Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 19 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 18

 

Engano número um: ir à reunião da Elizabeth. Eu não teria que havê-lo feito. É a mesma regra que nos prohíbe entrar no colégio com nossos amigos mais jovens e deveria ter tido o suficiente sentido comum para me dar conta de que a escola do Luke é o equivalente do lugar de trabalho da Elizabeth. Me teria dado de patadas. De fato, fiz-o, mas Luke o encontrou tão divertido que começou a fazer o mesmo e agora tem ambas as acne machucadas. De modo que parei.

Quando me parti da reunião fui a casa do Sam, onde cuidavam do Luke. Sentei-me na erva no jardim traseiro sem perder os de vista enquanto lutavam, esperando que o combate não acabasse em lágrimas e praticando meu esporte mental favorito: pensar.

Além disso resultou ser uma atividade construtiva, já que me fez ver umas quantas coisas. Uma das coisas que aprendi foi que tinha ido à reunião pela manhã obedecendo a um impulso visceral. Embora não acertava a compreender como minha presença ali poderia ajudar a Elizabeth, meu instinto me dizia que tinha que ir e dava por sentado que Elizabeth não me veria. Meu encontro com ela a noite anterior tinha sido tão irreal e inesperado que comecei o dia com a sensação de havê-lo imaginado. E sim, sou consciente do irônico do caso.

Pô-me muito contente que me visse. Quando a vi balançando-se tão ensimismada no balancim do jardim soube que se alguma vez ia ver-me aquele seria o momento. respirava-se no ar. Constava-me que necessitava lombriga e me tinha preparado para o fato de que um bom dia ocorreria, mas para o que não estava preparado era para o estremecimento que me percorreu a coluna vertebral a primeira vez que olhamos aos olhos. Foi estranho, porque tinha passado os últimos quatro dias observando a Elizabeth e me tinha acostumado a sua cara, me sabia como a palma de minha mão, podia vê-la claramente até com os olhos fechados, sabia que tinha um lunar minúsculo na têmpora esquerda, um maçã do rosto ligeiramente mais alto que o outro, o lábio inferior mais grosso que o superior e um delicado penugem como de bebê no nascimento do cabelo. Conhecia-a muito bem, mas não é estranho como troca a gente quando a miras aos olhos? De repente parece que sejam outras pessoas. Por isso a mim respeita, considero verdadeiro o dito de que os olhos são as janelas da alma.

Nunca tinha experiente aquela sensação até então, mas o atribuí a não me haver encontrado antes nessa situação. Jamais tinha travado amizade com alguém da idade da Elizabeth e supus que era culpa dos nervos. Para mim era uma experiência nova, embora estive disposto a aceitar a provocação imediatamente.

Há duas coisas que estranha vez me acontecem. A primeira é estar confundido e a segunda preocupado, mas enquanto aguardava no jardim traseiro de casa do Sam aquela manhã ensolarada estava preocupado. E isso me confundia e como estava confundido, ainda me preocupava mais. Esperava não ter causado problemas a Elizabeth no trabalho, embora aquela mesma tarde, enquanto o sol e eu jogávamos esconderijo, não demorei para averiguá-lo.

O sol tentava ocultar-se detrás da casa do Sam me cobrindo com um manto de sombra. Eu ia deslocando pelo jardim, me sentando nos últimos espaços ensolarados antes de que desaparecessem por completo. A mamãe do Sam se estava dando um banho depois de ter realizado um turno de exercícios ginásticos com ajuda de um vídeo, coisa que tinha resultado enormemente entretida, de modo que quando soou o timbre da porta foi Sam quem se encarregou de abrir. Tinha estritas instruções de não abrir a ninguém exceto a Elizabeth.

—Olá, Sam —ouvi que ela dizia ao entrar no vestíbulo—. Está em casa seu papai?

—Não —respondeu Sam—. Está no trabalho. Luke e eu estamos jogando no jardim.

Ouvi passos que se aproximavam, o ruído de uns saltos sobre o parquet e logo uma voz zangada quando Elizabeth saiu ao jardim.

—Vá, de maneira que está no trabalho, né? —disse Elizabeth plantada no alto da grama com os braços em jarras e baixando a vista para mim.

—Sim, isso é —disse Sam, confundido, e se foi correndo a jogar com o Luke.

Havia algo tão atrativo na Elizabeth com aquele ar autoritário que me fez sorrir.

—Passa um pouco divertido, Ivan?

—Um montão de coisas —respondi me sentando na única parte de grama que ainda banhava o sol. Suponho que ganhei a partida de esconderijo—. Gente salpicada por carros que pisam em atoleiros, que lhe façam cócegas justo aqui —me assinalei o flanco—, Chris Rock, Eddie Murphy no Superdetective em Hollywood II Y...

—O que está dizendo? —perguntou Elizabeth com o cenho franzido aproximando-se de mim.

