Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida
12 A mulher que não queria ir para Brasília
12
A mulher que não queria ir para Brasília
Em 1992, Fernando Henrique Cardoso foi ao Japão para solucionar um problema em relação ao seguro
exportação e aqui deixou o presidente Itamar Franco às voltas com a excitação da mídia em torno de um
escândalo envolvendo Eliseu Resende, ministro da Fazenda. Começavam no Brasil os rumores de que
Fernando Henrique estava cotado para substituir Resende. Do Japão, fhc foi para Nova York, e estava na
embaixada brasileira jantando com o diplomata Ronaldo Mota Sardenberg e sua mulher, Célia, quando
Itamar chamou-o ao telefone. O presidente perguntou:
— Você está sentado ou em pé?[102]
— Por quê?
— Estou com um problema enorme. A situação do Eliseu Resende é insustentável.
— E pretende fazer o quê?
— Substituí-lo por você.
— Itamar, não faça isso! Mantenha o Eliseu, por favor! Não tenho mais justificativas, não tenho
como explicar no exterior as mudanças de ministro da Fazenda. Já foram três. O Eliseu está fazendo o
que pode.
— Mas a coisa está difícil, a situação é insustentável, você não imagina, ficou horrível.
— Presidente, não estou no Brasil, não posso e não quero faltar a você, eu só peço uma coisa:
converse com o Eliseu, veja se dá para ficar com ele.
— Está bem, eu ligo depois.
Fernando Henrique voltou à mesa, e os diplomatas perceberam que ele estava um pouco tenso. Dali
a pouco, Célia Sardenberg, que tinha saído, voltou à sala:
— Olhe, o comandante Carvalho mandou dizer que o presidente não precisa mais falar com o senhor.
O telefonou tocou muito cedo, na manhã seguinte. Do Brasil ligava Luiz Felipe Lampreia, secretário-
geral do Itamaraty:
— Ministro, o senhor agora está na Fazenda.
Atônito, Fernando Henrique ligou para o presidente Itamar, foi atendido pela empregada Geralda,
que, antes de ele dizer alguma coisa, comunicou:
— Caiu muito bem a sua nomeação aqui.
Quando Itamar apanhou o telefone, foi logo dizendo:
— Pois saiba que sua nomeação repercutiu muitíssimo bem no Brasil. Parabéns!
Fernando Henrique dormiu de novo. Acordou com o telefone, atendeu, do outro estava uma Ruth
Cardoso furiosa:
— Você é louco?
— O que foi?
— Quer dizer que virou ministro da Fazenda?
— Não. Onde viu isso? Itamar me convidou, não aceitei.
— Como não aceitou? Você está mentindo.
— Como mentindo, Ruth? É verdade, não aceitei![103]
Ela não se continha, danada de brava. Desligou. Do lado de lá da linha, em São Paulo, estavam Ruth
e Rosiska Darcy que, naquela noite, tinha ido jantar na rua Maranhão. “Fui a São Paulo buscar orientação
para a organização de ongs, assunto em que Ruth era mestra, tinha até o apelido de ongueira. Deviam ser
duas da manhã, ela falou com Fernando Henrique e desligou o telefone bastante transtornada, bem
alterada. Quando disse que não entendia tal perturbação, ele retrucou que estava vendo nisso um sinal,
um aviso de que o marido seria um candidato à Presidência da República. E, que se fosse, toda a vida
deles estaria alterada. Não seja negativa assim, Ruth, eu disse. Veja isso com outro olhar. Se o Fernando
Henrique chegar à Presidência, essa será a aventura de nossa geração.”
Bem, diz hoje Fernando Henrique, Ruth nunca acreditou que ele não tivesse aceitado o convite na
primeira conversa que teve com o Itamar. Ela achou que ele estava enganando todos, inclusive ela.
