Se me pudesses ver agora
Capítulo 9
—Poppy, chamaste-me? —perguntou Elizabeth um momento depois desde atrás do montão de amostras de tapetes empilhados em seu escritório.
—A resposta volta a ser não —disse a voz enfastiada do Poppy. E, por favor, procura não me distrair enquanto estou encarregando dois mil botes de pintura magnólia para projetos futuros.
Possivelmente deveríamos ser previsoras e planejar as compras dos próximos vinte anos — resmungou para si, e ato seguido resmungou em voz mais alta para que a ouvisse Elizabeth—, pois nada indica que vamos trocar nossas idéias em um futuro imediato.
—Vale, vale. —Elizabeth sorriu dando-se por vencida. Pode encarregar outra cor também.
Poppy por pouco cai da cadeira de tanto entusiasmo.
—Encarrega também uns quantos centenas de botes de beis, já que está nisso. chama-se «Cevada».
—Ja, ja —disse Poppy secamente.
Ivan arqueou as sobrancelhas olhando a Elizabeth.
—Elizabeth, Elizabeth —cantarolou—, acaba de fazer uma piada? Parece-me que sim.
Olhou-a fixamente com os cotovelos apoiados no escritório. Suspirou e as mechas do cabelo da Elizabeth voltaram a revoar.
Elizabeth ficou paralisada, olhou a esquerda e direita com receio e seguiu trabalhando.
—OH, vêem como me trata? —disse Ivan histriónicamente levando a mão à frente e fingindo que se desvanecia sobre uma poltrona de couro negro que havia em um rincão. É como se nem sequer estivesse aqui —declarou. Pôs os pés em cima do assento e olhou ao teto. Isto não é como estar no despacho de um diretor de colégio, é como estar na consulta de um loquero. —Fixou a vista nas gretas do teto e falou com acento americano. Verá, doutor, tudo começou quando Elizabeth decidiu não me ter em conta —disse levantando a voz. Fez que sentisse que ninguém me queria, que me sentisse terrivelmente sozinho. Como se não existisse. Como se não fosse nada —exagerou. Minha vida é um desastre. —Fingiu chorar. Tudo é culpa da Elizabeth. —interrompeu-se e a contemplou um momento enquanto ela combinava tapetes com tecidos e cartas de cores, e quando voltou a falar o fez recuperando seu tom normal e disse em voz baixa—: Mas é culpa dela que não possa lombriga porque lhe dá muito medo acreditar. Não é certo, Elizabeth?
—O que? —gritou Elizabeth outra vez.
—O que quer dizer com «o que»? —respondeu a gritos uma irritada Poppy. Eu não hei dito nada!
—Chamaste-me.
—Não, não te chamei, está ouvindo vozes outra vez. E, por favor, deixa já de cantarolar essa maldita canção! —chiou Poppy.
—Que canção? —Elizabeth franziu o cenho.
—Essa que leva cantarolando toda a Santa amanhã. Está-me voltando louca.
—Muito obrigado! —interveio Ivan levantando-se e fazendo uma exagerada reverência antes de desabar seu corpo outra vez sobre a poltrona— Essa canção me inventei isso eu. Morre de inveja, Andrew Lloyd Webber.
Elizabeth seguiu trabalhando. ficou a cantarolar de novo e se interrompeu imediatamente.
—Sabe uma coisa, Poppy? —gritou Ivan à outra habitação. Parece que Elizabeth pode me ouvir. —Entrelaçou as mãos em cima do peito e fez girar os polegares. Me parece que pode me ouvir muito bem. Não é certo, Elizabeth?
—Santo céu! —Elizabeth deixou cair as amostras em cima do escritório. Becca, é você quem está dizendo meu nome?
—Não —respondeu Becca com voz apenas audível.
Elizabeth se ruborizou com expressão atarraxada, envergonhada de parecer tola diante de suas empregadas. Com a intenção de fazer valer de novo sua autoridade, levantou a voz severamente.
—Becca, pode ir me buscar um café ao Joe's?
—OH, por certo —cantarolou Ivan passando-o em grande—, não esqueça lhe dizer que se leve uns desses tigelas. Joe o agradecerá.
—OH —Elizabeth estalou os dedos como se acabasse de recordar algo— aproveita para te levar uns destes tigelas contigo. —Tendeu a Becca um tigela de café. Acredito que Joe —fez uma pausa e se mostrou confundida— o agradecerá.
—Vá, está claro que pode me ouvir —riu Ivan. Só é que se nega a admiti-lo. Essa imperiosa mentalidade que tem não o permitirá. Tudo é branco ou negro para ela. —E em seguida adicionou —: Ou beis. Mas vou arejar um pouco as coisas por aqui e nos vamos divertir. Tem-no feito alguma vez, Elizabeth? Divertiste-te?
Seus olhos dançaram peraltas. Baixou as pernas da poltrona e se levantou de um salto. sentou-se no bordo do escritório da Elizabeth e olhou as páginas impressas de informação online sobre amigos imaginários. Estalou a língua em sinal de desaprovação e negou com a cabeça.
