Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
5 O golpe de 1964 e o exílio
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O golpe de 1964 e o exílio
No final de 1961, Jânio Quadros já tinha renunciado à Presidência, Jango havia assumido e o
parlamentarismo estava instalado. Deixando para trás um país inquieto, Ruth e Fernando Henrique, ao
lado de Lúcia e Bento Prado Júnior, partiram para a França. No Brasil, as crianças ficaram em São
Paulo, com d. Mariquita. Em Paris, todos se instalaram na Cidade Universitária — Ruth e Fernando
Henrique na Maison Internationale, no mesmo andar em que estava alojado Tristão de Athayde, e Lúcia e
Bento na Maison
du Brésil. Viviam uma vida boa, ainda que apertada, tudo medido, as grandes preocupações eram de
cunho acadêmico. Só não suportavam o restaurantezinho que havia próximo à Cité Universitaire. Barato,
cinco francos a refeição, mas péssimo. fhc tinha um carro, e assim decidiram fazer um tour por Itália,
Áustria e Alemanha. Foram direto a Florença, onde José Arthur Giannotti estava à espera deles — ele
tinha insistido nessa viagem. Conhecedor de arte, queria ciceronear o grupo. Nas mãos, o roteiro
cronometrado do que iriam conhecer.
A promessa era mostrar tudo. “Mas foi engraçado,” revela Giannotti, “eles levantavam tarde,
andavam um pouco, logo queriam almoçar, parávamos, retomávamos, eles não tinham pressa. Ruth às
vezes se encantava com alguma coisa, demorava.” Circularam pela Toscana. De repente, Bento Prado
Júnior e Fernando Henrique diziam: “Ah, sabemos que em tal lugar tem um Piero Della Francesca e
queremos ver”. Giannotti ficava perplexo, não havia nenhum Piero Della Francesca naquele lugar. “Ele
não percebia que estávamos sacaneando”, diz Fernando Henrique, “inventávamos, repetíamos
informações lidas nos guias para mostrar que também sabíamos. Depois, pedíamos desculpas, alegando
que tinha sido um erro de cálculo, de século e de cidade.” Giannotti sorri ante as lembranças e confessa:
“Eram golpes de morte em meu ego”.[62]Assim, divertindo-se, viajaram gozando férias. Com fhc sempre
“fominha” pela direção, não deixava que os outros ocupassem seu posto de condutor.
O Natal foi passado em Roma, depois Ruth voltou a Paris, onde frequentou o seminário de Claude
Lévi-Strauss na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Lévi-Strauss, naquele momento o mais
novo membro do Collège de France, estava em evidência após a publicação de Antropologia estrutural,
seguida de O toteísmo hoje e O pensamento selvagem. As teorias estruturalistas explodiam nos meios
acadêmicos. “Ruth”, acentua seu ex-orientando Gilberto Velho, “foi uma leitora sistemática e atenta da
obra de Lévi-Strauss.”
Quando ela voltou da França, estava entusiasmada. Ao reencontrar Eunice Durham, entregou-lhe o livro
O toteísmo hoje: “Olha que maravilha, você precisa ler!”.
Entusiasmadas as duas, introduziram o estruturalismo nos cursos. “A cada viagem que fazia, Ruth
captava as coisas, comprava livros, vinha com novidades, levantava questões, problemas e dúvidas com
relação a toda a bibliografia”, revela Eunice. “Éramos modernas naquele momento, estávamos a par do
que se passava no mundo.” Ao longo de sua vida, Ruth foi assim, segundo seus alunos e seus orientandos.
Eunice criou uma palavra: “captativa”. Era a qualidade que Ruth tinha de absorver, assimilar novos
assuntos, tendências, informações, e procurar toda a bibliografia existente para trazer ao Brasil. Para
aceitar ou recusar, de qualquer maneira, era o que havia de novo lá fora.
Em 1962, a estudante Albertina de Oliveira Costa, então com dezenove anos, foi convidada a
integrar a equipe de pesquisadoras de Ruth, que voltava ao tema da imigração japonesa, com vistas,
agora, ao doutorado. Além dela, havia Marisa Todescan, Eunice Nishikawa e Renata Nutzler. Cada
pesquisadora era acompanhada por uma nissei encarregada de traduzir os diálogos. No início das
reuniões do grupo, Ruth, que tinha dezenas de potinhos japoneses lindos, oferecia chá e com ele
começavam os trabalhos.
