Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 43 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 42

 

—Venha já —gritou Elizabeth esmurrando a buzina para apressar aos dois ônibus que se cruzavam lentamente na rua maior de Dance na gCroíthe. Era setembro e os últimos turistas atravessavam o povo. depois deles se acabaria o agitação e o lugar recuperaria seu silêncio habitual, como um salão de banquetes a manhã depois de uma festa, deixando que os vizinhos pusessem um pouco de ordem e recordassem os acontecimentos e as pessoas que tinham acontecido por ali. Os estudantes retornariam a suas universidades nas cidades e condados dos arredores e os aldeãos voltariam a ficar solos para tirar seus assuntos adiante.

Elizabeth apertou a mão contra a buzina como se fazendo-o soar com insistência fosse volatilizar o ônibus que tinha diante. Muito rostos estrangeiros se voltou na parte traseira do ônibus para fulminá-la com o olhar. Ao lado do carro da Elizabeth os paroquianos saíam à rua detrás assistir à missa matutina. Aproveitando o glorioso dia ensolarado formavam grupos na calçada e conversavam ficando à corrente do acontecido durante a semana. Eles também se voltaram a olhar a origem do zangado assobio, mas a Elizabeth deu igual. Hoje se estava saltando todas as regras; estava ansiosa por chegar ao Joe's, já que lhe constava que Joe não poderia por menos de admitir havê-la visto em companhia do Ivan, o qual poria fim a aquela brincadeira tão estranha e cruel.

Muito impaciente para aguardar a que os ônibus terminassem de cruzar-se, apeou-se deixando o carro em metade do tráfico e correu à cafeteria do outro lado da rua.

—Joe! —chamou irrompendo no estabelecimento. Foi incapaz de evitar que sua voz soasse assustada.

—Ah, mas olhe quem está aqui, justo a mulher que estava esperando. —Joe saiu da cozinha—. Queria te ensinar minha nova máquina. É de primeira...

—Agora não —lhe interrompeu Elizabeth sem fôlego—. Não tenho tempo. Só quero que responda a uma pergunta, por favor. Seguro que recorda me haver visto aqui umas quantas vezes com um homem, verdade?

Joe olhou ao teto com ar pensativo, sentindo-se importante.

Elizabeth conteve o fôlego.

—Sim, lembro-me.

Elizabeth suspirou aliviada.

—Graças a Deus, riu com certo histerismo.

—Agora poderá emprestar atenção a meu novo artefato —disse Joe, muito orgulhoso—. É minha flamejante cafeteira nova. Faz espressos e capuchinos de esses e tudo. —Agarrou uma taça de rápido—. Aqui só caberá um chorrito. Isto sim que verdadeiramente pode chamar um «café curto».

Elizabeth se pôs-se a rir. Estava tão contente ante as notícias sobre o Ivan e o café que teria saltado por cima do mostrador para lhe dar um beijo.

—E onde está esse homem? —perguntou Joe tratando de elucidar como preparar um expresso para a Elizabeth.

O sorriso da Elizabeth se desvaneceu.

—Pois não sei.

—Terá voltado para a América? Seguro, não vive em Nova Iorque? A Grande Maçã. Não é assim como a chamam? Vi-a na televisão e o que quer que te diga, não me parece uma maçã nem por indício.

O coração da Elizabeth começou a palpitar mais depressa.

—Não, Joe, Benjamin, não. Você refere ao Benjamin.

—O tipo com quem deveste tomou taças aqui várias vezes —confirmou Joe.

—Não! —A irritação da Elizabeth ia em aumento—. Bom, sim que o fiz. Mas te falo do outro homem que esteve comigo aqui. chama-se Ivan. I-v-a-n —repetiu lentamente.

Joe fez uma careta e negou com a cabeça.

—Não conheço nenhum Ivan.

—claro que sim —disse Elizabeth com convicção.

—vamos ver —Joe se tirou os óculos de ler e deixou o manual de instruções—, conheço quase todo mundo neste povo e não conheço nenhum Ivan nem ouvi falar dele.

—Mas, Joe —suplicou Elizabeth—, por favor, faz memória. —Então se lembrou—. O dia que nos pusemos a derramar café por toda a rua, esse era Ivan.

—Ah. —Agora Joe o entendeu—. Ia com o grupo de alemães, não?

—Não! —gritou Elizabeth contrariada.

—Bom, pois de onde é? —perguntou Joe procurando acalmá-la.

—Não sei —respondeu ela zangada.

—Bom, e qual é seu sobrenome?

Elizabeth tragou saliva.

—Isso... tampouco sei.

—Pois já me dirá como quer que te ajude se não saber seu sobrenome nem de onde é. Algo me diz que você tampouco lhe conhece muito bem, que digamos. Que eu recorde te pôs a dançar dando voltas aí fora como se estivesse louca. Não sei o que lhe mosca te picou aquele dia. Estava desconhecida.

Elizabeth de repente teve uma idéia, agarrou as chaves do carro, que estavam em cima da barra, e saiu disparada para a rua.

—Ouça, não quer seu cafelito? —gritou Joe quando Elizabeth desapareceu dando uma portada.

—Benjamin! —chamou Elizabeth fechando de repente a portinhola do carro e correndo pelo cascalho para ele. Benjamin, junto com um grupo de pedreiros, estava curvado sobre uns documentos estendidos sobre uma mesa. Todos se voltaram a olhá-la.

