Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 3 de 35

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Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Dedicatória

 

Aquilo que terás feito de tua vida,

veremos no momento em que a perderás.

 

Sêneca, Cartas a Lucílio, iii, 26, 6

Prefácio

 

Cara Ruth Cardoso,

Em 1999, a revista Vogue decidiu produzir um número especial dedicado a você. Se uso o “você” é

porque, no nosso primeiro encontro, fui advertido de que não deveria, nunca, chamá-la de “senhora”.

Professora universitária, doutora, mulher internacionalmente respeitada, você era uma primeira-dama

diferenciada de todas até então. O número foi preparado com ensaios a seu respeito, sua carreira

acadêmica, seus trabalhos, escritos por pessoas que a conheceram e com quem você conviveu. Faltava o

essencial, uma entrevista. Todos os contatos da Carta Editorial em Brasília davam em negativas. Você se

recusava a dar uma entrevista como ”primeira-dama”.

“Se querem ouvir sobre política e economia, falem com o presidente”, alegava, despachando os

intermediários. Tentativas e mais tentativas, insistências, espera, muita ansiedade. Novos pedidos,

aproximações, havia um muro, e você, fechada, irremovível. Depois descobri que esse “fechamento”

fazia parte de seu temperamento, era sua famosa reserva. Estávamos quase desistindo quando a guarda foi

aberta: “Conversemos. Mas venha você, um araraquarense, que conhece minha família, meus amigos,

meus lugares. Vamos falar só de Araraquara”.

Marcou-se o encontro para certa tarde, entre 14 e 16 horas — não mais do que isso, foi ressaltado

—, no apartamento da rua Maranhão. Cheguei pontualmente, afinal vivi em Berlim, você sorriu e se

admirou. Mais tarde eu saberia que a pontualidade nunca foi seu forte, e talvez esta seja uma das

heranças que você legou a José Serra, um de seus mais queridos e fiéis admiradores. Começamos a

conversar, era uma tarde amena, a Maranhão é uma rua quieta, em torno de nós o apartamento que tinha a

sua cara, afinal, cada móvel, quadro, vaso, flor, xícara, toalhinha de centro (detalhe araraquarense),

bibelô — como se diz lá — foi escolhido e colocado por você no ambiente. Fui aluno de Ciências

Naturais, hoje Biologia, de sua mãe Mariquita, no Instituto de Educação Bento de Abreu, o mesmo

colégio em que você e seu pai estudaram. Conheci José, seu pai, nos anos 1950, na redação do jornal O

Imparcial, onde trabalhei desde os dezesseis anos. José, caladão, era o contador da casa, o guarda-

livros. Conheci seus amigos de juventude, o segundo namorado, a turma com quem você saía e dançava,

os clubes, o footing, os cinemas. Sabia das tias beatas. A conversa se estendeu por horas, readquirimos o

sotaque de nossa terra. Terezinha, a empregada, chegou com o café, você ficou frustrada, “eu queria

passar o café, aprendi com minha mãe, sei fazer duas xícaras, se preciso, ou três, coisas de minha mãe”.

A expressão da cidade é essa, passar o café, ou coar o café. A conversa ultrapassou, entre risos, as

quatro da tarde, as cinco, as seis. Despedimo-nos às sete. Daquele dia em diante, tivemos contatos

irregulares, mas carinhosos, quando nos víamos.

Quando a Editora Globo se propôs a publicar a sua biografia, foi em busca do autor para escrevê-la. Jorge Caldeira seria um candidato natural e prioritário, ótimo autor, tinha convivido com a família

Cardoso desde a adolescência. No entanto, Jorge tinha outro projeto, junto com sua irmã Teresa — quer

resgatar seu trabalho acadêmico. Nomes foram sendo eliminados, até Fernando Henrique Cardoso chegar

ao meu. “Ela gostava dele, o perfil que a Vogue publicou a emocionou e a fez sorrir, por meio dele

recuperou a cidade que lhe parecia perdida.”

Fiquei com a “incumbência”. Assustou-me, porém adverti, será mais um perfil do que uma biografia.

Na verdade, esta é uma crônica sobre vida. De momentos, fragmentos. Um livro com muitos claros a

preencher. Quando fizemos uma lista preliminar de nomes a serem entrevistados, chegamos a quase

duzentos no Brasil, no Chile, nos Estados Unidos, na França, pelo mundo. Isso levaria anos, e eu tinha

prazo de revista, digamos. À medida que fui trabalhando, ouvindo pessoas, fatos se repetiam, fui

eliminando nomes. Alguns perguntarão: e eu? Ainda é cedo para se ter acesso a documentos íntimos, a

cartas privadas. Pessoas da família se emocionaram enormemente diante de lembranças.

Ruth, não é uma biografia extensa, em que a veremos no dia a dia. Não a segui passo a passo, nem a

interpretei. Há saltos, vácuos. Uma grande colagem de como as pessoas a viram. Retrato alongado, com

detalhes que a maioria desconhece. A Ruth dos bastidores, a mulher por trás da catedrática, da doutora,

da primeira-dama, da feminista. Escrevi o tempo todo com uma frase de Bibia Gregori na mente: “Ruth

detestaria que coisas pessoais dela viessem a público, ela era muito reservada sobre a privacidade”. Se

de repente der com um segmento que parece uma crônica (calcada em fatos reais), tenha certeza, é uma

crônica. Este livro é uma carta pessoal. Súbito, entro na narrativa, comento. Historiadores e biógrafos

ortodoxos podem se horrorizar. Ouso dizer que é pré-biografia com lacunas, despreocupada de

cronologias (há o período, não a data, dia e hora exatos), um roteiro para outras que virão, mais

profundas, percucientes. Este é o retrato de uma araraquarense por um araraquarense. Deu-me imenso

prazer escrever. Espero que o leitor sinta o mesmo. Iniciemos.

 

Ignácio de Loyola Brandão