha. Foi quando me veio a ideia. Havia, sim, algo em que eu

poderia ser útil. Era mobilizar as mulheres e montar, estruturar, uma série de questões que nos afligiam,

para levar à campanha, mobilizar o eleitor e os políticos. Houve receptividade, vários grupos se

juntaram, até mesmo a Federação das Mulheres, entidade ligada à esquerda radical”.[86]

Maria Helena Gregori acrescenta que, em 1977, ela e Ruth tinham participado da Comissão de Mães

em Defesa dos Direitos Humanos de Nossos Filhos. Eram jovens que estavam sendo vigiados,

perseguidos pela polícia política. Essas mães estavam a par de todos os movimentos dos filhos, onde se

reuniam, onde estavam, para onde iriam, havia vários telefones de plantão, estratégicos, para que eles

ligassem para contar o que estava acontecendo, ou tinha acontecido. Eram estudantes universitários que

promoviam passeatas, manifestações, distribuíam panfletos. Aquela Comissão fazia parte da defesa da

sociedade civil num regime em que direitos estavam sendo cancelados, pessoas eram presas, mortas,

torturadas ou desapareciam de um minuto para o outro.

Na eleição de 1978 Ruth entrou com tudo, redigiu panfletos e folhetos e foi para o corpo a corpo nas

feiras livres. Os folhetos faziam muito sucesso, mas, admitiu ela, foram prematuros como discurso

político. Regina Duarte a acompanhava nessas ocasiões.

Na busca por votos, viajava-se por toda parte. José Serra acompanhou Fernando Henrique e Ruth até Araraquara. “Apesar de tudo, ele não era conhecido, as pessoas ligadas a Ruth sabiam dele, mas o povo,

o eleitorado, esse não tinha ideia de quem se tratava. Seria um milagre ter votos. Era uma corrida, de uma

cidade para outra, mas abriu-se uma brecha e fomos até a casa da avenida Quinze em que morava,

sozinho, o pai de Ruth, viúvo há quatro anos. Uma casa modesta, tradicional, com móveis antigos. José

estava lá, calado, quietinho, humilde, solitário. Uma pessoa muito suave. Ficamos pouco, nos fomos, a

campanha exigia.”

Fernando Henrique acabou tendo votação suficiente para fazer dele o suplente de André Franco

Montoro.

 

Numa tarde, em 1981, Ruth apareceu no sos Mulher, que, naquele momento, estava empenhado numa

campanha pela abertura de creches em São Paulo, uma das muitas reivindicações femininas. Funcionava

em cima de uma sorveteria na rua Artur de Azevedo, em Pinheiros, numa sala cedida por Fernando

Morais. O italiano da sorveteria concordou em abrir uma extensão da linha telefônica. Ficou quase louco

com o montante de chamadas. O sos evoluiu com rapidez, principalmente na questão da violência contra

a mulher. Dois casos rumorosos tinham trazido o assunto ao topo da mídia, os assassinatos de Ângela

Diniz por Doca Street — se bem que na década de 1970, porém sempre lembrado pela violência e

estupidez — e o de Eliane de Grammont pelo cantor Lindomar Castilho.

Lá no sos foi a primeira vez que Iara Prado viu Ruth. Havia entre elas um link e foi por aí que Iara

entrou: “Morei anos em Araraquara...”. Bastou. Ruth sorriu e fez uma pergunta referencial: “Morava

onde? Não vá me dizer que na rua Três, onde também morei?”. “Não, morava na Seis, próximo à

Agrimensura.” “Portanto, perto da Maria Alice Lia, minha melhor amiga! E também perto de minhas

tias.” Quando se dizia Agrimensura, sabia-se que era a escola, hoje Faculdades Logatti. Quanto aos Lia,

eram praticamente vizinhos de Iara. Maria Alice depois se casou com o advogado Miguel Tedde Netto.

“Ruth, interessada e curiosa, fez um monte de perguntas, especulou,

como se diz em Araraquara, e se confessou seduzida por aquele nosso grupo, em que a mais velha tinha

35 anos. Estávamos sentadas no chão, não havia cadeiras para todo mundo, e oferecemos um ‘chazinho’.

