Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
7 Interesse pelos movimentos sociais urbanos
7
Interesse pelos movimentos
sociais urbanos
Ruth era muito inventiva em métodos pedagógicos e seminários, estava constantemente criando,
renovando. A divisão das turmas em grupos de trabalho levava os professores a dar aulas o tempo todo, o
que era exaustivo, complicado. Era uma maneira também de defender a democracia dentro do movimento
libertário dos estudantes. Fim dos anos 1960, começo dos 1970, o setor de ciência política perdeu quase
todos os seus professores,
restaram dois ou três — uns fugiram, outros se exilaram, foram presos, desapareceram no clima tenso da
época. Houve recrutamento de professores e Ruth Cardoso e Eunice Duhram se viram na ciência política.
“Foi quando Ruth começou a trabalhar com o conceito de sociedade civil”, diz Eunice, “passou a se
interessar e a se dedicar aos movimentos sociais urbanos. E eu trabalhava com o conceito de ideologia
como fenômeno cultural, o que é diferente de pensar a ideologia em termos marxistas. Era uma visão
nova e assim conseguimos construir um campo não trilhado na antropologia. Os antropólogos estudavam
aquilo que veio a ser o que a Igreja católica chama de pobre oprimido. Estudávamos as favelas, os
cortiços, os negros, o migrante rural urbano, a família. Não nos debruçávamos sobre nenhuma
classe revolucionária, esse é que era o problema naquele tempo. Nossos alunos inventavam um tema
atrás do outro, a empregada doméstica, as comunidades de base etc. e iam atrás. Tudo o que a gente
estava tentando fazer se juntava e tinha um significado político. Nessa altura, nos preocupava muito a
fragmentação das pesquisas e da pós-graduação. Os alunos ou grupos de alunos escolhiam o tema e
ficávamos com aquele amontoado de temas na mão, orientava-se um para cá, outro para lá. Quando
montamos os Seminários das Segundas-Feiras, destinados a encontrar uma problemática teórica que fosse
comum, nos reuníamos, indicávamos e líamos a bibliografia, discutíamos a aplicabilidade daquilo para o
trabalho que cada um estava fazendo. Esses Seminários acabaram tão célebres quanto os de Marx, do
grupo de Fernando Henrique e Giannotti.”
Jorge Caldeira afirma que “Ruth teve a visão de que antropologia não era só para estudar a cultura
dos outros, mas era para estudar a sua própria cultura com estranhamento”. Os novos movimentos
sociais, feitos com gente da periferia, que às vezes nem eram operários, era um bando misto, não podia
ser considerado uma classe. Esses movimentos ficaram politicamente importantes e, ao estudar isso, Ruth
e Eunice conseguiram fazer uma reformulação do setor de ciência política, dando uma visão mais ampla e
nova à antropologia. Aqueles encontros duraram alguns anos e os participantes ficaram conhecidos como
a “Turma do Seminário”. Diz Eunice: “Ruth era uma pensadora original, possuída por uma incrível
avidez de saber o que se passava no mundo, buscando bibliografias para criar novos conceitos. Ela lia e interagia com os antropólogos, os sociólogos, os historiadores, os cientistas, os artistas, os filósofos, os
marxistas, e me pôs a ler também, para dar aula. Assim fizemos uma transição para a nova antropologia.
Ela era uma formadora, professora de primeira categoria, dotada de um rigor enorme. Todo mundo
precisava estar teoricamente fundamentado, não se tratava de dar palpites, dizer coisas simpáticas sobre
favelados ou outro tema, não era para fazer a glorificação dos pobres. Para Ruth pensar era uma aventura,
coisa prazerosa. Ficar com um problema na cabeça e tentar transformar aquilo em aula, tornar aquilo uma
pesquisa. Tudo era intelectualmente estimulante”.
