Se me pudesses ver agora
Capítulo 23
As bocas do Ivan e Elizabeth demoraram um momento em separar-se e quando por fim o fizeram, Elizabeth, com um comichão nos lábios, percorreu dando saltos o caminho até o escritório. Tinha a impressão de que se levantava mais os pés do estou acostumado a começaria a flutuar. Cantarolando enquanto tentava dominar seu não-vôo chocou de pleno contra a senhora Bracken que, de pé em seu portal, estudava aos turistas do outro lado da rua.
—Jesus! —Elizabeth deu um salto para trás, assustada.
—É o filho de Deus, que entregou sua vida e morreu na cruz para difundir a palavra do Senhor e nos dar uma vida melhor, assim não tome seu nome em vão —soltou de um puxão a senhora Bracken. Assinalou com o queixo em direção à cafeteria—. Que diabo estão fazendo esses estrangeiros?
Elizabeth se mordeu o lábio e se agüentou a risada.
—Não tenho nem idéia. por que não se une a eles?
—Ao senhor Bracken não lhe teria gostado de nada toda esta animação. —Deveu perceber algo na voz da Elizabeth, porque levantou a cabeça de repente, entrecerró os olhos e a olhou de marco em marco—. Te vejo distinta.
Elizabeth fez caso omisso dela e pôs-se a rir ao ver o Joe esfregando com ar culpado o café derramado na calçada.
—passaste muito tempo na torre de lá encima? —perguntou a senhora Bracken em tom acusatório.
—Pois claro, senhora Bracken. Estou desenhando o hotel, recorda? Por certo, encarreguei o tecido; deveria nos chegar dentro de três semanas, com o qual ficam dois meses para o ter tudo preparado. Acredita que poderá contratar pessoal de reforço?
A senhora Bracken entrecerró os olhos com receio.
—Soltaste-te o cabelo.
—E? —perguntou Elizabeth entrando em oficina de tapeçaria para ver se tinha chegado seu pedido.
—E o senhor Bracken estava acostumado a dizer: «cuidado com as mulheres que trocam drasticamente de penteado».
—Eu não diria que soltar o cabelo seja uma mudança muito drástica.
—Elizabeth Egan, em seu caso particular, sustento que soltá-la juba é uma mudança drástica. Por certo —adicionou a artigo seguido sem dar pé a que Elizabeth replicasse—, temos um problema com o pedido que chegou hoje.
—O que acontece?
—É muito colorido. —Pronunciou a palavra como se fosse uma enfermidade e, abrindo muito os olhos, pô-lo ainda mais de relevo—: Vermelho.
Elizabeth sorriu.
—É framboesa, não é vermelho, e o que tem de mau um pouco de cor?
—Que o que tem de mau um pouco de cor, diz. —A senhora Bracken subiu a voz uma oitava—. Até a semana passada seu mundo era marrom. É essa torre o que te está afetando. O tipo americano, verdade?
—OH, não me você venha também com o conto da torre. —Elizabeth pôs cara de chateio—. estive ali acima toda a semana e não é mais que uma muralha que se está vindo abaixo.
—Uma muralha que se vem abaixo, certamente —disse a senhora Bracken sem lhe tirar o olho de cima—, e é o tipo americano quem a está derrubando.
Elizabeth pôs os olhos em branco.
—Adeus, senhora Bracken.
Subiu à carreira a escada do escritório.
Na entrada a recebeu um par de pernas que saíam de debaixo do escritório do Poppy. Eram pernas de homem: calças de veludo cotelê marrom com sapatos marrons que se agitavam e retorciam.
—É você, Elizabeth? —gritou uma voz.
—Sim, Harry. —Elizabeth sorriu. Coisa curiosa, estava encontrando extrañamente adoráveis às duas pessoas que acostumavam tirar a de gonzo diariamente. Certamente Ivan estava superando muito gracioso a prova do sorriso tolo.
—Estava-lhe apertando os parafusos a esta cadeira. Poppy me contou que lhes montou um bom numerito a semana passada.
—Assim foi, Harry, obrigado.
—De nada.
As pernas do homem se deslizaram sob o escritório e desapareceram enquanto ficava trabalhosamente a gatas. depois de dar um cabeçada contra o tabuleiro do escritório, apareceu por fim a cabeça mostrando uma calva que tentava dissimular penteando os escassos cabelos de um lado a outro do crânio.
—Ah, aí está você —disse Harry levantando-se, chave inglesa em mão—. Agora o assento não teria que girar por sua conta. Que estranho que fizesse isso. —Efetuou uma última comprovação e logo olhou a Elizabeth com a mesma expressão que tinha adotado para examinar a cadeira—. A vejo distinta.
