Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 7 de 35

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Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida

2 Vestir-se de senhora para dar aulas

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Vestir-se de senhora para dar aulas

 

O trem da Companhia Paulista chegou pontualmente na Estação da Luz às 11h10. Ruth tinha levado o

dinheiro contado para o táxi. Com sua mala, que continha o enxoval de semi-interna, seguiu para o Des

Oiseaux, o colégio rodeado por um bosque — parte dele existe até hoje —, na esquina das ruas Augusta e

Caio Prado, terreno imenso. O palacete, projetado por dois arquitetos que mudaram a face de São Paulo,

Ramos de Azevedo e Victor Dubugras, abrigava a elite estudantil da cidade.

O Brasil começava a viver o pós-guerra, anos efervescentes até o final da década. Getúlio tinha

deixado o poder, substituído pelo general Eurico Gaspar Dutra, político amorfo, sem carisma, eleito pela

força de Vargas. Um ato de enorme repercussão foi a proibição total do jogo, dos cassinos, roletas e

carteados. Economicamente o país estava bem, com um superávit gerado pela exportação de produtos

durante a guerra e importações mínimas. No entanto, as divisas baixaram a zero num frenesi consumista,

com a importação de produtos como automóveis, locomotivas, meias de nylon, chicletes,

eletrodomésticos e todo tipo de objetos de plástico, a nova sensação vinda dos Estados Unidos. A

sociedade começava a se rearranjar e foi criada a Assembleia Constituinte, que daria ao Brasil a sua

quinta Constituição. Todos os brasileiros, homens e mulheres, passaram a ter o direito e a obrigação de

votar. O divórcio, uma vez mais, foi repelido, pela força da Igreja. O Partido Comunista Brasileiro, posto

na legalidade, foi banido para a clandestinidade pouco depois, e seus eleitos, entre eles o escritor Jorge

Amado, cassados.

Ainda se falava na bomba atômica lançada sobre Hiroshima e Nagasaki, dando início à era nuclear;

o mundo estava dividido em dois blocos, o capitalista e o comunista, e a guerra fria estava em curso, com

uma corrida armamentista sem precedentes. A onu foi fundada, Mao Tsé-tung criou a República Popular

da China, surgiu o Estado de Israel, cientistas americanos inventaram o transistor, revolução que

repercute até hoje e mudou o futuro das comunicações, e o cinema neorrealista italiano, com Vittorio De

Sica, Luchino Visconti, Cesare Zavattini e Roberto Rossellini, mostrava a um mundo novo como enfrentar

as imagens estereotipadas de Hollywood, que difundiam ao universo o american way of life. A filosofia

existencialista entrou para a ordem do dia, falava-se em Sartre, Simone de Beauvoir, Boris Vian e em

Juliette Gréco, os homens sonhavam com as caves de Saint-Germain-des-Prés, onde “dominava” o amor

livre. As mulheres desejavam seduzir os homens com uma gota do perfume Chanel No 5. Clarice

Lispector lançou dois romances, Perto do coração selvagem e O lustre, e um mito surgiu na literatura

brasileira. Outro mito, de pronto estabelecido, foi Guimarães Rosa, com Sagarana. A modernidade da

poesia se refletiu em João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade.

Portinari foi pintar os painéis da onu em Nova York, o que encheu o Brasil de orgulho.

Em 1946, São Paulo tinha menos de 2 milhões de habitantes, mas sua população crescia

gradualmente. Tinha cessado o fluxo da imigração, substituído pelo da migração, quando gente vinda do

Nordeste começou a chegar, atraída pelo desenvolvimento da cidade, principalmente no setor da

construção civil. A atmosfera, apesar dos arranha-céus, do trânsito, da vida noturna, ainda conservava o

tom provinciano e sossegado. Litros de leite e saquinhos com o pão eram deixados nas portas, portões e

janelas na madrugada, os tripeiros passavam vendendo miúdos, bucho e fígado, compras eram feitas em

armazéns e quitandas. Coca-Cola era a pausa que refresca, Chica-Bon, o “sorvete formidável”, três

canetas-tinteiro disputavam o mercado, a Parker, a Sheaffer e a Eversharp. O cinema continuava sendo a

principal diversão e a cidade era considerada um Eldorado, com suas salas luxuosas e lançamentos

simultâneos com os Estados Unidos. Os bondes eram ainda o transporte público e cortavam a cidade por

todos os lados. As linhas mais extensas eram a Penha-Lapa e a Praça João Mendes-Santo Amaro. Os

táxis eram todos iguais, pretos, Chevrolets 1938, o transporte público, com a cmtc, era uma calamidade,

o Hotel Esplanada se apresentava como o Copacabana Palace paulistano, os ricos circulavam a bordo de