Com sua perene preocupação com bibliografias exatas e esclarecedoras, e de modo a introduzir suas
assistentes na cultura e na história japonesas, Ruth recomendou (recomendar era eufemismo, queria dizer
“leiam porque é essencial”) que lessem O crisântemo e a espada, de Ruth Benedict, antropóloga de
grande prestígio formada pela Universidade Columbia, discípula de Franz Boas, considerado o pai da
antropologia americana. Poucos estudos, explicava Ruth, conseguiram penetrar tão fundo e explicar tanto
as peculiaridades ideológica e cultural do universo nipônico, por meio de suas maneiras e costumes
cotidianos. Clássico da antropologia. Foi um período em que não havia ainda essa valorização da cultura
japonesa no Brasil. Essa busca era um passo insólito de Ruth dentro da universidade, onde os projetos
ditos maiores e de interesse mais amplo eram os mitos da época, luta de classes, marxismo, revolução
etc. Para Albertina, “o livro da Benedict é maravilhoso e só ele já valeu. Sempre foi agradável trabalhar
com Ruth, ela prestava atenção em todos, fazia com que as pessoas se sentissem confortáveis. Mulher que
frequentava vários círculos, sua casa era movimentada, e ela discorria com naturalidade da antropologia
à sociologia à maneira de fazer cuscuz, ou onde se comprava um bom abacaxi e como saber se a fruta era
doce, papo que muitas de nós achávamos abobrinha total”.
Albertina acompanhou, às vezes mais próxima, outras mais distante, a carreira de Ruth ao longo dos
anos, até ver consolidada, mais tarde, “sua reputação de mulher ponderada, tanto que houve época em
que sempre era chamada como mediadora quando surgiam problemas no Departamento. Era normal vê-la
numa banca de tese. Quando estava numa banca, ela lia tudo direitinho, era gentil nas perguntas, não
necessitava se exibir com agressividade, como é costume. Ela reconhecia: ‘Tenho jeito para orientar’.
[63]E tinha mesmo um modo de tirar as coisas boas das pessoas. Com o tempo ficaram famosas as
‘meninas da Ruth’”, ou seja, alunas que ela orientou.
“Aqui entra outra questão, a corrente que julgava que Ruth deixava em segundo plano os projetos
acadêmicos pessoais, porque em primeiro lugar vinha o Fernando Henrique, que ele merecia todas as
atenções, e ela devia ser também esposa perfeita, mãe, dona de casa. Por outro lado, o que não se
percebia era a qualidade incrível que tinha de fazer coisas e dar a impressão de que não tinha tido
trabalho algum. Chegava com a aula preparada, porém não mostrava o arcabouço, o que tinha custado em
tempo, pesquisa. Ela e as fichinhas. Apanhava uma, nela havia apenas quatro linhas, e podia falar horas. Na época, Ruth achava que tinha de pôr a mão na massa, e, se recebia pessoas, devia ir para a cozinha e
fazer, até descobrir que, se encomendasse e desse o seu toque, era a mesma coisa. Ela sabia onde era o
sapateiro, o alfaiate, a costureira, que tanto fazia como consertava, ou quem vendia a massa, o frango, a
boa carne. Não eram comuns como hoje tais serviços. A palavra delivery só entraria no cotidiano mais
de 35 anos depois. Não me esqueço de quanto ela era irônica e mordaz, certeira na pontaria, muitas vezes
com relação a outros grupos. Ruth era igualmente uma espécie de Nossa Senhora Medianeira, pois as
pessoas, quando queriam alguma coisa do Fernando Henrique, iam direto nela para que fizesse a
intermediação. Ele tinha sua corte, que inclusive o cercava e ‘protegia’, então as pessoas precisavam
encontrar um meio de se aproximar. Por outro lado, Ruth era a única que sabia e podia falar das
limitações do marido. Era comum numa conversa, quando a pessoa fazia uma citação dele, ou uma
opinião, ela entrava com ‘mas você sabe como é o Fernando Henrique...’, deixando o resto para a
imaginação.”