—Pois sou a mesma de sempre —respondeu Elizabeth dirigindo-se a seu escritório.
—É o cabelo. O soltou. Eu sempre hei dito que às mulheres fica melhor a juba Y...
—Obrigado, Harry. Já terminou? —perguntou Elizabeth com firmeza, pondo fim à conversação.
—Sim, sim, claro.
Harry se ruborizou, e depois de despedir-se dela com a mão se foi escada abaixo, sem dúvida para fofocar com a senhora Bracken sobre a juba solta da Elizabeth.
Elizabeth se sentou a seu escritório e tentou concentrar-se no trabalho, mas impensadamente se passou as gemas dos dedos pelos lábios, revivendo o beijo que acabava de lhe dar Ivan.
—Vale —disse Poppy entrando sem chamar o despacho da Elizabeth para deixar um cofre em cima do escritório—. Vê isto daqui?
Elizabeth assentiu olhando ao cerdito. Becca estava na porta do fundo.
—Bom, pois me ocorreu um plano. —Poppy fez chiar os dentes—. Cada vez que ponha a cantarolar essa maldita tua canção, terá que pôr dinheiro no porco.
Elizabeth arqueou as sobrancelhas com expressão divertida.
—Poppy, fez você este cerdito? —perguntou sem tirar olho ao porco de papel maché que tinha no escritório.
Poppy tentou dissimular seu sorriso.
—a de ontem à noite foi uma noite muito tranqüila. Mas, sério, já está começando a ser algo mais que irritante, Elizabeth, tem que me acreditar —suplicou Poppy—. Até a Becca está até o cocuruto.
—É isso certo, Becca?
Becca se ruborizou e se bateu em retirada; não queria ver-se envolta naquela conversação.
—Miúdo respaldo —resmungou Poppy.
—E quem ficará com o dinheiro? —perguntou Elizabeth.
—O porco. Está arrecadando recursos para uma pocilga nova. Cantarola uma canção e apóia a um porco —disse aproximando o cofre à cara da Elizabeth.
Elizabeth se agüentou a risada.
—Fora.
Momentos depois, uma vez que todas reataram suas tarefas, Becca entrou resolutamente ao despacho, pôs o porco em cima da mesa e abrindo muito os olhos exclamou:
—Pagamento!
—Estava cantarolando outra vez?—perguntou Elizabeth, surpreendida.
—Sim —respondeu Becca entre dentes, crispada, antes de dá-la volta.
Entrada a manhã Becca fez passar a uma visita ao despacho da Elizabeth.
—Olá, senhora Collins —saudou Elizabeth com cortesia ao tempo que a apreensão lhe encolhia o estômago. A senhora Collins regentaba a pensão em que se alojava Saoirse desde fazia umas semanas—. Sinta-se, por favor.
Indicou a cadeira que tinha diante.
—Obrigado. —A senhora Collins tomou assento—. E me chame Margaret.
Jogou uma olhada à habitação como um menino assustado a quem tivessem chamado ao despacho do diretor do colégio. Mantinha as mãos entrelaçadas no regaço como se temesse tocar algum objeto. Levava a blusa abotoada até o queixo.
—vim a lhe falar do Saoirse. Sinto não ter tido ocasião de lhe comunicar nenhuma das notas e mensagens telefônicas que você lhe mandou durante estes últimos dias —disse Margaret com evidente embaraço, toqueteando a prega de sua blusa—. Leva três dias sem passar-se pela pensão.
—Vá —disse Elizabeth incômoda—. Obrigado por me informar, Margaret, mas não há de que preocupar-se. Seguro que não demorará para me chamar.
Estava farta de ser a última em inteirar-se de tudo, de ser informada sobre as atividades de sua família por perfeitos desconhecidos. Apesar da atenção que tinha emprestado ao Ivan, Elizabeth tinha procurado ter ao Saoirse vigiada na medida do possível. Faltavam poucas semanas para a vista, mas Elizabeth não tinha conseguido dar com ela em nenhuma parte, sendo «nenhuma parte» o pub, a casa de seu pai e a pensão.
—Bom, em realidade não se trata disso. É só que, bom, nesta época temos muito trabalho. Há um montão de turistas que passam por aqui procurando alojamento e necessitamos a habitação do Saoirse.
—Já. —apoiou-se contra o respaldo como movimento por uma mola, sentindo-se estúpida. Claro! —. Isso é perfeitamente compreensível —disse Elizabeth com estupidez—. Passarei depois do trabalho a recolher suas coisas, se lhe parecer.