Cadillacs e Oldsmobiles, o conde Francisco Matarazzo era o homem mais rico do Brasil, as mulheres

liam Vida Doméstica e os homens, a Seleções do Reader’s Digest, e todo mundo lia a revista O

Cruzeiro. Os católicos andavam impacientes, as obras da catedral da Sé se eternizavam — iniciadas em

1913, ainda não estavam terminadas.

 

Ruth Corrêa Leite foi aluna semi-interna. A menina de Araraquara era magra, bonita, com trancinhas, a

única de sua classe a usar trancinhas, o que a diferenciava e provocava a admiração das colegas. Ela

uniu-se a duas amigas, uma de sua classe, Vera Martins Rodrigues, e Maria Helena Fonseca, hoje

Gregori, prima de Vera, que estava terminando o Ginásio. As duas primas eram, por sua vez, primas de

Leôncio Martins Rodrigues, que ficaria ligado à família até os dias de hoje. A mãe de Vera, Esther, nos

primeiros tempos foi uma espécie de continuação de Mariquita. Era comum Ruth passar o fim de semana

em sua casa. Maria Helena, mais nova, era um rabicho, vivia atrás das mais velhas, copiando tudo. O

Des Oiseaux não significava um sistema absolutista, férreo. Mantido pelas Cônegas de Santo Agostinho,

ordem belga fundada por são Pedro Fourier e pela madre Alice Leclerc, era um regime aberto, diferente

dos outros colégios de freiras.[9] Os meninos, amigos, parentes e namorados podiam aparecer nas

quermesses e nas festinhas. As alunas falavam francês, algumas aulas eram nessa língua, assim como as

orações. Já a missa era em latim, e diária. O Des Oiseaux influenciou muito aquela geração de jovens, na

base da religião ensinada como Deus é amor, em lugar de um Deus punitivo. No entanto, Ruth

“respeitava, mas não professava”, acentuou Maria Helena. Quanto às mensalidades, apesar de ser

frequentado pela elite, não era uma escola cara, impossível. Todos eram tratados igualmente, sem

diferenças sociais ou de dinheiro, um tratamento que impressionou Ruth.[10]

As alunas usavam uniforme, uma saia cinza pregueada, blusa branca de fustão, e o “arreio”, como as

estudantes a chamavam — uma faixa que passava pelo ombro, pela cintura e dava um laço atrás, bem

diferente dos outros colégios. As faixas indicavam o ano que cursavam. Vermelha com listra branca,

primeiro ano. Branca com listra vermelha, segundo. Somente branca, terceiro. Ruth distinguia-se das

jovens levadas da breca porque nunca perdia o cordão azul de tafetá, marca de bom comportamento.[11]

“Quase todo fim de semana eu ia para Araraquara. Quando dava, ia na sexta-feira, para aproveitar o maior tempo possível. Não estava sendo fácil me desligar daquele mundo. A volta era na segunda-feira,

no trem das 6h05.”[12] Outras vezes, eram Mariquita e José que chegavam a São Paulo carregados de

guloseimas e quitutes, feitos pela mãe ou pelos parentes — Ruth era o “dodói”, cada um enviava uma

coisa. Joaquim Adolfo Mendonça disse que a visitava também e que retomaram ligeiramente o namoro.

“Durou pouco, até aparecer aquele que seria o homem definitivo da vida dela.”[13]

Terminado o colegial, Ruth mudou-se para um pensionato de freiras no bairro de Pompeia, cuja

diretora era parente de José Corrêa Leite. A mesada continuava a ser enviada por intermédio de uma

parente, Clarí Corrêa de Almeida Merussi, cujo marido, Lourival, trabalhava no Banco do Brasil. A vida

deu outra guinada. A Universidade de São Paulo era o paradigma de ensino superior no Brasil, com seus

quinze anos de existência. Ruth estava decidida a entrar para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras

da usp, que naquele ano de 1949 ainda funcionava no último andar do Colégio Caetano de Campos, na

praça da República. Orientada por Mariquita, ela fez um cursinho montado na própria faculdade pelo

Centro Acadêmico. Coisa de quarenta dias, apenas para uma base. Jovens professores davam aulas para

ganhar um dinheiro extra. Organizada, Ruth preparava fichas muito bem ordenadas e classificadas, era

superorganizada em tudo que fazia, distribuía bem seu tempo.