Para dar contornos mais claros à situação de meados dos anos 1970, Fernando Henrique Cardoso
acentua que, “pouco a pouco, consolidava-se a presença política dos trabalhadores urbanos,
independentemente de sua ligação com esse tipo de movimento organizado [forças tradicionais de
esquerda, movimentos de inspiração trotskista, maoísta ou fidelista]. E as manifestações de apoio de
setores das classes médias, intelectuais, padres e jornalistas, sem contar estudantes, mostraram que os
sindicatos não estavam isolados. [...] Já se notava a presença desses ‘atores sociais’ na segunda metade
dos anos 1970, quando se começou a falar no papel da ‘sociedade civil’ na política, utilizando-se uma
linguagem não usual na época. A linguagem tradicional referia-se unicamente a classes e setores de
classes”.[73]
Lourdes Sola, que foi fazer antropologia em 1959, teve aulas com Ruth, então grávida de Bia. “As
aulas de Ruth eram descontraídas, sempre foi uma professora muito organizada, sua matéria, mantida sob
controle, de uma clareza impressionante. Sua voz era calma, havia naquela voz algo especial, um
elemento a mais. Uma voz bonita, não uma voz de comando, mas uma voz analítica que fluía. Uma
professora séria que não deixava passar leituras mal ou pouco lidas. Gioconda Mussolini dizia que
queria ser filha da Ruth, porque ela era tranquilizadora e ao mesmo tempo disciplinadora. Cultivava
muito a autonomia, ainda que essa fosse a marca geral das mulheres da Maria Antonia”, comenta Lourdes
Sola. “Éramos uma geração que se sentia eufórica de conquistar um espaço profissional.”
Para Maria Filomena Gregori, conhecida como Bibia, que participou dos Seminários já na década
de 1980, Ruth Cardoso e Eunice Durham a marcaram fundamente, eram professoras mitificadas. “Elas
foram as grandes estrelas de sua época. Diferentes, às vezes opostas. Eunice agregava as massas, era
ríspida e brilhante, tinha um domínio extraordinário do culturalismo norte-americano, imbatível nessa
matéria, seguidora de Malinovski, famoso por sua teoria da pesquisa de campo. Ruth era
ultraprofessoral, consistente, construía esquemas sofisticados para dar aula, mantinha o ego sob controle.
Ruth era doce e Eunice, elétrica, cortante com todo mundo, menos com a Ruth, que, por sua vez, tinha
coragem de cortar Eunice, dizia a ela coisas que nenhum de nós, aliás, ninguém na faculdade, se atreveria
a dizer. O curioso é que elas se admiravam e se complementavam, e se espicaçavam. Eunice, muito
clássica, segura de si, enquanto Ruth nunca levou a sério o classicismo, tinha a cabeça aberta para novos
autores, indagações, questões, insights, desconfianças, suspeitas. Ela não acreditava em coisas
canônicas.”
Em 1971, quando a Faculdade passou a ser denominada Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas e as cátedras haviam sido extintas, Fernando Henrique e Ruth passaram larga temporada em
Stanford, onde ele foi professor residente e ela retomou sua tese sobre os japoneses, mudando, todavia, o rumo — afinal, tinha sido iniciada oito anos antes —, voltando-se agora para a questão da urbanização,
tema no qual estava mergulhada, detendo-se principalmente na questão das novas gerações.
Nesse ano de 1971, ao acompanhar Fernando Henrique a Genebra, onde ele participaria de um seminário
intitulado “Center Europa Terceiro Mundo”, Ruth encontrou-se com uma mulher que, no futuro, seria uma
de suas melhores amigas e colaboradoras. Essa mulher, então no exílio com o marido Miguel, tinha
organizado e construído, com um grupo de estudantes e patrocinadores, o Center Europa, destinado a
discutir com pensadores de todos os segmentos as grandes questões sociais, políticas e econômicas que
separavam esses dois mundos. Essa mulher era Rosiska. Ambos, Rosiska e Miguel Darcy de Oliveira, no
futuro teriam papéis essenciais na grande virada de vida que Ruth deu. “Ali em Genebra nos
encontramos, olhamos uma na cara da outra e vimos que nos daríamos bem, apesar de termos
temperamentos diferentes. Ela era inteligente, sedutora e preocupada com as mesmas coisas que eu.
