Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
16 A volta ao cotidiano
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A volta ao cotidiano
Entregue o cargo em 1o de janeiro de 2003, Ruth e Fernando Henrique não perderam um minuto.
Acompanhados por Luciana e pela neta Isabel, foram direto para o aeroporto. Aguardando o voo na sala
vip, Ruth chorou bastante. Embarcaram acompanhados do embaixador Fred Araújo, fizeram escala em
São Paulo, rumo a Paris. Na viagem, Fernando Henrique disse que lhe daria um presente. “O que você
quer?” Ela não hesitou: “Um telão para meu home theater”. Avião de carreira, Fernando Henrique e Ruth
avisaram, categóricos: “Não queremos ninguém à nossa volta, nenhum assessor, segurança, nada”. Mas
no avião tinha um jornalista do jornal O Estado de S. Paulo, Ruth não queria que fhc falasse com ele,
porém o marido foi veloz e discreto, e sugeriu: “Vou ali, digo uma coisa rápida para ele não amolar
mais”. Quando desceram em Paris, foram recebidos pelos dois embaixadores do Brasil, um junto ao
governo francês, outro junto à Unesco, Marcos Azambuja e José Vargas. Um carro estava à espera.
Fernando Henrique pegou o volante e, quando procurava as placas da rodovia que os levaria a um antigo
castelo, hoje hotel, percebeu a polícia, os batedores, o ritual. Eles sorriram e comentaram: “Agora chega,
não precisamos mais”. No hotel, chamaram a segurança, quase implorando: “Muito obrigado! Os
senhores são perfeitos, gentis, mas não precisamos, não queremos mais, a função de vocês está
terminada”.
Dormiram no hotel e no dia seguinte foram à igreja. Pela primeira vez, em oito anos, estavam
sozinhos, sem estar cercados por seguranças e jornalistas. Ao voltar a Paris, foram para o apartamento da
mãe de Maria do Carmo Sodré, dona Maria, viúva de Abreu Sodré, ex-ministro das Relações Exteriores,
na avenue Foch. Dali para frente foi um tal de caminhar, de pegar metrô, de assombrar brasileiros que
olhavam para os dois: “Nossa! É o presidente, andando de metrô”. Voltaram à planície, ao convívio dos
mortais, não tinham empregada, a Ruth fazia as coisas e saíam para compras caseiras. “Foi uma
maravilha, passamos três meses em Paris e estávamos entre amigos. A única vez que houve aparato foi no
dia que fomos almoçar com Jacques Chirac, pessoa educada, gentil, muito amiga nossa, homem simples”,
diz Fernando Henrique.
“Fomos às velhas livrarias no boulevard Saint-Germain, aos cinemas nos Champs-Elysée, líamos
muito, fazíamos um pouco de ginástica, rpg, tinha uma senhora que ia lá e judiava muito de mim.” Ao
lado havia um prédio que era do irmão da dona Maria do Carmo, com piscina, e ele conseguiu
autorização para nadarem, mas “era um frio desgraçado, um inverno danado”. “A Ruth sempre fez
exercícios, ela sempre foi mais ativa que eu, ela não gostava de nadar. Lá em Brasília, nadava, mas não
gostava, ela andava e fazia esteira. Como tinha problemas de coração, ela fazia muito esteira”, confessa
fhc. “Ruth sempre cuidou mais do corpo, da saúde, do que eu. Na França, que eu me lembre, ela não fazia exercício, eu é que fazia, por pressão dela.” Quase no final, Bia Cardoso apareceu para alguns dias com
os filhos, depois voltaram todos para o Brasil.
A volta foi para o novo apartamento na rua Rio de Janeiro, um imóvel encontrado por Regina Meyer e
que foi inteiro reformado sob as ordens de Regina e Ruth. O imóvel tinha sido comprado detonado,
demorou para que terminassem as obras. O piso era todo de mármore, havia lambri de madeira em todas
as paredes, era um tanto soturno, foi preciso remodelar, ganhar atmosfera. Terminada a reforma, entraram
os móveis, muitos assinados por Carlos Motta ou Sergio Rodrigues, muita coisa anos 1950, uma cadeira
de balanço que lembra Araraquara, cadeiras trazidas do Uruguai por Maria Ignez Barbosa. “Os tapetes
sempre foram comigo”, ressalva Fernando Henrique. “No resto tem as mãos dos dois. Há quadros que
estão há cinquenta anos conosco”, e um breve tour mostra Vieira da Costa, Amilcar de Castro, um Miró
comprado nos anos 1970, um Tàpies, Rebolo, Yamandu, Potero, Milton da Costa, Renina Katz, a amiga,
um Portinari, Cenize, uma foto assinada de Mario Cravo Neto, Poti, Di Cavalcanti, Carlos Lemos,
Bonadei, Gracimar.