“Nunca acreditou, mas a verdade foi essa. Ela ficou indignada! Ela e todo mundo, Serra também,
aliás, todos, porque achavam que eu estava liquidado, a inflação era galopante, derrubaria todo mundo,
eu tinha metido o pé no buraco. Era o quarto ministro da Fazenda, o governo Itamar, instável, cpi dos
‘anões do orçamento’ no Congresso, isso era um golpe contra mim, eu estava liquidado! Não obstante, eu
era o ministro da Fazenda, fazer o quê? Cheguei ao Brasil, a Ruth já estava no meu apartamento, meu
apartamento era do Itamaraty. Bem, Ruth já estava no apartamento com os filhos, ela era contra, mas
solidária. Estava todo mundo esperando explicações. Aquele foi um dia terrível; cheguei, tomei um
banho, fui para o Palácio do Planalto, o Eliseu e o Itamar me passaram a função. À tarde, fui para o
Ministério da Fazenda fazer um discurso de posse, auditório repleto. Ruth, filhos, amigos, todos com cara
de enterro, o auditório me esperando com uma fórmula mágica. Eu disse: ‘O Brasil tem três problemas, o
primeiro é inflação, o segundo é inflação, e o terceiro é inflação, e vou acabar com ela’. Bem, aí foi uma
época de tensão, todos achavam que era um erro, mas tinha sido nomeado, ia fazer o quê? Meus amigos e
minha família tinham certeza de que ia ser um desastre, primeiro, lidar com o temperamento do Itamar, e
segundo, eu, que não sou economista, ter de lidar com economia. Além disso, foi um drama para Ruth.
Um momento difícil para ela.”
Como ministro da Fazenda, Fernando Henrique ganhou notoriedade nacional ao criar, no combate à
inflação, a Unidade Real de Valor, a urv, junto com o Cruzeiro Real, nova designação da moeda
brasileira, logo depois transformada simplesmente em Real. Estabilizava-se o Brasil sem planos,
congelamentos e outras medidas de choque que, até então, tinham fracassado. A implantação do Real foi
uma dura luta no Congresso. Lula e o pt bateram-se fortemente contra o plano. O Real conferiu a fhc uma
celebridade popular que consolidou seu nome como o candidato natural do psdb à Presidência da
República.
“Aqui começou outra história”, diz ele. “Essa candidatura foi, a princípio, uma coisa que ninguém lá
em casa quis, ninguém teve essa aspiração, nem Ruth nem os filhos. Quanto a mim, era ambíguo, por que é que eu queria? Eu queria efetivar o Plano Real, não é? Buscava a estabilização. Quando deixei o
Ministério e vim para São Paulo, em maio de 1994, confessei a minha família: ‘Não vai dar, vou
desistir’, porque eu não subia nas pesquisas, estava parado! Eles entenderam a candidatura, conheciam a
lógica da política. Não tinham grande entusiasmo e conviviam com uma ponta de esperança de que eu não
ganhasse, mas entenderam. Mas aí eu disse: ‘Vou desistir, porque não dá’. Não ganhava apoios, não havia
dinheiro. Mas com o Plano Real a situação mudou, de repente comecei a subir, a crescer. A tal ponto que
logo tivemos certeza de que ganharia no primeiro turno, direto.”
Uma noite, voltando de um concerto no Cultura Artística, Ruth, que dirigia, passou pela casa de
Lourdes Sola e acabou subindo, parecia ansiosa para conversar.
— Quer um chá? — perguntou Lourdes.
Ela consultou o relógio.
— Meia-noite! Mas vou tomar o seu chá.
— Você não está bem! O que te preocupa? O que há?
— Lourdes, se o Fernando Henrique ganhar essa eleição, não sei o que vou fazer da minha vida. Não
sei o que vou ficar fazendo.
— Não me preocupa a mínima isso.
— Como? Não estou dizendo que passo pela maior angústia?
— Ruth, tenho a seguinte teoria. As pessoas vitais, muito vitais, colocadas em situações novas,
inventam o que fazer. Vejo por mim, certa época, exilada, me separando, deprimida e consegui inventar
algo a fazer. Você e o Fernando Henrique...
— Mas o Fernando Henrique terá o que fazer, e muito!
— Ruth, eu te conheço. Você vai inventar. Não vai ficar parada, você é vital demais.
Ela ficou olhando para Lourdes, sorvendo o chá, um sorriso aflorou, baixou a angústia.
Para José Arthur Giannotti, ela confessou: “Se for possível, não vou para Brasília. Não vou, não.
Vou dar um jeito de cumprir minhas funções oficiais, mas não quero deixar meus alunos”. Assim, acentua
Giannotti, “ela não queria largar essa vida de professora, tinha enorme contato e carinho pelos alunos
dela”.