—Posso falar um momento contigo? —pediu com voz entrecortada enquanto o vento que varria o topo da colina lhe alvoroçava o cabelo ao redor do rosto.

—Claro —disse Benjamin separando do grupo de homens silenciosos e conduzindo-a a uma zona ainda mais tranqüila—. Vai tudo bem?

—Sim —assentiu com escasso aprumo—, só queria te fazer uma pergunta, importa-te?

Benjamin se preparou para escutar o que Elizabeth tinha que lhe dizer.

—Você conheceste a meu amigo Ivan, verdade? —disse Elizabeth fazendo ranger seus nódulos e apoiando-se ora sobre um pé, ora sobre o outro à espera de sua resposta.

Benjamin se ajustou o casco, estudou o semblante da Elizabeth e aguardou a que ela pusesse-se a rir ou lhe dissesse que era brincadeira, mas não viu nenhuma faísca maliciosa em seus escuros olhos cheios de preocupação.

—É uma brincadeira?

Elizabeth negou com a cabeça e se mordeu nervosamente o interior da bochecha com o cenho franzido.

Benjamin pigarreou.

—Elizabeth, em realidade não sei o que quer que diga.

—A verdade —disse ela em seguida—, quero que me diga a verdade. Bom, quero que me diga que lhe viu, mas quero que seja certo, entende? —Tragou saliva.

Benjamin esquadrinhou seu rosto um momento mais e finalmente negou devagar com a cabeça.

—Não? —perguntou Elizabeth em voz baixa.

Benjamin voltou a fazer um gesto negativo.

Os olhos da Elizabeth se encheram de lágrimas e olharam para outra parte.

—Está bem? —Benjamin quis lhe tocar o braço, mas ela se apartou—. Dava por sentado que se tratava de uma brincadeira —disse Benjamin com ternura, um tanto confundido.

—Não lhe viu na reunião com o Vincent?

Ele negou com a cabeça.

—No andaime da semana passada?

Outra negativa.

—Passeando pelo povo comigo? No quarto de jogar o dia em que essa... essa... coisa estava escrita na parede? —perguntou esperançada com a voz carregada de emoção.

—Não, sinto-o —respondo Benjamin com amabilidade procurando dissimular sua confusão tão bem como podia.

Elizabeth voltou a apartar a vista, deu-lhe as costas para ficar de cara à paisagem. De ali acima se alcançava a ver o mar, as montanhas e o cuidado pueblecito encravado no seio das colinas.

Finalmente falou.

—Era tão real, Benjamin.

Benjamin não soube o que dizer e optou por permanecer calado.

—Ocorreu-te sentir uma presença junto a ti? E embora não todo mundo cria nessa pessoa você sabe que está aí?

Benjamin refletiu um instante e assentiu, pormenorizado.

—Meu avô faleceu e estávamos muito unidos. —Chutou o cascalho, um pouco coibido—. Minha família nunca terminou de acreditá-lo, são bastante céticos, mas às vezes eu sabia que ele estava comigo. Conhecia bem ao Ivan?

—Não tão bem como ele a mim.

Elizabeth riu lhe tirando importância. Sorveu pelo nariz e se enxugou as lágrimas.

—Então era uma pessoa real? Há falecido faz muito? —perguntou Benjamin cada vez mais desconcertado.

—Eu acreditava tanto nele... Não sabe quanto me ajudou estes últimos meses. —calou-se de novo e contemplou o panorama—. Eu odiava este povo, Benjamin. —Uma lágrima lhe escorregou pela bochecha—. Odiava cada fibra de erva de cada colina, mas ele me ensinou muitas coisas. Ensinou-me que não era o povo o que tinha a responsabilidade de fazer que eu fora feliz. Não é culpa de Baile na gCroíthe que eu não encaixe aqui. Não importa o lugar onde esteja porque o que conta é onde está sua mente —se deu uns golpecitos na têmpora—. O que conta é o outro mundo que habitamos: o mundo dos sonhos, a esperança, a imaginação e as lembranças. E agora sou feliz aqui acima —voltou a tocá-la têmpora—, por isso também sou feliz aqui. —Estendeu os braços abrangendo a paisagem que os rodeava. Fechou os olhos e deixou que o vento lhe secasse as lágrimas. Seu rosto se adoçou quando se voltou para o Benjamin—. Simplesmente pensei que era importante que precisamente você soubesse.

Sem acrescentar nada mais se encaminhou devagar para o carro.

Apoiado contra a velha torre, Benjamin a seguiu com a vista. Não tinha chegado a conhecer a Elizabeth tão bem como lhe tivesse gostado, mas tinha a impressão de que lhe tinha deixado entrar em sua vida mais que ao resto da gente. E ele tinha feito outro tanto. Tinham conversado o suficiente como para que ele constatasse quão semelhantes eram. Tinha-a visto maturar e trocar e agora seu instável amiga se estabilizou. Fixou o olhar na paisagem que Elizabeth tinha estado vendo durante tanto tempo e pela primeira vez em todo o ano que levava ali abriu os olhos e o viu.

De madrugada, Elizabeth se incorporou na cama, completamente acordada. Jogou uma olhada à habitação, viu a hora, as quatro menos quarto, e quando falou em voz alta para si sua voz soou firme e confiada.

—Podem ir todos ao corno. Eu sim acredito.

desentupiu-se de um puxão e saltou da cama imaginando que Ivan o celebrava rendo a gargalhadas.