“Conheci Fernando Henrique no vestibular da faculdade. Ele estava sozinho em São Paulo e queria

cursar filosofia e direito. Sentado ao meu lado, íamos fazer exame oral. Matreiro, ele me comoveu,

dizendo que não tinha tido tempo de estudar, me contou uma história dramática, de maneira que passei

todas as fichas a ele. Aí começou. Todos o consideravam o bonitão, mas confesso que nem era tanto. Tão

magrinho!”[14]

 

A vida era ao redor da faculdade, localizada no terceiro andar do Caetano de Campos, na praça da

República. Por muitos anos, quando se falava na faculdade, dizia-se a “Praça”. Tudo acontecia no centro

da cidade. Era o que se chamava o circuito do centrão, dominado pela sofisticada rua Barão de

Itapetininga, onde pontificavam a Confeitaria Vienense e a Casa Vogue. Pela região espalhavam-se as

melhores salas de cinema, os bares, como Paribar, Barbazul e Arpége, os restaurantes, como Da

Giovanni, Parreirinha, Gambrinus, Spadoni e Simpatia, livrarias como a Francesa e a Jaraguá, com seu

salão de chá. Os encontros eram também na Leiteria Americana, na rua Xavier de Toledo, cuja média de

chocolate era imbatível. Ao lado, o Mappin Stores, cujo salão de chá, no quinto andar, era igualmente um

lugar acolhedor e chique. Ruth e Fernando Henrique pertenciam à “turma da biblioteca”, referência aos

estudantes que frequentavam a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, que funcionava como espaço

aglutinador. Ali todos se encontravam, liam, pesquisavam, estudavam, namoravam. Dirigida por Sérgio

Milliet, poeta, crítico de literatura e de artes de primeira linha, na biblioteca havia conferências

obrigatórias que conferiam “status”.

Os namoros evoluíam devagar, cheios de formalidades. Quando a situação com Ruth começou a ficar

mais bem encaminhada, Fernando Henrique lembra-se de um encontro no Teatro Brasileiro de Comédia,

o tbc, recém-fundado por um grupo da burguesia paulistana comandado por Franco Zampari, na rua

Major Diogo. Todos comentavam a peça Nick Bar... Álcool, brinquedos e ambições, de William Saroyan,

um autor americano de origem armênia, então na moda. “Cheguei e encontrei Ruth com sua amiga de

Araraquara, Maria Sylvia de Carvalho Franco. Elas levaram um susto ao me ver todo elegante com um terno, paletó jaquetão e colete, naquela época usava-se colete. Era de bom-tom. Ainda não tinha

engrenado o namoro, aliás, naquela época, eu tinha outra namorada, mas era uma relação indefinida,

muito vaga, nem tudo andava como hoje, velozmente.”[15]

Maria da Penha Villalobos[16] acentuou que Maria Sylvia estava interessada em Fernando

Henrique, porém Ruth venceu a parada. “Um de nossos desejos era poder ir uma noite ao Nick Bar, que

funcionava anexo ao tbc e era frequentado pela intelectualidade e por artistas como Cacilda Becker,

Abílio Pereira de Almeida, Anselmo Duarte. Mas quem tinha dinheiro para isso?”, confessou Ruth.[17]

fhc mandava fazer seus ternos no Soares, que ficava em frente ao tbc, na rua Major Diogo, um alfaiate

que servia não só a Antonio Candido, mas também ao pessoal do teatro.

O namoro firmou — era o usual na época, cinema, teatro, um barzinho sempre em companhia de

outros. Fernando Henrique levava Ruth até o pensionato da avenida Pompeia, tinha horário para entrar à

noite, era tudo regulado. Iam a pé até o Anhangabaú, esperavam o ônibus que subia a avenida São João

no rumo da Pompeia. “Eu me dava bem com as freiras, muitas vezes fui assistir à missa. Ia por ela, não

por mim, a esta altura não estava tão ligado à Igreja quanto Ruth, que mantinha breves resquícios do Des

Oiseaux e de Araraquara, das tias beatas e do pai, porque ele era católico praticante, ao contrário da

Mariquita. Aliás, fisicamente Ruth se parecia mais com ele do que com ela. Um homem magro, sempre

bem-posto, de poucas palavras, o oposto de Mariquita.”