Ela apanhou a xícara e descobriu que o nosso chazinho era uma dose de Domecq, conhaque barato que

todos tomavam. Percebeu que estava diante de um grupo que, em lugar de escrever artigos e ensaios,

partia para a batalha, brigando na rua. Nada de teorias, luta. Ela já estava com cinquenta anos e tinha uma

carreira pronta. Foi de uma geração que não entrou na luta armada, mas que se solidarizou, apoiou,

brigou. Nunca me esqueço do Fernando Henrique visitando uma amiga dele na prisão, era minha

companheira de cela, Maria do Carmo Campello de Souza, a Carmute. O que Ruth encontrou naquela

casa? Todo tipo de gente, de empregadas domésticas a lésbicas, universitárias, advogadas, secretárias,

muita mulher de periferia. Desde então ela disse que, conquistada, passaria a contribuir com a gente, e a

escrever, porque tinha muito espaço. Com ela aprendemos uma maneira de chegar mais próximo das

pessoas. Tinha anos de pesquisa de campo em seus trabalhos acadêmicos. Ela sentava-se e começava:

‘Como você se chama? O que faz? Onde mora? Como é a sua casa? O seu marido faz o quê?’. E ia

estabelecendo a intimidade, provocando a abertura, era o que chamávamos ‘conversinha de Araraquara’,

porque sempre aparecia no meio um comentário: ‘Lá em Araraquara também é assim’ ou ‘Lá em

Araraquara é diferente’, e a pessoa ia sendo envolvida, percebendo que os valores dela eram, em muitos pontos, semelhantes, e que se estava diante de alguém em quem se podia confiar. Ela foi se transformando

numa pessoa querida da gente e militamos juntas em muitas situações. Algumas absolutamente

constrangedoras para ela, como no dia em que uma companheira nossa foi brutalmente agredida pelo

marido, grande amigo de Ruth e uma pessoa notória, o que causou assombro e tristeza. E ela se mostrou

solidária ao amigo, levando-o para fora do Brasil, e essa era uma coisa que lembrava Araraquara, o

companheirismo, a amizade, a solidariedade mesmo. Tinha um lado nosso que a fascinava, aquele de

romper amarras, sem medo de sermos feministas, porque então era uma coisa meio ridícula, ironizada.

Foi um casamento interessante, não para todas, claro, havia aquelas que não a viam como nós, a mulher

que venceu, teve sua carreira, seu marido e filhos, fez um nome, era intelectualmente respeitada, era

centrada. Quando veio a rearticulação partidária e surgiu o pt, em 1980, muitos companheiros foram para

ele, siderados. Ficamos no pmdb e foi quando passamos a conviver de perto com Ruth, no mesmo grupo

político. Nas minhas lutas femininas confesso que não gostava do Lula, ele atrapalhava o nosso trabalho,

era contra o movimento das mulheres dentro do sindicato. Sabe como é? Tinha aquela visão do

sindicalista cujo único objetivo é conseguir uma melhor condição para os seus sindicalizados. E basta!

Tivemos momentos difíceis, tensos, discussões, ele achava que íamos virar a cabeça da ala feminina da

chapa dele. Daí fui com a Ruth para a campanha do Montoro.”[87]

 

Desde que a mãe tinha morrido, em 1974, Ruth passou a se preocupar com o pai. José vivia sozinho em

Araraquara, semiaposentado, dando seus passeios, fazendo um e outro bico, mas cada vez mais enfiado

em casa, um sobradão. A morte da mulher foi um choque, ele custou a se recuperar. Eventualmente ia a

São Paulo, no apartamento da Joaquim Eugênio de Lima — o quarto dele e de Mariquita continuava

sempre arrumado. Às vezes, Ruth ia buscá-lo na antiga rodoviária, na praça Júlio Prestes, na frente de

onde hoje é a Sala São Paulo. Outras vezes, para mostrar que estava bem, ele chegava de táxi. José tinha

um problema circulatório, estava sempre em tratamento, mas tocava a vida.

Um dia Ruth levou um susto ao receber um telefonema. O pai tinha ido dar um passeio e não estava

conseguindo voltar para casa, rodava, rodava, estava perdido. Custou a se reencontrar. Naquele dia ela

fez uma série de cartõezinhos com o endereço e o telefone da casa e pediu que ele pusesse no bolso.