—Coisas que são divertidas.

—O que está fazendo?

aproximou-se um pouco mais.

—Intento recordar como se faz uma cadeneta de margaridas. a do Opal era muito bonita — levantei a vista para ela—. Opal é minha chefa e levava uma no cabelo —expliquei—. A erva está seca se gosta de te sentar.

Segui arrancando margaridas do chão.

Elizabeth demorou um pouco em acomodar-se na grama. Parecia incômoda e fazia caretas como se estivesse sentada em cima de alfinetes. Depois de tirar um penugem invisível das calças e tratar de sentar-se em cima das mãos para que o traseiro não lhe manchasse de erva voltou a me fulminar com o olhar.

—Ocorre algo, Elizabeth? Algo me diz que sim.

—Muito perspicaz por sua parte.

—Obrigado. É parte de meu trabalho, mas mesmo assim te agradeço o completo.—Notei seu sarcasmo.

—Tenho que ajustar contas contigo, Ivan —disse.

—Espero que sejam divertidas. —Atei um caule com o seguinte—. te Haja aqui outra coisa divertida: as piadas macabras. Doem mas também lhe fazem rir. Como tantas coisas na vida, suponho, ou inclusive a própria vida. A vida é uma tragicomédia.

Elizabeth me olhou confundida.

—Ivan, vim a te cantar as quarenta. Falarei-te com o coração. Hoje conversei com o Benjamin depois de que te partisse e me há dito que foi sócio da empresa. Também me acusou que outra coisa, mas prefiro não recordá-lo sequer —disse jogando faíscas.

—vieste a me cantar as quarenta —repeti olhando-a—. Essa frase é realmente bonita. Não te ouvi cantar alguma vez, sabe? E além disso, há dito que me fala com o coração. Só se fala assim com alguém de sua confiança. De modo que... obrigado, Elizabeth. Sinto-me muito adulado. Isso significa que te caio bem. —Fiz uma laçada com o último caule e formei uma cadeneta—. Te darei uma cadeneta de margaridas em troca de sua confiança.

Pu-lhe o bracelete. Elizabeth ficou sentada na erva. Não se moveu, não disse nada, simplesmente olhou seu cadeneta de margaridas. Logo sorriu e quando falou sua voz foi mais doce.

—Alguma vez alguém conseguiu estar zangado contigo durante mais de cinco minutos?

Olhei o relógio.

—Sim. Você, das dez desta manhã até agora.

Elizabeth riu.

—por que não me disse que trabalha com o Vincent Taylor?

—Porque não trabalho com ele.

—Mas se Benjamin me há dito que sim.

—Quem é Benjamin?

—O diretor do projeto. Há-me dito que foi um sócio silencioso.

Sorri.

—Suponho que o sou. Estava sendo irônico, Elizabeth. Não tenho nada que ver com a empresa. Sou tão silencioso que não digo nada de nada.

—Bom, esse é um aspecto teu que não tive ocasião de conhecer —sorriu—. De modo que não participa ativamente neste projeto?

—Trabalho com pessoas, Elizabeth, não com edifícios.

—De acordo. Pois que diabos quis dizer Benjamin West? —Estava perplexa—. É um tipo estranho, esse Benjamin West. De que negócio estava falando com o Vincent? O que têm que ver os meninos com o hotel?

—É muito entremetida —comentei rendo—. Vincent Taylor e eu não estávamos falando de nenhum negócio. De todos os modos é uma boa pergunta. O que você crie que os meninos deveriam ter que ver com o hotel?

—Absolutamente nada —replicou Elizabeth rendo a sua vez, e logo se calou de repente temendo me haver ofendido—. Em sua opinião o hotel deveria ter em conta aos meninos.

Sorri.

—Não opina que tudo e todos deveríamos ter em conta aos meninos?

—Me ocorrem umas quantas exceções —disse Elizabeth com acuidade dirigindo o olhar para o Luke.

Entendi que estava pensando no Saoirse e em seu pai, pode que inclusive em si mesmo.

—Amanhã falarei com o Vincent sobre um possível quarto de jogar ou uma zona de jogos... — calou-se—. Nunca desenhei um quarto para os meninos. Que diabos desejam os meninos?

—Te ocorrerá facilmente, Elizabeth. Uma vez foi menina. O que desejava então?

Seus olhos castanhos se escureceram e apartou a vista.

—Agora tudo é distinto. Os meninos não desejam o que eu desejava então. Os tempos trocam.

—Tampouco tanto. Os meninos sempre desejam o mesmo, porque todos necessitam as mesmas coisas básicas.

—Como o que?

—Bom, por que não me diz o que você desejava e deixa que te diga se eles desejarem as mesmas coisas?

Elizabeth riu um pouco.

—Sempre está jogando, Ivan?

—Sempre. —Sorri—. Conta me.