Fernando Henrique Cardoso nasceu no Rio de Janeiro, filho de Nayde, uma mulher de porte

mediano, viva, altiva e falante, e do general Leônidas Cardoso, homem imponente, de cabelos brancos.

Seu avô, Joaquim Ignácio Batista Cardoso, e seu tio-avô, Augusto Ignácio do Espírito Santo Cardoso,

tomaram parta na “conspiração republicana” contra a monarquia. Augusto foi ministro da Guerra do

governo provisório de Getúlio Vargas, entre 1930 e 1932. O pai e o tio de fhc, o general Felicíssimo

Cardoso,

eram nacionalistas. O pai foi eleito deputado federal com o apoio dos comunistas — que estavam na

ilegalidade. O general Leônidas e vários primos e tios estiveram envolvidos nas lutas “tenentistas” e nas

campanhas nacionalistas dos anos 1950.

fhc e Ruth estudaram juntos desde o primeiro ano de faculdade, em 1949. Quando houve a mudança

do Caetano de Campos para a rua Maria Antonia, eles já estavam no segundo ano. Uma aluna da época,

Carmem Guedes, relata a desocupação do terceiro andar: “A faculdade foi despejada, jogaram os móveis

na rua e nós fomos à procura de um prédio, acabamos de sair da reitoria, na rua Maria Antonia, na frente

do grupo estava o Azis Simão, precisávamos conquistar um prédio para a faculdade e pareceu que íamos

conseguir o da Maria Antonia”. O prédio da Maria Antonia tinha pertencido ao Liceu Rio Branco, que o

vendeu ao governo do estado. A região de Vila Buarque prometia agitação. Além do Mackenzie, estava

em curso a transferência da Escola de Sociologia e Política para a rua General Jardim e se cogitava em

trazer a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a fau, para a rua Maranhão, retirando-a da Escola

Politécnica.[18]

 

Ruth hesitou entre a física e as ciências sociais. Boa em matemática e adorando literatura, afinal decidiu-

se pelas ciências sociais. A Maria Antonia acabou se tornando uma instituição não apenas na história da

Universidade de São Paulo, como também na própria história da cidade. O professor José Goldemberg definiu o prédio como a “maior densidade intelectual por metro quadrado que jamais se reuniu em São

Paulo. Naquelas instalações acanhadas, em que os professores não tinham salas para trabalhar, se

acotovelavam milhares de alunos e grandes professores... O prédio da Maria Antonia foi o fermento no

qual se geraram as tendências políticas de hoje, nele estudaram e ensinaram muitos dos líderes de

diversos partidos políticos de hoje”.[19]

Era um edifício atarracado, cinza e estranho, na rua em frente ao Mackenzie. Colunas greco-romanas,

pesadas e incongruentes, marcavam o ingresso no prédio. Nos primeiros anos, chegava-se à faculdade

pelo bonde aberto 14, destino Vila Buarque, chamado por alguns de o “bonde da filosofia”. Saía da rua

Xavier de Toledo, ao lado do Mappin, de onde partia igualmente o Avenida 3, que subia a Consolação,

atravessava a Paulista e descia a Brigadeiro Luís Antônio. Tilintar contínuo do marcador de passagens.

“Tlim-tlim, tlim-tlim, um p’ra Light, dois p’ra mim”, gritavam os estudantes quando o cobrador fazia o

registro, andando pelo estribo do bonde. No entorno, à medida que os anos se passaram, os bares foram

fazendo, em épocas diferentes, a sua história, marcando gerações, o Fonfon, o Bar do Zé, o Querência, o

Bar do Meio, até o Sem Nome, que a princípio foi Quitanda e vendia mesmo frutas e verduras,

frequentado pelo estudante de arquitetura Chico Buarque, que ali teria composto “Pedro pedreiro” e

“Olê, olá”, em 1965.