Bia Cardoso admite que foi um momento difícil para sua mãe, porque a candidatura virou realidade,
a Presidência também, “e ela não navegava bem nessa parte. A Presidência, toda a exposição, a vida
nova que viria pela frente. Ela era muito da casa, gostava do cotidiano, vivia bem nessa dimensão, então
no começo foi sufocante, depois ela administrou bem, conciliou as coisas. Conciliou principalmente com
a vida pessoal, nunca perdemos nada de nossa vida privada, familiar, preservamos nossa intimidade, ela
e papai conseguiram equacionar bem a situação, mas houve um período que foi um susto, ela não achava
a menor graça”.
Reações isoladas para amigos chegados, familiares. Porque uma das marcas mais fortes de Ruth foi
a reserva. Calada quanto aos próprios problemas, ansiedades. “Ela se abria pouco”, comenta Regina
Meyer, “esperava mais que a gente deduzisse do que a gente soubesse. Ela imaginava que entendêssemos
seus subentendidos, silêncios. Ruth viveu momentos muito difíceis, em que estávamos juntas sem falar,
ela sabendo que havia em mim um caldo de conhecimento daquilo em que ela estava mergulhada. Aqui e
ali afloravam algumas coisas. Não era amiga dessas de contar no detalhe uma intimidade. Nunca deixava ultrapassar certos limites. Eu acompanhava, via às vezes que ela não estava bem, mas nunca tivemos
conversas assim de rasgar, abrir a alma literalmente. Não era o perfil da Ruth.”
“Por outro lado, era ótima ouvinte e conselheira”, diz Gilda Portugal Gouvêa. “Eu contava tudo a
ela, problemas com minha filha, com o ex-
-marido, com namorado. No entanto, sobre ela, Ruth não abria a boca, não contava nem do passado, nem
nada. Falava dos filhos, sim, comentava o jeito de cada um, problemas, afetos, era mãe em tempo
integral. Quando o Fernando Henrique entrou na campanha, para ela foi traumático, viu que teria de abrir
mão de alguma coisa, seria obrigada a fazer escolhas. Ela passava a ser um personagem novo e essa
mudança não estava em suas mãos. Quando me disse, cheia de convicção, ‘Não vou morar em Brasília’,
quase caí de costas e pensei: meu Deus, e agora? Desde que veio estudar em colégio interno em São
Paulo, ela estava predeterminada a ter uma vida com certo perfil. Quis sempre ter o trabalho dela e lutou
muito por isso. Não conseguia imaginar que iria ocupar um cargo que dependia inteiramente do papel
ocupado pelo marido.”
Muitas pessoas chegavam até Ruth dizendo: “Não fique se martirizando, acalme-se, Fernando
Henrique jamais será eleito, ele é ruim de campanha, de palanque, professoral demais”. Outros iam mais
longe: “Imagine se vai ter um voto no Nordeste!”.
Até então, na história da República, o que era a primeira-dama além de uma figura decorativa? Uma
mulher vista na companhia do marido em recepções, banquetes, homenagens, palanques oficiais,
coquetéis, almoços. Uma pessoa sem o mínimo poder de decisão. Apavorava-a que lhe dessem um script,
o que dizer, o que declarar, o que fazer, aonde ir. Gilda Portugal Gouvêa, quando da campanha para a
prefeitura em 1985, viveu ao lado de Ruth um momento inesquecível e que a explica bem. A certa altura,
por necessidades de campanha, negociações políticas, agrado ao eleitorado, Ruth teve de ir a uma
reunião de senhoras no Clube Pinheiros. Era uma reunião ligada a assistência social e uma falava do
clube do tricô, outra do chá beneficente, e assim por diante. Ruth, calada. Ao entrar disse boa-
-tarde, ao sair, até-logo. Foi tudo. Gilda, numa saia justa, tentava explicar que Ruth era assim mesmo, que
só ouvia, registrava tudo, processava, e viria depois com soluções e ideias. A reunião acabou por falta
de energia, as mulheres se dispersaram, Gilda e Ruth desciam pela escada no escuro.
Então Gilda ouviu dela: “Se eu fosse abrir a boca, acabava com aquelas mulheres. Preferi ficar calada!”.