O Comunidade Solidária tinha sido extinto pelo novo governo. Na verdade, afirma Miguel Darcy, foi
extinto do ponto de vista formal, porque morreu de inanição. No entanto, sobreviveram ações e ele se
prolongou de duas maneiras. A mais visível é através dos programas e instituições criados pela Ruth. O
mais abrangente e bem-sucedido é o Alfabetização Solidária. A eles se somam a Comunitas (que deu seus
próprios desdobramentos: Solidaritas, Rede Jovem, Portal do Voluntário <V2V.net>, Artesanato
Solidário, Capacitação Solidária. E, mais recentemente, o Centro Ruth Cardoso. Substantivamente, o
Comunidade — e as ideias da Ruth — se prolongam através de seu exemplo e de seus valores, ponto de
referência e fonte de inspiração para inúmeros projetos de organizações da sociedade civil: investimento
nas parcerias entre múltiplos atores, abertura para o mundo empresarial, valorização do capital social de
pessoas e comunidades.
Em uma palavra, a busca de uma síntese entre liberdade e solidariedade como fermento de uma
sociedade mais justa. Ruth e sua equipe abriram algumas ongs, continuaram o trabalho. Ruth retomou as
funções dela no Comunidade Solidária, arranjou um prédio na avenida Angélica, onde funcionava um dos
programas, continuou muito ativa e voltou a ter contato com antigos alunos, contatos que na verdade
nunca perdeu, e continuou a vida. De 2004 a 2008, durante cinco semanas por ano ia à Brown University,
onde era pesquisadora associada e conduzia seminários. Fernando Henrique foi montar o ifhc — Instituto
Fernando Henrique Cardoso. A vida permaneceu por um tempo em suspenso, porque suas coisas ainda
não tinham chegado de Brasília.
“Quando voltamos de Brasília, a Ruth se empenhou muito em retomar Ibiúna. Se você for lá hoje,
deve estar igual. Está conservada, pintada, a empregada é a mesma, o caseiro morreu, mas tem outro, as
coisas funcionam. Ela fez muito empenho. Fizemos uma pequena sala para o meu pôquer com os amigos,
ela comprou uma mesa de jogo que nunca usei e comprou outros móveis para mim, ela mesma desenhou a
mesa que está na varanda, escolhemos também cadeiras para a varanda”, relata Fernando Henrique.[132]
Assim que a Presidência terminou, Luciana entrou no palácio e encaixotou todos os pertences pessoais
dos pais, quadros, móveis, presentes, enviando para São Paulo em três caminhões. De certa maneira, a presença de Luciana em Brasília era gratificante, dado o sentido gregário que o casal tinha em relação à
família. Era Luciana, por exemplo, quem cuidava das compras pessoais, fazia os pagamentos, controlava
contas e cheques. “Eu tinha um compromisso com eles. Tudo o que comprasse do ponto de vista pessoal,
com nosso dinheiro, devia ter nota. Os dois nunca aceitaram presentes, não adiantava um estilista querer
dar um vestido para mamãe, ela não aceitava. Nas viagens pelo Comunidade Solidária, recebia, sim,
alguma peça de artesanato, porque eram coisas dadas com amor, como homenagem, e seria grosseiro não
aceitar. Mas também comprava. Fora disso, de uma agulha a um aluguel de filmes, tudo vinha com nota.
Eles conheciam o mundo brasiliense, eram pessoas vividas. A mínima coisa ia para a imprensa, com
escândalo”, reitera Luciana. Depois de oito anos em Brasília, vivendo uma vida atípica, a volta a São
Paulo, para os dois, foi um período de adaptação um pouco difícil.
“Retomamos as idas a Ibiúna, que era a paixão dela, voltamos a uma vida, digamos, de estilo de
professor universitário, que é o que ela gostava. E que estilo é esse? Basicamente é o seguinte: você
trabalha intelectualmente, vai ao cinema, vai ao teatro, tem muitas discussões com os amigos, se apaixona
por coisas abstratas e sem exibicionismo, vida comum, comum na classe média alta, no nosso caso, não
é? Nem todo professor universitário vive a classe média alta que vivemos, nós tínhamos algum recurso...