Éramos bastante jovens e tínhamos interesse pelo movimento feminista. Era um tema que estava
nascendo, mas estávamos dentro dele e descobrimos em nossas conversas pontos coincidentes no plano
da experiência pessoal. O mais importante era como ironizávamos o fato de sermos, de certa maneira,
ironizadas. Vi como Ruth tinha humor, não era de se zangar com as coisas. Carregava um gênio forte,
porém não era esquentada. Mas destilava uma ironia mortal. Ela cortava! Tinha uma gilete
afiadíssima.”[74]
Em 1972, ao defender sua tese Estrutura familiar e mobilidade social: estudo dos japoneses no
estado de São Paulo, orientada por Eunice Durham, Ruth recebeu o título de doutora em ciências sociais
(antropologia social), pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo. Tornou-se professora associada de antropologia, docente em cursos de graduação e de pós-
graduação, diretora de seminários teóricos e de pesquisa, e orientadora de dissertações de mestrado e
teses de doutorado. Em 1973, Ruth e Eunice publicaram na Revista de Cultura Vozes, de Petrópolis,
[75]um ensaio sobre “A investigação antropológica em áreas urbanas”. Nos anos de 1973 e 1974, junto
com Lúcio Kowarick, Ruth coordenou um trabalho de grande repercussão, o “Estudo de dez famílias
faveladas”.[76]
Para Eunice Durham, o ambiente na Faculdade de Filosofia estava se tornando um pouco
provinciano e, com a saída de Roger Bastide e de Florestan Fernandes, houve uma queda — decadência
mesmo — no rigor metodológico com relação a pesquisa, documentação de pesquisa, análise de dados.
Uma consequência provável do regime militar, que levou o pensamento crítico para o denuncismo. “Com
a Ruth não tinha isso, você podia fazer a denúncia, mas não a denúncia fácil. Para ela a denúncia não era
o importante, e sim entender efetivamente o que estava acontecendo. Essa posição deu um prestígio maior
para a antropologia, que, de ciência menor, de repente se tornou importante, uma vez que fomos levadas
ao aprofundamento das análises, a compreender o que efetivamente se passava dentro dos
processos.”[77]
Celso Lafer começou a ter um relacionamento mais intenso com os Cardoso no início da década de
1970, quando Fernando Henrique já estava aposentado e se dedicando ao Cebrap. Nas conversas e
discussões, que eram intensas, Ruth chamou a atenção de Celso para uma coisa que, para ele, não estava
ainda muito clara, mas estava para ela. Dizia a Celso: “Por conta daquilo que você tem escrito, você tem o foco no papel do Estado, na dimensão do planejamento, nos partidos políticos, e o que isso significa.
Mas chegou a hora de prestar atenção na dinâmica própria da sociedade, porque é lá que está a inovação
do que vai acontecer”. Ela, diz Celso, “estava com a cabeça voltada para o papel dos sindicatos, dos
movimentos sociais, para as variações de sociabilidade que derivavam da urbanização, que foram
assuntos que, depois, ela trabalhou de maneira muito interessante e significativa”.
As notícias de Araraquara, em 1972, eram inquietantes. Por motivos de saúde. Mariquita teve de se
afastar do Colégio São Bento, onde dava aulas desde 1956. Os problemas, entretanto, começaram a se
agravar, até que os médicos a aconselharam que fosse para São Paulo. Ela e José foram morar com Circe
Boueri, sua irmã por parte de pai, que ainda se lembra bem: “Ela me dizia que não conseguia comer, não
tinha fome, foi enfraquecendo, não se alimentava. Então, Ruth e Fernando Henrique chegaram de uma
viagem e a levaram para a casa deles. Porém ela foi piorando, emagrecendo mais e mais. Mariquita,
muito mal, Fernando Henrique propôs que se tentasse a acupuntura. Foram a um médico que pediu uma
série de exames e descobriu-se que, além de um problema no fêmur, ela estava com um câncer que já
tinha tomado conta do baço. Ruth não se desgrudava da mãe, era de uma dedicação ímpar. Um dia, fomos
para Taubaté, onde dizem que havia um médico com um tratamento novo para câncer. Ao ver as
radiografias, ele disse que não havia mais condições de fazer nada”. Jorge Caldeira seguiu de perto o
declínio de Mariquita. “Tinha perdido, claro, todo o humor que fazia parte dela, sofria muito, foi uma
coisa pesada, mas a Ruth cuidou.” Um dia, em 1974, Margarida Troncon Busatto, afilhada de Ruth, veio
de Araraquara visitar Mariquita — encontrou-a completamente alheia, nem conversava mais, o olhar
vago e distante. Logo depois ela morreu. Desde então, Ruth ficou bloqueada, dificilmente pronunciava o
nome da mãe, travava.