—Não será necessário. —Margaret sorriu com doçura e de repente gritou—: Meninos!
Ato seguido entraram os dois filhos adolescentes da Margaret, cada um com uma mala.
—Tomei-me a liberdade de reunir todas seus pertences —prosseguiu Margaret com seu falso sorriso estampado no rosto—. Agora só me falta cobrar três dias de alojamento e o assunto estará resolvido.
Elizabeth ficou geada.
—Margaret, sem dúvida compreenderá que as dívidas do Saoirse não são de minha incumbência. Que seja sua irmã não significa que deva as saldar eu. Não demorará para retornar, estou convencida.
—Já sei, Elizabeth. —Margaret voltou a sorrir revelando uma pequena mancha de pintalabios de cor rosa em um dente dianteiro—. Mas havida conta de que a minha é hoje por hoje a única pensão que aceitaria ao Saoirse como hóspede, estou segura de que você...
—Quanto? —espetou-lhe Elizabeth.
—Quinze por noite —disse Margaret com doçura.
Elizabeth rebuscou em sua carteira. Suspirou.
—Olhe, Margaret, agora não disponho de efec...
—Um cheque vai bem —repôs alegremente.
Depois de entregar o cheque a Margaret, pela primeira vez nos últimos dias Elizabeth deixou de pensar no Ivan e começou a preocupar-se com o Saoirse. Igual a nos velhos tempos.
Às dez da noite, no centro de Nova Iorque, Elizabeth e Mark olhavam através dos imensos ventanales negros do bar do piso cento e quatorze que Elizabeth acabava de desenhar. Aquela noite se inaugurava o Clube Zoológico, um piso inteiro dedicado aos estampados de animais, os sofás de pele e as almofadas com um pouco de verde e bambu colocados em sítios estratégicos. A decoração era um compêndio de tudo o que mais detestava Elizabeth em um desenho, mas lhe tinham feito um encargo muito concreto e se rodeou às instruções. O êxito era formidável, todo mundo desfrutava da velada, e a atuação em vivo de uns percussionistas tocando ritmos selvagens e o constante rumor de animadas conversações arredondavam o ambiente festivo. Elizabeth e Mark entrechocaron suas taças de champanha e contemplaram o mar de arranha-céu, as luzes que dedilhavam os edifícios ao azar e a maré de táxis amarelos circulando a seus pés.
—Por outro de seus êxitos —brindou Mark e bebeu um sorvo da taça cheia de borbulhas.
Elizabeth sorriu, cheia de orgulho.
—Agora sim que estamos longe de casa, verdade? —refletiu com a vista perdida no panorama e vendo o reflexo da festa que tinha lugar detrás dela. Distinguiu ao proprietário, Henry Hakala, que se abria passo entre a concorrência.
—Elizabeth, por fim te encontro. —Estendeu os braços a modo de bem-vinda—. O que faz a estrela da noite neste rincão, afastada de todo o mundo? —perguntou.
Elizabeth fez as apresentações de rigor.
—Henry, apresento ao Mark Leeson, meu noivo; Mark, ele é Henry Hakala, proprietário do Clube Zoológico.
—Então você é a pessoa que esteve retendo a minha noiva até as tantas cada noite —brincou Mark estreitando a mão do Henry.
Henry riu.
—Salvou-me a vida. Três semanas para fazer tudo isto? —Com um gesto abrangeu a vibrante decoração da sala com estampados de zebra nas paredes, peles de urso cobrindo os sofás, tapetes de falso leopardo através do estou acostumado a assoalhado, novelo enormes em suportes de vasos cromados e bambus delimitando a zona da barra—. Era um prazo de entrega muito ajustado mas sabia que Elizabeth o conseguiria. O que não imaginava é que o fizesse tão bem. —Parecia agradecido—. Enfim, os discursos estão a ponto de começar. Só quero dizer umas palavras, mencionar os nomes de uns quantos investidores —murmurou entre dentes—, e dar as graças a toda a fantástica equipe que trabalhou tão duro. Assim não te parta, Elizabeth, porque te vou pôr no ponto de olhe de todos os pressente dentro de um momento.
—OH —Elizabeth ficou tinta—, por favor, não.
—me acredite, choverão-lhe as ofertas a centenas depois de que o faça —disse antes de dirigir-se para o microfone decorado com uma espécie de parra.
—Desculpe, senhora Egan. —Um membro do pessoal se aproximou dela—. Tem uma chamada no mostrador da entrada.
