Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
3 O despertar para uma nova Antropologia
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O despertar para uma nova Antropologia
Bota o retrato do velho outra vez
Bota no mesmo lugar
O sorriso do velhinho
Faz a gente se animar, oi.
Haroldo Lobo e Marino Pinto
A marcha carnavalesca de Haroldo Lobo e Marino Pinto, cantada por Francisco Alves, o rei da voz, foi o
maior sucesso do Carnaval de 1951 e refletiu o clima do Brasil diante da campanha do ptb para
reconduzir Getúlio Vargas ao poder. No dia 3 de outubro de 1950, o “pai dos pobres”, como Vargas era
chamado, venceu o brigadeiro Eduardo Gomes, da udn, com quase o dobro dos votos. Getúlio assumiu
alertando que com ele o povo subiria as escadas do Catete e com ele permaneceria no governo. A década
de 1950 foi agitada e marcada por transformações em todos os segmentos da sociedade. Em 1950, houve
o Primeiro Congresso do Negro Brasileiro e foi criado o Conselho Nacional das Mulheres Negras,
seguidos pela aprovação da Lei Afonso Arinos, em 1951, que criminalizou o racismo.
Vargas trouxe consigo um projeto nacionalista que buscava a expansão industrial, com o aumento da
intervenção estatal na economia, o crescimento da produção de bens de consumo e o aumento da renda
nacional. Foi criado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, bnde, a Eletrobrás — aprovada
apenas em 1961 — e a Petrobras, que gerou uma intensa campanha sob a bandeira “O petróleo é nosso”.
A política getulista bateu de frente com os interesses da classe dominante e uma oposição ferrenha se
ergueu contra ele, conduzida principalmente pelo jornalista Carlos Lacerda, que se apropriou de uma
expressão de Getúlio — “mar de lama” — para intensificar seus ataques virulentos. O presidente
populista foi perdendo o apoio das massas com o aumento do custo de vida e a inflação. O movimento da
“Panela Vazia”, que reuniu 500 mil pessoas, e a greve dos 300 mil, em 1953, demonstraram o
descontentamento popular. Um aumento de 100% no salário mínimo foi a gota d’água e o impeachment
de Vargas foi pedido no Congresso. O atentado que tirou a vida do major Vaz, que caminhava ao lado de
Lacerda na rua Toneleros, foi o clímax daquele período. Exército, Marinha e Aeronáutica pediram o
afastamento de Getúlio, Lacerda recrudesceu seu ímpeto e as pressões atingiram o auge, provocando o
suicídio do presidente na madrugada do dia 24 de agosto de 1954.
Breves insights de um tempo em que o êxodo rural se acentuou e São Paulo atingiu a marca de 2,2
milhões de habitantes. A televisão foi inaugurada com a tv Tupi, Canal[30], os centros das cidades
entraram num processo de declínio que se acentuaria velozmente, os supermercados começavam a mudar os hábitos cotidianos, a propaganda tornava-se adulta e induzia a população ao consumo, surgiram a tv
Paulista (Globo, no futuro), a Record e a Cultura, o Brasil ganhou um prêmio em Cannes com o filme de
Lima Barreto, O cangaceiro, imenso sucesso de público, e a bossa-
-nova surgia. O rádio era a grande diversão com novelas, programas humorísticos, musicais e o Repórter
Esso, a “testemunha ocular da história”.[31] No mundo, nessa década, surgiram Elvis Presley e Brigitte
Bardot, ícones de liberação; Sartre e Simone dominavam o pensamento europeu na filosofia, na política e
no feminismo.