José, conhecido pela teimosia, ficou bravíssimo, não estava velho, nem caduco, nem esclerosado. O que

ela estava pensando? Ela contornou a situação: “Não, papai! Não é por nada! Fiz isso para meus filhos,

fiz um para mim, outro para o Fernando. Vai que algum de nós cai na rua? Ninguém está livre dessas

coisas. O cartão facilita a ajuda”. Ele concordou, foi a salvação. O ano de 1981 corria e José cada vez

mais desligado. Estava surdo, mas insistia em continuar dirigindo seu velho Opala — todo mundo ficava

em sobressalto, esperando a volta dele para casa. Um dia houve a gota d’água. Ele saiu dirigindo em

Araraquara, bateu o carro, meteu-se numa confusão, um sujeito tentou roubá-lo, um perereco danado.

Logo depois ele veio a São Paulo, ficou pouco tempo, quis voltar, não havia como levá-lo de carro.

Decidiu-se que o melhor era tomar um ônibus. “Levei-o à rodoviária”, conta Fernando Henrique,

“coloquei-o no ônibus, fiz alguma coisa na cidade e, ao voltar, encontrei Ruth em choque: ‘Papai

morreu!’. Como? Acabei de colocá-lo no ônibus, foi para Araraquara. Estava ótimo, fomos

conversando.” Então ele soube que o ônibus tinha saído da rodoviária, estava entrando na via

Anhanguera, quando José caiu no banco. O coração estourou de repente. O ônibus fez meia-volta, retornou, deixou-o na Santa Casa, e ali encontraram o cartão com endereço e telefone, a família foi

avisada.

 

Em 1982, Montoro candidatou-se ao governo do estado de São Paulo pelo pmdb. Eram as primeiras

eleições diretas em vinte anos e o mdb tinha acabado de se transformar em pmdb, sob o governo do

general Figueiredo, que, diante do crescimento do partido oposicionista, decidiu cancelar o

bipartidarismo. Montoro correu às mulheres pedindo apoio, elas concordaram desde que, eleito, ele

criasse um órgão dedicado exclusivamente à mulher. Promessa feita, criou-se o Grupo de Estudos da

Mulher do pmdb, do qual fizeram parte, entre outras, Eva Blay, Anésia Pacheco Chaves, Beth Mello,

Marta Suplicy, Maria Helena Gregori, Danda Prado, Maria Luisa Eluf, Iara Prado, Zuleika Alambert,

Silvia Pimentel, Heleieth Saffioti, Maria Malta Campos, Fátima Pacheco Jordão, Florisa Verucci e Ruth

Cardoso.

Foi uma coisa muito elaborada, formulou-se uma proposta consistente, não se criou conflito com o

Comitê Feminino Pró-Montoro, de dona Lucy, mulher do governador. Ficaram célebres os encontros na

rua Madre Teodora, no Jardim Paulista, em São Paulo. “Reuniões eram convocadas, cada vez num lugar,

mas surgiam dificuldades, como a questão do aborto, que foi muito debatida, mas encontrou resistência

feroz por parte das mulheres católicas. Outro impasse foi a questão do planejamento, assunto tabu.

Discutiu-se aqui, debateu-se ali, montamos uma série de pontos que sintetizavam as reivindicações das

mulheres. Entrou em cena a figura de Ruth Escobar promovendo encontros e mais encontros na casa dela

ou no teatro, querendo organizar um grande movimento. Sabíamos que ou os grupos se uniam e se

dedicavam a atividades conjuntas, ou iríamos para o brejo.”[88]

Para conseguir comandar, conta-se que Ruth Escobar dirigia as reuniões com um potente apito.