Ruth cochichou um dia para Gilda Portugal Gouvêa que sairia do Brasil, iria para Stanford passar
um tempo, quando voltasse a eleição já teria acabado, Fernando Henrique estaria eleito ou derrotado. A
campanha começou, eles a chamavam, e ela avisava “não posso”, “tenho uma banca”, “um trabalho”, “um
aluno”. A imprensa querendo entrevistas, fotografias, e ela se esquivando — estava ficando cada vez
mais delicada a situação. Sergio Motta não se conteve e ligou para Gilda: “Você precisa entrar no
circuito, conversar com a Ruth, não dá mais, está criando um problemão, ela precisa definir, como fez em
outras campanhas, um nicho, dizer o que quer fazer, com o que quer trabalhar, com quem. Ela precisa de
um assessor, não dá para sair na rua sozinha, como vem fazendo, uma hora vai topar com um jornalista
que vai fazer uma pergunta torta, ela vai responder mais torto, a coisa vai para a televisão, para os
jornais, está formado o quiproquó”.
Gilda convidou Ruth para um almoço no centro da cidade, no restaurante Dinho’s da rua Vieira de
Carvalho.
— Ruth, não dá mais, você vai precisar de alguém que te acompanhe.
— Acompanhar para quê? Alguém colado em mim?
— Uma pessoa para fazer e controlar a sua agenda, há coisas para você fazer, coisas a dizer.
— Não sei se quero.
— Então o melhor é você ir para Stanford, ficar por lá uns meses, volte em setembro ou outubro, a
campanha já estará no auge. O que não dá é você ir aqui, ir ali, esporadicamente, quando te dá na cabeça.
Um dia vai, no outro não. Nunca se sabe se podemos contar com você.
— Assessora... Não, não quero... Bem, quem podia ser?
— Bibia, filha do José Gregori.
— Não, Bibia não vai aceitar, tem sua carreira, acha que vai se dedicar a uma bobagem dessas?
Por meio de Iara Prado chegou-se ao nome de Márcia Ferreira. Professora de Minas Gerais, diretora
de escola já aposentada, Ruth a prezava muito — tinham feito viagens juntas e as duas tinham a mesma
paixão em descobrir as tecedeiras, as bordadeiras, as mulheres que faziam tricô e crochê, as habilidosas
em ponto de cruz. Márcia tinha trabalhado com o grupo durante o governo Montoro e Ruth a escolheu,
justificando: “Gosto dela, porque não sabe distinguir quem é o jornalista importante do outro, para ela
serão todos iguais, o meu interesse é que vai estar à frente, não a pressão deles. Não será alguém grudado
em mim, invadindo a minha casa”. Márcia retrucou: “Está doida, Ruth? Não entendo nada, sou uma
caipira, nunca fiz política”.
Pouco depois, Ruth dizia dela: “A Márcia é fantástica”. Márcia realmente organizou a vida dela,
tudo passou a ser mais tranquilo — não havia jornalistas à espera quando saía do apartamento, ninguém a
segui-la nas ruas. Ela também não atendia mais a nenhum telefonema. Aceitou até que Márcia fosse à casa
dela para montar a agenda. A campanha pressionava, precisavam de eventos, e um dos primeiros foi em
Araraquara, no dia 10 de setembro de 1994. Centenas de pessoas a esperavam no Hotel Eldorado. Para
ela foi um encadeado de emoções, principalmente porque era a primeira vez que Ruth vinha à cidade sem
a família, o pai e a mãe tinham morrido há muito. Na mesa, ao seu lado, estavam a amiga de infância
Inaiá Bittencourt, o empresário Ivo Dal’Acqua, um dos organizadores e amigo da família Cerqueira Leite,
Luiz Felipe Cabral Mauro, reitor da Uniara, onde a mãe dela, Mariquita, trabalhou por anos e se
aposentou, e Roberto Ramalho, diretor do campus da Unesp, que organizou um encontro com os
professores na Casa de Cultura Luiz Antonio Martinez Corrêa (homenagem ao irmão de José Celso, do
Teatro Oficina). O almoço aconteceu no Clube 22 de Agosto, um dos tradicionais da classe média
araraquarense. Ali Ruth, depois da missa das dez na matriz, ia para a domingueira, seguindo para casa
para fazer a sobremesa do almoço. Na plateia, entre outros, Heloisa e Eduardo Michetti, Renato Corrêa
Rocha, o segundo namorado na juventude, José Edgar Machado, o Zé Baiano, da Turma da Banheira, e
Biluca, sua mulher, o professor Joaquim Pinto Machado, conhecido como Machadinho, de quem
Mariquita foi assistente no Colégio Estadual, a professora Edite Guião, instituição da cidade, e Ernesto
Lia, pintor que documentou várias fases de Araraquara e amigo da casa dos Corrêa Leite. Ele presenteou
Ruth com um quadro. A saudação, em nome das mulheres de Araraquara, foi feita por uma amiga íntima,
Maria Alice Lia Tedde, professora de português e latim.