Dona Nayde e o general Leônidas Cardoso moravam em São Paulo desde os anos 1940, tendo deixado o
Rio de Janeiro com uma missão específica designada pelo ministro da Guerra, general Eurico Gaspar
Dutra: vigiar os movimentos de Adhemar de Barros, então interventor do estado. Passando à reserva,
Leônidas montou um escritório de advocacia e se fixou na cidade com seus três filhos, Fernando
Henrique, Antonio Geraldo e Gilda. Nayde e Ruth se afeiçoaram uma à outra e as visitas eram mais do
que frequentes; muitas vezes Ruth dormia na casa da sogra na rua Piauí, em Higienópolis. Passou a ser
parte da família e nos fins de semana, quando não ia para Araraquara, ficava com os Cardoso. Nesse
período, juntando economias, porque a vida era muito disciplinada, eles compraram dois pequenos
apartamentos, quitinetes, um na alameda Ribeiro da Silva e outro na avenida São João, destinados a
aluguel para renda complementar. Quem morou na avenida São João foi o cineasta Sergio Muniz, primo
de Bráulio Pedroso, teatrólogo e depois telenovelista, autor de Beto Rockfeller, uma revolução.
A graduação de Ruth foi em 1952 e, no ano seguinte, no dia [32]de fevereiro, ela se casou no Rio de
Janeiro. A via Dutra tinha sido recém-inaugurada e Fernando Henrique foi para a capital num carro Opel,
acompanhado de uma amiga, Orieta, mulher do historiador Fernando Novais. Ruth esperou Mariquita e
José e seguiram pelo Trem de Prata, composição de luxo da Estrada de Ferro Central do Brasil que fazia
o percurso em nove horas — embora célebre pelos atrasos e maus serviços, oferecia conforto.
O enxoval foi preparado por Mariquita, que fez inúmeras viagens a São Paulo; acompanhada de
Maria Ernestina Foz de Carvalho, mãe de Maria da Penha, ia às lojas na rua 25 de Março, principalmente
à Casa Moysés, cujo dono era de Araraquara. Maria Ernestina — Tininha para os íntimos — conhecia um
senhor que vendia enxovais em casa e dele comprou um véu vindo da Bélgica por bom preço. Reservava
para uma das filhas, porém a mais velha já tinha se casado, a outra disse que só se casaria no civil, de
maneira que, quando Ruth anunciou que ia se casar, ganhou o véu. Tininha a acompanhou na viagem,
afinal era a madrinha.2
Fernando Henrique tinha seu emprego na Faculdade de Economia, não ganhava mal, e Ruth prestou
concurso para um cargo na Secretaria do Trabalho — foi uma das quatro selecionadas entre mais de uma
centena de candidatos. Junto com ela, o amigo Eduardo Tess, filho de Aracy de Carvalho, que, após se
separar de seu primeiro marido, foi a companheira de vida de João Guimarães Rosa. Mulher célebre pela
coragem ao ajudar centenas de judeus a escaparem do nazismo, quando o escritor servia no consulado de
Hamburgo. Tess ainda hoje participa das rodas de pôquer semanais de fhc e amigos, como Leôncio
Martins Rodrigues e Boris Fausto. Ruth estava encarregada de fazer uma das primeiras pesquisas sobre
emprego e desemprego em São Paulo, o que a deixou feliz, “meus interesses sempre foram mais amplos e
multidisciplinares”.3 As pesquisas ela aprendeu a fazer no segundo ano de faculdade, quando teve aulas com Roger Bastide, “que tinha na verdade uma cabeça de antropólogo. Íamos visitar favelas e entrevistar,
observar e anotar como viviam”, e foi assim que ela descobriu estar “dando um passo à frente para que a
antropologia encarasse outros temas que não os das sociedades indígenas”.[33] Era o despertar de Ruth
para uma nova consciência da moderna antropologia, aquela que, fazendo um desvio e deixando de
estudar apenas os povos primitivos, passou a se debruçar com intensidade sobre as comunidades urbanas
atuais.