[89]Contemporâneas acrescentam que se Ruth Cardoso, por todos considerada um ponto de equilíbrio,

não chegava para participar da reunião, Escobar dava um jeito e cancelava o encontro. Não eram

encontros fáceis. Havia sempre todos os tipos de facções, de ideologia partidária, ou sexual, políticas

femininas, muita vaidade entrava em questão, havia desde as intelectuais (apelidadas as “tesudas”, ou

ainda aquelas que faziam e orientavam teses), até as metalúrgicas, as lésbicas, e assim por diante. Diz

Fátima Pacheco Jordão que, na “época, havia uma divisão entre movimento de mulheres e movimento

feminista. Um se concentrava em problemas imediatos, urgentes, como creches, água, luz, esgotos, era

coisa ligada às necessidades primárias (e negadas) do cotidiano, enquanto as feministas conduziam uma

luta mais libertária, ligada a autonomia e direitos da mulher, igualdade etc.”.[90]

Zuleika Alambert, Iara Prado e Eva Blay foram das que trabalharam muito no sentido de definir qual

seria o estatuto a ser apresentado. A primeira ideia era ter uma Secretaria de Estado da Mulher — que

conduziria mais tarde a um Ministério. Isso implicaria, no entanto, burocracia. Ruth foi realista: “Se as

mulheres pedissem uma Secretaria só para elas, os negros também exigiriam a sua, e em seguida cada

grupo dito minoritário começaria a solicitar uma, e Montoro acabaria não atendendo ninguém. Tínhamos

uma noção do pouco poder que estava em nossas mãos, todavia tratava-se de uma porta aberta, estava à

nossa disposição um instrumento de ação, era preciso entrar”.[91]Se não era uma Secretaria, o que

deveria ser, que tipo de órgão? As mulheres passaram um grande período mergulhadas na Fundação do

Desenvolvimento Administrativo, Fundap, buscando informações, coordenadas, caminhos até chegar à fórmula do Conselho, uma vez que, dada a diversidade de problemas da mulher, seria necessário operar

por meio de várias Secretarias e um Conselho faria a ponte entre todas elas, com tranquilidade.

“Fiz com Ruth a campanha do Montoro, da qual José Serra era o articulador. Ruth trazia para nós sua

experiência de viagens, Bolívia, Estados Unidos, trazia referenciais de outros movimentos sociais de

mulheres, não só as feministas, havia as questões do cotidiano, da vida normal, levantávamos problemas

como o enfrentamento da pobreza, e havia ainda a sua experiência acadêmica. Participei do grupo que

procurava estruturar o Conselho Estadual da Condição Feminina, sabíamos que era um instrumento de

força para implantar o órgão que seria formulador de políticas da mulher para outras Secretarias.

Trabalhamos por três meses seguidos, sem parar, nossa estrutura de pessoal era mínima, mas chegamos a

um consenso”, acentua Iara Prado.

 

Aquele momento significava uma etapa a mais numa batalha. Chegava-se a uma nova fase das conquistas

das mulheres no Brasil. A partir da ditadura militar instalada em 1964, “[...] um forte movimento

progressista feminino articulou-se. [...] Enquanto em outras partes do mundo lutava-se contra a

discriminação da mulher e pela igualdade de direitos, no Brasil, a estes objetivos se somava a luta pela

redemocratização, a anistia aos presos e presas políticos, além de melhor condições de vida. [...] A

direita também se reorganizou com base em grupos ligados à Igreja Católica conservadora.

A parcela progressista da Igreja, autointitulada Teologia da Libertação, aproximou-se dos objetivos da

esquerda. [...] A luta pela recuperação dos direitos civis marcou o movimento feminista desde 1964, na

década de 1970 até início da de 1980. As mulheres criaram alternativas à censura que coibia a ação dos

sindicatos, da imprensa e dos partidos políticos. Fizeram movimentos de rua reivindicando a redução do

custo de vida em face do arrocho salarial. Iniciou-se o primeiro movimento de demanda de creches. [...]

Ao lado destas questões gerais discutia-se o direito ao corpo, à sexualidade feminina, ao prazer, ao

aborto. Lutava-se contra uma política de controle da natalidade e, em contraposição, nascia a ideia do

planejamento familiar como uma questão de política pública”.[92]

Em 1972 começaram a surgir em São Paulo os Grupos de Reflexão sobre a Questão da Mulher,

coordenados por professoras e pesquisadoras da usp. Três anos mais tarde, momento em que a onu

instituiu o Ano Internacional da Mulher, foi realizada na Câmara Municipal de São Paulo o Diagnóstico

da Mulher Paulista, ao mesmo tempo em que surgiam duas entidades, o Centro de Desenvolvimento da