O amigo Leôncio Martins Rodrigues lembra que era dela o papel de contrabalançar algumas coisas
do Fernando Henrique, que, por sua vez, gostava de provocar. Quando surgiam certas afirmações,
exageros, ela dava um corte: “Para, Fernando; que coisa é essa?”. Outras vezes, dava uma olhada
fulminante e exclamava, alongando o nome no sotaque araraquarense: “Fernando Henrriiiique...”.
“Era uma espécie de jogo, ela sabia que era exagero, ele levava na brincadeira. Outro detalhe, para
se ter ideia da personalidade dela. Todos os professores usavam um jaleco branco para dar aulas,
inclusive o Florestan Fernandes e o Octavio Ianni. Dava a eles um ar professoral, digamos. Ruth, não.
Jamais usou o jaleco, dava aulas com seus vestidos e sentava-se muito descontraidamente”, finaliza
Albertina.[64]
Em janeiro de 1963, Jango Goulart convocou um plebiscito que decidiu pelo fim do sistema
parlamentarista. O presidente anunciou o seu Programa de Reformas de Base, que incluía divisão dos
latifúndios e reforma agrária, reforma eleitoral, reforma universitária, voto aos analfabetos, entre outros
pontos. Com uma política dita nacionalista, vieram leis que limitaram a remessa de lucros e pregaram o
monopólio estatal do petróleo.
O país se moveu inquieto. Um comício monstro no Rio de Janeiro, no dia 13 de março de 1964, foi o
estopim. Jango nacionalizou as refinarias particulares de petróleo, desapropriou terras e anunciou
reformas urbanas. A classe média e a burguesia tremeram. No interior das Forças Armadas já vinha
crescendo um movimento conspiratório, a Igreja se levantou e a Marcha da Família com Deus pela
Liberdade mobilizou em São Paulo 500 mil pessoas. O país estava dividido, as forças da esquerda
assegurando que possuíam um esquema de resistência. No dia 31 de março o Exército depôs João
Goulart e se instalou no poder. Houve focos isolados de resistência, os sindicatos não ergueram uma
palha. A ditadura militar substituiu a democracia. O general Castello Branco foi o primeiro presidente da
nova ordem. Liberdades civis canceladas, greves proibidas, sindicatos dissolvidos, milhares de prisões,
inquéritos militares contra oposicionistas. Uma era opressiva tinha se iniciado.
Lourdes Sola e Ruth Cardoso, certa tarde, correram para a rua Maria Antonia e, numa esquina, antes que
Fernando Henrique chegasse à Faculdade, avisaram-no para que desaparecesse, estava sendo esperado, ia ser preso. Na época, ele era membro do Conselho Universitário, um dos criadores da fapesp e também
do Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho, Cesit, ligado a Florestan Fernandes. Tinha participado
anos antes de um movimento visando modernizar a universidade, criar a carreira de magistério e
valorizar o tempo integral, o que tinha sido visto por alguns setores como um desafio da esquerda. Assim,
disse ele, “fui denunciado pela direita interna à universidade como comunista. Não a direita política, nem
a direita golpista, mas a direita acadêmica, que usou o golpe militar para ampliar seu poder”.[65]
Alertado, Fernando Henrique foi para a casa de uma amiga, Célia Galvão, também professora da
Faculdade, depois seguiu para o apartamento de um casal belga, em seguida refugiou-se na casa do
cineasta Sérgio Muniz. Nesse meio-tempo, a polícia tinha ido à Maria Antonia, onde quase prendeu
Bento Prado Júnior confundindo-o com fhc. Pedro Paulo Poppovic, também um amigo chegado, abrigou-o
em seu sítio. No final de abril, Maurício Segall, que tinha conexões, enviou Fernando Henrique para a
Argentina, instalando-o na casa de um amigo, José “Pepe” Nun, mais tarde ministro de Kirchner.
Fernando Henrique tinha ainda a ilusão de voltar e defender a tese de docência sobre os empresários
brasileiros. Como nada se decidia, ele trabalhou no Departamento de Sociologia da Universidade de
Buenos Aires até receber o convite para assumir um posto na Comissão Econômica para a América
Latina, a Cepal, no Chile. No dia 1o de maio de 1964 embarcou para Santiago.