Leôncio Martins Rodrigues, também funcionário da Secretaria do Trabalho, a certa altura foi
designado para uma pesquisa sobre mão de obra em São Paulo. Ali se encontrou novamente com Ruth, e
fizeram um trabalho sobre condições de vida da classe trabalhadora. “Ela teve enorme influência em
minha vida; naquela altura eu conhecia apenas três cursos que um jovem de boa família devia seguir —
advocacia, engenharia ou medicina —, e não me interessava por nenhum. Eu ia até a Faculdade de
Filosofia para vender o jornal do Partido Comunista e ficava com inveja daquela gente, daquele tipo de
estudo e ambiente. Foi quando Ruth me falou do curso de ciências sociais, me explicou como era, e fiquei
fascinado. Naquela altura, desiludido, achava que não fosse mais possível liquidar com o imperialismo
americano, com a burocracia soviética, com a Igreja Católica ou com o Partidão, sonhos de uma geração.
Saí do Partido, Fernando Henrique também rompeu, ficamos amigos.”[34]
O primeiro lar do novo casal foi na rua São Vicente de Paula, em Santa Cecília. Era um prediozinho
de tijolos marrons onde também morava Mário Schenberg, diretor do Departamento de Física da usp, um
dos físicos teóricos mais importantes do país. O apartamento, grande e simples, logo foi ocupado por
Ruth, que lhe deu sua cara, moldou-o ao jeito dela. Ao longo da vida, as casas seriam seu referencial,
refletindo sua personalidade, sua maneira de ser. Logo o lugar se transformou num centro de encontros.
Habitué era o comunista Schenberg, uma celebridade, com seu inseparável charuto e cujas aulas,
imperdíveis, eram à noite, começavam às 18 ou às 19 horas, mas não se sabia nunca a que horas
terminariam. Ali se encontravam ainda o jornalista Fernando Pedreira, então casado com a artista
plástica Renina Katz; os pintores Luiz Ventura e Mário Gruber, pai de Gregório; o advogado Agenor
Barreto Parente, Octávio Araújo, um desenhista excepcional, a pianista Anna Stella Schic, o maestro
Claudio Santoro. Eram jantares ou chás, conversas, discussões, debates sobre sociologia e antropologia.
Houve certa vez um curso de literatura programado por Álvaro Bittencourt, que, junto com José Mindlin,
comandava a Livraria Parthenon, espécie de centro cultural agitado que promovia palestras, encontros e
trazia os livros recém-publicados na Europa. Na livraria, “em uma sobreloja da rua Barão de
Itapetininga, reunia-se à tarde um grupo de jovens comunistas”[35]e ferviam as discussões políticas,
fomentadas por Schenberg e Pedreira, debatia-se a influência do Partidão, os rumos da esquerda. Outro
habitué era Maurício Segall, que se casou com Beatriz, hoje atriz teatral. “Ruth não entrava muito quando
se discutia política partidária, ela sempre foi rebelde em tudo, principalmente em relação aos partidos,
esse nunca foi muito o lado dela.”[36]Para não falar das sessões de cinema e teatro e das mesas no Da
Giovanni, na rua Basílio da Gama, restaurante italiano de primeira linha, nas cantinas do Bexiga ou no
Gigetto, na rua Nestor Pestana.
Ruth e Fernando Henrique desciam para o litoral no Opel, que enfrentava a parada valentemente
pelas estradas de terra que demandavam Caraguatatuba e Ubatuba, uma verdadeira aventura, coisa para
jovens gregários. Em alguns momentos, os dois fizeram camping,[37]outras vezes alugavam casa — uma das mais frequentes pertencia a Toledo Piza, prefeito de São Paulo. Depois de uma briga com Alice
Canabrava, Fernando Henrique foi demitido e os dois passaram a viver com o salário de Ruth na
Secretaria do Trabalho. Pouco mais tarde, fhc foi contratado para ser o coordenador do levantamento de
campo das pesquisas que ela estava fazendo, e passou a circular pela periferia.
