Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 18 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 17

 

—OH, Meu deus, OH, Meu deus —chiava Poppy com deleite saltitando caminho do carro da Elizabeth—. Eu gostaria de dar as graças ao Damien Hirst por me inspirar, ao Egon Schiele —se secou uma lágrima imaginária do olho—, Bansky e Robert Rauschenberg por me proporcionar obras de arte tão incríveis que me ajudaram a desenvolver minha mente criativa, abrindo-a delicadamente como um casulo em flor e por...

—Já basta —vaiou Elizabeth apertando os dentes—. Ainda nos estão observando.

—Ora, seguro que não, não seja tão paranóica.

O tonillo do Poppy passou da euforia à frustração. voltou-se de cara ao barraco da obra.

—Não te volte, Poppy! —ordenou Elizabeth como se gritasse a um menino.

—Venha. por que não? Não estão mi... OH, sim que olham. ADIÓÓÓÓS! GRAAAACIAS!

Saudou com as mãos como uma louca.

—Acaso quer perder seu emprego? —ameaçou Elizabeth se negando a dá-la volta. Suas palavras tiveram o mesmo efeito que teriam tido no Luke quando o ameaçava lhe tirando seu Play-Station. Poppy deixou de saltar no ato e ambas seguiram caminhando em silencio para o carro. Elizabeth notava dois pares de olhos cravados nas costas.

—Não posso acreditar que tenhamos conseguido o trabalho —disse Poppy ofegando uma vez dentro do veículo, comprimindo o coração com a mão.

—Eu tampouco —resmungou Elizabeth grampeando o cinto de segurança antes de pôr o carro em marcha.

—O que te passa, resmungona? Qualquer diria que não conseguimos o encargo —a acusou Poppy acomodando-se no assento do co-piloto e inundando-se em seu próprio mundo.

Elizabeth pensou nisso. Em realidade não era ela quem tinha conseguido o encargo, a não ser Poppy. tratava-se da classe de vitória que não parecia no mais mínimo uma vitória. E que diabos pintava Ivan ali? Havia dito a Elizabeth que trabalhava com meninos. O que tinha que ver o hotel com os meninos? Nem sequer se tinha ficado o tempo suficiente como para que Elizabeth o averiguasse, posto que tinha saído da habitação assim que lhes levaram os cafés, sem despedir-se de ninguém além da Elizabeth. Refletiu sobre este detalhe. Possivelmente estivesse metido em negócios com o Vincent e ela tinha aparecido durante uma reunião importante, coisa que explicaria por que Vincent se mostrou tão grosseiro e ensimismado. Enfim, fora o que fosse, precisava informar-se e lhe zangava que Ivan não o tivesse mencionado a véspera. Tinha planos que fazer e a tiravam de gonzo semelhantes transtornos.

Depois de separar-se de uma superexcitada Poppy se encaminhou para o Joe's para tomar um café e refletir.

—Boa tarde, Elizabeth —gritou Joe.

Os outros três clientes se sobressaltaram com seu repentino arrebatamento.

—Um café, Joe, por favor.

—Para variar?

Elizabeth sorriu com a boca fechada. Escolheu uma mesa junto à janela que dava à rua maior. sentou-se de costas à janela. Não tinha ido ali a distrair-se, precisava pensar.

—Desculpe, senhora Egan.

A viril voz americana lhe deu um susto.

—Senhor West —disse Elizabeth surpreendida ao levantar a vista.

—Por favor, me chame Benjamin. —Benjamim sorriu e assinalou a cadeira junto à de —.lhe importa que me sente?

Elizabeth apartou seus papéis para lhe fazer sitio.

—Gosta de tomar algo? —perguntou.

—Um café me viria de pérolas.

Elizabeth agarrou sua tigela e o levantou para o Joe.

—Joe, dois Frappacinos de manga em copo comprido, por favor.

Ao Benjamin lhe acenderam os olhos.

—Está-me tirando o sarro. Acreditava que aqui não serviam é... —viu-se interrompido pelo Joe, que deixou com inapetência duas tigelas de café com leite aguado na mesa. O líquido transbordava pelos lados dos tigelas—. Vá —concluiu decepcionado.

Elizabeth voltou sua atenção ao despeinadísimo Benjamim. Seu abundante cabelo escuro formava uma coroa de cachos ao redor de sua cabeça e tinha uma sombra de barba negra como o azeviche que lhe crescia do início do peludo peito até os maçãs do rosto. Levava uns nos cubra gastos e imundos, uma jaqueta texana igualmente suja, umas botas cobertas de turfa que tinham deixado um rastro da porta até a mesa sob a qual estavam formando um montoncito de barro seco. Uma raia de imundície negra se acumulava debaixo de suas unhas e, quando apoiou as mãos em cima da mesa diante da Elizabeth, esta se sentiu obrigada a desviar o olhar para outro lado.