“A faculdade foi para nós uma revolução mental”, complementa Fernando Henrique Cardoso,

“porque, na verdade, a gente chegava lá e não entendia nada, o nível dos professores era bastante

elevado. As aulas no primeiro ano eram em português, mas no segundo, quase todas em francês, dadas

pelo Roger Bastide, pelo Pierre Monbeig, um homem desajeitado, e pelo Martial Guéroult — que

ensinava Kant e Descartes e citava a bibliografia em alemão. Depois, seu assistente, Lívio Teixeira,

destrinchava tudo. Imagine, entender Kant aos dezoito anos de idade! Havia Paul Hugon, sempre formal,

camisa branca com colarinho e punhos engomados. Sem esquecer Florestan Fernandes, que falava em

português, mas era difícil entender o que ele dizia. Éramos muito, muito novos. Florestan, jovem

assistente do professor Fernando de Azevedo, um grande professor, adepto de uma corrente teórica

chamada funcionalismo, nos ensinava a fazer análises sociológicas, mas não falava de marxismo, nem de

revolução, ainda que tivesse suas preferências à esquerda. Fomos treinados por ele na paixão pela

pesquisa e na desconfiança do ensaio e da ‘filosofice’.[20] Foi o homem que nos inspirou mais de perto.

Florestan nos fazia ler Max Weber, Georg Simmel, Werner Sombart, Karl Mannheim, autor de Ideologia

e utopia, que fazia um sucesso incrível na usp, e Hans Freyer. Por sorte, havia Raymond Aron que

ordenava nossas cabeças confusas! E o alemão Egon Schaden nos introduziu na antropologia, enquanto

José Camargo nos ensinou a teoria do valor.”

Outra figura emblemática da Maria Antonia era Antonio Candido, que nos “fascinava pela síntese

entre um sabor literário indiscutível, a finura de sua antropologia social (Os parceiros do Rio Bonito),

seu discreto socialismo e sua invulgar capacidade de transformar os ‘tijolos acadêmicos’ em arabescos

de sutileza e penetração intelectual”, ressalta Fernando Henrique.[21] Candido, então professor

assistente de sociologia, ainda na praça da República, fazia alguns seminários, habituou-se a ver Ruth e

Fernando Henrique sempre entre os ouvintes e ficou amigo do casal, amizade favorecida pela ligação

entre Gilda de Mello e Souza e a família de Ruth, desde Araraquara.

“Senhor” e “senhora” eram os tratamentos habituais entre alunos e professores. Até o dia em que Antonio Candido ouviu Fernando Henrique chamá-lo de você. “Olhei aquele rapazinho e pensei: esse vai

longe.”[22]

Era uma vida intelectualmente rica, com muitas conferências, palestras, debates. Vivia-se em São

Paulo uma época de buscas e inquietações com o Museu de Arte Moderna, o masp, a criação da

cinematográfica Vera Cruz, destinada a realizar filmes com “classe europeia” para se opor à vulgaridade

das chanchadas. Alfredo Mesquita acabara de fundar a Escola de Arte Dramática, que formaria os

melhores atores e diretores do Brasil por décadas. Sergio Cardoso fez um sucesso sem precedentes com

Hamlet.

Ruth e Fernando Henrique foram fazer um curso no masp, queriam ser monitores do museu, e quem

dava as aulas era Pietro Maria Bardi. “Ninguém pode imaginar o que significou para os jovens de São

Paulo o Museu de Arte, porque a gente via os quadros, via os livros, ouvia e lia, relacionava, era arte,

história e filosofia. Logo depois de nós, no ano seguinte, o Giannotti fez o mesmo curso”, recorda-se fhc.

Eles frequentavam também o Clubinho, nome pelo qual era conhecido o Clube dos Artistas e Amigos

da Arte, fundado nos anos 1930 por Flávio de Carvalho, cuja sede foi primeiro na rua Barão de

Itapetininga, depois na rua Bento Freitas, no subsolo do Instituto dos Arquitetos. Absorvia-se de todos os

lados. Ruth e Fernando Henrique estavam na mesma classe, não havia mais do que seis alunos. O curso

era o de ciências sociais, depois o aluno decidia se ia para sociologia, antropologia ou política. Ou

economia, mas isso já era outra faculdade. Quase no final do curso, Florestan Fernandes conseguiu

trabalho para Fernando Henrique como assistente de Alice Canabrava no Instituto de Administração da

Faculdade de Economia, que ficava na rua Doutor Vila Nova, mas cujo pátio interno era comum com o da

Maria Antonia, onde havia um café e um restaurante.