Depois do encontro com os professores na Casa de Cultura, Ruth foi mostrar a Iara a casa da avenida
Quinze de Novembro, e foi surpreendida com uma recepção repleta de sorvetes. A cidade é famosa pelas sorveterias, todas em mãos de japoneses há décadas. Uma das parentes de Ruth, Celisa Troncon,
[104]sabendo da chegada de Ruth, foi à tradicionalíssima Nosso Sorvete, na avenida São Paulo, onde
todos tomavam sua taças depois das sessões de cinema aos sábados e domingos. Diz-se que o sorveteiro
Eichim Uesato, ao saber que era sorvete para uma comitiva, a princípio relutou, era muita coisa — tudo
feito à mão, com a pá de madeira, batendo as claras e misturando os ingredientes de suas duas maiores
especialidades: creme suíço e creme de limão. Mas, ao saber que era para Ruth Cardoso, passou toda a
manhã, muito orgulhoso, batendo o sorvete, e foi entregá-lo pessoalmente na avenida Quinze.[105]
Outro evento foi numa creche de periferia, Campo Limpo, mantida por Amélia Watanabe. Toda a
imprensa compareceu, controlada por Márcia Ferreira. Houve ainda um terceiro momento da campanha
que ficou célebre por uma fotografia, reproduzida em todo o país. A imprensa fugiu ao controle e Ruth,
que não era de beliscar e assoprar, incomodada, teve um gesto tipicamente araraquarense: voltou-se para
os fotógrafos e mostrou a língua.
As eleições se aproximavam, Fernando Henrique continuava subindo nas pesquisas. O pessoal da
campanha começou a ter a certeza da vitória quando apareceram nas ruas cédulas pintadas de verde com
as pessoas exclamando: “Que dólar, que nada, temos o Real”. Na antevéspera das eleições, no Rio de
Janeiro, Dalva e Fernando Gasparian, amigos muito chegados de fhc, deram um jantar ao qual estiveram
presentes Fernando Pedreira, a esta altura com sua nova mulher, Monique, Celso Furtado, Lucia e
Luciano Martins, Maria Helena e José Gregori. Fernando Henrique estava no auge da tensão, Ruth
mostrava-se calma. José, na despedida, disse:
— Vamos ver vocês no dia de eleição e no dia seguinte embarcamos para os Estados Unidos.
— Como? E o segundo turno?
— Fernando, não vai haver segundo.
No dia da eleição, Ruth e Fernando Henrique votaram e, em sigilo, seguiram para a Fazenda Bela
Vista, em Pardinho, de propriedade de Jovelino Mineiro e sua mulher, Maria do Carmo Sodré. “Nossos
filhos, genros, nora e netos foram todos para lá. Paulo Henrique, o mais velho, à época casado com Ana
Lúcia Magalhães Pinto, e as filhas gêmeas, Joana e Helena; Luciana, grávida da filha Isabel, mais o
marido, Getúlio Vaz; e Beatriz, a Bia, com o então seu marido, David Zylbersztajn,[106]e os filhos Júlia
e Pedro. Apenas nós, e os anfitriões com o filho, Bento, assistimos num grande aparelho de tv aos
resultados da apuração. Não tardou para minha dúvida íntima se dissipar, e ficou claro que, sim, vencia
no primeiro turno. [...] Dois dias depois, a Globo descobriu que estávamos lá. Começou uma revoada de
helicópteros da imprensa, com muita movimentação, e decidimos regressar a São Paulo”.[107]
Ruth, recém-aposentada da usp, teve certeza de que sua vida estava mudando radicalmente naqueles
dias.