O casal frequentava muito a casa de Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza na pequena rua dos
Perdões, entre Aclimação e Cambuci. Eram sobradinhos geminados e o lugar tinha um nome, Vila
Paulista. Uma vez, Gilda conseguiu verba para levantar documentação nas cidades históricas de Minas
Gerais e levou consigo Fernando Henrique e Ruth, já grávida do primeiro filho, Paulo Henrique. Foram
de avião até Belo Horizonte, depois desceram para Ouro Preto de ônibus, e o material que colheram foi
doado à Universidade. Candido era muito afeiçoado a Ruth. Para se ter ideia, certa vez, poucos anos
atrás, encontraram-se na sala de espera de um oculista. Quando Ruth retornou, o médico revelou que tinha
um amigo dela como paciente, um senhor que a chamava de “Ruthinha”. Ela sorriu: “Ah, só pode ser o
Antonio Candido, é a única pessoa do mundo que ainda me chama de Ruthinha”.[38]
Ruth precisou pedir licença na Secretaria do Trabalho com a chegada do primeiro filho, que nasceu na
Maternidade São Paulo no dia 13 de abril de 1954. A cidade vivia agitada com as comemorações do
Quarto Centenário e Ruth sentiu perder alguns filmes importantes do Festival Internacional de Cinema,
que trouxe ao Brasil diretores como Erich von Stroheim e Mervyn LeRoy. “Como esquecer o Cine
Marrocos, tão luxuoso, com seu lobby, uma fonte, um bar? A modernidade, o luxo e o kitsch juntos”,
disse ela.[39]Fernando Henrique conheceu José Arthur Giannotti pessoalmente no dia do nascimento de
Paulo Henrique. A campainha soou, ele atendeu, Giannotti se apresentou: “Vim buscar o livro do Max
Weber”. fhc nem convidou-o a entrar, apanhou o livro, entregou, e se desculpou: “Estou indo para o
hospital, meu filho vai nascer”. Uma nova rotina se instalou na casa e no trabalho, porque Ruth fazia
questão de amamentar e foi preciso organizar o cotidiano. Nesse mesmo ano, em outubro, o general
Leônidas elegeu-se deputado federal pelo ptb, com o apoio dos comunistas e do movimento da “Panela
Vazia” — foi o segundo deputado mais votado de sua bancada —, e retornou com dona Nayde para o Rio
de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal.
Em 1955, Ruth deixou a Secretaria do Trabalho e passou a dar aulas em Sorocaba, duas vezes por
semana, na Faculdade Municipal de Filosofia, Ciências e Letras — antropologia, etnografia geral e do
Brasil. Levantavam-se muito cedo, ela organizava a casa e Fernando Henrique a levava de carro até a
avenida Rebouças, onde às 6h30 passava o ônibus da Viação Cometa rumo a Sorocaba. No ano seguinte,
mais um emprego, o de professora de sociologia educacional do curso de formação de desenho na
Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, fecap, no largo de São Francisco. Regina Meyer, uma
de suas amigas mais chegadas, colaboradora em projetos que se expandiram pelo país, confessou:
“Sempre imaginei que minha mãe, da mesma geração que a Ruth, fosse uma trabalhadora excepcional,
como todas as mulheres de sua época e idade. Até que conheci Ruth e me assombrei com o tanto que ela
trabalhava. Como organizava a vida em família, a dona de casa, a professora preparando aulas, as
viagens, a orientadora de teses, a leitora, a pesquisadora, a formadora de alunos, a apaixonada por
cinema e teatro”.[40]
José Gregori certo dia procurou Fernando Henrique Cardoso, pois precisava da assinatura dele num manifesto pela Reforma Agrária. Eram tempos em que os manifestos pipocavam de todos os lados, sobre
todos os assuntos, com todo tipo de reivindicações. fhc recebeu-o, assinou, conversaram um pouco, e, ao
ver que Gregori se despedia, reteve-o: “Vamos ver se você tem sorte. Espere um pouco, Ruth deve estar
chegando, foi dar aula. Tenho certeza de que ela gostaria também de assinar”.