No último ano da universidade, Ruth começou a dar aulas de história, à noite, no segundo grau no

Colégio Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros. “Ainda tinha cara de criança e precisava dominar

aquela turma de marmanjões. Eu me fantasiava inteira, puxava o cabelo, colocava uma saia mais justa,

sóbria, virava senhora.”[23] Ali foi professora de Gabriel Bolaffi e de Leôncio Martins Rodrigues, um

de seus alunos mais brilhantes e, no futuro, um de seus amigos mais chegados. Leôncio tem uma memória

clara daquele período: “Ela, naquela altura, ainda não tinha terminado a faculdade, mas o Ministério da

Educação permitia que alunos em final do curso dessem aulas no colégio. O que era muito bom, os

professores que vinham da Faculdade de Filosofia eram, de longe, superiores aos que se encontravam lá.

Para se ter ideia, história era lecionada por advogados, português e latim pelos padres, gente pouco

preparada para a atividade docente. O pessoal da faculdade elevava o nível. Gostava de Ruth,

principalmente pela exigência bibliográfica, ampla, extensa, suas indicações eram de um nível muito

superior, aberto e diferente do que existia antes. Lembro-me bem de alguns livros que ela me indicou, o

último foi Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, que achei formidável. Ela me conduziu também

para A cidade antiga, de Foustel de Coulanges”.[24] Quanto a Gabriel, acentua que gostava de história

pelas aulas de Ruth, muito boas. Depois da aula, “a gente ficava de papo, de repente ela olhava para nós,

percebia a hora, exclamava: ‘Preciso ir embora, preciso correr, o Fernando está me esperando’. Leôncio

não perdoou, apelidou-a de Cinderela. Depois, na faculdade, fui aluno dela em antropologia, ótima

professora”.[25]

Aos poucos, começava o desligamento de Araraquara. Fernando Henrique a acompanhava à cidade nas visitas que rareavam. Sempre no trem da Paulista. Ele ficava hospedado no Hotel São Bento, na

avenida São Paulo, em frente à estação, da família do Nelson Monteiro, mais conhecido como Tourinho,

ou no Hotel Municipal. A Turma da Banheira teve de aceitá-lo, ainda que com muita ciumeira, afinal, era

o “mocinho bonito”, o “almofadinha” inteligente de São Paulo que tinha conquistado a beldade do

interior. Os orgulhos locais eram exasperados. Renato Corrêa Rocha lembra-se de muitas madrugadas,

após os bailes, em que precisavam bater firme na porta do Hotel Municipal, quase estourar a campainha,

acordando Chico Lastiri, o dono, um homem impertinente que se recusava a abrir a porta do hotel. Mas a

cumplicidade da mulher dele, dona Ritinha, suavizava o impasse e Fernando Henrique podia subir para o

seu quarto.[26]

Ele, hoje, a quase sessenta anos de distância, sorri ao se rever: “Costumava implicar com Ruth por

causa do sotaque araraquarense, aquele r escandido. Coisa que ela perdeu com o tempo, mas readquiria

assim que colocava os pés na cidade. Eu nunca tinha ido ao interior, não conhecia o ritmo da vida. Era

um estranho no ninho. Ia da casa de Ruth ao cinema, ao clube, ao baile. Não havia muito a fazer. Ruth

conhecia todo mundo, era popular, sempre cercada pelo seu grupo, eu ficava fora de foco, numa situação

esquerda. Ela dançava muito bem, todos lá dançavam bem, e eu sempre dancei mal. Havia um moreno

magrinho, pé de valsa, como se dizia, acho que de origem árabe, era o mais saliente, muito bom, querido

por ela”.[27]

“E cartas de amor? Escreviam um para o outro?”. Ruth hesita, percebo um levíssimo ar reprovador

mostrando que eu estava forçando uma brecha na privacidade. Mesmo reticente, ela explicou: “Não, não!

A gente de minha geração decidiu construir uma atitude antirromântica... Influenciados pelo cinema, pela

literatura moderna e pela faculdade, queríamos ser modernos, adotar atitudes modernas. Tínhamos

verdadeiro horror pelo pieguismo... Assim, cartas eram escritas apenas quando se viajava, mas naquela

altura não se viajava como hoje... Era uma rebelião contra o convencionalismo, a gente se irritava com

tudo, e cartas de amor entravam nessa categoria...”.[28]