Claro que a vida de um ex-presidente não é mais a normal, mas a gente foi procurando ser o mais comum
possível dentro das limitações e daí retornam os problemas da rotina, quer dizer, ex-presidente tem
segurança, e este sempre foi ponto de atrito com a Ruth, ela jamais gostou muito de ter segurança.”
Normalmente, Ruth só usava um motorista, o Gilberto, que por instância dela foi estudar e acabou se
formando em Direito. Depois que terminou o curso de advogado, Gilberto saiu. “Com ele, Ruth se
entendia bem, ela gostava dele, e ele era uma pessoa que tomava conta de um mundo de coisas como
pagamento de contas, ou fazer certas compras, já que muitos anos lhe deram a visão do que era o mundo
dela”, confessa Fernando Henrique.
“Ruth nunca tinha muita noção de tempo e de valor de tempo, quer dizer, quanto tempo custa fazer
uma coisa, sempre levava mais tempo do que ela imaginava. Então estava sempre um pouco atrapalhada,
porque não dava tempo para fazer o que tinha planejado. Ela se organizava, mas depois a organização era
maior do que ela podia cumprir, então confundia, ela queria ser minuciosa e na minúcia se perdia, mas
tentava organizar...! No armário de remédios, sempre houve caixinhas com remédios separados para cada
tipo de doença. Nas contas dela lá, tem várias caixinhas também com contas disso, contas daquilo e tal...
As bijuterias também, todas em caixinhas e tal, sempre teve a vontade de ter tudo em ordem, e não
conseguiu. Quem chegasse na cozinha, daria com prateleiras e os livros de gastronomia. Porque ela
gostava de cozinhar, tinha receitas à mão que guardava para os filhos, para dar para os amigos, algumas
eram dela, outras de coisas que ela achava boas. Mas depois começou a se cansar, já não aguentava mais
a rotina de tomar conta da casa e se queixava, queria que eu tomasse também, o que é difícil, não fui
treinado para isso! Mas ela cansava até mesmo de escolher comida, o que ia fazer, salvo quando tinha
algum amigo... Os dois últimos anos tiveram a ver também com a diminuição da capacidade física dela,
não é? Mas, ainda assim, se tivesse um jantar de pessoas que ela gostasse, ela se interessava. Ruth
sempre gostou muito de tomar vinho e sempre achou que eu era pão-duro com os vinhos. Depois,
reconheceu que agora, pelo menos nos últimos anos, comecei a ser mais aberto em matéria de vinho. Nunca vi, nunca se preocupou muito com quanto custa um vinho, porque vinho aqui não custa nada,
porque o que eu tenho, quase tudo é presente que ganhei, ganho até hoje muito vinho de presente. Nossa
adega deve ter mil garrafas.”
Ruth Cardoso tinha razão quanto a querer se distanciar da política como ela é feita no Brasil e em certos
setores de Brasília. Ela, que sempre foi uma pessoa célebre pela integridade e pelo cuidado com a coisa
pública, se viu ameaçada pela então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, com um escândalo em torno de
um dossiê sobre os gastos corporativos da Presidência, em que se alegava que Ruth havia despendido
milhares de reais ou dólares em compras fúteis, inúteis e banais, em vinhos e comidas. Caiu mal no
mundo político, no qual Ruth sempre foi respeitada até mesmo pelos adversários mais ferrenhos. O
jornalista Augusto Nunes, que tem um blog dos mais visitados, não resistiu e comentou: “Dilma foi a
primeira a agredir uma mulher gentil, suave, e também por isso tratada com respeito até por ferozes
inimigos do marido”. Pegaram pesado e Ruth sentiu o baque, logo ela que sempre teve o cuidado de
separar o privado do público, até mesmo no aluguel de filmes exibidos no palácio. O dossiê teria sido
preparado pela secretária executiva da Casa Civil, Erenice Guerra. As reações contra o dossiê foram
imediatas e a chefe da Casa Civil se desculpou, voltou atrás. Ruth, elegantemente, ainda que
magoadíssima, aceitou as desculpas, porém o círculo íntimo sabe quanto isso a feriu e atingiu um coração
já afetado.