Elizabeth franziu o cenho.
—Eu? Uma chamada? Está seguro?
—Você é a senhora Egan, verdade?
Elizabeth assentiu confundida. Quem a estaria chamando ali?
—É uma moça, diz que é sua irmã —explicou o empregado em voz baixa.
—OH. —O pulso lhe acelerou muito—. Saoirse? —perguntou pasmada.
—Sim, isso é —disse o moço mostrando-se aliviado—. Não estava seguro de recordá-lo bem.
Nesse instante sentiu que a música soava mais alto, o ritmo dos tambores o martilleaba a cabeça, estampado-los de peles se juntavam e se faziam imprecisos. Saoirse não a chamava nunca; tinha que estar ocorrendo algo grave.
—Deixa-o correr, Elizabeth —insistiu Mark em um tom bastante convincente—. Diga à mulher do telefone que a senhora Egan está ocupada neste momento —disse Mark ao Esta barman é sua noite, desfruta-a —acrescentou em voz baixa a Elizabeth.
—Não, não, não lhe diga nada —gaguejou Elizabeth. Deviam ser as três da madrugada na Irlanda. por que telefonava tão tarde Saoirse?—. Atenderei a chamada, obrigado —lhe disse ao moço.
—Elizabeth, o discurso está a ponto de começar —advertiu Mark enquanto se ia fazendo o silêncio na sala e os convidados se congregavam diante do microfone—. Não pode perder lhe adicionou isso entre Este dentes é seu momento de glória.
—Não, não, não posso —replicou Elizabeth com voz tremente e se afastou enfiando em direção ao telefone.
—Diga? —disse instantes depois com uma voz que punha em evidência sua preocupação.
—Elizabeth? —soluçou a voz do Saoirse.
—Sou eu, Saoirse. Ocorre algo mau? —perguntou notando que o coração lhe pulsava alocadamente.
No clube reinava o silêncio enquanto Henry debulhava seu discurso.
—Só queria que... —Saoirse ficou pasmada sem saber o que dizer e se calou.
—Queria que o que? Vai tudo bem? —perguntou Elizabeth com urgência.
A voz do Henry troava.
—...E por último mas não por isso menos importante quero dar as graças à maravilhosa Elizabeth Egan do Morgan Designs por desenhar tão maravilhosamente este lugar em tão pouco tempo. criou algo completamente distinto do que há aí fora agora mesmo, convertendo o Clube Zoológico no mais freqüentado, moderno e novidadeiro da noite nova-iorquina, garantindo que a cauda de gente desejosa de entrar dê a volta à maçã. Está em um rincão dali ao fundo. Elizabeth, nos saúde com a mão, deixa que todo mundo saiba quem é para que lhe possam arrebatar isso.
Pressente-os se voltaram em silêncio procurando à desenhista com o olhar.
—Vá —ressonou a voz do Henry—, bom, estava ali faz um segundo. Possivelmente algum despachado já a tenha levado para lhe fazer um encargo.
Todos riram.
Elizabeth olhou para a sala e viu o Mark que, com duas taças de champanha nas mãos, encolhia-se de ombros em resposta a quantos se voltavam para ele e ria. Fingia rir.
—Saoirse. —A Elizabeth lhe quebrou a voz—. Por favor, me diga se passar algo mau. tornaste a te colocar em confusões?
Silêncio. Em vez do fio de voz lhe solucem que Elizabeth tinha ouvido antes, a voz do Saoirse soou com força.
—Não —espetou—. Não, estou bem. Tudo vai bem. Que o passe bem na festa.
E pendurou.
Elizabeth suspirou e pendurou o telefone lentamente.
Dentro o discurso tinha terminado e os tambores voltavam a encher a estadia; e as conversações assim como as bebidas continuaram fluindo.
Nem ela nem Mark estavam de humor para festas.
Elizabeth via uma figura gigantesca erguida na distância enquanto conduzia pelo caminho que levava a granja de seu pai. Tinha saído cedo do trabalho e andava procurando o Saoirse. Fazia vários dias que ninguém a tinha visto, nem sequer o dono do pub do povo, o qual era toda uma novidade.
Sempre tinha resultado complicado indicar às pessoas o modo de chegar até a granja, já que ficava muito isolada do resto da localidade. O caminho nem sequer tinha nome, coisa que a Elizabeth parecia apropriada; era um caminho que todos esqueciam. Os carteiros e os repartidores de leite novatos sempre demoravam uns quantos dias em encontrar a direção, os políticos nunca faziam campanha diante da casa, os meninos nunca batiam na porta a noite do Halloween, véspera de Todos os Santos. Quando era menina Elizabeth tinha tentado convencer-se de que sua mãe simplesmente se perdeu e não conseguia encontrar o caminho da casa.