—Felicito-a pelo de hoje —disse Benjamin parecendo sinceramente contente—. foi uma reunião muito bem-sucedida para você. conseguiu levar o gato à água. Nestes pagamentos dizem sláinte, verdade? —Levantou sua tigela de café.

—Como diz? —perguntou Elizabeth com frieza.

—Sláinte. Não se diz assim?

Parecia preocupado.

—Não —disse Elizabeth contrariada—, quero dizer, sim, mas não referia a isso. —Negou com a cabeça—. Não me levei nenhum gato à água, como diz você, senhor West. Conseguir este contrato não foi nenhum golpe de sorte.

A cútis torrada pelo sol do Benjamin se sonrosó levemente.

—OH, não pretendia dar a entender isso nem muito menos e, por favor, me chame Benjamin. Senhor West soa muito formal. —revolveu-se incômodo em sua cadeira—. Seu ajudante, Poppy... —desviou o olhar tentando encontrar as palavras adequadas— é uma moça com muito talento, tem montões de idéias muito passadas de rosca e Vincent tem uma filosofia bastante parecida com a sua, embora às vezes se deixa levar e nos toca lhe dizer que voe mais baixo. Verá, parte de meu trabalho consiste em me assegurar de que isto se construa a tempo e respeitando o presuposto, daí que me proponha fazer o que normalmente faço, ou seja, demonstrar ao Vincent que não dispomos de suficiente dinheiro para transladar as idéias do Poppy do papel à prática.

O pulso da Elizabeth se acelerou.

—Então quererá um desenhista que não resulte tão caro. Senhor West, veio aqui para me convencer de que renuncie ao projeto? —perguntou Elizabeth com frieza.

—Não. —Benjamin suspirou—. me Chame Benjamin —insistiu—, e não, não estou tentando convencer a de que renuncie ao projeto. —Disse-o de uma maneira que fez que Elizabeth se sentisse parva—. Ouça, só tento lhe dar uma mão. Dou-me perfeita conta de que não está contente com a idéia em geral e, para falar a verdade, tampouco eu acredito que os aldeãos vão ficar muito contentes com ela. —Fez um gesto que abrangeu a toda a clientela da cafeteria e Elizabeth tentou imaginar-se ao Joe indo almoçar um domingo a um «útero de veludo». Não, decididamente não teria êxito, ao menos não naquela localidade.

Benjamin prosseguiu.

—Importam-me muito os projetos nos que trabalho e acredito que este hotel tem um enorme potencial. Não quero que termine parecendo um santuário de Las Vegas consagrado ao Moulin Rouge.

Elizabeth tinha iniciado o gesto de levantar-se de seu assento.

—Bom —disse Benjamin muito seguro de si mesmo—, vim aqui a vê-la porque eu gosto de suas idéias. São sofisticadas ao mesmo tempo que confortáveis, são modernas mas não muito modernas, e a ambientação que propõe atrairá a um amplo leque de gente. A idéia do Poppy e Vincent resulta muito temática e distanciará a três quartas partes do país imediatamente. Não obstante, você possivelmente poderia lhes induzir a pôr um pouco mais de cor local. Coincido com o Vincent em que o conceito que você defende precisa parecer-se menos a um albergue rural e mais a um hotel. Não queremos que a gente cria que tem que seguir a tradição consistente em caminhar descalça até os Macgillycuddy's Reeks para arrojar um anel justo no meio.

Sentindo-se ofendida, Elizabeth ficou boquiaberta.

—Acredita que você poderia trabalhar cotovelo com cotovelo com o Poppy? —perguntou Benjamim fazendo caso omisso de sua reação—. Já sabe, atenuando suas idéias... grandemente?

Elizabeth se tinha preparado uma vez mais para repelir um ataque furtivo, mas resultou que Benjamim estava ali para ajudá-la. Pigarreou para esclarecer uma garganta que não precisava ser esclarecida e se estirou a aba da jaqueta do traje sentindo-se torpe. Uma vez composta disse:

—Bom, alegra-me que ambos estejamos no mesmo bando, mas mesmo assim...

Indicou ao Joe com gestos que lhe servisse outro café e pensou na fusão de suas cores naturais com os tons gritões do Poppy.

Benjamim rechaçou energicamente com a cabeça o oferecimento que lhe fez Joe de outro café. O primeiro tigela seguia intacto diante dele.

—Bebe muito café —comentou quando Joe pôs o terceiro tigela na mesa diante da Elizabeth.

—Ajuda-me a pensar —respondeu Elizabeth tomando um grande sorvo.

Houve um momento de silêncio.

Elizabeth saiu de seu transe.

—Muito bem, tenho uma idéia.

—Caramba, isso sim que é um efeito rápido —sorriu Benjamim.

—Como? —Elizabeth franziu o cenho.

—Hei dito que...