Estudou-me os olhos batalhando consigo mesma sobre se falar ou não e ao cabo de uns instantes suspirou.

—Quando era menina, minha mãe e eu nos sentávamos à mesa da cozinha cada sábado de noite com nossos lápis de cores e papel e escrevíamos um plano do que faríamos ao dia seguinte. —Suas apreciados lembranças lhe faziam brilhar os olhos—. Cada sábado de noite me entusiasmava tanto pensando em como passaríamos o dia seguinte que pendurava o programa com tachinhas na parede de meu dormitório e me obrigava a dormir para que a manhã chegasse quanto antes. —O sorriso lhe desvaneceu e saiu de seu transe—. Mas não é possível incorporar essas coisas a um quarto de jogar; os meninos querem Play Stations e Xboxes e essa classe de coisas.

—por que não me conta que atividades havia no programa do domingo?

Olhou ao longe.

—Eram coleções de sonhos impossíveis. Mim mãe me prometia que nos tombaríamos no campo de noite e que veríamos um sem-fim de estrelas fugazes que fariam realidade nossos desejos.

Imaginávamos recostadas em grandes banheiras enche a transbordar de flores de cerejeira, tomando duchas de sol, girando ao redor dos aspersores do povo que regavam a grama no verão, jantando à luz da lua na praia e dançando sapateado em surdina descalças pela areia. — Elizabeth riu ao recordá-lo—. São tolices, sobre tudo se as diz em voz em alta, mas ela era assim. Brincalhona e aventureira, amalucada e despreocupada, quando não um pingo excêntrico. Sempre ansiava coisas novas que ver, provar e descobrir.

—Todo isso devia ser muito divertido —pinjente intimidado por sua mãe. Dar uma ducha de sol ganhava de comprimento a qualquer telescópio feito com cilindros de cartão do papel higiênico.

—Não sei, a verdade. —Elizabeth apartou a vista e tragou saliva—. Em realidade nunca fizemos nenhuma dessas coisas.

—Mas arrumado a que as fez um milhão de vezes mentalmente —disse.

—Bom, houve uma coisa que fizemos juntas. Justo depois de ter ao Saoirse levou a campo, estendeu uma manta e dispôs uma cesta de picnic. Comemos pão moreno recém assado com geléia caseira de morango. —Elizabeth fechou os olhos e inspirou—. Ainda lembrança o aroma e o sabor. —Meneou a cabeça maravilhada—. Mas minha mãe tinha eleito tomar o lanche no campo de nossas vacas. Ali estávamos as duas, em metade do campo, lanchando rodeadas de vacas curiosas.

Ambos pomos-se a rir.

—Mas isso foi quando me disse que partia. Era uma pessoa muito grande para este povo tão pequeno. Não é o que me disse então, mas me consta que era o que devia sentir.

A Elizabeth tremeu a voz e deixou de falar. Olhava ao Luke e Sam perseguindo-se pelo jardim, mas não os via, escutava seus infantis chiados de alegria mas não os ouvia. Estava absorta.

—Enfim —sua voz soou séria outra vez e pigarreou—, isso é irrelevante. Não tem nada que ver com o hotel; nem sequer sei por que o tirei colação.

Estava envergonhada. Adivinhei que Elizabeth não tinha contado nunca aquilo em voz alta, nenhuma só vez em sua vida, de modo que deixei que o silêncio se prolongasse enquanto punha em ordem suas idéias.

—Têm uma boa relação você e Fiona? —perguntou resistindo ainda a me olhar aos olhos depois do que me tinha contado.

—Fiona?

—Sim, a mulher com quem não está casado.

Sorriu pela primeira vez e pareceu mais composta.

—Fiona não me fala —respondi sem sair de meu assombro. Ainda não compreendia por que pensava que era o pai do Sam. Teria que falar com o Luke para que me esclarecesse isso. Incomodava-me bastante aquela confusão de identidade.

—Acabaram mal as coisas entre vós dois?

—Nunca começaram, assim não podiam terminar —respondi com sinceridade.

—Conheço essa sensação. —Pôs os olhos em branco e riu—. Mas ao menos saiu algo bom disso. —Apartou a vista e olhou jogar ao Sam e Luke. referiu-se ao Sam, mas tive a impressão de que estava olhando ao Luke e isso me alegrou.

antes de que nos partíssemos de casa do Sam, Elizabeth se voltou para mim.

—Ivan, nunca tinha falado com ninguém do que te acabo de contar —tragou saliva—, jamais. Não sei o que me tem feito soltá-lo.

—Já sei —sorri—, assim obrigado por me falar com o coração. Acredito que isso se merece outra cadeneta de margaridas.

Ofereci-lhe outro bracelete que acabava de fazer.

Engano número dois: quando o pus na boneca senti como se lhe estivesse dando uma parte de meu coração.