Gregori estava com pressa, ainda tinha uma via-sacra para colher assinaturas, mas ficou na
expectativa. “Tive uma curiosidade enorme em conhecer uma mulher que trabalhava à noite, dirigindo o
próprio carro, era uma coisa completamente inusitada em nossa geração, com mulheres casadas há dois,
três ou mais anos, em casa cuidando dos filhos. Não era normal aquele trabalho, ainda mais noturno. No
entanto, ela demorou, Fernando Henrique se desculpou: ‘Em geral ela vem mais cedo, nem sempre há a
última aula, vai ver hoje teve. Vai demorar muito!’. Ainda por cima ia demorar, chegaria a que horas? Foi
uma momento incrível, em que tive a nítida percepção de que as coisas estavam mudando, e muito, e
aquela era uma geração pioneira.”
Dois movimentos culturais estavam pondo em xeque e em choque os valores tradicionais da sociedade.
Na Inglaterra, o teatrólogo John Osborne, com a peça Look back in anger (Olhe para trás com raiva)
estava se opondo ao establishment inglês, contestando a monarquia e propondo aos jovens que se
tornassem irados contra o sistema. Não por acaso, logo depois surgiriam os Beatles. Nos Estados
Unidos, em 1954, Aldous Huxley provocou uma subversão com o livro As portas da percepção, narrando
suas experiências com a mescalina, droga indígena destinada a expandir a mente. Huxley foi seguido por
Timothy Leary com o lsd. Simultaneamente aconteceu o despertar da Geração Beat nos Estados Unidos
por meio de Allen Ginsberg, cujo poema “Howl”, de 1956, rachou com os valores americanos (e
mundiais), seguido por Jack Kerouac, com seu romance On the road, de 1957, que rapidamente se
transformou numa bíblia, explodiu as mentes — todo jovem quis meter o pé na estrada e mudar o mundo.
A Geração Beat ficou conhecida no Brasil por meio do caderno de variedades do Jornal do Brasil, em
traduções de Nelson Coelho. On the road foi lido no Brasil, naqueles anos, numa tradução argentina feita
pela Sudamericana. Somente em 1984 teríamos uma tradução em português feita por Eduardo Bueno. Os
novos ídolos eram os da contracultura. Um vulcão em erupção chocou os americanos: Elvis Presley, com
roupas brilhantes e um rebolado indecente (para a velha geração), arrebatou os adolescentes do mundo.
O rock entrou com som e fúria. Elvis cantava, e nós também, “Don’t be cruel”, “Hound dog”, “All shook
up”, e nada mais seria o mesmo. Uma filha da alta burguesia francesa ficou inteiramente nua num filme
chamado E Deus criou a mulher, e um escândalo de proporções mundiais (incompreensível hoje)
provocou um tsunami. Brigitte Bardot ficou ligada à liberação sexual da mulher. Os anos 1950 queriam
sair do sufoco.
Nesse meio-tempo, em 1957, Egon Schaden fez um convite a Ruth e a Eunice Ribeiro Durham para serem
assistentes voluntárias na cátedra de antropologia. Ele a tinha assumido em 1950 e a fortaleceu
institucionalmente. Neto de alemães de Santa Catarina, formou-se na própria usp, onde teve Lévi-Strauss
como um de seus professores. A cátedra significava apenas Schaden e Gioconda Mussolini. Não havia a
possibilidade de contratarem professores. Foi quando se instituiu a “assistência voluntária”, para a qual
não havia salários. Se, por um lado, as duas mulheres trabalhariam por três anos sem nada receber, por outro havia a experiência a ser acumulada e a riqueza do aprendizado junto a Gioconda Mussolini, mestra
dotada de impecável capacidade e rigor na pesquisa empírica.[41]Foram três anos ricos para Ruth e
Eunice.
As duas mulheres foram contemporâneas, ainda que Ruth estivesse dois anos à frente de Eunice.