—Vale —interrompeu Elizabeth sem sequer lhe ouvir, arrastada por suas idéias—. Digamos que o senhor Taylor tem razão, que a lenda segue viva e que a gente vê este sítio como um ninho de amor e tal e qual. —Fez uma careta, obviamente nada impressionada por semelhante crença—. Nos encontramos com um mercado que terá que satisfazer, que é onde as idéias do Poppy darão resultado, mas as manteremos a um nível mínimo. Possivelmente uma suíte de lua de mel e um rincão íntimo aqui e ali; o resto poderiam ser meus desenhos —acrescentou, contente—. Com um pouco mais de cor —acrescentou com menos entusiasmo.

Benjamin sorriu.

—Eu me encarrego do Vincent. Por certo, quando antes hei dito que você se levou o gato à água na reunião não quis dizer que carecesse de talento para respaldar suas idéias. Referia-me ao truque de fazê-la louca. —tocou-se a têmpora com um dedo manchado e o fez girar.

O bom humor da Elizabeth se esfumou.

—Como diz?

—Já sabe —Benjamin sorriu de brinca a orelha—, o papel de «vejo os mortos».

Elizabeth lhe olhou de marco em marco sem compreender nada.

—Caray, o tio sentado à mesa. Esse com o que falava. Soa-lhe o que lhe estou dizendo?

—Ivan? —perguntou Elizabeth insegura.

—Assim se chama! —Benjamin estalou os dedos e se recostou no respaldo de sua cadeira rendo—. Isso é, Ivan, o sócio silencioso.

As sobrancelhas da Elizabeth subiram até quase sair-se o da frente.

—Sócio?

Benjamin riu ainda com mais ganha.

—Sim, exato, mas não lhe diga que o hei dito, por favor. Resultaria-me muito violento que se inteirasse.

—Não se preocupe —disse Elizabeth com secura, perplexa ante aquela informação—. Tenho que lhe ver mais tarde, mas não lhe direi uma palavra.

—Ele tampouco —repôs Benjamin com outra gargalhada.

—Bom, isso está ainda por ver —respondeu Elizabeth, zangada—. Embora ontem à noite estive com ele e tampouco soltou objeto.

Benjamin se mostrou indignado com ela.

—Parece-me que essas coisas não estão permitidas no Taylor Constructions. vêem-se com muito maus olhos as entrevistas entre colegas. Quem sabe, poderia ser que Ivan fosse o motivo pelo que conseguiu o contrato. —esfregou-se os olhos com ar de cansaço e sua risada remeteu—. Pensando-o bem, não é surpreendente o que chegamos a fazer para conseguir um trabalho hoje em dia?

Elizabeth ficou boquiaberta.

—Embora demonstre o muito que lhe gosta de seu trabalho, ser capaz de fazer uma coisa como essa. —Olhou-a com admiração—. Acredito que eu não seria capaz. —Voltou a rir pelo baixo e seus ombros se estremeceram.

Elizabeth abriu ainda mais a boca. Estava acusando a de meter-se na cama com o Ivan para conseguir o trabalho? ficou sem fala.

—Enfim —disse Benjamin levantando-se—, foi estupendo conhecê-la. Alegra-me que hajamos resolvido isso do Moulin Rouge. O transmitirei ao Vincent e a chamarei assim que saiba mais coisas. Tem meu número? —perguntou apalpando-os bolsos. Abriu um bolso dianteiro do peitilho da jaqueta e tirou uma caneta que gotejava e lhe tinha deixado uma mancha de tinta. Agarrou um guardanapo de papel do dispensador e riscou seu nome e seu número sem o menor cuidado.

—Este é meu número móvel e este o do escritório. —Passou- a nota a Elizabeth junto com sua caneta lhe gotejem e outro guardanapo rota e molhada de café derramado—. Lhe importa me dar o seu? Assim me economizarei ter que buscá-lo nos arquivos.

Elizabeth ainda estava zangada e ofendida, mas alcançou sua bolsa, tirou um tarjetero de pele e lhe entregou um de seus cartões de visita com cós dourados. absteria-se de lhe dar uma bofetada por aquela vez; necessitava o trabalho. Pelo bem do Luke e do negócio, morderia-se a língua.

Benjamin se ruborizou levemente.

—Muito bem, obrigado —recuperou a parte de guardanapo e sua caneta lhe gotejem e agarrou o cartão—. muito melhor assim, figuro-me.

Tendeu-lhe a mão.

Elizabeth jogou uma olhada a sua mão manchada de tinta azul e com as unhas sujas e ato seguido se sentou em cima de suas próprias mãos.

Uma vez que Benjamin se partiu, Elizabeth olhou turvada a seu redor perguntando-se se alguém mais tinha presenciado a cena. Joe lhe fez uma piscada e se tocou o nariz como se compartilhassem um segredo. Depois do trabalho ela tinha previsto ir procurar ao Luke a casa do Sam, e embora sabia que Ivan e a mãe do Sam já não estavam juntos esperou com toda sua alma coincidir com ele ali.

Para dizer-lhe umas boas, naturalmente.