Mulher Brasileira, com sede em São Paulo, sob a égide do Partido Comunista Brasileiro, e a Sociedade

Brasil Mulher, que se iniciou no Paraná e migrou para São Paulo, cuja bandeira era a luta pela anistia. A

Sociedade editava o jornal Brasil Mulher que, a partir de 1978, aderiu a pautas mais feministas. Já as

mulheres que voltavam do exílio criaram outro jornal, o Nós Mulheres, feminista desde a fundação e que

durou até 1982. Em 1981 surgiu, dentro da Fundação Carlos Chagas, o jornal Mulherio, que se manteve

até 1987, tendo Ruth Cardoso no conselho editorial. Também em 1981 fundou-se o sos Mulher, cujo

objetivo era a luta contra a violência à mulher, base da criação da Delegacia da Mulher. Ainda nesse ano

veio o Coletivo Feminino da Sexualidade e Saúde da Mulher, que desenhou as bases da política de saúde

da mulher para o novo Brasil. O mr-8 colocou em pauta uma entidade, a Federação das Mulheres

Paulistas, em 1981, e o pc do b criava a União Brasileira das Mulheres. Com a redemocratização do país

em 1982, o movimento tomou dois rumos — umas seguiram para as questões relevantes, como trabalho, educação, saúde, violência, outras se aliaram aos grupos de esquerda, como o pc do b e o mr-8. Três

Congressos da Mulher Paulista foram realizados, sucessivamente em 1979, 1980 e 1981, quando se

tentou definir e unificar as bases e a luta por problemas essenciais.

 

Para se ter ideia de como se processavam, na época, os encontros, fóruns, reuniões, para se avaliar o

tanto de convergências existentes, como o movimento foi tomando força e, sobretudo, observar como

havia uma diferença entre o feminismo importado e o brasileiro, podemos recorrer ao contato entre Ruth

Cardoso e Danielle Ardaillon, depois de uma sessão especialmente acalorada.

Ao sair, Ruth virou-se para Danielle: “O feminismo é complicado porque é ideologia pura”. “É, mas

não é só ideologia, a gente também sente isso na pele, há fatos concretos.” Os debates, conflitos, eram

contínuos. Ruth sorria: “Você é muito francesa!”, o que queria dizer que ela era muito radical. Significava

que não levava em consideração o jeitinho brasileiro: “O jeitinho é uma coisa muito difícil para um

francês aceitar. Danielle, você está no Brasil, as coisas são diferentes, não se pode ser fundamentalista

aqui”.

Por essa razão, levando em conta os valores, as necessidades, as diferenças, “é que ela nessa época

trabalhava com os movimentos sociais. Porque o feminismo puro e duro não era legítimo no Brasil, o que

havia de premente eram as creches, o custo de vida, a violência etc., principalmente num período de

ditadura. Eram vertentes do feminismo e Ruth via o que se podia e não se podia fazer na política. Daí

aquele misto de Partidão e de catolicismo que permeava o ar”.

Ruth era séria e curiosa, muito curiosa. “Eu era bem mais velha quando decidi voltar ao mestrado, e

aqui entra um ponto importante: ela me aceitou, achava que não tinha hora para você querer ter um

diploma. Esse era um traço de modernidade nela, não habitual no meio acadêmico. Ela se entusiasmou

quando revelei que desejava ver como andava a nova geração de mulheres, como estavam se dando ao

decidirem ser profissionais, como lidavam com seus projetos e sua vida familiar, sempre contraditórios.

Ela gostou que eu me concentrasse em casais com filhos, uma situação que sempre ‘pegava’.