—Não me diga que te tragaste toda essa gíria, Lizzie. Posso te chamar Lizzie?
Elizabeth enrugou o semblante.
—Vá —disse Ivan com ternura—, você não gosta que lhe chamem Lizzie, verdade?
Elizabeth pigarreou.
Ivan se tombou no escritório em cima das amostras de tapetes e apoiou a cabeça em uma mão.
—Bom, tenho notícias para ti. —Baixou a voz até um sussurro. Sou real. E não penso partir até que abra bem os olhos e me veja.
Elizabeth deixou de toquetear as cartas de pintura e levantou os olhos lentamente. Percorreu o despacho com a vista e logo ficou olhando fixamente à frente. Por alguma razão se sentia acalmada, mais acalmada do que tinha estado em muito tempo. Estava em transe, olhando ao vazio mas incapaz de pestanejar ou apartar a vista, sentindo-se imersa em uma cálida segurança.
De repente a porta do despacho se abriu de repente, tão depressa e bruscamente que o trinco se estrelou contra a parede. Elizabeth e Ivan se levaram um bom susto.
—Uuuuuy, minhas desculpas por interromper aos tortolitos —riu socarronamente Saoirse da porta.
Ivan saltou do escritório.
Elizabeth, perplexa, começou a ordenar o escritório em seguida, um ato reflito natural nela ante o pânico da inesperada aparição de sua irmã menor. alisou-se a jaqueta e se aparou o cabelo.
—Deixa, deixa, por mim não te incomode em ordenar. —Saoirse fez um gesto desdenhoso com a mão sem deixar de mascar chiclete a toda velocidade. se preocupa muito por tudo, sabe? Baixa suas revoluções. —Seus olhos foram de cima abaixo ao examinar com receio o espaço ao lado do escritório da Elizabeth. Não pensa me apresentar?
Elizabeth olhou a sua irmã entrecerrando os olhos. Saoirse a punha nervosa com seu comportamento neurótico e suas esporádicas rabietas. Com álcool ou sem ele, Saoirse sempre tinha sido igual: difícil. Em realidade Elizabeth quase nunca tinha sabor de ciência certa se estava bebida ou sóbria. Saoirse não se encontrou a si mesmo; não tinha crescido desenvolvendo uma personalidade e portanto não tinha averiguado quem era, o que queria, o que a fazia feliz nem aonde esperava chegar na vida. Seguia sem sabê-lo. Era uma mistura de personalidades que não tinha tido ocasião de desenvolver-se. Elizabeth se perguntava como seria sua irmã se alguma vez conseguisse deixar de beber, embora muito se temia que isso só suporia eliminar um problema de uma lista muito larga.
Era do mais incomum que Elizabeth conseguisse estar a sós com o Saoirse em uma habitação para falar com ela; pelo general se sentia como uma menina só em pleno campo tratando de apanhar uma mariposa com um pote de cristal. As mariposas eram muito bonitas, iluminavam uma habitação, mas nunca repousavam suficiente tempo em um mesmo sítio para deixar-se apanhar. Elizabeth lhe dava caça sem trégua e, nas estranhas ocasiões em que conseguia apanhar a sua irmã, Saoirse não parava de bater as asas presa do pânico, desejosa de escapar.
Quando estava em companhia do Saoirse se esforçava por ser pormenorizada, por tratá-la com a compaixão e a empatia que merecia. O tinham explicado tudo quando procurou ajuda profissional.
Desejava conselho de tantas fontes como fosse possível para estar em condições de ajudar a sua irmã. Precisava saber as esquivas palavras mágicas que devia dizer ao Saoirse as contadas vezes em que ia visitá-la. De modo que embora Saoirse maltratasse a Elizabeth, esta seguia lhe brindando apóio e compreensão porque temia perdê-la para sempre, temia que ainda a afastasse mais a espiral de descontrol em que estava sumida. Além disso, considerava seu dever velar por ela. Embora sobre tudo era porque estava cansada de ver como escapavam de sua vida todas as formosas mariposas.
—te apresentar a quem? —respondeu Elizabeth amavelmente.
—Venha, corta já com esse tom condescendente. Se não querer me apresentar não passa nada.
—sentou-se e se voltou para a cadeira vazia. Se envergonha de mim, sabe? Acredita que faço ficar mal seu «bom nome». Já sabe quanto gostam de falar com os vizinhos —riu amargamente. Ou possivelmente tenha medo de que afugente a ti. Foi o que aconteceu o outro, sabe? O muito...
—Já basta, Saoirse —cortou Elizabeth interrompendo sua atuação. Ouça, alegra-me que te tenha deixado cair por aqui porque queria falar contigo.
Saoirse agitava acima e abaixo um joelho e mascava o chiclete com fúria.
—Colm me devolveu o carro na sexta-feira e me disse que lhe tinham detido. Isto é sério, Saoirse. Deve ter supremo cuidado entre agora e a celebração da vista. Será dentro de umas poucas semanas e se fizer algo... mais, bom, afetará a sua sentença.