Ruth Cardoso tinha entrado com um pedido de afastamento para o marido na Faculdade, porém o
reitor indeferiu e Fernando Henrique perdeu o emprego. Ela tentou um encontro com a Reitoria e
recusaram-se a recebê-la.[66]Procurou o Conselho Universitário por meio de Honório Monteiro, um
araraquarense, que era afilhado de dona Salomé, bisavó de Ruth. Honório respondeu: “Nada a fazer, a
situação não tem jeito”. Ela enviava cartas ao jornal O Estado de S. Paulo denunciando os
acontecimentos. Foi corajosa num momento confuso. Mas continuou trabalhando, cuidando dos filhos. E
preparando-se para se mudar para o Chile.
Havia mil coisas a organizar, móveis a guardar, despachar, vender, malas a fazer, mas igualmente foi
necessário encontrar quem ficasse com o cachorro Janjão, um poodle preto. Maria da Penha aceitou ser a
guardiã, mas depois o cão foi para dona Nayde. Momento traumático foi o de se desfazer da biblioteca.
Os livros eram milhares, e no meio deles havia duzentos de sociologia, postos sob custódia do casal por
Antonio Candido. Preservados, mais tarde foram devolvidos, menos alguns que Candido mandou que
escolhessem como presente. Boa parte foi para o Rio de Janeiro, ficou com Dalva e Fernando Gasparian,
amigos íntimos. Outros foram deixados com pessoas que, por sua vez, mudaram ou desapareceram na
conjuntura da época.
Paulo Henrique recorda-se de uma passagem por Guarujá, antes de a família embarcar para
Santiago. Como se fossem curtas férias, com muita praia e sorvete. Não dava para sentir a aflição de
Ruth, cuja vida estava de pernas para o ar. Ela conseguia não passar a ansiedade para as crianças. Mas
vivia um drama com um problema na Faculdade. Não podia perder o emprego e solicitou afastamento,
porém o professor Egon Schaden, titular
da cátedra, negou peremptoriamente, num episódio que provocou mal-estar entre membros da
comunidade acadêmica. Se ela fosse embora, perderia o lugar. Ruth lutou, mas a negativa continuava. E
ela precisava partir, levar a família para junto do marido. Insistiu, insistiu, até que finalmente conseguiu.
O novo trabalho sobre os japoneses, e que ela fazia sob orientação de Eunice Ribeiro Durham, foi interrompido.
Ruth teve de tomar decisões sobre a casa que tinham começado a construir, já nos alicerces, na rua
General Euclides de Figueiredo, no bairro do Morumbi. Compraram o terreno e encomendaram o projeto
ao arquiteto Ennes Silveira de Mello, que trabalhava com Sergio Bernardes. Interrompeu-se a obra por
um tempo que não se saberia qual. Mariquita e José vieram de Araraquara para “dar uma força” e ajudar
nos preparativos. Para os filhos, as lembranças daqueles meses são vagas. Paulo Henrique, com dez
anos, sabia apenas que o pai estava escondido, sem atinar com as razões. Bia era muito pequena, tinha
quatro anos, não guardou nenhuma imagem da época. Nada traumático. A não ser que, de um dia para o
outro, o pai tinha sumido. Somente dois anos antes de a mãe morrer, ela sentou-se com o filho Pedro e a
mãe, pedindo que Ruth contasse tudo, falasse sobre o Chile.
Uma noite, Leôncio Martins Rodrigues e sua mulher Aracy foram visitar Ruth em companhia de
Cândido Procópio Ferreira de Camargo. Fazia um frio danado, não havia lenha para a lareira, e Ruth
decidiu queimar um móvel velho que não pretendia levar. Despediam-se da casa.