Recordava lhe haver contado essa teoria a seu pai, o qual logo que esboçou um sorriso e respondeu:
—Sabe o que, Elizabeth? Não está muito equivocada.
Aquela foi a única explicação que recebeu, se é que cabia considerá-la como tal. Nunca comentavam o desaparecimento de sua mãe. Os vizinhos e os parentes que foram visitá-los baixavam a voz quando Elizabeth estava perto. Ninguém lhe contava o que tinha ocorrido e ela se guardava de perguntar. Não queria que aquele incômodo silêncio se abatesse sobre eles nem que seu pai saísse feito uma fúria da casa quando se mencionava o nome de sua mãe. Se não mencionar a sua mãe garantia que todos fossem felizes, Elizabeth estava mais que disposta a agradá-los, como de costume.
De todos os modos não acreditava que realmente queria sabê-lo. O mistério de não saber resultava mais prazenteiro. Permitia-lhe criar cenas em sua mente, pintar a sua mãe em mundos exóticos e emocionantes e dormir imaginando-a em uma ilha deserta, comendo bananas e cocos e enviando a Elizabeth mensagens em garrafas. Cada manhã inspecionava a costa com os binoculares de seu pai em busca de uma garrafa flutuante.
Outra teoria era que se converteu em uma estrela de Hollywood. Elizabeth se sentava com o nariz pego à tela do televisor durante a função de tarde do domingo aguardando a grande estréia de sua mãe. Mas acabou cansando-se de procurar, esperar, imaginar e não perguntar, e com o tempo até chegou a perder o interesse.
A figura não se movia da janela do velho dormitório da Elizabeth. Habitualmente seu pai a esperava no jardim. Fazia anos que Elizabeth não pisava no interior da casa. Aguardou fora por espaço de uns minutos e detrás constatar que nem seu pai nem Saoirse davam sinais de vida desembarcou do carro, empurrou devagar a grade cujo chiado de dobradiças lhe pôs a pele de galinha e avançou cambaleando-se sobre as lajes irregulares do atalho de entrada por culpa dos saltos altos. A erva aparecia às gretas para estudar ao estranho que entrava sem autorização em seu território.
Elizabeth chamou duas vezes à porta verde e descascada e ato seguido apartou o punho, agarrando-se o com a outra mão como se se queimou. Embora não respondeu ninguém sabia que havia alguém no dormitório da direita. Dentro reinavam a quietude, e o conhecido aroma de umidade do que antigamente considerava seu lar a alcançou fazendo-a parar em seco uns instantes. Uma vez se teve adaptado às emoções que o olfato tinha despertado em seu foro interno, decidiu-se a entrar.
Pigarreou.
—Olá?
Não obteve resposta.
—Olá? —repetiu com mais força. Sua voz de adulta soava mal no lar de sua infância.
Começou por dirigir-se à cozinha confiando em que seu pai a ouvisse e saísse a seu encontro. Quão último desejava era voltar a ver seu antigo dormitório. Os saltos altos ressonavam no chão de pedra, outro ruído característico da casa. Conteve o fôlego ao entrar na cozinha comilão. Tudo e nada seguia igual. Os aromas, o relógio no suporte da chaminé, a toalha de encaixe, a esteira, a poltrona junta ao fogo, a bule vermelha em cima da cozinha Aga, as cortinas. Tudo seguia tendo seu sítio, tinha envelhecido e acusava o passado do tempo, mas ainda era parte da casa. Era como se ninguém tivesse vivido ali desde que Elizabeth partisse. E talvez ninguém o tinha feito de verdade, ficou um momento plantada em meio da habitação passando revista aos adornos, estendendo o braço para tocá-los, mas fazendo-o só com as pontas dos dedos. Tudo seguia igual. sentiu-se como se estivesse em um museu; até o som dos prantos, as risadas, as disputas e o amor tinham sido conservados e flutuavam no ar como a fumaça de um cigarro.
Finalmente não agüentou mais; precisava falar com seu pai, averiguar onde estava Saoirse, e para isso teria que ir a seu dormitório. Girou lentamente o pomo de latão que ainda pendurava solto da
porta como em sua infância. Abriu a porta empurrando-a, não entrou nem olhou em redor. Só olhou diretamente a seu pai, sentado em uma poltrona diante da janela, imóvel.