Saoirse pôs os olhos em branco.
—te acalme, Elizabeth! O que vão fazer? me encerrar durante anos por ter conduzido dois minutos o carro de minha própria irmã? Não podem me retirar o carnê porque não tenho e se me impedirem que me tire isso me importa um nada porque não o quero para nada. Quão único farão será me agüentar umas quantas semanas de algum trabalho de mierda para a comunidade, certamente ajudando a umas quantas anciãs a cruzar a rua ou algo pelo estilo. Não será nada.
Fez um globo de chiclete que explorou em seus lábios gretados. Elizabeth abriu os olhos, incrédula.
—Saoirse, não tomou emprestado meu carro. Agarrou-o sem permissão e não tem carnê. Venha — lhe quebrou a voz—, não é idiota, sabe de sobra que isso está mau.
Elizabeth fez uma pausa e procurou recuperar a compostura. Esta vez conseguiria fazê-la entrar em razão. Mas, embora se repetisse a mesma situação cada vez, Saoirse seguia negando-a.
Elizabeth tragou saliva.
—Olhe —disse Saoirse zangando-se—, tenho vinte e dois anos e estou fazendo quão mesmo todas as pessoas de minha idade: sair e passá-lo bem. —Seu tom se fez desagradável. Que você não tenha tido vida própria a minha idade não significa que eu não possa tê-la.
Suas asas se agitavam alocadamente como se estivesse apanhada em um pote e começasse a lhe faltar o ar.
«Isso foi porque estava ocupada te criando a ti», pensou Elizabeth zangada. E para cúmulo de desditas saltava à vista que o tinha feito muito mal.
—vais ficar te aí sentado escutando toda nossa conversação ou o que? —soltou grosseiramente Saoirse à poltrona.
Elizabeth franziu o cenho e pigarreou.
—E o que passa com o que disse Paddy? Que você pense que não fez nada mau não tem a menor importância. Os gardaí pensam que sim o fez.
Saoirse seguiu mascando chiclete e fulminou a sua irmã com seus frios olhos azuis.
—Paddy é um negado, não dá pé com bola. Faltam-lhe motivos para me acusar de nada. A não ser que passá-lo bem de repente seja ilegal.
Bato as asas, bato as asas.
—Por favor, Saoirse —disse Elizabeth em voz baixa—, me escute, quer? Esta vez vão a sério.
Você só... afrouxa um pouco com o, né, com a bebida, vale?
—Ora, agora não me venha com essas. —Saoirse torceu o gesto. Curta o cilindro, hermanita, estou farta de te escutar. —levantou-se. Não tenho nenhum problema com a bebida. É você quem tem um problema ao pensar que é puñeteramente perfeita e ao te acreditar dona perfeita. —Abriu a porta e gritou para que todo mundo a ouvisse. Ah, e quanto a ti —assinalou a poltrona com o queixo—, não acredito que vás durar muito. Ao final todos partem, não é certo, Lizzie?
Pronunciou o diminutivo como se cuspisse. Nos olhos da Elizabeth brilhavam lágrimas de raiva.
Saoirse deu uma portada ensurdecedora a suas costas. Tinha conseguido abrir a tampa do pote e era livre de voar aonde lhe viesse em vontade outra vez. O ruído da portada estremeceu todo o corpo da Elizabeth. O despacho ficou tão silencioso que até a mosca que tinha estado zumbindo por aí se deteve e se posou no interruptor da luz. Um momento depois chamaram baixinho à porta.
—O que? —espetou Elizabeth.
—Sou eu, Becca —foi a débil resposta. Te trago o café.
Elizabeth se alisou o cabelo e se secou os olhos.
—Adiante.
Quando Becca saiu do despacho Elizabeth viu que Saoirse retornava com passo decidido.
—Por certo, me esqueceu te pedir um empréstimo de uns quantos perus.
Sua voz era mais amável. Sempre o era quando queria algo. A Elizabeth caiu a alma aos pés.
—Quanto?
Saoirse se encolheu de ombros.
—Cinqüenta.
Elizabeth rebuscou em sua bolsa.
—Segue vivendo na mesma pensão?
Saoirse assentiu com a cabeça.
Elizabeth tirou cinqüenta euros e esperou antes de dar-lhe —¿Para qué son?
—Para que são?
—Drogas, Elizabeth, montões de drogas —respondeu Saoirse com descaramento.
Elizabeth deixou cair os ombros.
—Só queria dizer...
—Provisões. Já sabe: pão, leite, papel higiênico. Essa classe de coisas. —De um zarpazo alcançou o bilhete novo da mão da Elizabeth. Não todos nos limpamos o culo com seda, inteirada.
Agarrou uma amostra de tecido do escritório e a atirou à cara. A porta se fechou de repente a suas costas e Elizabeth ficou plantada no meio do despacho observando como a parte de seda negra caía flutuando sem esforço até o tapete branco. Sabia o que se sentia ao cair.