Chile, 1964. Jorge Alessandri havia deixado a Presidência, assumida por Eduardo Frei. Salvador
Allende saiu derrotado, mas venceria as eleições em 1970. Fernando Henrique Cardoso, naqueles poucos
meses, tinha começado a arranjar as coisas em Santiago. Trabalhava na Cepal e morava numa casa com
Celso Furtado, Francisco Weffort e Wilson Cantoni. “O Chile era muito central nas áreas de economia e
de sociologia. Parte da elite cultural do continente estava exilada ali. Entre os brasileiros havia o Plínio
de Arruda Sampaio, o Paulo de Tarso, o economista Jesus Soares Pereira, Vilmar Faria, Jáder de
Andrade, o cineasta Leon Hirschmann, logo chegou o José Serra, ainda um menino”, define fhc. Os que
estavam melhor de vida organizaram uma caixinha para ajudar os que chegavam.
Quando Ruth avisou que estavam deixando o Brasil, fhc alugou uma casa na rua Luiz Carrera, depois
se mudaram para a calle Las Ñipas. A viagem, com a passagem pela cordilheira dos Andes,
impressionou Paulo Henrique, visão que permaneceu viva até hoje. Já Santiago se mostrou uma cidade
cinza, sombria, ainda que a casa, simpática, logo tenha começado a ficar com a cara de Ruth. O menino
olhava estranhamente para os criados-mudos nas cabeceiras das camas, que não passavam dos caixotes
de mudança, adaptados. Na manhã seguinte Paulo foi para a rua e uma bola apareceu. Os meninos
chilenos disseram “se é brasileiro é bom de bola”,[67]só que esse brasileiro era ruim: “Eu era uma
tragédia, desajeitado, mal sabia matar uma bola”, diz ele. Curiosamente não houve estranheza entre os
meninos que falavam espanhol e o que falava português. Quando Bia acessa a memória das duas casas,
vê-se falando em espanhol com Luciana, e vem também a figura da empregada, que acordava todos muito
cedo para ir à escola. A calefação era a querosene — o ambiente ficava com aquele cheiro típico da casa
do caboclo brasileiro que tem lampião a querosene. No inverno, com a neve, Ruth sentia pena de tirar as
crianças da cama — a escola Nido de Aguilas ficava na cordilheira e o ônibus passava quase de
madrugada. “Meu tormento mesmo era a comida que nos davam lá, horrorosa. Colocavam muito coentro
e cominho, até hoje detesto esses temperos”,
assegura Bia. Ela se lembra de ter muitas amigas e, por ter sido alfabetizada muito cedo, tinha facilidade
e aprendeu rápido o espanhol, tanto que passou à frente, pulou um ano. Por ser uma escola bilíngue, as
duas meninas foram alfabetizadas em inglês e espanhol.
Com o trabalho na Cepal, a família não tinha grandes dificuldades, ainda que vivessem sempre de
olho nas contas. Mesmo assim, conseguiam separar uma parte que era enviada ao Brasil para, mais tarde,
continuar as obras da casa do Morumbi. As comunicações com o Brasil eram deficientes, dificílimo fazer
uma chamada internacional. Quando Ruth queria falar com a mãe em Araraquara, usava os
radioamadores. Era preciso combinar antes com Mariquita para que ela, em certo dia e horário, fosse à
casa de alguém que tivesse o sistema na cidade. E eram muitos. Havia uma sociedade que os unia, e os
mais conhecidos e com quem mais fez contato foram três: Benedito Brasileiro de Souza, Quirino dos
Santos (dono da prd-4 Rádio Cultura) e Nelson Gullo, este da Turma da Banheira na juventude.