Profissionais, mães perfeitas, relação com a empregada, um mundo complicado. Nessa época havia uma

‘técnica’ doméstica muito em voga, a do congelamento caseiro de alimentos. Então, contratavam-se

mulheres que produziam a comida para um mês, tudo ia para o congelador. Essa mulher era uma

profissional terceirizada, não uma empregada. Fiz como parte da minha dissertação um segmento inteiro

sobre a etnografia do congelamento, algo que jamais seria aceito na França, por ser um problema

‘menor’. Não era menor para Ruth, que criou uma turma de alunos que fez alguns dos projetos mais

interessantes até então levantados numa faculdade. Havia a prática e o fundamento teórico. Precisávamos

conhecer teoria política também. Foram alunos que perceberam a evolução dos tempos, ao mesmo tempo

em que verificavam como valores arcaicos permaneciam no que diz respeito à família, que perceberam

como a população evoluía e agia politicamente em relação às suas reivindicações (água, esgoto, luz,

pavimentação, segurança, saúde), movimentos de mães. Essas mulheres estavam fazendo política, ainda

que sem saber, porque política era coisa de homem. Envolvidas nesses movimentos, as mulheres saíam

de casa, passavam a tarde fora, reuniam-se, encontravam amigas, discutiam, iam à prefeitura. Isso era

política. E quando em cima disso se fazia um programa e se levava a um partido, os partidos não

entendiam. O papel de Ruth foi avançado. Como intelectual, se interessava pelo que estava acontecendo hoje, agora, na cidade, no estado, no país. Moderna no sentido de captar o que estava correto na cidade,

o que havia a se corrigir, ampliar e aplicar isso num programa sobre as mulheres.”[93]

 

Enfim, era preciso encontrar o nome, que se alternava entre Conselho da Mulher e Conselho Feminista,

sem consenso. Finalmente foi Ruth, segundo Eva Blay, quem encontrou a designação ideal, Conselho

Especial da Condição Feminina.[94]O governador Franco Montoro não recuou — assim que eleito, criou

em 1983 o Conselho, que, presidido por Eva Blay, funcionou inicialmente com um número mínimo de

pessoas numa sala cedida pela cesp na rua Estados Unidos. A infraestrutura veio de funcionárias cedidas

pelas secretarias de Saúde e de Educação. Quanto às “conselheiras”, cada uma tinha seus empregos fixos,

o que lhes dava sustento, mas conseguiam se reunir e trabalhar no Conselho. A mídia abriu enormes

espaços para aquela novidade em matéria de governo. A Delegacia da Mulher foi um espanto, nunca se

vira coisa igual. Descobriu-se que na polícia havia inúmeras mulheres que tinham estudado, prestado

concurso e não chegavam nunca a delegadas, estavam designadas para serviços burocráticos, encostadas

pelos homens. Delegada mulher? Nem pensar. Então aquelas mulheres todas apareceram e ocuparam

postos. E não eram feministas, eram profissionais que simplesmente aplicavam as leis. Segundo Eva

Blay, aquelas delegadas eram treinadas, porque ninguém nasceu feminista, e elas acabaram se

sensibilizando tremendamente com os problemas. Mais tarde, a partir de agosto de 1985, já com o

Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, as delegacias se espalharam pelo Brasil, e atualmente são

cerca de quatrocentas. Todos os grandes problemas foram levantados a partir de então, do ponto de vista

de política pública, como a violência, o aborto, o estupro, a saúde, a educação, o planejamento familiar.

Ruth, acentua ainda Eva Blay, “foi fundamental ao movimento feminista, pela coerência, pelas

posições fortes e seguras. Um documento assinado por ela era uma coisa, sem a sua assinatura,

enfraquecia. Ela deu legitimidade ao feminismo, uma corrente que no começo era ridicularizada. Ela

trouxe, imprimiu essa dimensão”.[95]

Para Rosiska Darcy, esse movimento em “primeiro lugar trouxe dignidade para a mulher. Dignidade

pública. Levou também à descoberta de que a humanidade é feita de dois sexos e não somente de um, e

que as mulheres não são o contrário dos homens. Porque elas eram o contrário dos homens. E o feminino

não é isso. Assim, essa emergência do feminino na cultura como gente é um fato histórico que marcou o

século xx, o século que quebrou um paradigma milenar. Ruth Cardoso só foi a primeira-dama que foi

porque ela foi feminista, senão não teria sido, teria sido apenas uma senhora muito digna, muito bem-

educada, cumprindo seu papel. A causa das mulheres sempre foi essencial, e andamos pelo interior do

Brasil inteiro, falamos com todos os tipos de mulheres, a conversa era sempre uma conversa de quem

conhece o assunto por dentro, não era um papo teórico. Ruth era uma boa acadêmica, mas conhecia a

vida”.[96]