Pertenciam a grupos diferentes, circulavam em rotas que nem sempre se cruzavam. Eunice acentua que
era “curioso, Ruth frequentava muitos ambientes, era, digamos, eclética. Naquela época vivíamos em
turmas, a da Ruth, Fernando e Giannotti foi das mais brilhantes que já passou pela faculdade. Comecei
convidada como voluntária, fui para os Estados Unidos por um ano, e, quando voltei, lá estava também a
Ruth como voluntária. Trabalhávamos juntas, Schaden dava as aulas, nós fazíamos os seminários,
dividíamos as turmas, que eram pequenas. Depois começamos a dar aulas juntas. Aprendemos muito,
aprende-se mais dando aulas do que fazendo pesquisas. Com a Ruth praticávamos uma espécie de
militância didática, éramos fanáticas por ensino, queríamos continuamente preparar o melhor curso, o
melhor seminário, discutíamos muito, porque os alunos não aprendiam isto, não aprendiam aquilo. Até o
fim de nossa proximidade, até o momento em que ela saiu da faculdade, mantivemos essa questão da
discussão e da discussão teórica. Ficamos na antropologia por muitos anos”.[42]
Por dois anos, entre 1958 e 1960, Ruth foi trabalhar no Centro Regional de Pesquisas Educacionais,
crpe, com Fernando de Azevedo. Nesse período, 1958, em pleno governo Juscelino Kubitscheck, o
professor José Arthur Giannotti costumava visitar o casal Ruth e Fernando Henrique todos os sábados.
Ele tinha voltado da França com uma enorme bibliografia que, revelou, “fazia a crítica da burocracia
soviética”. A ideia dele era formar um grupo para estudar esses textos, porém fhc mudou o ângulo,
acentuando que na verdade ninguém nunca tinha lido Marx direito e era preciso, primeiro, ir às fontes.
Giannotti, homem em permanente turbilhão de pensamento, concordou, montaram um grupo para fazer a
“leitura sistemática de O capital... Eram sessões divertidas, lia-se, discutia-se, jantava-se bem e voltava-
se à discussão para pensar o Brasil, o que estava acontecendo, como seria possível engatar o
desenvolvimento”.[43]O Seminário Marx, como ficou conhecido, tornou-se célebre e comentado — o
que despertou ciúmes em parte da comunidade acadêmica. Dele participaram inicialmente jovens
assistentes como Ruth e Fernando Henrique Cardoso, Giannotti, Paul Singer, Octavio Ianni, Bento Prado
Júnior, Fernando Novais, aos quais foram se juntando Ruy Fausto, Juarez Brandão Lopes, Leôncio
Martins Rodrigues, Sebastião Advíncula da Cunha, Francisco Weffort, Roberto Schwarz, Michael Löwy,
Paulo Alves Pinto.
Eram filósofos, cientistas sociais, historiadores que decidiram ler O capital e Contribuição à
crítica da Economia Política,[44] “possivelmente cansados de conhecer Marx por ouvir dizer e
certamente empenhados em demonstrar a respeitabilidade cientifica da dialética, como exigiam os novos
padrões acadêmicos”.[45]A cada quinzena liam um capítulo, e discutiam parágrafo a parágrafo, linha a
linha, palavra a palavra. A briga era teórica, muito acadêmica, brigava-se à morte por assuntos abstratos,
nada a ver com a vida política, queríamos entender o mundo.”[46]Os encontros eram em casas variadas,
muitos aconteceram no apartamento da rua São Vicente de Paula, quando Ruth corria da mesa de estudos
e debates para a cozinha, primorosa em lanches ou quitutes. O grupo estudou junto por quatro anos e,
mais tarde, ainda se debruçou sobre Keynes e Max Weber.
Depois que o general Leônidas Cardoso se mudou para o Rio de Janeiro, sua casa na rua Nebraska, no Brooklin, ficou vazia por um tempo, até que Ruth e Fernando decidiram se mudar para lá. Isso
significava uma economia no aluguel e muito mais conforto.