As cenas ainda são claras para Fernando Henrique: “Santiago era uma cidade linda, havia aquelas
montanhas belíssimas, mas nos sentíamos isolados do mundo. Ruth deu aulas, como professora visitante,
na Escola de Sociologia da Universidade Católica. Foi das primeiras disseminadoras das teorias de
Lévi-Strauss no Chile, na flacso, Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, onde por sinal
lecionei economia. A língua foi sendo dominada aos poucos. A pronúncia no Chile é uma pronúncia
peculiar, não é o espanhol da Espanha ou da Argentina. As mulheres falam aspirado e Ruth aprendeu esse
maneirismo. Ela sempre falou melhor do que eu, principalmente porque, como fez aqui a vida inteira,
tinha o dom de chegar às pessoas, de conversar, perceber os truques da língua. As mulheres levam
vantagem, vivem na pele o dia a dia do país e penetram na linguagem concreta. Dois dias depois, Ruth
sabia como era repolho em espanhol. Comandando a casa, o que fazia? Ia todos os dias ao Vega, um
supermercado, ia à feira, conversava com as empregadas que estavam fazendo compras, com as donas de
casa, com os funcionários. Ia à quitanda, ao açougue, à padaria. Ruth fez o que uma pessoa inteligente faz,
misturou-se ao chileno, captou a sua maneira de se expressar. Por outro lado, vivíamos num meio
intelectualizado. Uma de nossas grandes amigas nessa época foi Malucha Solari, mulher de Aníbal Pinto,
um grande economista, e por aí tínhamos outro nível de linguagem.[68]Desse grupo faziam parte Tiago de
Melo, adido cultural que morava na casa de Pablo Neruda, o então senador Salvador Allende e sua filha
Izabel, e Enzo Faletto, meu parceiro na escritura de Dependência e desenvolvimento”.[69]Pablo Neruda,
que receberia o Prêmio Nobel de Literatura sete anos mais tarde, aparecia vez ou outra.
Enquanto o marido, por ser da Cepal, podia importar um carro, e ele escolheu um Mercedes, Ruth,
sempre ciosa de sua independência, comprou um pequenino carro francês, para duas pessoas, não mais
do que isso, com o qual se deslocava. Ela andava no Mercedes, mas gostava mesmo de sua “carroça”.
Não se pode dizer que dirigia bem, mas dirigir lhe dava liberdade. Anos mais tarde, odiaria os
motoristas particulares, principalmente os impostos pelo cargo e pela segurança. Já Paulo Henrique
comemorou a chegada de uma bicicleta importada, escolhida no catálogo da Sears que eles recebiam.
“Era”, confessa fhc, “quase o mesmo estilo de vida que tínhamos em São Paulo, ainda que envolvido pela
angústia do exílio e corroído pelas saudades da cidade e das pessoas.” Ruth adorou o Chile, entrosou-se,
acabou voltando lá diversas vezes. A família teve, a certa altura, também a sua botijeria particular,
aquela que fornecia os vinhos em garrafões, as bebidas. O que todos lembram é que aquele foi um
momento de convívio familiar intenso.
Em Araraquara, parte da vida de Mariquita passou a ter um objetivo, o de economizar para fazer
suas viagens ao Chile. Ia uma ou duas vezes por ano e, na volta, já em Araraquara, contava com orgulho
do carro Mercedes-Benz, de como trabalhavam muito e que estavam tendo uma vida melhor do que quando eram professores da usp. A chegada da avó era aguardada com júbilo pelos netos. Além de
Mariquita, amigos como Leôncio Martins Rodrigues e sua mulher Aracy e José Arthur Giannotti também
visitaram os Cardoso em Santiago.
Em agosto de 1965, o general Leônidas morreu no Rio de Janeiro. Fernando Henrique nem sabia que
o pai estava doente. Recebeu um telegrama de um amigo dizendo apenas “O Sapo morreu” — Sapo era o
apelido do general. Como fhc tinha passaporte diplomático, porque trabalhava para a onu, embarcou
imediatamente para o Rio de Janeiro, sem pensar em mais nada. Foi ao enterro e à missa. A igreja estava
repleta de militares. No fim da missa, um deles se aproximou discretamente e comunicou: “Agora, vá
embora imediatamente, ou então...”.
Dois anos depois, em 1967, Alain Touraine, Michel Crozier, Henri Lefebvre e Lucien Goldmann
enviaram um convite a Fernando Henrique Cardoso para que se juntasse a eles na recém-criada
Universidade de Nanterre, um dos braços da Sorbonne em Paris. O Chile significava, àquela altura, a
estabilidade, porém, incentivado por Ruth, fhc aceitou. Os dois sabiam o que tinha significado a vivência
ali. O Chile era cosmopolita, ali se estava em contato com a Europa e os Estados Unidos. “São Paulo era
muito fechado, comparado com Santiago naquela época. Foi um ambiente propício para entendermos as
coisas do mundo. Saímos de lá por uma única razão, queríamos uma experiência intelectual mais ampla”,
justifica Fernando Henrique. Deixaram o Chile com pesar.